O Atraso das Ciências Humanas no Brasil – Psicanálise

Sigmund Freud, founder of psychoanalysis, smok...

Image via Wikipedia

Dando continuidade ao post da semana passada, aqui vai a primeira parte da minha resposta.

Psicanálise

Particularmente popular entre psicólogos, a psicanálise também pode ser encontrada em várias outras ciências sociais tanto na versão original quanto nos sabores Jung, Melanie Klein, Lacan, Erich Fromm e muitos outros. Criada exclusivamente por Sigmund Freud, a psicanálise começou como uma teoria promissora que eventualmente explicaria os transtornos mentais com base em certos traumas experienciados durante a infância. Porém logo de cara Freud resolveu tomar o caminho pseudocientífico. Quando ficou evidente que muitos casos de histeria não eram precedidos de abusos sexuais na infância, ele decidiu que o importante não era a existência real do abuso e sim de fantasias de natureza sexual pelo paciente. Dessa forma, o que antes era passível de verificação (ou o paciente foi abusado ou não) agora tinha se tornado, nas palavras de Karl Popper, não-falsificável (o paciente pode ou não ter fantasiado mas não tem como ter certeza, a interpretação do psicanalista é o que conta). Baseado não em evidências experimentais mas simplesmente na observação de um punhado de pacientes, Freud postulou todo um universo psíquico habitado por entidades bizarras (ego, superego, id) e regido por supostos mecanismos de defesa (repressão, sublimação, negação, etc). Tanto Freud quanto seus seguidores passaram a explicar não só transtornos mentais mas também o desenvolvimento, pensamento e emoções normais. Tudo é definido de maneira convenientemente vaga e as conclusões sempre impossíveis de serem falsificadas. Tome por exemplo o complexo de Édipo, a teoria de que todo menino passa por uma fase onde ele fantasia poder matar o pai e pegar a mãe e que, de acordo com Freud, é um dos marcos mais importantes do desenvolvimento mental masculino. Quando pressionados por evidências, psicanalistas citam exemplos do comportamento de um ou outro menino nessa idade que, segundo eles, bastaria pra demonstrar a validade de tal complexo. Mas isso não passa de evidência anedota; é necessário um experimento investigando, por exemplo, se há diferenças significativas entre as freqüências de comportamentos agressivos direcionados ao pai e a mãe. Frente a tal proposta psicanalistas imediatamente sacudiriam a cabeça em reprovação: a criança pode reprimir seus desejos de assassinar o pai, o que impediria qualquer comportamento agressivo de se manifestar. Argumentos similares são empregados para desqualificar toda e qualquer tentativa de testar a psicanálise cientificamente. Cada conceito psicanalítico se apóia em outro conceito psicanalítico e assim por diante até chegar a um ou outro postulado cuja verdade não há como verificar — devem ser aceitos puramente pela fé no profeta Freud.

A psicanálise pode ter falhado como teoria científica da mente humana mas e quanto a psicanálise como terapia? Essa sim é passível de verificação e muitos experimentos já foram realizados. Até hoje não foram encontradas evidências sólidas de que ela é mais eficaz que outras terapias. De fato, existem evidências de que, com a possível exceção de intervenções cognitivo-comportamentais em fobias, todas as terapias faladas (talk therapies) produzem praticamente o mesmo efeito e que esse efeito se assemelha em muito ao efeito placebo.

Recentemente alguns neurocientistas vêm tentando dar origem a um movimento neopsicanalítico, dessa vez com a intenção de validar alguns conceitos freudianos através da neurociência. Ao meu ver, essa é uma promessa enganosa. Como vimos, conceitos freudianos foram definidos de maneira a ser não-falsificáveis. Contudo, é possível redefinir alguns deles para que se tornem falsificáveis. Por exemplo, repressão pode ser definida simplesmente como o processo pelo qual  o cérebro elimina memórias de conteúdo emocionalmente negativo, o que até encontra certa evidência em alguns estudos. No entanto esse novo conceito de repressão é apenas uma vaga lembrança do mecanismo de defesa freudiano pelo qual fantasias carregadas de conteúdo sexual são retiradas do consciente e aprisionadas no inconsciente onde permanecem até retornar ao consciente como sintomas neuróticos, atos falhos e sonhos. Portanto, se algo da psicanálise for validado cientificamente será em uma versão tão diferente da original quanto a teoria atômica atual difere do atomismo grego.

