Problemas no Pensamento Pseudocientífico
O texto a seguir foi traduzido (com adaptações) do livro “Why people believe in weird things” do Michael Shermer.
Durante minhas postagens aqui no SRUSP, percebi o quão carente a população é em relação à visão daquilo que denominados de “racionalismo” e “ciencia”. O mais interessante é ver quão passional são os comentários contra aquilo que escrevemos. Uns atacam a pessoa que fez o artigo (tentando desqualificá-la), outras atacam somente aquele argumento que interessa a ela (ou o único que consegue debater), ignorando o resto. Outras vão mais além e tentam, de qualquer maneira, convencê-lo de que está errado, enviando mensagens sem qualquer evidencia e sem realizar qualquer pensamento crítico sobre aquilo que ela mesma escreveu. Às vezes é engraçado.
O brasileiro aparentemente acredita naquilo que mais lhe é conveniente e divulgado, ignorando um raciocínio lógico sobre as provas do caso. Uma discussão filosófica e de boatos se torna mais importante que provas cabais que anulam e eliminam certas filosofias e boatos infundados. Espero que o transcrito abaixo sirva para dar uma iluminada, e assim melhores discussões em nossos comentários.
Anedotas não fazem ciencia
Anedotas – histórias contadas para apoiar uma causa – não faz algo virar ciência. Sem evidências que possam apoiar uma causa a partir de outras fontes, ou provas físicas de algum tipo, dez anedotas não são melhores que uma, e centenas de anedotas não são melhores que dez. Anedotas são ditas por contadores de histórias falsas. O fazendeiro Camargo, de Ribeirão Preto, São Paulo, pode ser uma pessoa honesta, crente, um homem de família que não está sujeito a desilusões. Porém precisamos de evidências físicas da nave alienígena ou dos corpos alienígenas, não somente uma história sobre pousos e abduções às 3 da manhã no meio da plantação de cana-de-açúcar. Histórias sobre como o câncer da sua tia Maristela foi curado assistindo um tal bispo na televisão, tomando um homeopático ou por meio de uma cirurgia espiritual não fazem qualquer sentido. O câncer pode ter entrado em remissão por si próprio, o que acontece com alguns cânceres; ou ela pode ter tido um diagnóstico incompleto; ou, ou, ou… O que precisamos são experimentos controlados, não anedotas. Precisamos de 100 indivíduos com câncer, todos diagnosticados e classificados corretamente. Então precisaremos que 25 desses indivíduos assistam o tal bispo, 25 que assistam Zé do Caixão, 25 que assistam noticiários e 25 indivíduos que não assistam nada. Então precisaremos deduzir a taxa média de remissão para esse tipo de câncer, para então analisar os dados para as diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Se houver diferenças significativas, precisamos de confirmação a partir de outros cientistas que fizeram seus próprios experimentos separados do nosso antes que façamos uma conferência para anunciar a cura do câncer.
A linguagem científica não faz ciência
Acatar um sistema de crenças para colocá-lo do meio da ciência utilizando-se da linguagem científica e de jargões, como em “ciencia da criação”, “ciencia energética” ou “ciencia espírita”, não significa nada sem evidências, testes experimentais e corroborações. Como a ciência possui um grande poder místico em nossa sociedade, aqueles que desejam ganhar respeito, mas não possuem evidência, tentam criar um beco-sem-saída em volta das evidências que faltam, tentando fazê-las soar como algo “científico”. Um clássico exemplo sobre a homeopatia : “A diluição e a sucussão cria nano-estruturas polimórficas análogas a hidratos de clatrato, caixas cristalinas que se assemelham a gelo, onde uma pequena molécula gasosa da tintura original é aprisionada para formar o que agora se denomina Nanobolha” (1). Você pode repetir? Não tenho idéia do que isso significa, mas possui componentes de linguagem científica: “nano-estruturas polimórficas análogas”, “hidratos de clatratos” e “nanobolha”. Essas frases não significam nada, pois não possuem definições precisas e operacionais. Como você mede a quantidade de moléculas gasosas dentro desses clatratos? Qual a meia-vida de um clatrato (com e sem a molécula gasosa)? Como o clatrato se dissocia para liberar o composto? Etc, etc, etc
Argumentos arrojados não tornam uma afirmação verdadeira
Algo é provavelmente pseudocientífico se afirmações extraordinárias são feitas sobre seu poder e sua veracidade, mas se procurarmos as evidencias de suporte, são tão escarças quanto os dentes em uma galinha. L. Ron Hubbard, por exemplo, inicia seu Dianetics: The Modern Science of Mental Health, com o argumento: “A criação da Dianética é um marco para a humanidade comparável à descoberta do fogo, e superior à invenção da roda e do arco” (em Gardner, 1952, p. 263). O guru da energia sexual Wilhelm Reich chamava sua teoria da Orgonomia de “uma revolução na biologia e na psicologia comparável à Revolução Copernicana” (em Gardner, 1952, p. 259). Eu tenho uma pequena pilha de papéis e cartas provindas de autores obscuros com tais menções sensacionalistas (e as denomino de arquivos da “Teorias do Tudo”). Os cientistas algumas vezes cometem esse erro também, como vimos às 13 horas do dia 23 de março de 1989, quando Stanley Pons e Martin Fleischmann conduziram uma conferência para anunciar ao mundo que conseguiram produzir a fusão nuclear a frio. O excelente trabalho de Gary Taubes sobre o debate da fusão a frio, apropriadamente denominado de Bad Science (Má Ciencia) (1993), examinou profundamente as implicações desse incidente. Talvez 50 anos de estudos sobre a física nuclear podem ser consideradas como erradas por meio de um único experimento, mas não são descartadas até que o experimento tenha sido replicado. A moral da história é que quanto mais extraordinária é a afirmação, mais extraordinariamente terá de ser testada a evidência.
