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Entrevista na Superinteressante sobre Alexander Moreira e o NUPES
Pouco menos de um ano atrás concedi uma entrevista por email para Pablo Nogueira, repórter da revista Superinteressante, a respeito do post que escrevi sobre Alexander Moreira Almeida e o NUPES. A reportagem foi publicada na edição deste mês (outubro 2011). Ainda não tive a oportunidade de ler mas dada a natureza da publicação (a Superinteressante é famosa pelo sensacionalismo, distorção e incompreensão científica) não tenho boas expectativas. A chamada na capa só reforça minhas suspeitas:
Ciência espírita
Eles são cientistas. E eles acreditam em espíritos e reencarnação. Agora, estão usando o laboratório para tentar provar que isso existe.
Abaixo está a entrevista na íntegra. Deixo ao leitor julgar se o que foi publicado condiz ou não com o que eu escrevi. Quando tiver lido a matéria publico a minha opinião.
Qual é a sua formação e o que você está fazendo no canadá?
Comecei estudando psicologia na PUC-RS e foi aí que tive meu primeiro contato direto com pseudociência e com a enrolação pós-moderna e o pensamento anticientífico que assombram as coitadas das ciências humanas no Brasil. Talvez você possa dizer que algo assim já era de se esperar de uma “universidade católica,” mas essa é uma conclusão que não vem tão fácil à um adolescente de 17 anos! A psicologia científica era praticamente ignorada ou mal-compreendida e a ênfase era em psicoterapia, que por si só é a área mais questionável da psicologia. Como eu tinha uma dificuldade muito grande em compreender coisas como a “intersubjetividade do eu,” a “posição esquizo-paranóide” etc, resolvi, pro alívio dos professores, que deveria procurar um curso mais adequado às minhas capacidades. Me mudei pra Grã-Bretanha onde fui aceito na University of Edinburgh e me formei em matemática. Atualmente estou fazendo mestrado em psicobiologia na USP-RP. Minha linha de pesquisa é em neurociência computacional. Vim fazer parte do mestrado aqui no Canadá, no laboratório de Aprendizado por Reforço e Inteligência Artificial da University of Alberta, através de um programa chamado Emerging Leaders in the Americas.
O que é a sociedade racionalista usp? Como você se envolveu com ela?
A Sociedade Racionalista USP é um grupo formado por estudantes céticos, ateus e agnósticos que organiza eventos e atividades com o objetivo de divulgar a ciência e o pensamento crítico no campus e fora dele. Ela segue o modelo das sociedades estudantis muito comuns nas universidades da Grã-Bretanha e da América do Norte mas que, até onde eu saiba, infelizmente são quase inexistentes no Brasil. Tive a ideia de começar uma depois de ver que as únicas organizações estudantis do gênero na USP eram grupos de oração!
Como você tomou conhecimento do trabalho do Alexander Moreira?
Recebi um email sobre uma palestra do Alexander promovida pelo programa de pós-graduação em saúde na comunidade da USP-RP. O título era ”a contribuição das pesquisas sobre experiências espirituais para o aprimoramento do diagnóstico psiquiátrico e da relação mente-cérebro” e isso fez soar todos os meus alarmes anti-pseudociência. Experiências espirituais? Aprimoramento da relação mente-cérebro? Fui procurar mais informações no website do NUPES e minhas suspeitas se confirmaram.
Por que resolveu escrever um post sobre o trabalho dele?
Eu acho que desbancar estudos pseudocientíficos além de ser um exercício divertido de lógica e metodologia científica é também uma ótima oportunidade para divulgar essas ferramentas mentais para o público em geral. Um programa de TV sobre as diferenças entre os testes de hipóteses estatísticos paramétricos e não-paramétricos certamente teria uma audiência muito limitada mas quando essas coisas são mencionadas no meio de uma crítica à homeopatia ou espiritismo as pessoas tendem a prestar mais atenção. Eu também acho que pseudociência não deveria ser promovida ou financiada por instituições públicas como hospitais e universidades.
