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A Distância Entre o Conhecimento Escolar e a Visão de Mundo

Por: Octavio da Cunha Botelho

Enquanto que em alguns países, que encabeçam o ranking de melhor qualidade de vida (IDH), medido pela ONU (Holanda, Austrália, Irlanda, Suíça, Reino Unido, Suécia, Finlândia, Canadá e Noruega), o número de pessoas que se declaram religiosas está diminuindo, noutras regiões do mundo este número cresce aceleradamente. Quem está desde muitos anos no meio religioso, ou acompanha a sua história, se lembra dos anos 1960-80, quando muitos jovens desistiam do Cristianismo de seus pais para se juntarem aos novos grupos de misticismo oriental, pois muitos destes jovens tomavam esta decisão porque acreditavam que o Cristianismo era uma religião decadente, destinada a desaparecer em breve.  Então, é curioso observar como nos países do topo do ranking do IDH a onda de misticismo oriental diminuiu para dar lugar a um crescente secularismo, enquanto que nos outros países, nas posições seguintes do ranking, o misticismo oriental diminuiu para dar espaço ao ressurgimento do Cristianismo, com exceção dos seguintes países: China, Cuba e Coréia do Norte.

Agora, um fato intrigante nos países onde a religiosidade está crescendo não é só a velocidade deste crescimento, mas surpreendentemente, também o aumento do número de religiosos com alta escolaridade.  O Brasil é um deles. Enquanto muitos pensam que religião é assunto para os desinformados, espanta testemunhar atualmente pessoas de alta formação acadêmica, ou mesmo profissionais de sucesso, envolvidos com as religiões tradicionais que, para os jovens das gerações de algumas décadas anteriores, eram instituições moribundas. O resultado é uma polaridade que coloca de um lado os elevados conhecimentos científicos e tecnológicos que fazem as pessoas exercerem suas profissões com brilhantismo, e do outro lado, uma visão de mundo com base em uma mentalidade obsoleta, que as leva a assumir um modo de vida religioso correspondente. O interessante é que, quando conversamos com estas pessoas, é curioso notar o contraste entre o alto nível das suas idéias seculares e das suas conquistas profissionais, com o baixo nível das suas concepções pessoais e da sua visão de mundo, sobretudo quando falam de valores e de religião.  Até parece que são pessoas que vivem em duas épocas distintas, ou seja, que profissionalmente vivem no século XXI, mas religiosamente vivem na Antiguidade ou na Idade Média. Elas falam de assuntos seculares com racionalidade e com cientificidade, no entanto, acreditam, ao mesmo tempo, em crenças tão infantis e ingênuas que até parece que não são as mesmas pessoas que estão falando.

Um dos exemplos mais intrigantes na comunidade científica é o de Francis S. Collins, um dos mais respeitados cientistas da atualidade, foi diretor do Projeto Genoma nos anos 2000, porém um cristão devoto. Em seu livro, A Linguagem de Deus (Editora Gente, 2007), é possível notar o brilhantismo de Collins quando fala de Biologia em contraste com a ingenuidade das suas idéias quando fala das suas convicções religiosas. Daí que é curioso questionar porque estas pessoas não transferem os seus conhecimentos científicos, recebidos na sua formação escolar, bem como os seus conhecimentos técnicos de profissão, para a formação de sua visão de mundo e da conseqüente escolha do seu modo de vida. O quando transferem, como no caso de Collins e outros, afirmam não encontrar nenhum conflito. Outros chegam até a fazer conciliações entre as idéias científicas e as crenças religiosas.

Este artigo não pretende analisar a questão acima desde todos os pontos de vista existentes, quer seja o social, o psicológico, o econômico e o político, mas apenas do ponto de vista educacional. Então, resta saber o que, no momento, causa esta distância cultural entre a educação escolar e a visão de mundo das pessoas. Por que elas não são capazes de conciliar seus conhecimentos seculares com sua visão de mundo?  Então surgem as perguntas: o que falta para que esta ponte seja feita? Quem seria o responsável na construção desta ponte?

