Superpopulação

Um novo estudo liderado por John Sulston (nobelista por suas contribuições no estudo do genoma) e coordenado pela Royal Society pretende investigar a relação entre crescimento populacional e sustentabilidade. O tema é polêmico pois envolve questões relativas à reprodução humana, tópico taboo para maioria das religiões e outros grupos mais conservadores da sociedade, mas que também suscita críticas de libertários, temerosos da interferência do governo.

Estudos têm mostrado que o impacto da superpopulação pode ser sentido tanto no comportamento dos indivíduos quanto no meio ambiente. Em relação ao comportamento existem duas interpretações conflitantes. Baseado em suas observações de animais em zoológicos Desmond Morris dedicou um livro inteiro à questão e suas conclusões foram na maioria negativas. O comportamento dos animais parece se tornar cada vez mais patológico na medida em que aumenta a população em suas gaiolas. A agressividade aumenta a níveis alarmantes, comportamentos estereotipados e deslocados surgem e tomam conta de grande parte do repertório dos animais. Como consequência a ansiedade aumenta o que, por sua vez, afeta negativamente o sistema imunológico dos indivíduos, deixando-os mais suscetíveis a doenças. Ele conclui que podemos traçar um paralelo entre o comportamento de animais nessas situações com o da espécie humana em cidades grandes. Frans de Waal discorda em parte dessas conclusões, pelo menos no que diz respeito a agressividade. Ele nota que se houvesse uma correlação entre violência e superpopulação entre humanos deveríamos esperar que o número de homicídios per capita fosse diretamente proporcional à densidade populacional, algo que não ocorre. A observação de grupos de primatas confinados em um espaço pequeno também não justifica a hipótese da agressividade. Em tais situações primatas se tornam mais sociáveis, com um aumento no comportamento de grooming. Ainda assim, Frans de Waal nota que há um aumento no número de conflitos em animais confinados, e que o aumento do grooming, um comportamento de limpeza corporal, surge como uma forma de resolver os conflitos.

É no meio ambiente que os efeitos da superpopulação se tornam menos contraditórios. Tanto Morris quanto de Waal parecem concordar que em áreas densamente povoadas é a competição por recursos limitados que causa a maioria dos problemas. Também não há mais dúvida hoje em dia de que a poluição produzida pela espécie humana está causando aquecimento global. Água potável e terrenos férteis para agricultura também vem se tornando cada vez mais escassos.

Um estudo que investigou o impacto ambiental de se ter um filho (não perca a análise feita por Doug Stanhope) estima que nas condições atuais nos USA cada criança adiciona cerca de 9441 toneladas métricas de dióxido de carbono no legado de uma mulher média, o que representa 5.7 vezes o total das emissões de carbono ao longo de toda vida da mulher. David Attenborough, que é membro da Optimum Population Trust (fundação dedicada a incentivar a diminuição da população mundial para níveis sustentáveis e que também conta com outros membros de peso como Jane Goodall) dedicou um de seus excelentes documentários ao problema. Suas conclusões são que deveríamos nos comprometer com a redução da população (ter no máximo dois filhos por casal por exemplo) mas que isso não implica necessariamente em imposições restritivas por parte das autoridades. Existem indícios de que o nível de escolaridade das mulheres afeta diretamente o número de filhos das mesmas, de modo que mulheres com maiores níveis educacionais escolhem ter menos filhos.

É concebível que grandes avanços sejam feitos na ciência agrícola que nos levem a produzir mais alimentos com menos recursos e até mesmo que se descubra como lidar com nossa crescente poluição. Já escapamos das previsões catastróficas de Malthus. Porém é igualmente concebível que essas descobertas não ocorram a tempo. A escolha parece ser entre continuar apostando em um futuro incerto ou tomar decisões no sentido de diminuir a população global que com certeza irão ter um impacto positivo senão no nosso comportamento pelo menos em nosso ambiente.

Sobre André Luzardo

Holds a BSc in Mathematics from the University of Edinburgh. PhD researcher in Computer Science at City University London. Interested in computational models of Behaviour, Learning and Interval Timing. Skeptic activist. Follow me on Facebook @ndrluzardo. Matemático pela University of Edinburgh. Doutorando em ciências da computação na City University London. Pesquisador nas áreas de percepção temporal, aprendizado e modelagem computacional do comportamento. Ativista cético nas horas vagas. Siga-me no Facebook @ndrluzardo.

Publicado em 02/08/2010, em controle populacional, políticas baseadas em evidências. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Obrigada ajudou muito em um trabalho que estou concluindo!

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