Heresia não é igual a coisa errada
Eles riram de Copérnico. Eles riram de Santos Dummont. Dar risada não significa que você está certo. Wilhelm Reich se comparou a Peer Gynt, o inconvencional gênio descompassado com a sociedade, o qual foi mal entendido e ridicularizado como herege até que provou estar certo: “O que quer que você tenha feito para mim ou fará para mim no futuro, se você me glorifica como um gênio ou me interna numa instituição psiquiátrica, se você me adora como seu salvador ou se me enforca como um espião, mais cedo ou mais tarde a necessidade irá forçá-lo a compreender que eu descobri as leis da convivência” (em Gardner, 1952, p. 259). Reimpresso na edição de janeiro/fevereiro de 1996 do the Journal of Historical Review, o cânone da negação do holocausto, há uma famosa citação do filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer, o qual é citado muitas vezes por aqueles que ainda tem dúvidas: “Toda verdade passa por três estágios. A primeira, é ridicularizada. Segunda, ela é violentamente evitada. Terceira, é aceita como auto-evidência.” Porém “toda verdade” não passa por esses estágios. Muitas idéias verdadeiras são aceitas sem ridicularizações ou oposições, violência ou qualquer outra coisa. A teoria de Einstein sobre a relatividade foi amplamente ignorada até 1919 quando evidências experimentais provaram estar certa. A citação de Schopenhauer é somente uma racionalização, um modo elegante daqueles que ridicularizam ou se opõem violentamente o suficiente para dizer: “Viu, eu estou certo.” Nem tanto.
A história está repleta de fábulas de cientistas solitários que trabalham na contramão de seus colegas, desafiando as doutrinas de seu próprio campo de estudo. O trabalho desses cientistas foi provado estar errado, porém não nos lembramos de seus nomes. Para cada Galileu que é apresentado aos instrumentos de tortura por defender uma verdade científica, há milhares (ou dezenas de milhares) desconhecidos cujas “verdades” nunca passaram pela revista de outros cientistas. Não se pode esperar que a comunidade científica teste cada afirmação fantástica que surja, especialmente quando muitas são logicamente inconsistentes. Isso envolve conhecer os cientistas de sua área, a troca informal de dados e idéias com colaboradores, e apresentar formalmente resultados em conferências, artigos, jornais de revisão científica, livros, etc.
Ônus da Prova
Quem quer provar o quê para quem? A pessoa que faz uma afirmação extraordinária possui o ônus de provar aos especialistas e à ampla comunidade que sua crença possui mais validade que qualquer outra crença que alguém já tenha aceito. Você tem de interceder para que sua opinião seja ouvida. Então terá de convocar especialistas de sua área para que a maioria se convença em apoiar sua afirmação sobre aquela afirmação que eles sempre apoiaram. Finalmente, quando você é a maioria, o valor das provas muda para quem é de fora da área e quer desafiá-lo com um afirmação incomum. Os evolucionistas possuíam o ônus da prova por 50 anos após Darwin, mas agora o ônus da prova está com os criacionistas. E são os criacionistas que devem mostrar por que a teoria da evolução está errada e por que o criacionismo está certo, não os evolucionistas que têm de defender a evolução. O ônus da prova está com os homeopatas, pois tem de provar que a homeopatia funciona (e o modo pelo qual funciona), o ônus não está nos cientistas para prová-la verdadeira. O mesmo se vale para o espiritismo. O racional para chegarmos a isso é que uma grande quantidade de evidências prova que a evolução é fato e a homeopatia (1,2) e o espiritismo são falsos. Em outras palavras, já temos evidências suficientes. Você deve convencer os outros da validade da sua evidência. E quando você está fora dessa área de pesquisa, é o preço que se paga, mesmo estando certo ou errado.
Rumores não são a Realidade
Rumores começam com “Li em algum lugar que…” ou “Ouvi de alguém que…”. Antes que o rumor se torne realidade e passe de pessoa para pessoa, os rumores devem ser verdadeiros, mas comumente não são. Porém são ditos para grandes feitos. Há a “história verdadeira” para o maníaco com um gancho prostético que escapou e persegue sua amada pela América. Há a lenda da “loira da estrada”, na qual um motorista dá carona a uma loira que pede carona na estrada, e que ou ela some do carro repentinamente ou provoca um acidente. Pessoas que moram na beira de estradas dizem que essa loira morreu num acidente automobilístico, que estava esperando o noivo que morreu, que foi atropelada por estar desiludida com seu amor, etc. Tais histórias se espalham rapidamente e nunca morrem.