O sucesso da psicanálise nos cursos de humanas no Brasil esconde ainda uma grande ironia. Sociólogos, antropólogos e psicólogos frequentemente nos lembram, quase sempre com razão, o quanto nossa sociedade é preconceituosa e machista. No entanto, na medida em que os mesmos defendem as idéias pseudocientíficas de um austríaco que viveu 100 anos atrás, eles acabam dando seu próprio apoio aos vários machismos e preconceitos vitorianos contidos na psicanálise. Ou será que ‘inveja do pênis’ é realmente parte da condição feminina?

Conclusão

Como teoria da mente humana a psicanálise não passa de pseudociência. Como psicoterapia não é possível afirmar que ela seja mais eficaz que as outras psicoterapias existentes e há evidências que seus efeitos não passam de placebo. O que as ciências humanas precisam é de uma base experimental sólida e de um raciocínio baseado em evidências, e não de teorias pseudocientíficas ou de gurus com pretensões proféticas.

Em breve: outra razão pro atraso das ciências humanas no Brasil. Enquanto isso, gostaria de ouvir comentários dos estudantes e professores de humanas. Como é a situação onde você estuda/leciona? Que tipo de problemas encontra? Quais são os mal-entendidos mais comuns?

Update 28/01/2011: Esqueci de incluir uma referência ao novo livro do Michel Onfray onde ele critica Freud e a psicanálise. Infelizmente minha ignorância da língua francesa me impede de lê-lo. Mas já li e recomendo o clássico da desmistificação freudiana ‘The decline and fall of the Freudian empire‘ do Hans Eysenck.

Update 26/04/2011: O psiquiatra e pesquisador de Harvard J. Allan Hobson acaba de publicar um livro autobiográfico sobre suas pesquisas sobre os sonhos. Para aqueles que esperam deferência à psicanálise Hobson tem isso a dizer:

A teoria psicanalítica é popular porque é fácil de entender, mas eu considero ela errada. Eu não acho que sonhos são causados pela expressão de desejos infantis reprimidos. Não há nada científico na psicanálise, não há nada científico em Sigmund Freud. Ele não fez nenhum experimento, ele não fez nenhuma observação direta, ele nunca usou controles. O cara não estava nem aí.

Sobre André Luzardo

Holds a BSc in Mathematics from the University of Edinburgh. PhD researcher in Computer Science at City University London. Interested in computational models of Behaviour, Learning and Interval Timing. Skeptic activist. Follow me on Facebook @ndrluzardo. Matemático pela University of Edinburgh. Doutorando em ciências da computação na City University London. Pesquisador nas áreas de percepção temporal, aprendizado e modelagem computacional do comportamento. Ativista cético nas horas vagas. Siga-me no Facebook @ndrluzardo.

Publicado em 17/01/2011, em Pseudociência em universidades, psicanálise e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 23 Comentários.

  1. Caro André,

    Você está corretíssimo – psicanálise não é ciência, como as ligadas à matemática, e desconheço um psicanalista sério que acredite nisso. Mas penso que reduzir o válido, o verdadeiro a ciência pura, não seria um pouco de fé? Filosofia, por exemplo, é ciência como as naturais? A filosofia pode ser verificada em um experimento? E a sociologia? E a economia?

    Segundo, existem realmente muitos jargões da psicanálise que caíram no gosto comum, como por exemplo “inveja do pênis”. E daí, “inveja do pênis”, vira invejo do pinto. Freud ou a sociedade é machista? Quem descreve como funciona uma determinada sociedade pode ser confundido com ela?

