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Entrevista na Superinteressante sobre Alexander Moreira e o NUPES
Pouco menos de um ano atrás concedi uma entrevista por email para Pablo Nogueira, repórter da revista Superinteressante, a respeito do post que escrevi sobre Alexander Moreira Almeida e o NUPES. A reportagem foi publicada na edição deste mês (outubro 2011). Ainda não tive a oportunidade de ler mas dada a natureza da publicação (a Superinteressante é famosa pelo sensacionalismo, distorção e incompreensão científica) não tenho boas expectativas. A chamada na capa só reforça minhas suspeitas:
Ciência espírita
Eles são cientistas. E eles acreditam em espíritos e reencarnação. Agora, estão usando o laboratório para tentar provar que isso existe.
Abaixo está a entrevista na íntegra. Deixo ao leitor julgar se o que foi publicado condiz ou não com o que eu escrevi. Quando tiver lido a matéria publico a minha opinião.
Qual é a sua formação e o que você está fazendo no canadá?
Comecei estudando psicologia na PUC-RS e foi aí que tive meu primeiro contato direto com pseudociência e com a enrolação pós-moderna e o pensamento anticientífico que assombram as coitadas das ciências humanas no Brasil. Talvez você possa dizer que algo assim já era de se esperar de uma “universidade católica,” mas essa é uma conclusão que não vem tão fácil à um adolescente de 17 anos! A psicologia científica era praticamente ignorada ou mal-compreendida e a ênfase era em psicoterapia, que por si só é a área mais questionável da psicologia. Como eu tinha uma dificuldade muito grande em compreender coisas como a “intersubjetividade do eu,” a “posição esquizo-paranóide” etc, resolvi, pro alívio dos professores, que deveria procurar um curso mais adequado às minhas capacidades. Me mudei pra Grã-Bretanha onde fui aceito na University of Edinburgh e me formei em matemática. Atualmente estou fazendo mestrado em psicobiologia na USP-RP. Minha linha de pesquisa é em neurociência computacional. Vim fazer parte do mestrado aqui no Canadá, no laboratório de Aprendizado por Reforço e Inteligência Artificial da University of Alberta, através de um programa chamado Emerging Leaders in the Americas.
O que é a sociedade racionalista usp? Como você se envolveu com ela?
A Sociedade Racionalista USP é um grupo formado por estudantes céticos, ateus e agnósticos que organiza eventos e atividades com o objetivo de divulgar a ciência e o pensamento crítico no campus e fora dele. Ela segue o modelo das sociedades estudantis muito comuns nas universidades da Grã-Bretanha e da América do Norte mas que, até onde eu saiba, infelizmente são quase inexistentes no Brasil. Tive a ideia de começar uma depois de ver que as únicas organizações estudantis do gênero na USP eram grupos de oração!
Como você tomou conhecimento do trabalho do Alexander Moreira?
Recebi um email sobre uma palestra do Alexander promovida pelo programa de pós-graduação em saúde na comunidade da USP-RP. O título era ”a contribuição das pesquisas sobre experiências espirituais para o aprimoramento do diagnóstico psiquiátrico e da relação mente-cérebro” e isso fez soar todos os meus alarmes anti-pseudociência. Experiências espirituais? Aprimoramento da relação mente-cérebro? Fui procurar mais informações no website do NUPES e minhas suspeitas se confirmaram.
Por que resolveu escrever um post sobre o trabalho dele?
Eu acho que desbancar estudos pseudocientíficos além de ser um exercício divertido de lógica e metodologia científica é também uma ótima oportunidade para divulgar essas ferramentas mentais para o público em geral. Um programa de TV sobre as diferenças entre os testes de hipóteses estatísticos paramétricos e não-paramétricos certamente teria uma audiência muito limitada mas quando essas coisas são mencionadas no meio de uma crítica à homeopatia ou espiritismo as pessoas tendem a prestar mais atenção. Eu também acho que pseudociência não deveria ser promovida ou financiada por instituições públicas como hospitais e universidades.
No texto do blog você tece, brevemente críticas a dois artigos de Alexander. Peço a você que, nesta pergunta apresente suas críticas a cada artigo, com o máximo de fundamentação possível.