O historiador da ciência da Caltech, Dan Kevles uma vez contou uma história num jantar que eu suspeitava ser apócrifa. Dois estudantes não voltaram de um passeio de esqui em tempo de fazer seus exames finais, pois as atividades do dia anterior se estenderam pela madrugada. Eles disseram ao seu professor que o pneu do carro havia furado, então o professor os deu uma prova substitutiva no dia seguinte. Colocou os estudantes em salas separadas e fez somente duas questões: 1) “Valendo 5 pontos, qual a fórmula química da água?” 2) “Valendo 95 pontos, qual foi o pneu?”. Dois dos convidados do jantar relataram que já ouviram, embora vagamente, essa mesma história. No dia seguinte, repeti a história aos meus estudantes e, antes de chegar à conclusão, três deles falaram subitamente: “Qual pneu?”. Lendas urbanas e rumores persistentes são ubíquos. Eis alguns:
- Uma mulher acidentalmente matou seu poodle secando-o no microondas
- Paul McCartney morreu e foi substituído por um sósia
- O pouso na Lua é falso e foi filmado num estúdio de Hollywood
- Silvio Santos é careca
O inexplicável não é inexplicável
Muitas pessoas confiam exageradamente para pensar que se elas não podem explicar algo, logo é inexplicável e um mistério verdadeiro da paranormalidade. Um arqueólogo amador declara que como não consegue imaginar como as pirâmides do Egito foram construídas, devem ter sido construídas por alienígenas. Até mesmo aqueles que são (um pouco) mais racionais em, ao menos, pensar que se os especialistas não podem explicar algo, então é inexplicável. Feitos como dobrar colheres, andar no fogo, telepatia ou experiências de quase morte são muitas vezes considerados de natureza paranormal ou mística, pois a maioria das pessoas não pode explicá-los. Quando se expõe o problema a elas, a maioria responde: “Sim, é claro” ou “É óbvio, já que você viu.” Andar no fogo é uma delas. Pessoas especular infinitamente sobre os poderes sobrenaturais sobre a dor e as queimaduras. A explicação mais simples (seguindo-se a Lâmina de Ocam) é a que as partículas finas e macias de carvão na superfície das brasas retém muito pouco calor, e a condutividade do calor provindo desse carvão para o seu pé é muito pobre. Se você ficar longe das brasas, não se queimará (pense num bolo que acabou de sair de um forno em 200º C. O ar, o bolo e a forma estão todos em 200º C, mas somente a forma de metal poderá queimar a sua mão instantaneamente. O ar possui uma capacidade de conduzir calor muito baixa. A capacidade do bolo de conduzir calor é muito maior que a do ar, mas mesmo assim possui baixa condutividade, podemos tocá-lo brevemente sem nos queimar. A forma de metal possui uma capacidade de conter o calor semelhante ao do bolo, mas uma alta condutividade. Se você tocá-lo, mesmo que por pouco tempo, queimar-se-á seriamente. E é por isso que os mágicos não contam seus truques. A maioria de seus truques são, em princípio, relativamente simples (embora muitos sejam de execução extremamente difícil), e conhecer o segredo do truque remove a mágica do truque).
Há muitos mistérios não resolvidos no universo, porém não há problema em admitir: “Ainda não sabemos, mas algum dia, quem sabe, saberemos.” O problema se torna mais confortável quando temos certeza, mesmo que seja prematuro, ao invés de viver com mistérios não resolvidos e inexplicáveis.
Falhas são racionalizáveis
Na ciencia, o valor de achados negativos – falhas – não podem ser superenfatizados. Comumente não se procura a falha, e muitas vezes não se publica. Porém grande parte das vezes as falhas são o modo pelo qual chegamos mais perto da verdade. Cientistas honestos irão admitir prontamente seus erros, mas todos os cientistas são contidos pelo fato de que seus colaboradores irão criticar e ridicularizar o fato. Isso não ocorre com pseudocientistas (casos famosos do espiritismo, por exemplo). Eles ignoram ou racionalizam as falhas, especialmente quando expostos. Se forem pegos no ato falho – o que não ocorre frequentemente – dirão que seus poderes comumente funcionam, mas não sempre. Então quando pressionados a encenar na televisão ou no laboratório, muitas vezes recorrem a trapaças. Se simplesmente falham na encenação, logo possuem uma variedade de explicações criativas: muitos controles em um experimento causam resultados negativos; os poderes não funcionam na presença de céticos; os poderes não funcionam na presença de equipamentos elétricos; os poderes vão e vem; a energia do ambiente não permite, etc. Finalmente afirmam que se os céticos não podem explicar tudo, então deve haver algo paranormal; eles caem na falácia do “o inexplicável não é inexplicável.”
