Arquivo mensal: janeiro 2011

Campanha Desafio 10:23

Nos dias 5 e 6 de fevereiro, manifestantes no mundo inteiro irão encenar “overdoses” homeopáticas no que com certeza será o maior evento organizado pelo movimento cético até hoje.

A demonstração está sendo organizada como parte da campanha 10:23, um protesto global contra a homeopatia que teve início no Reino Unido. Eventos semelhantes acontecerão em dezenas de países ao redor do planeta, com manifestações anunciadas na Inglaterra, Alemanha, Hungria, Austrália e Canadá.

Michael Marshall, coordenador da campanha internacional, explica:

“Nossa intenção é mostrar que existe uma conscientização crescente em todo o mundo do quanto já foi desperdiçado em homeopatia, tanto em tempo quanto em dinheiro. Nos duzentos anos em que esses tratamentos existem, nunca houve uma só evidência de que eles funcionem. E sendo nada além de água e açúcar, é de fato impossível que eles funcionem para qualquer uma das coisas alegadas pelos homeopatas. Dezenas de bilhões de dólares são gastos todos os anos ao redor do mundo nesses remédios ineficazes e, quando se explica do que realmente se tratam e como são feitos, a maioria das pessoas se choca e não acredita que esses tratamentos inúteis continuam a ser vendidos para o público incauto”.

A campanha 10:23 foi lançada há um ano no Reino Unido, onde quase 400 participantes tomaram uma “overdose” em eventos semelhantes ao redor do país após uma das maiores cadeias de farmácias britânicas admitir que vendia as tais pílulas “porque os consumidores compram e não porque elas funcionam”. A campanha foi batizada em homenagem ao número de Avogadro, uma constante científica que pode ser usada para demonstrar que preparações homeopáticas podem não conter absolutamente qualquer resquício de ingrediente ativo.

Apesar de não existir nenhuma evidência em seu favor, dos seus princípios serem baseados em magia e superstição e dos medicamentos não conterem nada além de água ou açúcar, a homeopatia é uma especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina no Brasil. Medicamentos homeopáticos são vendidos prometendo diminuir as chances de contrair dengue e de melhorar os sintomas dessa doença. Casos de sarampo já foram observados em crianças de famílias adeptas à homeopatia que deixaram de imunizar seus filhos com a vacina adequada.

A Sociedade Racionalista USP está planejando organizar uma “overdose” homeopática pública no dia 5 de fevereiro em Ribeirão Preto, em parceria com as que irão ocorrer nas cidades brasileiras de São Paulo, Porto Alegre e Natal. Os detalhes serão divulgados aqui. Participantes devem levar um frasco inteiro do medicamento homeopático que preferir, desde que seja verdadeiramente homeopático, ou seja, uma solução de 3CH por exemplo (consulte a bula).

Update 04/02/2011: Infelizmente a sociedade racionalista usp não conseguiu voluntários para organizar o evento em Ribeirão Preto. Se você deseja participar do protesto mas não está próximo de uma das cidades nas quais demonstrações públicas serão realizadas pode gravar uma “overdose” privada e enviá-la ao YouTube com a tag “ten23”. Homeopatia, é feita de nada!

Update 05/02/2011: Confira a minha voz feminina e minha cara de mané no vídeo da minha “overdose” homeopática privada:

O Atraso das Ciências Humanas no Brasil – Psicanálise

Sigmund Freud, founder of psychoanalysis, smok...

Image via Wikipedia

Dando continuidade ao post da semana passada, aqui vai a primeira parte da minha resposta.