O agente ideal para construir esta ponte, que ligaria a educação escolar com a formação da visão de mundo das pessoas e escolha de modo de vida, é a Filosofia. Uma das razões, que pretendo explicar aqui, é que esta ponte não foi até agora construída com solidez porque as escolas, tanto secundárias como universitárias, bem como a comunidade filosófica em geral, estão repletas de filósofos que são religiosos em sua vida privada (padres, pastores, ex-padres, teólogos, místicos, etc.).  De modo que, eles ensinam Aristóteles, os iluministas, Bertrand Russell, Sartre e outros nas escolas para depois ouvirem sermões e rezarem nas igrejas nos finais de semana. Se for certo que o exemplo vem de cima, então qual lado acreditar destes filósofos: o seu ensinamento filosófico nas escolas ou a sua convicção pessoal e religiosa?

O número de escolas com disciplina de Filosofia está aumentado no Brasil, mas este aumento poderá ser inócuo, pois está aumentando também o número de professores carolas. Que efeito terá ensinar Filosofia no horário de aula, e depois o mesmo professor falar de sua admiração pelas crenças religiosas nos corredores da escola nos intervalos das aulas? Qual ensinamento os alunos assimilarão?

Uma vez que as escolas secundárias e as universidades não são capazes de corrigir esta deficiência, aumenta-se, cada vez mais, a formação de grupos, de associações, de ligas e de sociedades seculares e ateístas para tentar cobrir este buraco, que a Filosofia não foi capaz de tapar, por conta do grande número de professores carolas, entre os conhecimentos que os estudantes recebem nas escolas e o aproveitamento dos mesmos para a formação de suas visões de mundo e da escolha do modo de vida.  Este trabalho tem de ser feito pela Filosofia, uma vez que a Ciência não é um empreendimento de formação e de julgamento de valores, esta tarefa é da Filosofia, portanto é ela quem tem que construir esta ponte entre o conhecimento científico e a formação de visão de mundo de cada indivíduo, através do juízo de valores seculares. Do jeito que está a situação atual, as pessoas instruídas sabem fazer uso da Ciência e da tecnologia em assuntos seculares, mas na hora de fazer juízo de valores, elas ainda recorrem à religião, pois não aprenderam a fazer estes juízos a partir da cultura secular que receberam na escola, pois esta função cabe à Filosofia.

Por exemplo, segundo levantamentos, o número de pessoas que ainda acredita que o mundo foi criado por deus é muito maior do que o número daquelas que acreditam que o mundo é produto da evolução. Surpreende quando encontramos muitos diplomados em universidades que ainda acreditam na criação divina.  A razão da sobrevivência de tal crença pode ser que, ao analisarem a criação do mundo, estas pessoas a associam à vida e, conseqüentemente, a um significado, a um sentido e a uma finalidade para a existência humana, de maneira que não separam o mundo e a vida de um lado e o destino humano de outro. Para elas, o mundo e a vida existem, como se pensava na Antiguidade e na Idade Média, em razão do destino humano. Uma vez que não é o papel da ciência determinar o significado e a finalidade para a vida e o destino humano, as pessoas continuam a se prender às concepções religiosas quando refletem sobre a criação do mundo.

A Filosofia Contemporânea tem a tarefa de esclarecer esta separação entre o mundo e o destino humano, bem como, a de explicar como a cultura religiosa, no passado, criou esta associação, que se tornou tão entranhada na mentalidade humana.

De maneira que, o trabalho destas associações e sociedades de levar a cultura de valores seculares à população será muito penoso, em virtude do estrago deixado pelo mau exemplo dos filósofos carolas. Por exemplo, a Racionalist International, uma associação secular sediada na Índia, mantém um programa, com autorização do governo, através de agentes desta associação que visitam regularmente as escolas secundaristas daquele país, para falar do valor e da importância do pensamento racional e da Ciência, uma vez que lá a Filosofia Ocidental não é ensinada nas escolas. Agora, será que, mesmo com o ensino da Filosofia nas escolas aqui, a implantação de um mesmo programa será necessária e conseguirá reverter a situação?  Será possível um dia erradicar a carolice do ambiente filosófico?  Bem…  só a Evolução sabe!