Racionalismo pós-fato
Também conhecido como “post hoc, ergo propter hoc,” literalmente “após isso, logo por causa disso” (ex: o galo canta porque o Sol se levanta. Então o Sol se levanta porque o galo canta). Em seu nível mais basal, é uma forma de superstição. O apostador usa seus sapatos da sorte pois ganhou uma aposta no passado utilizando-os. Mais subjacente, os estudos científicos podem ser presas de falácias. Um estudo de 1993 mostrou que crianças alimentadas no peito possuem QI maiores. Houve muita atenção em qual substância contida no leite materno poderia aumentar a inteligência. Mães que alimentavam seus filhos em mamadeiras se sentiram culpadas. Mas logo os pesquisadores começaram a imaginar se os bebês alimentados no peito foram tratados diferentemente. Talvez as mães que gastaram mais tempo cuidando de seus bebês e com maior vigilância materna era a causa entre as diferenças no QI. Como Hume nos disse, “o fato de que dois eventos dependem um do outro em sequencia não significa que estão conectados causalmente”. Correlação não significa causalidade.
Coincidencia
No mundo paranormal, as coincidências são muitas vezes vistas como profundamente significativas. A “sincronicidade” é então invocada como se alguma força misteriosa estivesse nos bastidores. Mas essa sincronicidade é nada mais que um tipo de contingência – uma conjuntura de dois ou mais eventos sem qualquer planejamento aparente. Quando uma conexão é feita de modo aparentemente impossível, de acordo com nossa intuição e as leis de probabilidade, tendemos a pensar que algo misterioso trabalhou para isso.
Mas a maioria das pessoas possui um entendimento muito pobre sobre as leis da probabilidade. Um apostador venceu 6 vezes consecutivas, então pensa que ele é está numa “maré de sorte” ou “afasta o azar”. Duas pessoas numa sala com trinta pessoas descobrem que possuem a mesma idade, concluindo que algo misterioso trabalhou para isso. Você liga para seu amigo Roberto. O telefone toca e é o próprio Roberto. Você pensa, “Nossa, quais são as chances? Não pode ter sido mera coincidência. Talvez Roberto e eu estamos nos comunicando telepaticamente.” De fato, tais coincidências não são coincidências sob as regras da probabilidade. O apostador previu duas possíveis apostas, uma margem de erro! A probabilidade que duas pessoas numa sala contendo trinta terem a mesma idade é de 71%. E você já se esqueceu quantas vezes Roberto não atendeu o telefone, ou que alguém também tenha ligado para ele, ou que Roberto atendeu a ligação, mas você não estava querendo falar com ele, e por aí vai. Assim como o psicólogo B.F. Skinner provou em seu laboratório, a mente humana procura o relacionamento entre eventos, encontrando-os mesmo quando não estão presentes. As máquinas caça-níquel são baseadas nos princípios de Skinner de reforço intermitente. Um pessoa irracional, como um rato, somente precisará de uma recompensa ocasional (algumas moedas) para continuar a puxar a alavanca. A mente faz o resto.
Representatividade
Como Aristóteles disse, “A soma das coincidências se equivale à certeza.” Esquecemos a maioria das coincidências insignificantes, e nos lembramos do significado de outras. Nossa tendencia de relembrar acertos e ignorar erros é a panaceia de psíquicos, profetas, bispos, adivinhos e os que fazem o (seu) horóscopo, criando centenas de predições a cada 1º de janeiro. Essas pessoas primeiramente aumentam a probabilidade de acerto incluindo previsões mais generalizadas que acontecem todo o ano com qualquer indivíduo como “ [o ator de novela] irá ter problemas de saúde” ou “Vejo problemas para a presidente da república” ou “cuidado com a inveja dos outros” ou “Não faça nada que possa se arrepender”, etc (para maiores (e cômicos) exemplos, pegue um jornal, abra na parte de horóscopos – leia). Então, no próximo 1º de janeiro, publicam os acertos e ignoram os erros, esperando que ninguém se lembre de investigar o que foi dito anteriormente.
Precisamos sempre nos lembrar o grande contexto no qual um evento aparentemente ocorre, e devemos sempre analisar eventos incomuns para sua representatividade na sua classe fenomenológica. No caso do “Triângulo das Bermudas,” uma área do Oceano Atlântico onde navios e aviões “desaparecem misteriosamente”, há a afirmação de que algo estranho ou alienígenas estão por trás disso. Como há muitos corredores de navios e aviões que passam pelo Triângulo das Bermudas que nas áreas em volta, acidentes e (logo) desaparecimentos ocorrem com maior frequencia. Hoje se sabe que a taxa de acidentes é atualmente mais baixa no Triângulo das Bermudas que nas áreas em volta. Talvez essa área deva ser denominada de “Não-Triângulo das Bermudas” (ver Kusche, 1975, para uma explicação completa desse mistério). Similarmente, investigando-se casas assombradas, devemos primeiramente ter uma linha de base dos ruídos, rangidos e outros eventos antes de dizermos que algo é sobrenatural (e, logo, misterioso). Sussuros e batidas na parede podem ser o sistema de encanamento, estalos e rangidos à noite podem ser a contração de materias (madeira, metal) pela diminuição da temperatura durante a madrugada, sons de arranhaduras no porão podem ser de ratos.
