Arquivo mensal: março 2010

Aborto: para onde aponta a evidência

Uma investigação recente feita pelo Guttmacher Institute revelou dados interessantes sobre a questão da legalização do aborto. Essa discussão, particularmente no Brasil e nos USA, é dominada por religiosos que se posicionam fervorosamente contra e que distorcem o debate se auto-intitulando ‘pró-vida’ e criando a falsa impressão de que quem não está do lado deles só pode ser ‘pró-morte’. Poucas são as vozes racionais que tentam se ater aos fatos. E os fatos, de acordo com a investigação, são os seguintes:

  • Enquanto que a incidência de abortos está diretamente relacionada ao número de gravidezes indesejadas, ela não está correlacionada com o status legal do aborto. O número de abortos é praticamente igual em países onde é legal e onde é altamente restrito. A única diferença está na segurança — abortos ilegais e clandestinos causam prejuízos significativos na saúde de mulheres, especialmente nos países em desenvolvimento;
  • Abortos pouco seguros causam um número estimado de 70.000 mortes por ano, e outras cinco milhões de mulheres são tratadas anualmente por complicações resultantes de abortos inseguros. Aproximadamente três milhões de mulheres que sofrem sérias complicações por procedimentos inseguros não recebem tratamento apropriado.
Ou seja, proibir o aborto não leva à nenhuma redução no número de procedimentos realizados. O único resultado da proibição são abortos ilegais de alto risco para a mulher.
Com base nos dados, o levantamento recomenda:
  • Expandir o acesso à contraceptivos modernos e melhorar serviços de planejamento familiar;
  • Expandir o acesso ao aborto legal e assegurar que serviços seguros e legais de aborto estejam à disposição de mulheres que deles precisem;
  • Melhorar a cobertura e qualidade dos cuidados pós-aborto, que reduziriam a mortalidade materna e complicações geradas por abortos inseguros.

Fato e Ficção Sobre Drogas

Um tema que costuma gerar muita polêmica e ser tratado simplesmente com base em mito, preconceito e religião é o das drogas. Essa falta de racionalidade no debate causa um desserviço muito grande à sociedade, na medida em que decisões que deveriam ser basicamente de saúde pública e baseadas em evidências acabam distorcidas por julgamentos morais dúbios e simples desinformação.

Nessa coluna o Ben Goldacre descreve um incidente que exemplifica muito bem o problema. Em resumo, ele relata os achados de um ‘report’ do WHO (World Health Organization) do início dos anos 90 que investigou o uso global da cocaína e que chegou a conclusões muito interessantes.

“Problemas de saúde advindos do uso de substâncias legais, particularmente o álcool e o tabaco, são maiores que os problemas advindos do uso da cocaína,” foi o que disseram. O report prossegue atacando vários princípios que regem a proibição e foi extremamente crítico da maioria das políticas americanas. Ressaltou que políticas de proibição e punição podem de fato aumentar os problemas de saúde. Aconselhou que mais pesquisas sejam feitas sobre os efeitos adversos da proibição e encorajou a adoção de medidas mais humanas como educação, tratamento e reabilitação.

Surpreendentemente, esse report nunca foi publicado. Dois meses após darem uma prévia à imprensa, durante a 48º Assembléia Mundial de Saúde, o representante dos EUA no WHo ameaçou retirar o financiamento americano de todos os projetos de pesquisa e intervenções a menos que o WHO se dissociasse das conclusões desse estudo e cancelasse sua publicação. Até o hoje para o WHO esse documento não existe, mas uma cópia ‘vazada’ dele se encontra no site do think thank Transform.

Pesquisadores britânicos recentemente se propuseram a reclassificar as drogas de acordo com a evidência existente de seus males a saúde. O resultado (que pode ser visto nesse vídeo da BBC), causou supresa ao classificar o ecstasy como menos nocivo que o álcool, entre outros.

Em 2001 Portugal descriminalizou o uso e posse de heroína, cocaína, marijuana, LSD e outras drogas ilícitas. Cinco anos depois o número de mortes por overdose caiu de 400 para 290 ao ano, e o número de novos casos de HIV causados por injeção de substâncias ilegais baixou de 1400 no ano 2000 para 400 em 2006.

O lobby cristão nos EUA é muito forte e foi no governo George Bush que encontrou o seu maior aliado. O mundo todo sofreu as consequências. Está mais do que na hora de basearmos nossas políticas em evidências e deixar a religião, a histeria e o preconceito para trás.

Update 30/05/2011: Vídeo muito bom sobre o constante fracasso da guerra às drogas.

Primeira Manifestação no Bandex

Foi um sucesso total! Larissa, Julian, Rafael e André distribuíram cerca de 620 panfletos em 50 minutos. Parabéns a todos!

Esse foi só o começo, agora é hora de pensar na próxima.

Confiram as fotos: