A física quântica tem realmente a capacidade de explicar eventos sobrenaturais?

Espero ter chamado sua atenção com o título provocador, porém, tenho que confessar que não tenho uma resposta específica para isto, mas quero aproveitar para discutir alguns conceitos que podem ajudar na correta interpretação do que é a física quântica.
Um dos conceitos mais conhecidos da física quântica é o principio de incerteza, segundo o qual não é possível determinar a localização e o momento angular de uma partícula num dado instante. Porém, essa impossibilidade de predizer a posição de uma partícula num determinado momento não impede que possamos nos esquivar de um carro que, desgovernado, esteja vindo em nossa direção.
Como conciliar esses dois conceitos? Por um lado a impossibilidade de predizer onde vamos encontrar uma partícula subatômica, mas pelo outro, o fato que quando essa partícula junta-se com outras para compor um objeto maior é possível predizer facilmente sua posição. Primeiro de tudo é necessário definir dois domínios, o quântico e o quaseclássico. No domino quântico estão todos os sistemas físicos com dimensões próximas ou abaixo da escala atômica. No outro, estamos nós, o carro vindo em nossa direção, a moça gritando desesperadamente ao ver que o carro vai nos atropelar, e todo o resto. No domínio quaseclássico qualquer tipo de evento é excludente e exaustivo; excludente porque ou conseguimos esquivar o carro ou simplesmente somos atropelados, é impossível que como conclusão dessa história seja publicada uma manchete no jornal do dia seguinte falando: desastroso acidente na qual pedestre conseguiu se esquivar do carro que vinha na sua direção, mas mesmo assim, foi atropelado e morreu embaixo do carro. E exaustivas porque algum dos possíveis finais para nossa história deverá acontecer.
Mas por que todas as pequenas interações que acontecem ao nível atômico, como por exemplo as partículas da tinta do carro interagindo com as partículas do ar, não afetam as predições que se podem fazer sobre a direção do carro?
Para tentar entender isso melhor vamos trocar o exemplo, imaginemos um torneio como o Brasileirão ou a Copa do mundo. No começo qualquer um pode ganhar, e como efetivamente aconteceu na copa se acreditou que o Brasil ou a Argentina seria campeão, e até se chegou a falar de uma final com esses dois times. Imaginando que estamos no começo da competição, é possível fazer muitas predições, e atribuir uma probabilidade a cada uma delas. Cada uma dessas predições seria uma história decorrente, que juntas descrevem todas as possíveis coisas que podem acontecer na copa. Mas é importante perceber que o que se está predizendo é unicamente o evento final, a conclusão da copa, e a maneira através da qual o time ganhador vai chegar lá é irrelevante neste tipo de descrição, e é pela pouca quantidade de detalhes que definimos esta história como pouco detalhada.
Essa característica de pouco detalhe é a que permite predizer a trajetória do carro que está vindo em nossa direção, desprezando as demais interações. Mas será que realmente é necessário incluir esses detalhes para tentar explicar fenômenos como a homeopatia ou a acupuntora ou o espiritismo? A nosso ao redor temos uma infinidade de exemplos de histórias pouco detalhadas: a prova de matemática que vamos fazer e que poderemos ou não passar, os resultados da aplicação de um fármaco num determinado animal que vão ou não se encaixar na nossa base teórica, o sim ou o fora que podemos receber da garota com a que estamos querendo ficar. Para entender a razão de um determinado desenlace nestes casos não é necessário recorrer a detalhes tão pequenos como as interações de partículas quânticas, basta prestar atenção a alguns outros detalhes geralmente não tão pequenos: algo como não ter estudado o suficiente, ou um problema com nosso protocolo experimental, ou não ter sabido interpretar apropriadamente os sinais que a garota nos deu, enfim detalhes que estão no nível quaseclássico.
Com tudo isto, quero chamar sua atenção para que olhemos de uma maneira crítica a todas as declarações nas quais se outorgue importância demais aos fenômenos quânticos em contextos nos quais se esteja falando de eventos quaseclássicos, em especial, todos aqueles relacionados com terapias alternativas ou com produtos revolucionários que supostamente farão de você mais atrativo ou mais inteligente.

Publicado em 14/07/2010, em física quântica e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Cara, me desculpa, mas do mesmo jeito que é difícil utilizar uma teoria física complicadíssima para explicar alguns fatos como as terapias alternativas, também é difícil que em um post tão pequeno se resuma características tão essenciais.

    Você destacou algo importante, como a discrepância entre o macroscópico, regido pelas leis de newton de e einstein, e o microscópico, regido pela quântica. Entretanto, não é irrelevante a descrição das possibilidades quânticas, quando o resultado é determinado.

    O enigma do Gato de Schrödinger, clássico, indica que o caráter probabilístico da realidade subatômica muitas vezes nos impede de uma precisão real, de forma que diversas possibilidades podem ser igualmente prováveis. E aí, é o observador que determina o resultado.

    Essa questão é complicada, e a resposta não pode ser dada assim, já vi especulações de físicos quânticos que apoiariam esse tipo de explicação de terapias alternativas, mas tudo é muito especulativo, sem bases experimentais.

    Temos muito o que ver…

  2. juliantejada

    Concordo com o fato de que estamos falando de coisas complexas e que o reduzido espaço pode afetar a discussão.
    Mas a sua resposta me permite perceber que o meu objetivo de oferecer uma nova interpretação para o principio de incerteza, e em especial ao exemplo do gato de Schrödinger, um coitado animal que é melhor não mencionar na frente de alguns (se diz que Stephen Hawking pega sua pistola quando alguém fala dele na sua frente, segundo Murray Gell-Man em The Quark and the Jaguar: Adventures in the Simple and the Complex), não foi atingido.

    O que tentava expor é uma interpretação que coloca no seu contexto cada uma das aproximações, tirando a importância do observador nas histórias pouco detalhadas, a mesmo tempo que tentava mostrar que as situações de estudo de ciências como a farmacologia podem ser consideradas histórias pouco detalhadas (por exemplo, os teste dos efeitos de um fármaco sobre uma determinada população), e por conseguinte fora dos efeitos do domínio quântico. Todo isso para questionar a ideia recorrente de que a explicação para os efeitos terapêuticos das drogas homeopáticas está na física quântica.

    Espero que ao deixar agora as coisas mais explicitas se abra a possibilidade a novas discussões entorno à utilização do coitado do “gato de Schrödinger” como “cavalinho de batalha” na explicação de efeitos terapêuticos que a farmacologia no tem logrado achar das drogas homeopáticas.

  3. Mais cedo ou mais tarde, a Ciência dita “Acadêmica” provará de maneira inconteste os efeitos quânticos da Homeopatia e do Espiritismo. Eu só não falo: aceitará, porque evidenciaria um erro temporal da Ciência, mas para a aceitação dos Cientistas Materialistas, a Homeopatia e o Espiritismo acabarão sendo provados.

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