A primeira publicação que citei, “o diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos mentais de conteúdo religioso”, que parece ser um tema popular do Alexander, se propõe a estabelecer critérios para distinguir um transtorno mental de ditas “experiências espirituais.” Para isso, os autores dispensam com experimentos e laboriosas análises estatísticas e oferecem, ao invés, uma lista de nove critérios extraídos, sem nenhuma quantificação aparente, de uma literatura que eles julgaram adequada. Ora, tenho certeza de que qualquer pessoa procurando na literatura que ela quiser vai achar comprovação pro que ela quiser. Essa é mais uma falácia comum entre os pseudocientistas; se chama “viés ou tendência para a confirmação” e consiste em notar apenas aquilo que confirma sua crença e ignorar o que a contradiz. E de fato a maioria das 59 referências desse estudo são sobre espiritualidade, transcendência, parapsicologia, experiências de quase-morte e coisas do gênero. Os tais nove critérios variam entre o óbvio — “ausência de sofrimento psicológico” — o contraditório — “existe uma atitude crítica sobre a realidade,” é difícil entender como que uma pessoa que acha que está sendo possuída pelo demônio consegue ter uma atitude crítica sobre a realidade — e o completamente vago — “a experiência é controlada” e “gera crescimento pessoal.”
A segunda, “recognition and treatment of psychotic symptoms: spiritists compared to mental health professionals in Puerto Rico and Brazil,” chega a conclusão notável de que as técnicas dos médiuns e curandeiros espíritas são tão ou mais eficazes no tratamento da esquizofrenia que as da psiquiatria baseada em evidências. Certamente ele usou um design experimental duplo ou pelo menos único-cego, atribuiu os tratamentos espíritas e científicos aleatoriamente entre os sujeitos, acompanhou o desenvolvimento clínico deles por um bom tempo após as intervenções e avaliou estatisticamente os resultados, certo? Nada disso! Novamente eles escolheram os médiuns que gostaram mais, entrevistaram alguns “pacientes” desses médiuns, e compararam os resultados (sabe-se lá como pois eles não explicam) com estudos de casos “parecidos” discutidos em conferências sobre espiritismo! Ou seja, o tal estudo foi desenhado pra chegar à conclusão que chegou.
Esses são dois exemplos do que passa por “ciência” nesses círculos de pesquisas em espiritualidade. A impressão que fica é que esses pseudoestudos são simplesmente uma cobertura pra eles conseguirem empurrar uma agenda espírita no universo médico e acadêmico. O que me surpreende é como que a FAPEMG e a UFJF não perceberam isso e estão gastando os escassos recursos públicos destinados a ciência financiando esse tipo de coisa.
Contei uma dezena de pessoas se manifestando no blog sobre este post. Como você avalia o debate?
Alguns membros do NUPES se manifestaram mas não consegui achar respostas às críticas do post; uns se referiram a outros supostos estudos por pesquisadores estrangeiros, como se pseudociência fosse um privilégio brasileiro; outros preferiram o ataque pessoal ou citar a bíblia. A Letícia Alminhana, psicóloga pela PUC-RS, mestre em teologia e atual doutoranda do NUPES, deu a entender que eles estudam somente o lado humano das crenças no sobrenatural, o que sem dúvida é uma grande idéia (Daniel Dennet escreveu um ótimo livro sobre como fazer isso – “quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural”) se for feito cientificamente. O problema todo é que os estudos do NUPES não passam no crivo de nenhum cientista que se preze, apesar deles insistirem no contrário. É importante lembrar disso: pseudociência só tem a aparência superficial de ciência!
Uma das críticas apresentadas neste debate é a de que você estaria tecendo críticas baseando-se apenas num conhecimento superficial tanto do trabalho de Alexander quanto do desta área de investigação (um exemplo que me ocorre é que você cita o programa da Usp como extinto, quando ele está ativo). E realmente sei que a pesquisa dele é bem mais vasta. Você não está sendo precipitado em chamáar o grupo dele de “centro espírita” disfarçado de “grupo de pesquisa”?