No texto do blog você tece, brevemente críticas a dois artigos de Alexander. Peço a você que, nesta pergunta apresente suas críticas a cada artigo, com o máximo de fundamentação possível.
A primeira publicação que citei, “o diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos mentais de conteúdo religioso”, que parece ser um tema popular do Alexander, se propõe a estabelecer critérios para distinguir um transtorno mental de ditas “experiências espirituais.” Para isso, os autores dispensam com experimentos e laboriosas análises estatísticas e oferecem, ao invés, uma lista de nove critérios extraídos, sem nenhuma quantificação aparente, de uma literatura que eles julgaram adequada. Ora, tenho certeza de que qualquer pessoa procurando na literatura que ela quiser vai achar comprovação pro que ela quiser. Essa é mais uma falácia comum entre os pseudocientistas; se chama “viés ou tendência para a confirmação” e consiste em notar apenas aquilo que confirma sua crença e ignorar o que a contradiz. E de fato a maioria das 59 referências desse estudo são sobre espiritualidade, transcendência, parapsicologia, experiências de quase-morte e coisas do gênero. Os tais nove critérios variam entre o óbvio — “ausência de sofrimento psicológico” — o contraditório — “existe uma atitude crítica sobre a realidade,” é difícil entender como que uma pessoa que acha que está sendo possuída pelo demônio consegue ter uma atitude crítica sobre a realidade — e o completamente vago — “a experiência é controlada” e “gera crescimento pessoal.”
A segunda, “recognition and treatment of psychotic symptoms: spiritists compared to mental health professionals in Puerto Rico and Brazil,” chega a conclusão notável de que as técnicas dos médiuns e curandeiros espíritas são tão ou mais eficazes no tratamento da esquizofrenia que as da psiquiatria baseada em evidências. Certamente ele usou um design experimental duplo ou pelo menos único-cego, atribuiu os tratamentos espíritas e científicos aleatoriamente entre os sujeitos, acompanhou o desenvolvimento clínico deles por um bom tempo após as intervenções e avaliou estatisticamente os resultados, certo? Nada disso! Novamente eles escolheram os médiuns que gostaram mais, entrevistaram alguns “pacientes” desses médiuns, e compararam os resultados (sabe-se lá como pois eles não explicam) com estudos de casos “parecidos” discutidos em conferências sobre espiritismo! Ou seja, o tal estudo foi desenhado pra chegar à conclusão que chegou.
Esses são dois exemplos do que passa por “ciência” nesses círculos de pesquisas em espiritualidade. A impressão que fica é que esses pseudoestudos são simplesmente uma cobertura pra eles conseguirem empurrar uma agenda espírita no universo médico e acadêmico. O que me surpreende é como que a FAPEMG e a UFJF não perceberam isso e estão gastando os escassos recursos públicos destinados a ciência financiando esse tipo de coisa.
Contei uma dezena de pessoas se manifestando no blog sobre este post. Como você avalia o debate?
Alguns membros do NUPES se manifestaram mas não consegui achar respostas às críticas do post; uns se referiram a outros supostos estudos por pesquisadores estrangeiros, como se pseudociência fosse um privilégio brasileiro; outros preferiram o ataque pessoal ou citar a bíblia. A Letícia Alminhana, psicóloga pela PUC-RS, mestre em teologia e atual doutoranda do NUPES, deu a entender que eles estudam somente o lado humano das crenças no sobrenatural, o que sem dúvida é uma grande idéia (Daniel Dennet escreveu um ótimo livro sobre como fazer isso – “quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural”) se for feito cientificamente. O problema todo é que os estudos do NUPES não passam no crivo de nenhum cientista que se preze, apesar deles insistirem no contrário. É importante lembrar disso: pseudociência só tem a aparência superficial de ciência!
Uma das críticas apresentadas neste debate é a de que você estaria tecendo críticas baseando-se apenas num conhecimento superficial tanto do trabalho de Alexander quanto do desta área de investigação (um exemplo que me ocorre é que você cita o programa da Usp como extinto, quando ele está ativo). E realmente sei que a pesquisa dele é bem mais vasta. Você não está sendo precipitado em chamáar o grupo dele de “centro espírita” disfarçado de “grupo de pesquisa”?