Referencia
Kusche L. The Bermuda Triangle Mystery – Solved. New York: Warner, 1975.
Gardner M. Fads and Fallacies in the Name of Science. New York: Dover, 1952.
Shermer M. Why People Believe in Weird Things. New York: Hnery Holy & Co., 2002.
Altruísmo, ratos ateus e o silogismo religioso
Um estudo interessantíssimo saiu na revista Science, intitulado “Empatia e Comportamento Pró-Social em Ratos“, chamou bastante a minha atenção (e de outros meio de comunicação). Para alguém que trabalha com etologia, o título até chama a atenção, mas chama mais a atenção por ser um estudo sobre comportamento de mamíferos não primatas numa revista de alto impacto (o que, convenhamos, é relativamente raro hoje em dia).
Os autores elegantemente formularam um experimento relativamente simples, curto e incisivo (bem ao estilo da Lâmina de Ocam) sobre (em linhas gerais) a empatia entre ratos.
Até o momento pensamos que todo o tipo de comportamento (até em humanos) seria efetuado na expectativa de uma recompensa. E por mais que alguém fale: “Seres humanos são altruístas, muitas vezes fazemos o bem em troca de nada!“, o caminho é mais complicado. Por mais que nos esforcemos para fazer o bem ao próximo sem requerer qualquer recompensa para isso (como dinheiro ou status), temos de pensar antes que nós já criamos a nossa própria recompensa. E ela se chama dopamina, e é liberada em centros de prazer do encéfalo, especialmente o núcleo acumbente (uma estrutura clássica para o estudo de drogas de abuso e recompensas) (Wise, 2008).
E é essa a resposta final do tal “altruísmo”: nos sentimos bem em ajudar o próximo sem recompensa em troca, mas esse “sentir bem” já é a dopamina agindo no núcleo acumbente, logo, ninguém é altruísta. Tudo o que buscamos no final das contas é um pouco de dopamina no núcleo acumbente para que reforcemos um determinado comportamento (ex: altruísmo). Se soubéssemos isso antes da época de Jesus e Maomé, com certeza os textos religiosos de hoje teriam outra ênfase (falaciosa).
Mais além de Pavlov
E o artigo em questão vai mais profundamente nesse aspecto do “recompensa pelo prazer”.
Ratos foram alojados em pares 2 semanas antes do início dos testes. E então um dos animais foi contido dentro de um cilindro de acrílico transparente cuja porta poderia ser aberta facilmente somente pelo parceiro livre. E, sem novidades, o rato livre consegue libertar seu companheiro do cilindro. Porém, à medida que o teste se repete, o rato livre liberta o companheiro num período de tempo cada vez mais curto, evidenciando aprendizado. Até o momento poderíamos supor que há o efeito “dopamina” acima descrito, pois a presença do companheiro nas atividades sociais dos ratos (limpeza de pelos mutua, brincadeiras, etc), poderia ser um reforçador para que o rato livre libertasse seu companheiro.
Um rato “altruísta” aprende a abrir a porta do contentor
Porém os autores testaram o valor da recompensa em libertar o companheiro, isso é, quão importante é o valor físico e psicológico do companheiro. E os pesquisadores deram 2 opções ao rato livre: Cilindro fechado contendo 5 pedaços de chocolate (que são extremamente pataláveis aos ratos) e outro cilindro fechado com o companheiro (experimento chocolate-parceiro). Como controle, num outro experimento com outros ratos, um dos contentores estava vazio enquanto o outro tinha chocolate (experimento chocolate-vazio).
No experimento chocolate-parceiro não houve diferença no tempo de abertura da porta para os dois contentores, enquanto no experimento chocolate-vazio o rato abriu o contentor com chocolate num tempo muito menor que para o contentor vazio. Isso significa que libertar o companheiro preso tem um valor igual ao de comer algo extremamente recompensandor (chocolate). Aqui vale lembrar que dependendo da “intensidade” do sabor doce, o sabor doce em si pode ter um efeito recompensador tão grande quanto à da cocaína (Lenoir e cols., 2007). Logo, pode-se supor que a libertação do companheiro (o altruísmo) tem um efeito recompensador no final das contas, mesmo que seja em nível molecular.
Além disso, o mais intrigante é que após libertar o companheiro, 52% dos libertadores dividiram o chocolate com o companheiro nos primeiros dias de teste, com essa porcentagem passando para 61% nos dias 6 a 12.
No vídeo da esquerda, temos o contentor com um pedaço de algodão, no vídeo central um contentor vazio, e à direita o contentor com o parceiro preso. Repare na movimentação do rato livre em torno do contentor e do centro da arena para encontrar um meio de libertar o parceiro, o que não ocorre nos outros testes.