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Resenha do Livro: O Ímpio, de Fábio Marton

Apresentação da obra:

Trata-se de uma auto-biografia de um garoto muito religioso provindo de família também muito religiosa (o avô era pastor, sem contar os parentes praticantes) que entra em conflito com os dilemas e “rituais” religiosos quando começa a pensar um pouco mais além da bíblia. Tudo num ambiente que vai do pastelão religioso até momento pesarosos e reflexivos.

Estrutura da obra:

A obra é dividida em 7 capítulos cronológicos, todos em primeira pessoa, além de adendos entre a passagem dos capítulos.

Análise crítica

Pode-se dividir cada capítulo em partes filosoficamente diferentes entre si. Iniciando-se do prólogo até o epílogo, nota-se o desenvolvimento do pensamento do autor ao longo dos problemas que vão surgindo em sua vida sendo um evangélico, como a adolescência e seus hormônios, o questionamento da morte e a ditadura do “porque é assim porque sempre foi assim”. O fluir do pensamento ao longo dos capítulos pode lembrar muito os diálogos filosóficos do Horácio, personagem da Turma da Mônica, devido às crises existenciais e, em parte, do saudosismo do tempo em que éramos inocentes enão percebíamos a própria hipocrisia.

Há uma constante tensão sobre o advento do medo da punição pela oniciência e onipresença divina, levando-nos ao motivo do “por que estou aqui ainda?” para momentos de rompimento parcial das tradições religiosas. Há várias passagens de diálogo crítico e cético, às vezes de caráter até irônico, até finalmente o rompimento religioso esperado. Pessoalmente, alguns capítulos são a aplicação prática de filosofias de pensadores modernos como Foulcault e Satre e, já da metade para o final do livro, Nietzsche e Russell. Curiosamente, quando li o prólogo de “O Ímpio”, lembrei-me da seguinte passagem de Cazuza, de Viriato Correa:

“Não me lembro qual a minha idade quando ficou decidido que, no ano seguinte, eu entraria na escola. Mas eu devia ser muito, muito pequeno. Tão pequenino que não pronunciava direito as palavras e ainda chupava o dedo e vestia roupinhas de menina. (…)

Dois motivos é que me deram vontade de estudar.
O primeiro deles – as calças. Desde que me entendi, tive a preocupação de ser homem e nunca me pude ajeitar nos vestidinhos rendados de menina. Sempre olhei com inveja os garotos mais taludos do que eu, não porque eles fossem maiores e gozassem regalias que os garotinhos não gozam, mas porque usavam calças.(…)

O segundo motivo é que o primeiro contato que tive com uma escola foi através de uma festa. E ficou-me na cabeça a idéia de que a escola era um lugar de alegria.”

Religiosos e não religiosos vão se identificar com partes e passagens, numa leitura dinâmica e agradável. As dúvidas compartilhadas pelo autor são às vezes simples, mas com certeza 10 em 10 crentes já se perguntaram uma vezinha só sobre os assuntos. O final do livro é esperado, porém o que vale é o caminho e a arguição envolvidos para se chegar ao final. O bom do livro não é o final, mas o meio, o raciocínio para compor um final já esperado.

PS: O problema, sem sombra de dúvidas, é a questão da capa, pois o religioso ou aquele ateu simpatizante por religiões não terá tanta simpatia pela capa de primeira olhada. Uma capa mais formal, neutra e que transmita algo menos turbulento ao leitor seria uma melhor pedida.

O ÍMPIO – O EVANGELHO DE UM ATEU

Autor Fábio Marton

Editora Leya

221 páginas divididas em 7 capítulos (ou versículos – há)

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Até a próxima, Racionalista!