Essa é uma tática de “desvio de atenção” comum na religião: cada vez que alguém critica um ponto particular geralmente os crentes tentam desviar a atenção ressaltando outras partes dessa religião que pouco ou nada tem a ver com a primeira e que o crítico (ainda) não mencionou. O fato desse outro grupo do Alexander possivelmente ainda existir, contrário ao que eu disse, não tem nada que ver com as críticas dos trabalhos que eu comentei e sim com eles conseguirem se esconder bem do google!
E sem dúvida existem outros trabalhos do Alexander ou desse mesmo tipo, de fato existem milhares. É possível que algum deles contenha algo válido cientificamente, mas é difícil ter tal esperança uma vez que a credibilidade do pesquisador ou da área é destruída por absurdos comumente encontrados. No caso particular do Alexander existem vários absurdos que fazem com que ele perca credibilidade: as críticas que eu citei no meu post e as do Paulo Bandarra e do José Colucci Jr no Observatório da Imprensa; o enorme conflito de interesses no fato dele ter vários vínculos (entre eles ser parte do conselho deliberativo) de um hospital espírita (hospitais espíritas especializam-se exclusivamente em charlatanismo e nenhum cientista sério ia querer ter qualquer vínculo com eles); a incrível credulidade e o desconhecimento (ou conveniente omissão) que ele mostra ao sugerir que existem evidências convincentes de mediunidade, reencarnação e experiências fora do corpo (não há nenhuma, de fato James Randi oferece, desde 1964, um milhão de dólares pra quem conseguir mostrar evidências do paranormal ou sobrenatural mas até hoje ninguém conseguiu nem passar do teste preliminar); suas supostas “fontes científicas” são na verdade um apanhado da literatura pseudocientifica (não falta Freud, Jung e, claro, a grande figura inspiradora do seu trabalho e o pai do espiritismo Allan Kardec).
A revista de psiquiatria da Usp é talvez a mais importante publicação do gênero na América Latina. Se o artigo foi publicado lá, é porque foi considerado como sendo expressão de boa pesquisa pelos pareceristas da revista, que, supõe-se, não tem fé religiosa. O fato de Alexander estar publicando seus trabalho em revistas indexadas de boa qualidade não é por si só um indício da qualidade da pesquisa dele? E de que ele não está abordando o tema sob nenhum prisma religioso?
O fato da revista de psiquiatria clínica da USP decidir publicar a maioria dos estudos do Alexander não é surpresa nenhuma; o orientador do doutorado dele, colega de coordenação desse outro grupo NEPER de espiritualidade na USP e coautor de pelo menos uma dezena de suas publicações, Francisco Lotufo Neto, faz parte da comissão editorial. Pior ainda, o próprio Alexander alega no seu currículo ser parte do corpo editorial desde 2005 (embora seu nome não apareça no site da revista, o que é meio estranho).
Isso só mostra que mesmo a suposta mais importante publicação do gênero na América Latina ainda tem muito o que aprender com as suas semelhantes na Europa e América do Norte. No entanto, mesmo as melhores publicações deixam passar estudos de qualidade duvidosa as vezes e cabe a comunidade científica (e isso inclui os blogs de ciência) expor essas falhas e aos autores desses estudos, se eles forem realmente honestos e interessados na busca da verdade, se retratar. Aliás é esse processo de crítica cética que garante que a ciência esteja em constante aperfeiçoamento, e que a distingue da religião por exemplo.
Por que crenças ruins não desaparecem?
Fonte: CSI – The Commitee for Skeptical Inquiry
Autor: Gregory W. Lester
Tradução: Marcus Vinicius Alves
Tendo em vista que as crenças se desenvolvem para aumentar nossa habilidade de sobrevivência, elas são biologicamente projetadas para ser fortemente resistentes às mudanças. Para mudar crenças, céticos precisam apontar os problemas de significados e as implicações de “sobrevivência” do cérebro em adição à discussão das evidências.
