Resenha do Livro: O Ímpio, de Fábio Marton

Apresentação da obra:

Trata-se de uma auto-biografia de um garoto muito religioso provindo de família também muito religiosa (o avô era pastor, sem contar os parentes praticantes) que entra em conflito com os dilemas e “rituais” religiosos quando começa a pensar um pouco mais além da bíblia. Tudo num ambiente que vai do pastelão religioso até momento pesarosos e reflexivos.

Estrutura da obra:

A obra é dividida em 7 capítulos cronológicos, todos em primeira pessoa, além de adendos entre a passagem dos capítulos.

Análise crítica

Pode-se dividir cada capítulo em partes filosoficamente diferentes entre si. Iniciando-se do prólogo até o epílogo, nota-se o desenvolvimento do pensamento do autor ao longo dos problemas que vão surgindo em sua vida sendo um evangélico, como a adolescência e seus hormônios, o questionamento da morte e a ditadura do “porque é assim porque sempre foi assim”. O fluir do pensamento ao longo dos capítulos pode lembrar muito os diálogos filosóficos do Horácio, personagem da Turma da Mônica, devido às crises existenciais e, em parte, do saudosismo do tempo em que éramos inocentes enão percebíamos a própria hipocrisia.

Há uma constante tensão sobre o advento do medo da punição pela oniciência e onipresença divina, levando-nos ao motivo do “por que estou aqui ainda?” para momentos de rompimento parcial das tradições religiosas. Há várias passagens de diálogo crítico e cético, às vezes de caráter até irônico, até finalmente o rompimento religioso esperado. Pessoalmente, alguns capítulos são a aplicação prática de filosofias de pensadores modernos como Foulcault e Satre e, já da metade para o final do livro, Nietzsche e Russell. Curiosamente, quando li o prólogo de “O Ímpio”, lembrei-me da seguinte passagem de Cazuza, de Viriato Correa:

“Não me lembro qual a minha idade quando ficou decidido que, no ano seguinte, eu entraria na escola. Mas eu devia ser muito, muito pequeno. Tão pequenino que não pronunciava direito as palavras e ainda chupava o dedo e vestia roupinhas de menina. (…)

Dois motivos é que me deram vontade de estudar.
O primeiro deles – as calças. Desde que me entendi, tive a preocupação de ser homem e nunca me pude ajeitar nos vestidinhos rendados de menina. Sempre olhei com inveja os garotos mais taludos do que eu, não porque eles fossem maiores e gozassem regalias que os garotinhos não gozam, mas porque usavam calças.(…)

O segundo motivo é que o primeiro contato que tive com uma escola foi através de uma festa. E ficou-me na cabeça a idéia de que a escola era um lugar de alegria.”

Religiosos e não religiosos vão se identificar com partes e passagens, numa leitura dinâmica e agradável. As dúvidas compartilhadas pelo autor são às vezes simples, mas com certeza 10 em 10 crentes já se perguntaram uma vezinha só sobre os assuntos. O final do livro é esperado, porém o que vale é o caminho e a arguição envolvidos para se chegar ao final. O bom do livro não é o final, mas o meio, o raciocínio para compor um final já esperado.

PS: O problema, sem sombra de dúvidas, é a questão da capa, pois o religioso ou aquele ateu simpatizante por religiões não terá tanta simpatia pela capa de primeira olhada. Uma capa mais formal, neutra e que transmita algo menos turbulento ao leitor seria uma melhor pedida.

O ÍMPIO – O EVANGELHO DE UM ATEU

Autor Fábio Marton

Editora Leya

221 páginas divididas em 7 capítulos (ou versículos – há)

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 09/08/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. fatima sidrim

    eu nao vou me considerar nem mais , nem menos do que os seus conhecimentos. ainda bem qui nao gastei o meu tempo com nem uma delas para descobrir a verddade.eu sempre observei a natureza e logo cheguei a conclusao qui religiao e balela. mas acho qui sertas pessoas precisao delas ,qui nao e o meu caso.

  1. Pingback: Resenha da Sociedade Racionalista da USP

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