    Não estou aqui para defender Freud, mas para colocar que em ciências humanas essa dita “ciência de experimentos” não consegue ser aplicada, e nem por isso se deixa de pesquisar. E também vale lembrar que se o método científico estiver correto, se as verdades forem provisórias, todo o discurso científico hoje é uma mentira, uma ilusão, um equívoco, um erro.

    Essa discussão epistemológica precisa ser bem abrangente, e não envolver apenas a psicanálise, que nem se denomina como ciência, como a sociologia e a antropologia, por exemplo.
    Cordialmente,

    Ale

  2. @Ale: toda ciência é ‘ciência de experimentos’ como você chama. As ciências humanas não são diferentes. Aliás, é exatamente essa ideia de que existe uma distinção metodológica entre as ciências humanas e exatas que considero ser uma ilusão e a causa do atraso das ciências humanas no Brasil. Se você quiser exemplos de psicologia científica, consulte bons jornais americanos ou europeus como por exemplo Annual Review of Psychology, Behavioural and Brain Sciences, Advances in Experimental Social Psychology, etc, a lista é grande.
    A noção de que por ser um conhecimento imperfeito, todo o discurso científico é uma mentira, erro, etc, é outro mal-entendido, típico de relativistas e pós-modernos, assunto que pretendo abordar no próximo post.

  3. Gostei do post, vc demonstrou que a psicanálise é baseada em pressupostos não testáveis e por isso não é ciência. Gostaria então de perguntar: o que o faria aceitar uma psicoterapia como eficaz? Por quais tipos de pesquisa uma modalidade psicoterápica deveria “passar” para que vc a aceitasse como eficaz? O ónus da prova está com quem defende determinada abordagem, mas se o seu ceticismo é científico vc tb precisa demonstrar que tipo de evidências aceitaria.

  4. André Luzardo

    Luciana – a princípio as evidências deveriam vir de estudos bem controlados, duplo-cego se possível, e replicáveis. Mas nessa área tudo é ainda muito incerto. O diagnóstico continua sendo um mistério; ainda não existe nenhuma medida neurológica que valide qualquer uma das categorias do DSM-IV, e estudos em genética já mostraram que essas categorias não são ‘naturais’ ou seja não descrevem as categorias que realmente existem. Sem saber direito o que a gente precisa tratar fica meio difícil de decidir se tivemos sucesso ou não. E isso sem falar na questão do controle; o que seria uma psicoterapia placebo? Se for só uma conversa informal então o cara que aplica a terapia vai saber que está aplicando o placebo e pode sugestionar o paciente de acordo. A coisa fica ainda mais complicada quando se observa a grande motivação financeira que move essa área.
    Isso não quer dizer que não exista ou que nunca vá existir psicoterapias eficazes, só que a gente precisa ter um cuidado redobrado na hora de avaliar a eficácia desse tipo de intervenção.

  5. Bom dia André.

    Li seus dois posts (O Atraso das ciências humanas no Brasil e O Atraso das ciências humanas no Brasil – Psicanálise), e gostaria de fazer alguns comentários.

    A psicologia carece de vários problemas. Para enumerar somente alguns, está o da própria definição de seu objeto de estudo. Enquanto que alguns profissionais a definem como ciência do comportamento, outros a consideram ciência da mente. Mas enquanto o comportamento pode ser relativamente bem definido, como fez o behaviorismo, a mente não pode ter uma definição clara, com as ferramentas que temos atualmente. Então, sem nem entrarmos no campo da metodologia, fica a pergunta do que a psicologia estuda mesmo. Esta pergunta parece não ser sequer discutida na graduação, o que acho um erro crasso.

    Se não conseguimos definir com clareza o que estudamos, como observar? Este é o outro problema. Várias teorias psicológicas têm utilizado a linguagem como ferramenta de observação dos eventos privados (como diriam o behavioristas), mas a linguagem não é confiável como a matemática, nem objetiva como esta.

    O terceiro ponto é: qual metodologia utilizar? Aí cada teoria tem a sua metodologia. Para um cientista natural, isso é inconcebível, pois isso quebra na raiz a possibilidade de generalização.

    Desta forma, a psicologia estuda algo que não consegue definir direito, com várias abordagens e por diferentes metodologias. Este é o problema que, na minha opinião, deveria tirar o sono de todos os psicólogos.