Sendo o princípio básico tanto do pensamento cético quanto da investigação científica de que crenças podem estar erradas, é normalmente confuso e irritante para cientistas e céticos que as crenças das pessoas não mudem, mesmo quando em confronto de evidências que as neguem. Como, nos perguntamos, as pessoas são capazes de sustentar crenças que contradizem os dados?
Essa perplexidade pode produzir uma tendência infeliz por parte dos pensadores céticos de depreciar e menosprezar pessoas cujas crenças não mudem em resposta às evidências. Elas podem ser vistas como inferiores, estúpidas, ou loucas. Essa atitude é engendrada pela falha dos céticos de entender o propósito biológico das crenças e a necessidade neurológica de que elas sejam resilientes e insistentemente resistentes às mudanças. A verdade é que por sua forma de pensar rigorosa, muitos céticos não possuem um entendimento claro ou racional do que são as crenças e porque até as mais absurdas delas não desaparecem com facilidade. Entender o propósito biológico das crenças pode ajudar os céticos a serem bem mais efetivos em confrontar crenças irracionais e em comunicar conclusões científicas.
Biologia e Sobrevivência
O propósito primário do nosso cérebro é nos manter vivos. Certamente ele faz mais que isso, mas sobrevivência sempre é seu propósito fundamental e sempre vem primeiro. Se nos machucarmos a ponto de que nossos corpos só tenham energia suficiente para manter a consciência ou os nossos corações batendo, mas não os dois, o cérebro não terá problemas em optar por nos colocar em coma (sobrevivência antes de consciência), ao invés de um estado de alerta fadado à morte (consciência antes de sobrevivência).
Por toda atividade do cérebro servir ao propósito fundamental de sobrevivência, o único caminho de entender com acurácia qualquer função cerebral é examinar seu valor como ferramenta de sobrevivência. Mesmo a dificuldade de tratar com sucesso transtornos comportamentais como a obesidade e o vício só pode ser entendida ao examinar suas relações com a sobrevivência. Qualquer redução na ingestão calórica ou na disponibilidade de uma substância a que um indivíduo é viciado sempre é percebida pelo cérebro como uma ameaça à sobrevivência. Como resultado, o cérebro poderosamente sugere o comer em excesso ou o abuso da substância, produzindo as familiares mentiras, fugas, negações, racionalizações, e justificativas comumente exibidas por indivíduos sofrendo com esses distúrbios.
Sentidos e Crenças
Umas das principais ferramentas do nosso cérebro para garantir a sobrevivência são os nossos sentidos. Obviamente, nós precisamos ser aptos a perceber com precisão o perigo, a fim de tomar medidas destinadas a nos manter seguros. Para sobreviver, precisamos ser capazes de ver o leão vindo em nossa direção quando saímos de nossas cavernas ou ouvir o intruso invadindo nossa casa no meio da noite.
Apenas os sentidos, no entanto, são inadequados como efetivos detectores de perigo, pois eles são muito limitados, tanto em alcance quanto em escopo. Podemos ter contato sensorial direto com apenas uma pequena parte do mundo a cada momento. O cérebro considera este um problema significativo, porque mesmo a vida comum do dia a dia exige que estejamos constantemente em movimento dentro e fora do alcance da nossa percepção do mundo como ele éagora. Entrar em um território que nós não vimos ou ouvimos previamente nos coloca na posição perigosa de não possuir qualquer aviso prévio de potenciais perigos. Se eu entrar em uma construção desconhecida em uma parte perigosa da cidade, minhas chances de sobrevivência diminuem porque não tenho como saber se o telhado está prestes a entrar em colapso ou alguém armado me espera no próximo corredor.
Introduzindo as crenças. “Crença” é o nome que damos à ferramenta de sobrevivência do cérebro, desenvolvida para aumentar e melhorar a função dos nossos sentidos de identificação de perigo. Crenças estendem o alcance dos nossos sentidos para que possamos detectar melhor o perigo e, assim, aumentar nossas chances de sobrevivência à medida que avançamos para dentro e fora de territórios desconhecidos. Crenças, em essência, são como “detectores de perigo de longo alcance” do nosso cérebro.
