Arquivos Mensais:junho 2011
Ateísmo e Racionalismo: um debate com Fábio Marton
A Sociedade Racionalista USP tem orgulho em apresentar:
“Ímpio”, do jornalista (e ateu) Fábio Marton é a história de uma vida religiosa, de sua peregrinação pelo evangelho e a libertação final (no caso, expulsou outros tipos de “incômodos”).
Acostumado a grandes reportagens, o autor narra de forma envolvente e bem-humorada seus traumas e ousadias, das questões familiares até o pensamento cético que, de certa forma o tranquilizou, ao mesmo tempo que gerou maus olhados por parte de outros. -Folha.
Todos convidados! Entrada franca.
Religião, desenvolvimento social, econômico e político
Talvez uma das grandes dúvidas e assuntos mal pesquisados (tanto por carência de recursos como por convencimento próprio) é se a religião é necessária para um desenvolvimento social e econômico de um país. Ficava me perguntando se a presença do estado laico se justifica para o bem da sociedade. Isso é: a sociedade laica é melhor ou pior para o desenvolvimento e bem-estar das pessoas que vivem nela? Ou neutra? Talvez a principal razão para o advento da separação entre igreja e estado fosse justamente o aumento das desigualdades, abuso de poder, incompetência administrativa e, principalmente, corrupção, como foi visto durante a Revolução Francesa. Porém, mesmo após a destituição (e decapitação) do Rei Luís XVI (e parte de seu clero), promulgado um estado francês laico e iniciada a República, houve fatos de grande terror e reveses. Em exemplo temos a fase da República Jacobina, a qual iniciou a fase do “Terror Jacobino” que resultou em perseguições, execuções, censura e permitiu a ascensão, em parte, de Napoleão Bonaparte ao poder (e o resto é história). Isso é somente um exemplo de um fato que ocorreu ainda no século XVIII. Mas e nos dias atuais do século XXI?
Primeiramente, não vou comentar se escrituras sagradas levam a um determinado tipo de comportamento, se é ético ou não (isso será em outro post). Vou me abster somente à análise de estatísticas em relação às sociedades: se a sociedade é mais estável, não somente no campo social (violência, equilíbrio social, renda per-capita, etc), mas no econômico (estabilidade e desenvolvimento econômico) e político (democracias plenas, ditaduras, etc.).
A primeira pergunta é: quantas pessoas acreditam numa determinada religião? Temos em mente que no mundo há por volta de 6 bilhões de pessoas. E 78% são crentes de alguma religião (me permitam retirar o Budismo como religião, pois Buda não é um Deus, mas somente uma filosofia) (de acordo com a Adherents, uma espécie de IBGE sobre a religião no mundo). Então temos que por volta de 4,6 bilhões de pessoas acreditam em alguma religião (Figura 1).
Porém isso nos ressalta outra pergunta: onde se localizam essas pessoas? De acordo com o Gallup (outra espécie de IBGE dos EUA que também faz pesquisas pelo mundo), praticamente todos os países subdesenvolvidos (Américas Central e Sul, África e sudeste da Ásia) possuem altos índices da presença da religião no Estado (figura 2)

Figura 2. Importância da religião em diversos países. Quanto mais próximo do vermelho escuro, maior a presença da religião na sociedade. Quanto mais próximo do vermelho claro, menor a presença.
Seria muita ingenuidade minha (e até incompetência) dizer que a religião é um fator que predispõe à pobreza ou à incompetência administrativa de uma nação baseando-se somente em duas análises superficiais. Provavelmente a crença tem se alterado durante as gerações (com a chegada de imigrantes, novos métodos de pensamento e ideologias políticas), resultando na aglomeração daqueles que antes eram mais oprimidos (e, em teoria, mais religiosos) em outros locais. Então, qual a tendência das gerações acreditarem numa determinada religião?
De acordo com um estudo de 2011, a religião pode se tornar extinta em 9 nações. E esses locais provavelmente seriam: Austrália, Áustria, Canadá, República Tcheca, Finlândia, Irlanda (não Irlanda do Norte), Holanda, Nova Zelândia e Suíça. Um dos autores do estudo explica que, em sociedades seculares, “a percepção da utilidade da religião em não afiliados é maior que àqueles que aderem a alguma religião, tendendo, logo, para o desaparecimento da religião.”
Mas considerando isso apenas como uma tendência (palavra que biólogos evolucionistas não se apetecem muito), podemos então dizer que onde há mais liberdades individuais há menor presença da religião (já que a democracia plena é marca desses países)? E a resposta é sim. Se levarmos em conta os países onde há maiores índices de democracia, há menores índices da religião (figura 2). E o inverso também é verdadeiro.
Porém, podemos pensar se vale a pena ter uma nação sob mão-de-ferro baseada na religião conquanto que se tenha menores índices de violência. Então, a falta de democracia e a presença da mão-de-ferro do Estado baseada na religião é necessária para uma sociedade menos violenta?
E a resposta é não. De acordo com o Índice Global de Paz de 2011, países com maiores índices de violência (figura 3) estão localizados, nas Américas Central e Sul, África e Ásia. Mais especificamente, os 6 países menos violentos do mundo tem os menores índices de religião (figura 2-3).