Isso significa um potencial “altruísmo” evolutivo em animais. Como a própria autora escreve na discussão
Nosso estudo mostra que os ratos se comportam pró-socialmente quando percebem um estresse de restrição psicológico não-doloroso que é experimentado por um coespecífico, agindo de modo a terminar esse estresse por meio de ações deliberativas. (…) Além disso, esse comportamento ocorreu na ausencia de treinamento ou recompensa social, e até mesmo quando em competição com um alimenta altamente palatável.
Comportamentos similares foram observados em símios, e a grande diferença aqui é que os ratos podem ser utilizado em larga escala em estudos em laboratório para investigar as estruturas que modulam a empatia e o altruísmo. E isso vai mais além de uma simples “dopamina no acumbente”.
Altruísmo tem manual de instruções?
E aqui vai um pensamento mais aprofundado sobre o assunto. Ratos em si são seres sociais, cooperativos e interativos, porém não possuem religião nem um Deus para o qual devem prestar contas. E isso vai contra argumento de teístas no qual a religião se desenvolveu como um meio cooperativo e altruístico entre as pessoas. Para os teístas, a religião seria uma adaptação evolutiva, pois cria ou potencializa a empatia e a pró-socialidade.
Porém esses mesmos teístas ignoram o fato que a empatia, a cooperação e o altruísmo são inatos na natureza. Esse tipo de comportamento é aparentemente muito mais antigo do que se imaginava, retomando períodos antes dos mamíferos e pássaros (1,2,3). Portanto, a religião não é a causa para o aparecimento desse tipo de comportamento em humanos.
E curiosamente esses experimentos podem rebater 2 afirmações comumente utilizadas por religiosos para apoiar que a religião é necessario para uma “harmonia social”
1) A religião faz com que as pessoas fiquem mais sociáveis e cooperativas entre si, proporcionando um melhor relacionamento social entre os indivíduos. Se a religião não tivesse esse propósito (seja direto ou indireto) na sociedade, não teríamos motivo para que as pessoas acreditassem nela.
Isso é uma falacia, pois uma “religião moral e ética” surgiu mais recentemente, ligando as crenças sobrenaturais a comportamentos “socialmente corretos”. Religiões mais antigas que as ditas “modernas” (cristianismo, islamismo, etc) surgiram provavelmente no período paleolítico, muitas vezes envolvendo o shamanismo e como meio de explicação de eventos “sobrenaturais” (ex: raios, nascimento do Sol, etc), mas não havia uma regra de condutas sociais a serem seguidas para se atingir o “paraíso” ou hipóteses para manter a sociedade estável, tanto porque naquela época não havia algo como uma “sociedade” ou o pensamento do “pós-morte” (Rossano). E mesmo assim, uma sociedade mais religiosa não significa uma sociedade mais estável, como postei anteriormente.
2) A religião traz maior coesão entre os grupos humanos, dando-lhes uma vantagem competitiva sobre outros grupos (não religiosos ou de outras religiões com regras de condutas sociais diferentes), formando grupos maiores que eliminariam grupos menores e menos organizados.
Isso pode ser verdade para as religiões atuais (cristianismo, islamismo, espiritismo, etc), porém não existe qualquer evidencia de uma aumento na quantidade de grupos de humanos devido a uma religião específica em tempos posteriores ao neolítico. O aumento no número de conglomerados humanos ocorreu a partir do momento em que os humanos deixaram de ser caçadores-coletores para serem domesticadores de animais e plantas. Com a formação de conglomerados humanos, também houve desenvolvimento e especialização das religiões em si, as quais provavelmente absorveram as condutas sociais locais em seus dogmas (Rossano, 2010).
Não posso negar o papel fundamental da religião em unir pessoas no mundo atual. Aliás, não nego nem a sua força em sincronizar determinados comportamentos num grande grupo de pessoas. Para mim isso é fenomenal. Mas não podemos omitir que alguns comportamentos são inatos não somente nos seres humanos, mas em outros seres mais primitivos. E se o altruísmo e a empatia possuem raízes mais antigas que imaginávamos, sua manutenção ao longo da evolução nos diz que possui uma vantagem maior sobre aqueles que não as tem. E foi exatamente isso que os antigos escritores de livros religiosos devem ter percebido (mesmo que indiretamente). Afinal de contas, Maomé, o apóstolo Pedro e Moisés eram, querendo ou não, observadores perspicazes.
Espiritismo no Brasil e a Dissonância Cognitiva
Traduzido da Revista Skeptical Inquirer
Na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo se desenvolve e evolui numa nova religião.
Todos já vimos as antigas imagens vitorianas sobre fantasmas em lençóis brancos e em fotos desagradavelmente mal feitas de espíritos criados a partir de dupla exposição, principalmente resultado do movimento espiritualista no Reino Unido e nos Estados Unidos. O movimento atingiu seu auge no final do século XIX, sendo considerado um modismo dos dias atuais quase um século depois.