Essa é uma tática de “desvio de atenção” comum na religião: cada vez que alguém critica um ponto particular geralmente os crentes tentam desviar a atenção ressaltando outras partes dessa religião que pouco ou nada tem a ver com a primeira e que o crítico (ainda) não mencionou. O fato desse outro grupo do Alexander possivelmente ainda existir, contrário ao que eu disse, não tem nada que ver com as críticas dos trabalhos que eu comentei e sim com eles conseguirem se esconder bem do google!
E sem dúvida existem outros trabalhos do Alexander ou desse mesmo tipo, de fato existem milhares. É possível que algum deles contenha algo válido cientificamente, mas é difícil ter tal esperança uma vez que a credibilidade do pesquisador ou da área é destruída por absurdos comumente encontrados. No caso particular do Alexander existem vários absurdos que fazem com que ele perca credibilidade: as críticas que eu citei no meu post e as do Paulo Bandarra e do José Colucci Jr no Observatório da Imprensa; o enorme conflito de interesses no fato dele ter vários vínculos (entre eles ser parte do conselho deliberativo) de um hospital espírita (hospitais espíritas especializam-se exclusivamente em charlatanismo e nenhum cientista sério ia querer ter qualquer vínculo com eles); a incrível credulidade e o desconhecimento (ou conveniente omissão) que ele mostra ao sugerir que existem evidências convincentes de mediunidade, reencarnação e experiências fora do corpo (não há nenhuma, de fato James Randi oferece, desde 1964, um milhão de dólares pra quem conseguir mostrar evidências do paranormal ou sobrenatural mas até hoje ninguém conseguiu nem passar do teste preliminar); suas supostas “fontes científicas” são na verdade um apanhado da literatura pseudocientifica (não falta Freud, Jung e, claro, a grande figura inspiradora do seu trabalho e o pai do espiritismo Allan Kardec).
A revista de psiquiatria da Usp é talvez a mais importante publicação do gênero na América Latina. Se o artigo foi publicado lá, é porque foi considerado como sendo expressão de boa pesquisa pelos pareceristas da revista, que, supõe-se, não tem fé religiosa. O fato de Alexander estar publicando seus trabalho em revistas indexadas de boa qualidade não é por si só um indício da qualidade da pesquisa dele? E de que ele não está abordando o tema sob nenhum prisma religioso?
O fato da revista de psiquiatria clínica da USP decidir publicar a maioria dos estudos do Alexander não é surpresa nenhuma; o orientador do doutorado dele, colega de coordenação desse outro grupo NEPER de espiritualidade na USP e coautor de pelo menos uma dezena de suas publicações, Francisco Lotufo Neto, faz parte da comissão editorial. Pior ainda, o próprio Alexander alega no seu currículo ser parte do corpo editorial desde 2005 (embora seu nome não apareça no site da revista, o que é meio estranho).
Isso só mostra que mesmo a suposta mais importante publicação do gênero na América Latina ainda tem muito o que aprender com as suas semelhantes na Europa e América do Norte. No entanto, mesmo as melhores publicações deixam passar estudos de qualidade duvidosa as vezes e cabe a comunidade científica (e isso inclui os blogs de ciência) expor essas falhas e aos autores desses estudos, se eles forem realmente honestos e interessados na busca da verdade, se retratar. Aliás é esse processo de crítica cética que garante que a ciência esteja em constante aperfeiçoamento, e que a distingue da religião por exemplo.
A Neurologia das Experiências de Quase Morte
Assunto infelizmente recorrente nos círculos acadêmicos brasileiros é a alegação que o espiritismo é uma ciência e/ou é comprovado por evidências científicas. Nossa própria USP-RP conta com um grupo de estudos em espiritismo e ciência, organizado por um estudante de medicina e uma estudante de enfermagem, que dentre outras coisas alega possuir evidências conclusivas da existência de espíritos. Apesar de alguns membros intrépidos da Sociedade Racionalista já haverem comparecido às reuniões, os organizadores até agora falharam em lhes mostrar as tais evidências.