    Sendo realista, penso que esse cenário não irá mudar, porque sempre vai existir alguém que investe tempo e dinheiro para estudar estas metodologias. Por mais que nos esforcemos para inserir o pensamento científico na psicologia, sempre haverá alunos e profissionais buscando a subjetividade. Se não encontrarem espaço na academia para isso, irão buscar outros espaços. Obviamente há nas ciências humanas a influência de fatores políticos/ideológicos, coisa que está muito reduzida nas ciências naturais. A ciência não deveria ser o espaço das ideologias, mas elas estão ali também.

    Uma alternativa possível, que obviamente é duramente criticada por meus colegas, é que gradualmente os psicólogos se dêem conta das limitações de suas abordagens e migrem para uma linguagem científica. O behaviorismo e a psicologia cognitiva são as áreas que estão mais bem encaixadas na metodologia das ciências da natureza. Isto ocorre porque buscam a matematização, embora muito ainda há para ser feito no campo. Se isso ocorresse, a psicologia ficaria “encaixada” nas demais ciências naturais, partilharia da linguagem comum e seria muito mais fácil de realizar investigações e de confiar no conhecimento produzido.

    Para não me alongar demais aqui, farei posteriormente outro comentário sobre o diagnóstico, e convido a visitar o meu blog em http://psicologiaciencia.blogspot.com

    Abraços a todos.

  6. Somente uma correção: a psicologia “padece” de vários problemas, e não “carece”. Já tem muitos, não precisa de mais….

    Abraços.

  7. BOA TARDE A TODOS !

    Estou em proceso de formação na graduação de psicologia, não acredito dessa de ficar brigando qual a abordagem é mais científica q

  8. BOA TARDE A TODOS !

    Estou em proceso de formação na graduação de psicologia. Não acredito dessa de ficar brigando pra ver qual a abordagem é mais científica que a outra, como já se sabe, não tem evidencias alguma que uma abordagem é melhor que a outra. Na verdade são formas diferentes encontradas para se resolver os conflitos existentes no indivíduo. Afinal somos pessoas diferentes e cada um vai se identicar com mais com uma abordagm do que com a outra é natural que isso ocorra.
    Quanto as faculdades que psicologia, tenho percebido que algumas tendem mais pra psicanálisede e outras mais para comportamental, na que eu estudo temos aulas de psicanálise, de outras terias que viram da psicanálise como Jung, Reich,Lacan, Erich Fromm, mas também de comportamental. Eu por exmplo me ideitifique mais com Gestalt, que na mairia das faculdades pelo menos com os colegas que encontrei nos congressos que participei ainda não tiveram a oportunidade de conhecer.
    Seja qua for a a abordagem que o idivíduo se identificar, vai dar certo desde que se dedique ao que se comprometer. Não acredito nessa de que Psicologia seja efeito palcebo, se isso fosse verdade qualquer um faria uma terapia eficiente e eficaz, não necessitaria de no minimo cinco anos de estudo
    Um abraço fraterno a todos !

  9. André Luzardo

    Walter – obrigado pelo ótimo exemplo de raciocínio baseado na fé aplicado à ciência!

  10. Olá novamente André. Farei alguns comentários sobre o que você e a Luciana discutiram.

    “A princípio as evidências deveriam vir de estudos bem controlados, duplo-cego se possível, e replicáveis (…)”

    Aqui encontramos um problema, que não é novo nem é exclusivo da psicologia: o da replicabilidade. Vou comparar com a biologia: em que medida podemos replicar a evolução dos seres vivos? Em todos os casos? certamente não. Em alguns? sim, basta vermos o que acontece com a resistência de bactérias a antibióticos. Isso invalida a teoria da evolução? não (embora os defensores do design inteligente digam que sim).

    “Ainda não existe nenhuma medida neurológica que valide qualquer uma das categorias do DSM-IV, e estudos em genética já mostraram que essas categorias não são ‘naturais’ ou seja não descrevem as categorias que realmente existem.”