Porém, em alguns países, especialmente na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo ainda é muito significativo e continua evoluindo, fazendo-o um exemplo formidável do desenvolvimento de uma nova religião. Seus seguidores irão logo enfatizar a distinção entre a visão mais ampla do espiritualismo e do espiritismo, o qual foi fundado por um francês chamado Hypolite Rivail (1804-1869) sob o pseudônimo de “Allan Kardec.” Esse modismo, ou falácia, vem sendo promovido em nome da ciência.
Chico Xavier
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual conduz os censos oficiais, o Brasil possui o maior número de espiritistas no mundo: por volta de 2,3 milhões de seguidores, quase 1,3% da população total, e o terceiro maior grupo religioso, atrás somente dos católicos e evangélicos (1)
Todos esses três grupos são cristãos. Os espiritistas brasileiros dão especial ênfase para “O Evangelho Segundo o Espiritismo.” O líder mais importante desse movimento no Brasil, Francisco “Chico” Xavier (1910-2002), é nosso maior foco de interesse aqui, pois simboliza o espiritismo brasileiro.
Chico Xavier é considerado um médium. Porém sua maior forma de mediunidade é a “psicografia”, isso é, a escrita automática pela qual ele afirmava contactar pessoas mortas por meio de cartas “escritas” pelo morto, e também por meio de livros “escritos” por autores famosos já falecidos.
Vendendo esses livros “psicografados”, os quais Xavier escreveu por volta de 400, o movimento conseguiu florescer e promover trabalhos de caridade num loop auto-alimentado onde cada elo reforça o outro, tendo-se Xavier em seu topo. Obviamente não era nenhum Saxy Sadie, mas, mesmo em vida, Xavier vivia modestamente e nunca se casou, sendo adorado como um tipo de santo ascético. Não há evidências de que sua imagem divulgada por seus seguidores não fosse verdadeira. Quase uma década após sua morte, e no centenário de seu nascimento, sua vida foi dramatizada e divulgada em filme (2), é quase impensável questionar a pessoa pública de Xavier.
Mas uma análise crítica dos poderes paranormais de Chico Xavier rapidamente revela sua maior falha. Fiquei surpreso. Até o momento em que me aprofundei na pesquisa, sempre assumi que as afirmações de Xavier tinham algo de verdadeiro. Se não eram um fenômeno paranormal autêntico, pensei que ao menos se chegaria a algo insolucionado ou intrigante. Mas não foi o caso.
“Odorização”
Um amigo íntimo, Vitor Moura Visoni (3), procurou encontrar um dos maiores e mais íntimos afiliados de Xavier, Waldo Vieira, para verificar se Xavier promovia eventos fraudulentos. Vieira deveria saber disso, pois estava com Xavier.
“Trabalhadores do Centro Espírita faziam fila para conseguir detalhes de falecidos ou se utilizavam de histórias contadas pelos parentes nas cartas onde pediam por um encontro. As mensagens de Chico tinham essa informação”, Vieira revelou. Isso poderia explicar as cartas “psicografadas” com detalhes que “somente os mortos sabiam”. Mais que uma simples “leitura fria”, era justamente um falsificação legítima. Havia outras falsificações, de acordo com Vieira.
“Vi que [Chico Xavier] estava conduzindo algumas sessões espíritas nas quais eu não era participante … onde algumas pessoas às vezes relatavam sobre os perfumes de Scheila [o espírito] … [Então] um dia … ele foi colocar algo no correio, … fui até seu quarto, o qual estava com a porta aberta, pretendendo fechá-la. Quando cheguei lá, vi um saco cheio de frascos… Ele usou os perfumes… e eram de rosas … [Perguntei— o sobre isso] então Chico começou a chorar na minha frente.”
O uso de odores supostamente de origem sobrenatural é um truque espiritualístico comum. Tanto que o líder espiritista e mais destacado “médium” do Brasil o utilizou, de acordo com um de seus afiliados mais íntimos, é algo bastante revelador.
Mas nada ganha do caso de Otília Diogo.
Irmã Josefa
Olhe essa foto. É parte de um show de comédias? Pode ser engraçada, mas intencionalmente não é. A foto foi tirada em 1964, e o homem sorridente de óculos de sol é o próprio Chico Xavier. A pessoa coberta pelo lençol branco é a médium Otília Diogo, ou como os espiritistas acreditam, a “materialização” do espírito de Josefa em ectoplasma. Graças à mediunidade de Otília Diogo, é claro.
Outras fotos claramente mostram a médium atrás do véu, e, de fato, o véu possui uma parte retangular semi-transparente para permitir que Otília pudesse enxergar. A suposta materialização ectoplásmica pode ser tocada e também segurar uma bíblia. Isso é realmente muito material. E até mesmo os crentes noticiaram como a médium, Otília, possuía uma similaridade marcante com a face do espírito (abaixo).
E assim acreditaram. E ainda acreditam nisso. Xavier estava lá e enfaticamente afirmou que a materialização era real e autêntica. Mas o caso logo se tornou uma grande confusão.