Já escrevi sobre um grupo de pesquisa de uma universidade federal, o NUPES, que em suas publicações parece sempre chegar a resultados positivos sobre intervenções religiosas (uma sessão com um médium por exemplo). Porém, uma análise mais detida dessas publicações mostra que nenhuma investigação experimental controlada foi feita, que as conclusões são quase exclusivamente baseadas em estudos de caso ou revisões bibliográficas e que os supostos ‘efeitos positivos’ da intervenção religiosa são relatados de forma vaga e sem descrição quantitativa. No entanto a idéia que o NUPES parece querer passar fica sempre clara: (1) intervenções religiosas como cirurgias espíritas, consultas com médiuns, reza, etc, são eficazes; (2) a explicação sobrenatural destes fenômenos não pode ser completamente verificada mas é válida e não pode ser descartada. E de acordo com o coordenador do NUPES, Alexander Moreira de Almeida, existem até mesmo evidências de casos genuínos de mediunidade, reencarnação e experiências de quase morte.
No que diz respeito a mediunidade e reencarnação, não só não existem evidências de que esses fenômenos são genuínos como abundam confissões e evidências de fraude. Médiuns como Chico Xavier dizem ter canalizado espíritos de escritores e produziram como ‘prova’ livros de literatura e poesia que poderiam muito bem ter sido escritos por qualquer pessoa, mas nunca escreveram uma simples equação matemática ou química nem descreveram nenhuma teoria complexa que um ‘espírito matemático/cientista’ poderia estar trabalhando em um suposto mundo espiritual. O que é mais provável: que espíritos de cientistas/matemáticos não vão para o mundo espiritual ou que o médium não entenda nada de matemática/física/química para fabricar uma equação que possa enganar um cientista experiente? A fundação James Randi oferece um prêmio de 1 milhão de dólares a qualquer um que mostrar evidências de paranormalidade ou poder sobrenatural. Até hoje ninguém passou nem pelos testes preliminares.
Quanto às experiências de quase morte, o post seguinte, retirado do excelente blog Ceticismo Aberto, mostra que essas também não parecem ter nada de sobrenatural.
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Artigo de Alex Likerman, publicado em Happiness in this World
Traduzido por colaboração de Rodrigo Véras e André Rabelo
Eu nunca tive um paciente que confessasse ter tido uma experiência de quase morte (EQM), mas recentemente me deparei com um livro fascinante chamado O Portal Espiritual no Cérebro (The Spiritual Doorway in the Brain) de Kevin Nelson, que relata que cerca de 18 milhões de americanos podem ter tido uma. Se for verdade, é provável não apenas que alguns dos meus pacientes estejam entre eles, mas também alguns dos meus amigos. O que me levou a pensar: o que exatamente a ciência tem a nos dizer sobre a sua causa?
Que EQMs acontecem não está em disputa. A sequência e os tipos de eventos dos quais elas são compostas são suficientemente similares entre as pessoas que as relatam de tal forma que EQMs poderiam ser consideradas como algum tipo de síndrome, semelhante a uma doença sem causa conhecida. Mas apenas porque milhões de pessoas já viveram EQMs, isso não significa que a explicação mais comumente aceita para elas – que almas deixam os corpos e encontram deus ou alguma outra evidência de vida após a morte – esteja correta.
Afinal de contas, as pessoas interpretam erroneamente as suas experiências o tempo todo (uma ilusão ótica representando o exemplo mais básico). Sem dúvida, muitas pessoas que relatam EQMs são profundamente afetadas por elas, mas, geralmente, mais como um resultado de suas interpretações das experiências (i.e., “a vida após a morte é real”) do que como resultado da experiência em si. Acontece que um número de observações reproduzíveis combinado com uma pitada de conjecturas gerou uma explicação neurológica inteiramente plausível para todos os casos de experiências que incluam EQM.
Em seu livro, Nelson comenta que normalmente 20% do fluxo sanguíneo é direcionado para o cérebro, mas que este fluxo pode abaixar para 6% antes de ficarmos inconscientes (e mesmo nesse nível, nenhum dano permanente será causado). Nelson ainda observa que quando nossa pressão sanguínea diminui demais e desmaiamos, o nervo vago (um longo nervo que se conecta com o coração) desloca a consciência para o sono REM – mas não totalmente em algumas pessoas. Um número de sujeitos parece ser suscetível ao que ele chama de “intromissão REM”.