Funcionalmente, nossos cérebros tratam as crenças como “mapas” de partes do mundo com as quais nós não temos contato sensorial imediato. Enquanto estou sentado em minha sala não posso ver meu carro. Embora eu o tenha estacionado em minha garagem há pouco tempo, utilizando apenas dados sensoriais imediatos eu não sei se ele ainda está lá. Como resultado, neste momento as informações sensoriais são de pouca utilidade para mim em relação ao meu carro.
Para encontrar o meu carro com algum grau de eficiência o meu cérebro deve ignorar as informações sensoriais atuais (que, se usadas em um sentido estritamente literal, não só não me ajudam a localizar o meu carro, como em verdade indicam que ele não existe mais) e por sua vez recorrer ao seu mapa interno da localização do meu carro. Esta é a minha crença de que o meu carro ainda está em minha garagem, onde o deixei. Ao utilizar a minha crença em vez de dados sensoriais, meu cérebro pode “saber” algo sobre o mundo com o qual não tenho contato sensorial imediato. Essa capacidade “estende” o conhecimento e o contato do meu cérebro com o mundo.
A característica da crença de extensão do contato com o mundo além do alcance dos nossos sentidos imediatos melhora substancialmente nossa capacidade de sobrevivência. Um homem das cavernas tem uma probabilidade muito maior de permanecer vivo se ele é capaz de sustentar a crença de que existem perigos na selva, mesmo quando seus dados sensoriais indiquem que não há nenhuma ameaça imediata. Um policial estará substancialmente mais seguro se ele ou ela puder continuar a acreditar que alguém parado por uma infração de trânsito pode ser um psicopata armado, com um impulso de matar, mesmo que apresente uma aparência notavelmente inofensiva.
Além dos Sentidos
Tendo em vista que as crenças não precisam de dados sensoriais imediatos para ser capazes de prover o cérebro com valiosas informações para a sobrevivência, elas possuem a função de sobrevivência adicional de fornecer informações sobre aspectos da vida que não lidam diretamente com entidades sensoriais. Esta é a área das abstrações e princípios que envolvem coisas como “razões”, “causas” e “significados.” Eu não posso ouvir ou ver a “causa” chamada “zona de baixa pressão” que faz com que uma tempestade atrapalhe os meus planos do dia, então a minha capacidade de acreditar que a baixa pressão é a causa me ajuda. Se eu fosse depender estritamente de meus sentidos para determinar a causa da tempestade, eu não poderia dizer o porquê dela ter ocorrido. Pelo que eu sei, ela pode ter sido arrastada por duendes voadores invisíveis que preciso acertar com a minha espingarda, se eu quiser clarear o céu. Portanto, a confiança do meu cérebro em minha “crença” na causa chamada de “baixa pressão”, ao invés de dados sensoriais (ou, como no caso do meu carro, a ausência deles) auxilia na minha sobrevivência: Eu evito ser preso com diversos indivíduos perigosos por sair atirando para o céu em uma caça irrefreável a duendes voadores.
A Resiliência das Crenças
Sendo os sentidos e crenças duas ferramentas para a sobrevivência que evoluíram para aumentar uma à outra, nosso cérebro os considera separados, mas igualmente importantes fornecedores de informações para a sobrevivência. A perda de qualquer um dos dois nos coloca em perigo. Sem os nossos sentidos não poderíamos saber sobre o mundo dentro da nossa esfera de percepção. Sem as nossas crenças não poderíamos saber sobre o mundo exterior aos nossos sentidos ou sobre significados, razões, ou causas.