Psicanálise

Particularmente popular entre psicólogos, a psicanálise também pode ser encontrada em várias outras ciências sociais tanto na versão original quanto nos sabores Jung, Melanie Klein, Lacan, Erich Fromm e muitos outros. Criada exclusivamente por Sigmund Freud, a psicanálise começou como uma teoria promissora que eventualmente explicaria os transtornos mentais com base em certos traumas experienciados durante a infância. Porém logo de cara Freud resolveu tomar o caminho pseudocientífico. Quando ficou evidente que muitos casos de histeria não eram precedidos de abusos sexuais na infância, ele decidiu que o importante não era a existência real do abuso e sim de fantasias de natureza sexual pelo paciente. Dessa forma, o que antes era passível de verificação (ou o paciente foi abusado ou não) agora tinha se tornado, nas palavras de Karl Popper, não-falsificável (o paciente pode ou não ter fantasiado mas não tem como ter certeza, a interpretação do psicanalista é o que conta). Baseado não em evidências experimentais mas simplesmente na observação de um punhado de pacientes, Freud postulou todo um universo psíquico habitado por entidades bizarras (ego, superego, id) e regido por supostos mecanismos de defesa (repressão, sublimação, negação, etc). Tanto Freud quanto seus seguidores passaram a explicar não só transtornos mentais mas também o desenvolvimento, pensamento e emoções normais. Tudo é definido de maneira convenientemente vaga e as conclusões sempre impossíveis de serem falsificadas. Tome por exemplo o complexo de Édipo, a teoria de que todo menino passa por uma fase onde ele fantasia poder matar o pai e pegar a mãe e que, de acordo com Freud, é um dos marcos mais importantes do desenvolvimento mental masculino. Quando pressionados por evidências, psicanalistas citam exemplos do comportamento de um ou outro menino nessa idade que, segundo eles, bastaria pra demonstrar a validade de tal complexo. Mas isso não passa de evidência anedota; é necessário um experimento investigando, por exemplo, se há diferenças significativas entre as freqüências de comportamentos agressivos direcionados ao pai e a mãe. Frente a tal proposta psicanalistas imediatamente sacudiriam a cabeça em reprovação: a criança pode reprimir seus desejos de assassinar o pai, o que impediria qualquer comportamento agressivo de se manifestar. Argumentos similares são empregados para desqualificar toda e qualquer tentativa de testar a psicanálise cientificamente. Cada conceito psicanalítico se apóia em outro conceito psicanalítico e assim por diante até chegar a um ou outro postulado cuja verdade não há como verificar — devem ser aceitos puramente pela fé no profeta Freud.

A psicanálise pode ter falhado como teoria científica da mente humana mas e quanto a psicanálise como terapia? Essa sim é passível de verificação e muitos experimentos já foram realizados. Até hoje não foram encontradas evidências sólidas de que ela é mais eficaz que outras terapias. De fato, existem evidências de que, com a possível exceção de intervenções cognitivo-comportamentais em fobias, todas as terapias faladas (talk therapies) produzem praticamente o mesmo efeito e que esse efeito se assemelha em muito ao efeito placebo.

Recentemente alguns neurocientistas vêm tentando dar origem a um movimento neopsicanalítico, dessa vez com a intenção de validar alguns conceitos freudianos através da neurociência. Ao meu ver, essa é uma promessa enganosa. Como vimos, conceitos freudianos foram definidos de maneira a ser não-falsificáveis. Contudo, é possível redefinir alguns deles para que se tornem falsificáveis. Por exemplo, repressão pode ser definida simplesmente como o processo pelo qual  o cérebro elimina memórias de conteúdo emocionalmente negativo, o que até encontra certa evidência em alguns estudos. No entanto esse novo conceito de repressão é apenas uma vaga lembrança do mecanismo de defesa freudiano pelo qual fantasias carregadas de conteúdo sexual são retiradas do consciente e aprisionadas no inconsciente onde permanecem até retornar ao consciente como sintomas neuróticos, atos falhos e sonhos. Portanto, se algo da psicanálise for validado cientificamente será em uma versão tão diferente da original quanto a teoria atômica atual difere do atomismo grego.

O sucesso da psicanálise nos cursos de humanas no Brasil esconde ainda uma grande ironia. Sociólogos, antropólogos e psicólogos frequentemente nos lembram, quase sempre com razão, o quanto nossa sociedade é preconceituosa e machista. No entanto, na medida em que os mesmos defendem as idéias pseudocientíficas de um austríaco que viveu 100 anos atrás, eles acabam dando seu próprio apoio aos vários machismos e preconceitos vitorianos contidos na psicanálise. Ou será que ‘inveja do pênis’ é realmente parte da condição feminina?

Conclusão

Como teoria da mente humana a psicanálise não passa de pseudociência. Como psicoterapia não é possível afirmar que ela seja mais eficaz que as outras psicoterapias existentes e há evidências que seus efeitos não passam de placebo. O que as ciências humanas precisam é de uma base experimental sólida e de um raciocínio baseado em evidências, e não de teorias pseudocientíficas ou de gurus com pretensões proféticas.

Em breve: outra razão pro atraso das ciências humanas no Brasil. Enquanto isso, gostaria de ouvir comentários dos estudantes e professores de humanas. Como é a situação onde você estuda/leciona? Que tipo de problemas encontra? Quais são os mal-entendidos mais comuns?

Update 28/01/2011: Esqueci de incluir uma referência ao novo livro do Michel Onfray onde ele critica Freud e a psicanálise. Infelizmente minha ignorância da língua francesa me impede de lê-lo. Mas já li e recomendo o clássico da desmistificação freudiana ‘The decline and fall of the Freudian empire‘ do Hans Eysenck.