A intromissão REM ocorre tipicamente, quando ocorre, na transição da vigília para o sono. Nelson descobriu em sua pesquisa que o funcionamento do mecanismo que alterna as pessoas entre o sono REM e a vigília tendeu a ser diferente naquelas que relataram EQMs. Nessas pessoas, ele descobriu que a mudança era mais propensa a “fragmentar e misturar” esses dois estados de consciência (o controle do nosso estado de consciência é localizado no nosso tronco cerebral e é precisamente regulado), fazendo com que essas pessoas exibam simultaneamente características de ambos. Durante a intromissão REM, as pessoas se viram paralisadas (“paralisia do sono”), totalmente despertas, mas experimentando luzes, sensações fora do corpo e narrativas surpreendentemente vívidas. Durante o sono REM, muitos dos centros de prazer do cérebro são estimulados também (animais que tiveram suas regiões REM danificadas perderam todo o interesse em comida e até em morfina), o que pode explicar os sentimentos de paz e unicidade também relatados durante EQMs.

A neurofisiologia também pode explicar o sentimento de estar se movendo através de um túnel, tão regularmente mencionado em EQMs. É bem sabido que pessoas experimentam uma “visão de túnel” imediatamente antes de desmaiar. Experimentos com pilotos girados em centrífugas gigantes têm reproduzido o fenômeno de visão de túnel, aumentando as forças G e diminuindo o fluxo sanguineo em suas retinas (a periferia da retina é mais suscetível a quedas na pressão sanguínea do que o seu centro, de tal forma que o campo de visão parece comprimido, fazendo cenas parecerem vistas dentro de um túnel). Quando óculos especiais que geram sucção foram colocados nos olhos dos pilotos para neutralizar o efeito de queda da pressão sanguínea da centrífuga, os pilotos perderam a consciência sem desenvolver o efeito da visão de túnel – provando que a experiência da visão de túnel é causada por uma redução no fluxo sanguineo dos olhos.
Talvez o aspecto mais intrigante das EQMs seja o quão costumeiramente elas estão associadas com experiências fora do corpo. Isso também, entretanto, trata-se de uma ilusão. Evidências de que experiências fora do corpo nada têm a ver com almas deixando corpos podem ser encontradas na observação de que elas também têm sido relatadas por pessoas acordando do sono, recuperando-se de anestesia, enquanto estão desmaiando, durante convulsões, durante enxaquecas e quando estão em altas altitudes (não há razão para pensar que as almas das pessoas estão deixando seus corpos durante nenhuma dessas situações não ameaçadoras para a vida).
Mas as evidências mais fascinantes de que experiências fora do corpo são fenômenos neurológicos vêm dos estudos feitos inicialmente na década de 1950 por um neurocirurgião chamado Penfield. Ele estava interessado em compreender como poderia distinguir tecidos cerebrais normais de tumores cerebrais ou “cicatrizes” que eram responsáveis por causar convulsões. Ele estimulou os cérebros de centenas de pacientes conscientes no esforço de mapear o córtex cerebral e entender aonde em nossos cérebros nosso corpo físico é representado.
Um paciente sofria de danos no lobo temporal e quando Penfield estimulou a região temporoparietal do seu cérebro, ele relatou ter deixado o seu corpo. Quando a estimulação parou, ele “voltou”, e quando Penfield estimulou a região temporoparietal de novo, ele deixou o seu corpo mais uma vez. Penfield também descobriu quando variava a corrente e a localização do estímulo, podia fazer os membros do seu paciente parecerem encurtados ou produzir uma cópia de seu corpo que existia ao seu lado!
Em o Cérebro Contador de Histórias (The Tell-tale Brain), V. S. Ramachandran descreve um paciente que teve um tumor removido da sua região frontoparietal direita e desenvolveu um “gêmeo fantasma” ligado ao lado esquerdo do seu corpo. Quando Ramachandran colocou água fria no seu ouvido (um procedimento conhecido como teste calórico de água fria, o qual estimula o sistema de equilíbrio do cérebro, conhecido por ter conexões com a região frontoparietal), o gêmeo do paciente se afogou, movimentou-se e mudou de posições.