Isto significa que as crenças são projetadas para operar independentemente dos dados sensoriais. Em verdade, todo o valor de sobrevivência das crenças é baseado em sua capacidade de persistir em face de evidências contraditórias. Não é esperado que crenças mudem facilmente ou simplesmente ao ser confrontadas a evidências que as desmintam. Se o fizessem, seriam praticamente inúteis como ferramentas para a sobrevivência. Nosso homem das cavernas não iria durar muito se a sua crença em potenciais perigos na selva evaporasse cada vez que sua informação sensorial afirmasse que não há nenhuma ameaça imediata. Um policial incapaz de acreditar na possibilidade de um assassino à espreita por detrás de uma aparência inofensiva poderia facilmente terminar ferido ou morto.
Dessa forma, para o nosso cérebro, não há absolutamente nenhuma necessidade de que evidências e crenças concordem entre si. Cada um dos dois evoluiu para aumentar e complementar um ao outro ao entrar em contato com diferentes aspectos do mundo. Eles são projetados para serem capazes de discordar. É por isso que cientistas podem acreditar em Deus e pessoas que geralmente são bastante razoáveis e racionais podem acreditar em coisas para as quais não há dados confiáveis, tais como discos voadores, telepatia e psicocinese.
Quando os dados e as crenças entram em conflito, o cérebro não dá automaticamente a preferência para aos dados. É por isso que as crenças – mesmo crenças ruins, crenças irracionais, crenças tolas, ou crenças loucas – muitas vezes não desaparecem quando confrontadas com evidências contraditórias. O cérebro não se importa se a crença é corroborada ou não pelos dados. Ele apenas se importa com o quanto a crença é útil para a sobrevivência. Ponto final. Assim, enquanto a parte científica e racional do nosso cérebro pode pensar que os dados deveriam se sobressair às crenças contraditórias, em um nível mais fundamental de importância o nosso cérebro não possui tal viés. É extremamente reticente em abandonar suas crenças. Como um velho soldado com sua velha arma que não acredita de verdade que a guerra acabou, o cérebro acaba se recusando a se render mesmo que os dados digam que deveria.
Crenças “Inconsequentes”
Mesmo crenças que não pareçam claramente ou diretamente ligadas à sobrevivência (como a habilidade de nosso homem das cavernas em acreditar em perigos potenciais) ainda estão intimamente ligadas à sobrevivência. Isto se dá porque as crenças não ocorrem individualmente ou em um vácuo. Eles estão relacionados um à outra em um sistema de forte integração que cria a visão fundamental do cérebro da natureza do mundo. É deste sistema que o cérebro depende a fim de experimentar a consistência, o controle, a coesão e a segurança no mundo. Ele deve manter o sistema intacto para poder sentir que a sobrevivência está sendo alcançada com sucesso.
Isto significa que mesmo crenças aparentemente pequenas e inconsequentes podem ser tão pertinentes para a totalidade da experiência de sobrevivência do cérebro quanto as crenças que são “obviamente” ligadas à sobrevivência. Assim, tentar mudar qualquer crença, não importa o quão pequena ou boba ela possa parecer, pode produzir efeitos em cascata por todo o sistema e, consequentemente, ameaçar a experiência de sobrevivência do cérebro. É por isso que as pessoas estão comumente dispostas a defender suas crenças, mesmo que aparentemente pequenas ou superficiais. Um criacionista não tolera acreditar na precisão dos dados que indicam a realidade da evolução não pela exatidão ou inexatidão dos dados em si, mas porque mudar até mesmo uma crença relacionada a assuntos da Bíblia e da natureza da criação rachará todo um sistema de crenças, uma visão fundamental de mundo e, em última análise, a experiência de sobrevivência do seu cérebro.
Implicações para os céticos
Pensadores céticos devem entender que por causa do valor de sobrevivênciadas crenças, evidências que as confrontem raramente, talvez nunca, vão ser suficientes para mudá-las, mesmo com pessoas “normalmente tão inteligentes”. Para efetivamente mudar as crenças, céticos devem atentar para o seu valor de sobrevivência, não apenas em seu valor de precisão dos dados. Isso envolve uma infinidade de elementos.