    Existem dados de neuroimagem que identificam, por exemplo, perda de massa encefálica na esquizofrenia, e existem indicativos que alterações hormonais podem produzir sintomas de depressão. Assim, a neurologia (embora não a genética) já estão dando sinais de alterações cerebrais que certamente estão relacionados (e que provavelmente causam) transtornos mentais. O compêndio de psiquiatria de Kaplan e Sadock menciona estes estudos.

    Além disso, uma pesquisa que seria conduzida pela PUCRS e pela UFRGS, e que poderia dar informações valiosas sobre o funcionamento cerebral de adolescentes com comportamento violento não foi executada (até onde eu sei). Diversas entidades assinaram manifesto contra ela. Artigo sobre esta questão pode ser lido aqui.

    “Sem saber direito o que a gente precisa tratar fica meio difícil de decidir se tivemos sucesso ou não. E isso sem falar na questão do controle; o que seria uma psicoterapia placebo? Se for só uma conversa informal então o cara que aplica a terapia vai saber que está aplicando o placebo e pode sugestionar o paciente de acordo. A coisa fica ainda mais complicada quando se observa a grande motivação financeira que move essa área. Isso não quer dizer que não exista ou que nunca vá existir psicoterapias eficazes, só que a gente precisa ter um cuidado redobrado na hora de avaliar a eficácia desse tipo de intervenção.”

    Concordo com isso. Mas penso que esse problema pode ser resolvido com delineamentos mais rigorosos de pesquisa; não é algo necessariamente impossível. Gostaria que mais colegas pesquisadores se dedicassem a estudar este tema, mas é um tema complexo, leva tempo e dá muito trabalho, o que pode ser desestimulante no meio acadêmico, que muitas vezes está mais preocupado com a velocidade das publicações do que com pesquisas inovadoras.

    Vários estudos apontam que a psicoterapia exerce um efeito sobre os pacientes, em comparação com pessoas em lista de espera por exemplo. Só para citar dois e não me alongar: este e este

    Bem, por enquanto era isso. Espero ter contribuído com a discussão.

    Abraço.

  11. André Luzardo

    Vinícius, não tenho muito o que acrescentar ao seu último comentário, é mais ou menos o que eu penso também. Só uns detalhes:
    – a replicabilidade que eu me refiro é dos efeitos encontrados em determinado estudo e não de todo um fenômeno natural. Com certeza é impossível replicar (pelo menos atualmente) o big bang ou a evolução de todas as espécies existentes, mas isso nem é necessário pra mostrar que as teorias que explicam esses fenômenos são válidas. Replicabilidade se refere sempre aos resultados de um estudo; se alguém consegue demonstrar em um estudo que a intervenção X causa efeito Y em uma certa amostra, então qualquer outra pessoa aplicando a mesma intervenção X em uma amostra diferente da mesma população deveria encontrar o mesmo efeito Y.
    – que existem alguns estudos implicando uma ou outra área cerebral ou alteração hormonal com certos distúrbios psíquicos isso não há dúvida. O problema é que nenhum deles valida nenhuma das categorias do DSM. As próprias categorias não parecem ser válidas pois é normal um paciente apresentar sintomas de várias delas.

    Já ao seu primeiro comentário tenho menos ainda a comentar; só acrescentaria que tudo o que você disse se aplica ao BRASIL. Posso dizer de experiência própria que a psicologia é, e já vem sendo há muito tempo, ciência respeitável na Grã-Bretanha, USA, Canada, e em muitos outros países. Mas no Brasil parece que a coitada foi sequestrada pela turma do relativismo, da pseudociência e do anticientificismo. Tá mais do que na hora de resgatá-la das trevas!

  12. Talvez eu esteja sendo ingênua, mas ao ler a postagem, não me pareceu uma disputa sobre “qual abordagem é mais científica que a outra”, a hipótese é comprovada ou não.
    Acho a discussão fundamental, a pergunta pela cientificidade deveria ser o pano de fundo de todos os saberes com pretenção de ciência.
    Parabéns André. E parabéns ao Vinícius por aguçar ainda mais o debate.