Neurologistas têm reconhecido desde então que a região temporoparietal do cérebro é responsável por manter a representação de nossos esquemas corporais. Quando uma corrente externa é aplicada nessa região, ela para de funcionar normalmente e nossa representação do corpo “flutua”. Outras evidências de que esse fenômeno é uma ilusão vêm de experimentos nos quais as pessoas que tiveram experiências fora do corpo enquanto passavam do sono para a vigília eram incapazes de identificar objetos colocados no quarto depois que adormeciam, sugerindo fortemente que a imagem que viram deles mesmos dormindo nas suas camas era reconstruída em sua memória. Embora não exista ainda nenhuma evidência de que níveis baixos de oxigênio no sangue causem disfunção da região temperoparietal da mesma forma que uma corrente aplicada, esta permanece como uma hipótese testável e a explicação mais provável.
Em suma, embora longe de estar provada como uma explicação para o que realmente explica as EQMs, a hipótese da intromissão REM tem mais evidências para corroborá-la do que a idéia de que nós realmente deixamos nossos corpos quando a morte está à espreita.
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Mais informações sobre experiências de quase morte:
- Keith Augustine (2008) – Experiências alucinatórias de quase morte
- Página de Olaf Blanke, grande pesquisador da área
- Vídeos do Laboratório de Neurociência Cognitiva (LNCO)
- Página de Al Cheyne, grande pesquisador da área
- Artigos disponíveis de Al Cheyne sobre paralisia do sono
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Centro Espírita Disfarçado de Grupo de Pesquisa na Universidade Federal de Juiz de Fora
Nesta segunda-feira, 25 de outubro, o Programa de Pós-Graduação em Saúde na Comunidade da USP-RP promove a seguinte palestra:
“A contribuição das pesquisas sobre experiências espirituais para o aprimoramento do diagnóstico psiquiátrico e da relação mente-cérebro”
PALESTRANTE: Prof. Dr. Alexander Moreira de Almeida
- Professor Adjunto de Psiquiatria e Semiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF
- Diretor do NUPES – Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da UFJF
Uma das táticas mais comuns de charlatões e pseudocientistas é encobrir seus devaneios com jargões pseudocientíficos na tentativa de ganhar credibilidade e até financiamento público. No caso do NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) na Universidade Federal de Juiz de Fora nem foi preciso um esforço muito grande. Bastou usar a palavra “espiritualidade” ao invés de espiritismo e voilá, não se trata mais de um centro espírita financiado pelo contribuinte mas sim de um grupo de pesquisa que
tem como missão desenvolver pesquisas interdisciplinares de excelência sobre as relações entre espiritualidade e saúde.
Apesar do jogo de palavras, está claro que este não se trata de um grupo de pesquisa de verdade que estuda a religião como um fenômeno natural, um objetivo que seria perfeitamente válido. A lista de publicações entrega o jogo. A maioria publicada na Revista de Psiquiatria Clínica da USP, consistem simplesmente de levantamentos de bibliografia espírita e de análises qualitativas completamente enviesadas.
Tome por exemplo o resumo abaixo de uma das publicações do palestrante e coordenador do NUPES, Dr. Alexander Moreira de Almeida (que também faz parte do conselho deliberativo do hospital espírita joão evangelista) intitulada O diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos mentais de conteúdo religioso
CONTEXTO: Experiências espirituais podem ser confundidas com sintomas psicóticos e dissociativos, constituindo-se muitas vezes em um desafio para o diagnóstico diferencial.
OBJETIVO: Identificar critérios que permitam a elaboração de um diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos psicóticos e dissociativos.
MÉTODOS:Foi feita uma ampla revisão na literatura sobre o tema, na qual foram examinados 135 artigos identificados em pesquisa no PubMed.