As fotos foram tiradas pela revista Cruzeiro, a qual possuía a principal prioridade de vender mais revistas. Primeiro promover e então expor a fraude serviu como uma luva. Após publicar primeiramente um artigo no qual questionavam se as “materializações de Uberaba” eram reais e abertas a interpretações, procederam então para expor a fraude que ajudaram a promover.
Pegos no ato!
E então expuseram. Com fotos claras fica óbvio que a “materialização” é simplesmente a médium Otília em lençóis. Os crentes até mesmo afirmavam que o espírito atravessava barras de aço sólido, mas as fotos mostram que era somente alguns lençóis que eram jogados para o outro lado, enquanto a médium, muito sólida (e viva), estava por trás das barras.
A Cruzeiro não poderia ter tido melhor furo de reportagem quando em 1970, Otília Diogo foi finalmente pega no ato do crime. Ela queria fazer plástica para remover suas rugas, e como pagamento pela cirurgia, se ofereceu para conduzir uma reunião espírita de materialização na casa do médico, um crente no espiritismo. Mas o médico não era tão ingênuo assim, e ficou com suspeitas sobre uma maleta que sempre estava com Otília. Quando ele e sua família tentaram abri-la enquanto Otília dormia, encontraram todo o “ectoplasma”, isso é, todas as vestimentas e véus materiais que utilizava para interpretar diferentes espíritos.
Suas ferramentas incluíam até perfumes para “reforçar a presença do espírito.” Assim como Xavier, de acordo com Vieira.
Finalmente exposta a fraude, o que Otília poderia dizer? “Perdi minha mediunidade em 1965, mas pensei que poderia manter a encenação das materializações. Não queria que alguém percebesse.”
E as pessoas acreditaram nisso. Grande parte dos espiritistas do Brasil, quando informados sobre o envolvimento de Chico Xavier no caso de Otília Diogo, acreditou piamente que embora ela fosse definitivamente uma farsante, somente começou a difamar pouco tempo após Xavier ter autenticado e testemunhado os fenômenos. Esse é um exemplo clássico de dissonância cognitiva.
Mesmo que as fotos tiradas durante aquelas reuniões espíritas de 1964 claramente mostrarem uma pessoa utilizando véus, obviamente uma evidência falsa, muitos ainda acreditam que o ectoplasma funciona de maneiras misteriosas – incluindo se parecer exatamente como um véu comum. Nós, os céticos, ainda argumentamos com os crentes que defendem veementemente esse caso com argumentos elaborados – sendo que todos foram refutados – mas a primeira e óbvia impressão das fotos tiradas é um tanto certeira. São exemplos simples e ridículos de falsificações.
Pessoas espertas acreditam em coisas estranhas
Waldo Vieira também era testemunha dessas reuniões espíritas, revelando que desde o início já tinha suspeitas sobre Otília. Mas também afirma que Otília era uma psíquica autêntica, assim como Xavier. Embora fosse uma falsária às vezes, ela também tinha poderes paranormais extraordinários. A dissonância cognitiva é completa.
Mesmo se alguém aceitar que esses médiuns eram falsários, o crente irá se auto-convencer que parte do fenômeno falsificado é autêntica. Parafraseando uma questão filosófica antiga e peculiar, se um falsário não for pego em seu ato fraudulento no meio da floresta, ele cometeu a fraude? Para os crentes, a resposta é clara. Os argumentos mais elaborados e impensáveis são apresentados como argumento para aquelas fraudes ridículas que podem ter sido consideradas como autênticas.
Voltando no tempo novamente podemos encontrar exemplos de falsários. E a história de Otília Diogo, tão famosa no espiritismo brasileiro, é quase idêntica à história das materializações de Florence Cook feitas por Katie King, as quais ocorreram quase um século antes no auge do espiritualismo vitoriano. Os crentes irão argumentar que ela somente começou a fraudar provas após ser examinada por William Crookes. Bill Meier, o suíço que diz ter contatos com alienígenas pode ter falsificado algumas fotos, mas deve ter começado a fazer isso após ter tido alguns contatos autênticos com alienígenas provindos das Plêiades.
Certamente há muitas outras histórias sobre Chico Xavier, pois não entramos em detalhes na sua principal afirmação paranormal dos 400 livros “psicografados”. Essa é outra oportunidade de desmascará-lo.
Porém, como foi uma personalidade tão famosa por seus preceitos morais e mensagens espirituais publicadas em centenas de livros, terminaremos com um pequeno fragmento particularmente interessante: “A verdade que machuca é pior que a mentira que conforta… Aqueles que conseguem compreendê-la irão entender.”
Referencias
[1] O número total de ateístas e cidadãos não religiosos no Brasil é provavelmente comparável ou até maior que o número de espíritas, porém o IBGE se recusa a quantificar o número de ateístas no censo.
[2] Muitos brasileiros das classes sociais mais altas, incluindo a elite do entretenimento, são espíritas. Considerando-se mais requintados que o catolicismo tradicional.
[3] o trabalho de Visoni está disponível gratuitamente em português em http://obraspsicografadas.haan.com/
Mais informação
Download da Revista Cruzeiro de 1964, aqui
Maiores informações, aqui