  13. Ciência, realmente deve ser discutível e ratificável. Mas cabe perguntar se a psicanálise é ciência, e nestes termos o que dizer, por exemplo, de um Jung? A questão me parece ficar formulada melhor se considerarmos haver ciências que não se enquadram no modelo positivista/matemático cujo método utilizado é impossível de ser aplicado a uma ciência basicamente lingüística. Pois a própria lingüística que vem crescendo nas Universidades poderia ser objeto de acusações bem parecidas às levantadas contra a psicanálise. Se existe uma mente, o que faz pouca diferença nas neurociências, por não se tratar de uma entidade física, é plausível supor que ela também responda a elementos e leis que não necessariamente se enquadrem na proposta fisiológica. Outro dia vi um psiquiatra se referir a alma como “aquilo que guarda os afetos, emoções etc.” numa clara demonstração de que a própria neurociência necessita de pelo menos um sinônimo de subjetividade, caso queira apagar um pouco a objeção que se levanta frente a uma padronização do sujeito. Alguns termos provenientes da psicanálise, tal como o Édipo, obviamente constituem um mito, mito este que foi escolhido para metaforizar uma idéia mais abrangente. Como se sabe nenhuma sociedade conhecida não apresenta um horror ao incesto. Mas a idéia do Édipo, da interdição do incesto, tão bem aceita na antropologia de Levi Strauss, leva a pelo menos dois problemas que sendo confirmados ou não cientificamente (inclusive poderíamos levantar uma estatística aqui) somos confrontados na clínica: o mais evidente e talvez por isso mesmo, menos replicável é o desejo; o outro está singularmente articulado a este e, naturalmente à esfera da sexualidade. Que me digam que a interpretação freudiana interpreta apenas a si mesma, e eu teria de confirmar experimentalmente que, alguns de meus pacientes o leram antes de realizarem suas próprias interpretações. Assim como é de exclusiva verificação experimental o laboratório, também na psicanálise o é a clínica.
    Vejamos se qualquer teoria científica se mantém se não for estruturada numa esfera simbólica, e veremos apenas sua coerência. Há, contudo, uma vontade de verdade embutida na verdade da verdadeira ciência que se esquece um pouco que há diferença entre verdade e saber. O que a psicanálise oferece é um saber, e não se deve confundi-lo com este inconsciente da memória que escapa, num limiar que a consciência não alcançou, numa pura e simples inversão da consciência em inconsciência. Tal como alguns experimentos dessa área demonstram. O que deveria ser verificado é justamente o que sempre ficou de fora na ciência tradicional, que, embora os métodos mais confiáveis busquem eliminar as interferências do observador, ele ainda assim deseja e escolhe o tema de seu experimento, ou seja, aonde a psicanálise opera é no próprio vazio doravante deslocado. Se o objeto de tantas ciências é mais ou menos definido, pelo menos em definição a psicanálise apresenta seu objeto: ele causa o desejo. Pois mesmo que a física tenha compreendido que a palavra final é energia, por se tratar de palavra, essa coisa assim chamada pode logo mudar de nome, por se tratar de uma constante. Que um conceito tenha sido construído em íntima relação com outros, ora isso é o mínimo que se exige. Acaso não é assim no Direito? E a lei, científica ou não, estrutura a sociedade. O que se deve levar a lume não é apenas a questão de algumas ciências serem verdadeiras, mas se existem outras formas verdadeiras de fazer ciência.
    Os estudos de neuroimagem demonstram que determinadas psicoterapias aumentam o fluxo sanguíneo em áreas específicas do encéfalo, o que leva os pesquisadores a fazer o que com estes dados? Interpretá-los. Como? Em íntima relação com seus conceitos. De onde vêm estes conceitos? De teorias. Comprovadas? Aceitas. Pergunte ao neurocientista por que dormimos, e ele lhe dará teorias. Pergunte a ele que áreas estão envolvidas, por exemplo, na raiva e no transtorno de estresse pós-traumático e ele lhe dirá: “um aumento de atividade na amígdala e uma atividade reduzida no lobo pré-frontal.” E ao explicar os sintomas ele estará fornecendo sua teoria. A questão é simples: por que um indivíduo e outro, cujas imagens comprovam às atividades encefálicas nas mesmas áreas, desenvolvem “transtornos” diferentes? E ele lhe dirá: genética. E eu pergunto se encontramos seu desejo.
    Os antidepressivos, por exemplo, tem sido utilizados para tratar desde problemas conjugais até obsessões e fobias, sendo explicado seus mecanismos por uma simples dialética química (inibir, estimular, agonistas e antagonistas, recaptação). Ou eles possuem bases comuns, o que não seria de espantar já que o termo médico para um de seus efeitos colaterais é “rebaixamento da libido”, ou seu objeto de intervenção, descrito apenas fenomenologicamente, não é tão delineado quanto possa parecer. Também os medicamentos respondem a teorias, o que se nota são rebaixamento dos sintomas, mas nenhuma comprovação científica de que tais transtornos tem, por exemplo, uma causa orgânica. O que me parece não ser discutido com a mesma intensidade é uma questão também pouco científica, e ela é o liame do dinheiro com o poder.