RESULTADOS:Foram identificados nove critérios de maior concordância entre os pesquisadores que poderiam indicar uma adequada diferenciação entre experiências espirituais e transtornos psicóticos e dissociativos. São eles, em relação à experiência vivida: ausência de sofrimento psicológico, ausência de prejuízos sociais e ocupacionais, duração curta da experiência, atitude crítica (ter dúvidas sobre a realidade objetiva da vivência), compatibilidade com o grupo cultural ou religioso do paciente, ausência de comorbidades, controle sobre a experiência, crescimento pessoal ao longo do tempo e uma atitude de ajuda aos outros. A presença dessas condições sugere uma experiência espiritual não patológica, mas, por outro lado, há carência de estudos bem controlados testando esses critérios.
CONCLUSÕES:Esses critérios propostos na literatura, embora alcançando um consenso expressivo entre diferentes pesquisadores, ainda precisam ser testados empiricamente e direções metodológicas para as futuras pesquisas sobre esse tema são sugeridas. Palavras-chave: Alucinação, dissociação, possessão, transe.
Sem apresentar qualquer prova de que as ditas experiências espirituais realmente existem, o artigo consiste de citação após citação de uma literatura ultrapassada e/ou pseudocientífica de onde os autores extraem nove critérios que (não ria, eles estão falando sério) servem para diferenciar se uma pessoa está psicótica ou simplesmente possuída.
Em uma outra publicação, os autores vão ainda mais além e afirmam, novamente sem nenhuma base científica, que médiums e curandeiros espíritas em Puerto Rico e Brasil
often achieve positive results with persons manifesting psychotic symptoms or diagnosed with schizophrenia in that symptoms become less frequent and/or social adjustment improves. (em português: frequentemente obtem resultados positivos em pessoas manifestando sintomas psicóticos ou diagnosticados com esquizofrenia em que os sintomas se tornam menos frequentes e/ou o ajustamento social melhora.)
Em pesquisas verdadeiramente científicas tal conclusão só é tirada após um ou mais estudos onde os pacientes são cuidadosamente selecionados por apresentarem sintomas específicos e onde qualquer outra variável que possa influenciar os resultados (idade, sexo, renda, etc) é controlada. Os pacientes são então divididos (sem saber) em grupos, um experimental, onde a intervenção clínica que se deseja estudar é administrada, e um ou mais grupos controle, onde outras intervenções (ou mesmo apenas uma entrevista ou outra atividade que não seja uma intervenção clínica) são administradas. Os pacientes são então avaliados (geralmente por outros médicos que não sabem à qual grupo cada paciente pertence) seguindo critérios específicos e quantificáveis como por exemplo duração e frequência de surtos, etc, e os resultados são analisados estatisticamente para verificar se há diferenças significativas entre os tratamentos.
Nada disso foi feito no trabalho acima. Os autores basearam suas conclusões simplesmente em entrevistas com os médiuns e seus pacientes. O único “controle” feito foi comparar casos semelhantes tratados por medicina convencional que foram discutidos em conferências de medicina espírita. Em resumo, a conclusão do artigo é simplesmente inválida.
O NUPES parece ser a reencarnação de um outro grupo aparentemente extinto chamado Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo e que também foi coordenado por Alexander Moreira de Almeida (citado e apropriadamente desbancado aqui por José Colucci Jr.). Pelo menos um outro grupo similar existe na faculdade de medicina da UFMG.
Religião camuflada de pseudociência não é apenas um alvo fácil de piada. Na medida em que consegue passar por ciência e ganhar a credibilidade de uma universidade as consequências podem ser bem sérias. Pacientes com transtornos psicológicos podem estar sendo incorretamente diagnosticados, com consequências graves tanto para si mesmos quanto para seus amigos e familiares. Mesmo sintomas leves podem custar ao paciente seu emprego e causar grande sofrimento familiar se não forem corretamente identificados e tratados. Outro risco, ainda mais grave, é do terapeuta espírita desencorajar o paciente a seguir recomendações médicas verdadeiras.
As atividades do NUPES e de seus similares não são científicas e portanto os mesmos não podem ser considerados grupos de pesquisa e não deveriam ser parte de universidades de verdade e muito menos receber financiamento público. Suas táticas estão claras: disfarçar suas crenças religiosas com uma linguagem pseudocientífica e assim ganhar credibilidade e usufruir do dinheiro do contribuinte.