Update 26/04/2011: O psiquiatra e pesquisador de Harvard J. Allan Hobson acaba de publicar um livro autobiográfico sobre suas pesquisas sobre os sonhos. Para aqueles que esperam deferência à psicanálise Hobson tem isso a dizer:

A teoria psicanalítica é popular porque é fácil de entender, mas eu considero ela errada. Eu não acho que sonhos são causados pela expressão de desejos infantis reprimidos. Não há nada científico na psicanálise, não há nada científico em Sigmund Freud. Ele não fez nenhum experimento, ele não fez nenhuma observação direta, ele nunca usou controles. O cara não estava nem aí.

O Atraso das Ciências Humanas no Brasil

O estudante de graduação em ciências humanas no Brasil percebe logo de cara que está em uma situação muito diferente de seus colegas nas exatas. As aulas são ministradas de maneira nada convencional — através de filmes, debates e dinâmicas, muitas dinâmicas. Os métodos de avaliação variam desde provas e trabalhos em grupo à participação em debates sobre a biografia do Cazuza. Os critérios de avaliação são  subjetivos e produzem notas quase sempre espetaculares. Caso o estudante decida continuar e fazer pós-graduação nas humanas ele muito provavelmente vai se deparar com grupos de pesquisa com descrições enigmáticas como essa:

projeto de pesquisa-intervenção do processo de produção de subjetividade nas instituições escolares que ocorrem através de seus agenciamentos (maquínicos e coletivos de enunciação). Para isso, são investigados os códigos que ali se produzem e as territorialidades nas quais se constituem, identificados e descritos os acoplamentos dos conjuntos de relações materiais (agenciamento maquínico ou conteúdo) e dos regimes de signos correspondentes (agenciamento coletivo de enunciação ou expressão). Na investigação dos agenciamentos, códigos e territorialidades são utilizados os dispositivos de pesquisa da Etnografia Educacional, tais como: observação participante, entrevistas de profundidade (individual e de grupo focal) e análise documental. A estes dispositivos se acrescenta o role-playing , resgatado em seu sentido de produção de Realidade Suplementar , proveniente do Sociodrama Educacional. Compondo com o pólo de desterritorialização , que caracteriza todo agenciamento , busca-se ainda, a nível de intervenção, promover dispositivos grupais alternativos que possibilitem a aparição do novo (da descodificação e desterritorização , das linhas de fuga ), na forma, por exemplo, do Devir-Mestre e do Devir-Criança , além do desenvolvimento de ambientes lúdicos de aprendizagem que decorrem deste último. Neste sentido, a produção de Realidade Suplementar desempenha papel fundamental, tanto quanto o dispositivo grupal sociodramático (que também serve de referência para as reconstituições da entrevista de grupo focal supracitada). Desta forma, se busca produzir uma colagem de três referenciais teóricos: a Esquizoanálise, de Deleuze e Guattari; o Sociodrama, de Moreno; e a Etnografia Educacional.

Não são só os cursos de humanas que diferem radicalmente dos de exatas mas a qualidade da produção científica também. A tabela abaixo mostra o índice h brasileiro comparado com o americano e britânico.

área porcentagem do índice h americano porcentagem do índice h britânico
ciências sociais 15.59% 28.16%
psicologia 14.80% 26.62%
matemática 25.94% 47.33%
física e astronomia 26.52% 45.80%
química 22.88% 39.73%
ciências biológicas e da agricultura 25.83% 36.75%

O índice h da psicologia no Brasil é apenas 14.8% do valor do índice h da psicologia americana e o das ciências sociais brasileiras 15.6% o do americano. Já a matemática brasileira tem 25.9% do índice da matemática americana e a física e astronomia brasileiras 26.5%, quase o dobro das suas colegas nas humanas. E isso apesar do fato da matemática contar com apenas 46 programas de pós-graduação no Brasil enquanto que a psicologia tem 64. Já as ciências sociais tem mais de 421 programas de pós e pelo menos 7340 docentes (os valores são aproximados já que a CAPES não usa a mesma categoria que o SJR; eu incluí apenas os cursos mais óbvios como antropologia, educação, sociologia, arqueologia, etc, e portanto os valores reais com certeza são maiores) enquanto que a física e astronomia só possuem 56 programas e 1340 docentes.

Qual a razão pro atraso das ciências humanas brasileiras? Nos próximos posts eu ofereço a minha resposta.