Primeiro, os céticos não devem esperar que crenças mudem simplesmente devido aos dados ou supor que as pessoas são estúpidas porque suas crenças não mudam. É preciso evitar se tornar por demais crítico ou depreciativo em resposta à resistência das crenças. As pessoas não são necessariamente idiotas só porque suas crenças não cedem a novas informações. Os dados sempre são necessários, mas raramente são suficientes.
Em segundo lugar, os céticos devem aprender a sempre discutir não apenas o tópico específico abordado pelos dados, mas também as implicações que a mudança das crenças relacionadas terá para a visão fundamental de mundo e sistema de crenças dos indivíduos afetados. Infelizmente, abordar os sistemas de crenças é uma tarefa muito mais árdua e complicada do que simplesmente apresentar evidências contraditórias. Céticos devem discutir o significado dos seus dados em face da necessidade do cérebro para preservar seu sistema de crenças a fim de manter uma ideia de totalidade, consistência e controle. Os céticos devem se dispor a discutir problemas filosóficos fundamentais e a ansiedade existencial que fervilha quando quaisquer crenças são desafiadas. A tarefa é, em cada detalhe, tão filosófica e psicológica quanto científica e baseada em evidências.
Terceiro, e talvez mais importante, céticos devem sempre apreciar o quão difícil é para as pessoas terem suas crenças confrontadas. É, literalmente, uma ameaça ao senso de sobrevivência do seu cérebro. É completamente normal que as pessoas fiquem na defensiva em tais situações. O cérebro se sente como que lutando por sua vida. É lamentável que isso possa acarretar em comportamentos provocativos, hostis e até cruéis, mas é compreensível também.
A lição para os céticos é entender que as pessoas geralmente não possuem a intenção de serem más, grosseiras, teimosas ou estúpidas quando elas são desafiadas. É uma luta pela sobrevivência. A única maneira eficaz de lidar com este tipo de defesa é a de desarmar o conflito ao invés de inflamá-lo. Tornar-se sarcástico ou menosprezar o outro simplesmente dá às defesas da outra pessoa um ponto de apoio para impelir um “toma lá, dá cá” que justifica os seus sentimentos de estar sendo ameaçado (“É claro que lutamos contra os céticos, olha como eles são babacas e hostis!”), ao invés de se focar na verdade.
Os céticos só vão ganhar a guerra pelas crenças racionais ao continuar, mesmo quando confrontados com respostas defensivas dos outros, a usar comportamentos que são infalivelmente dignos e cuidadosos, demonstrando respeito e sabedoria. Para que os dados falem alto, os céticos devem sempre se abster de gritar.
Finalmente, deve ser reconfortante para todos os céticos lembrar que a parte verdadeiramente mais fantástica de tudo isto não é que tão poucas crenças mudem ou que as pessoas podem ser tão irracionais, mas que as crenças de qualquer um podem se modificar. A habilidade dos céticos para alterar suas próprias crenças em resposta às evidências é um verdadeiro dom; uma habilidade única, poderosa e preciosa. É genuinamente uma “função cerebral superior” na medida em que vai de encontro a algumas das mais naturais e biologicamente fundamentais necessidades. Os céticos devem entender o poder e, verdadeiramente, o risco que esta habilidade os concede. Eles têm em sua posse uma habilidade que pode ser assustadora, capaz de mudar vidas, e capaz de induzir dor. Ao direcionar esta habilidade a outrem ela deve ser usada com cuidado e sabedoria. Desafiar crenças deve sempre ser feito com zelo e compaixão.Céticos devem se lembrar de sempre manter os olhos no objetivo. Eles devem ver à longo prazo. Eles devem se esforçar em tentar vencer a guerra pelas crenças racionais, não se envolver em uma luta até a morte por qualquer batalha em particular com uma pessoa em particular ou uma crença em particular. Não só as evidências e métodos dos céticos devem ser idôneos, diretos e imparciais, como também sua atitude e conduta.
Lester, G. W. (2000). Why Bad Beliefs Don’t Die. Skeptical Inquirer., 24 (6)
Gregory W. Lester, Ph.D. é psicólogo e professor da University of St. Thomas em Houston, Texas, e atua em Houston e em Denver, Colorado.
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