Figura 3. Índice global de paz de acordo com diferentes países. Quanto mais púrpura a cor do país, mais violento. Quanto mais esverdeado, mais pacífico.
Mas outra pergunta surge: mesmo em países violentos de grande presença religiosa há melhor estabilidade social? Isso é, justifica-se um país de alto índice de religião utilizar-se da violência e repressão como arma para uma melhor estabilidade social, como igualdade entre classes?
A resposta é não.
Novamente, de acordo com o Gallup, um alto índice de religião está baseado em uma menor renda per-capta (figura 4) e piores índices de bem-estar social e estabilidade econômica (figuras 5 e 6).

Figura 4. Importância da religião no cotidiano da vida dos entrevistados em relação às suas rendas per-captas

Figura 6. Relação entre estabilidade econômica e ausência de violência em relação ao bem-estar proporcionado em diferentes países
Então podemos ligar a presença da religião da sociedade como indicador de pobreza mundial?
E a resposta é sim (tabela 1). Quanto mais pobre o país, mais importante a religião na vida do indivíduo. Quanto mais desenvolvido o país, menos importante é a religião para sua vida. Para uma lista completa da presençaa religião por país, clique aqui

Tabela 1. Importância da religião na vida cotidiana de pessoas pesquisadas nos países mais subdesenvolvidos (esquerda) em relação aos mais desenvolvidos (direita)
Porém, observamos que existem exceções (como os EUA: altos índices de desenvolvimento social e altos índices da religião, ou a Rússia: baixos índices de religião e baixo índice de democracia). Se há algumas contradições, devemos então nos submeter a um rigor mais científico para provar a verdade. Em um artigo de 2005, Gregory Paul, da Universidade de Baltimore, mostrou que quanto mais secular a sociedade menor o índice de disfunção social. Ele levou em conta diversos parâmetros, desde a taxa de suicídios até a porcentagem de contaminação por gonorréia em jovens. Apesar do estudo ser baseado exclusivamente em países desenvolvidos (exceto Portugal), nos dá uma noção do que seria para os países subdesenvolvidos (Figuras 7) baseando-se nos gráficos aqui demonstrados (coloquei somente alguns gráficos mais importantes desse artigo, o restante poderá ser encontrado no artigo em si).
Legendas: A = Austrália; C = Canadá; D = Dinamarca; E = Grã Bretanha; F = França; G = Alemanha; H = Holanda; I = Irlanda; J = Japão; L = Suíça; N = Noruega; P = Portugal; R = Áustria; S = Espanha; T = Itália; U = Estados Unidos da América; W = Suécia; Z = Nova Zelândia.

Expectativa de vida como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Taxa de suicídio entre 15-24 por 100.000 pessoas como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Taxa de homicídios por 100.000 pessoas como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas
Taxa de mortalidade abaixo dos 5 anos de idade por 100.000 nascimentos como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas
Relação entre nascimentos e gravidez em jovens de 15-17 anos como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Relação entre a ocorrência de gonorréia em jovens de 15-19 anos por 100.000 pessoas como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas
Em conclusão: a religião é necessária para o desenvolvimento social, econômico e político?
A resposta é não. A religião pode ter sido necessária para a união de pessoas (e sociedades) de mesma crença, formando nações e perpetuando suas idéias ao longo de tempos pré-democracia. Porém, à medida que se avança rumo à uma sociedade mais democratizada e secular, com maiores índices educacionais, econômicos e sociais, a religião passa a ser supérflua. Isso é, a sociedade pode se desenvolver plenamente sem a presença da religião (em contrário àqueles países de alta presença), logo, de um Deus. Podemos ser mal agradecidos ou não à religião (ou à Deus), porém, aparentemente serviu apenas como meio de integração social, mas não como instituição ética e moral para a melhoria (e manutenção) de uma sociedade voltada ao bem-estar de seu povo. Aqui, pelos dados, se vê que o bem-estar social (e do indivíduo) é melhor proporcionado quanto menor a presença da religião.