  14. Olá, não sou estudante de psicologia nem cientista, sou somente uma paciente que se trata com psicanálise há 8 anos. Fiz psicoterapia com outras linhas da Psicologia e a que mais gostei foi a Psicanálise.
    Aos poucos, quase sem perceber, qdo vi, estava tão mudada, ou melhor, estava tão livre de muito entraves de personalidade que me tolhiam viver bem e me causavam sofrimento mental que quase não acreditei! Faço duas sessoes por semana. No entanto, para síndrome do pânico e toc (que tb tenho), precisei de medicamentos psiquiátricos (tomo continuamente há 3 anos), só a psicoterapia não foi suficiente.
    Sinto-me bastante satisfeita com minhas sessões de análise. Acredito que talvez a perspicácia e a inteligência do psicoterapeuta/psicanalista possa fazer toda a diferença.

  15. Olá Lica. Entendo que você tenha gostado mais da psicanálise; no entanto quando vamos decidir se um tratamento é mais eficaz que outro não basta basear-nos no relato isolado de pacientes como o seu. Isso seria uma evidência anedótica, como mencionei no post. O que precisamos são de estudos randomizados, onde pacientes com os mesmos sintomas são designados aleatoriamente à um grupo controle ou à um experimental. O grupo experimental é o que vai receber (sem saber) o tratamento que estamos querendo avaliar, e o grupo controle (também sem saber) vai receber um não-tratamento, algo como uma entrevista ou uma consulta com um ‘falso terapeuta’ — alguém sem treino algum em terapia. Um estudo desses seria considerado ‘único cego’ onde o paciente não sabe que tratamento está recebendo (está por assim dizer ‘cego’) mas o terapeuta obviamente sabe que tipo de tratamento está oferecendo. Experimentos assim não conseguem chegar a resultados tão fortes quanto experimentos ‘duplo cego’ onde tanto o paciente quanto o terapeuta desconhecem o tratamento que estão recebendo/oferecendo. Esta é uma limitação importante dos estudos nessa área, e que torna difícil comparar a eficácia de diferentes psicoterapias. Pode ser, como você mesmo sugere, que algo que não tenha nada a ver com as técnicas que o psicoterapeuta utiliza, como a inteligência deste, seja o fator terapêutico mais importante. Ou pode ser outra coisa. Simplesmente não se sabe ainda. O que se sabe é que grande parte da teoria em que a psicanálise se apóia não encontra verificação experimental.

  16. Concordo com você sobre a psicanálise não ser ciência dura. De fato não sendo falseável cai por terra qualquer possibilidade de se enquadrar no método científico.

    Porém, fica aqui minha indagação: como encarar o paciente como sujeito e não como objeto?

    Creio que a Ciência não é capaz de entrar nesse campo, onde a subjetividade, a experiência de estar vivo, a afetividade, definem o sujeito.

    Como é discutir o que outra pessoa sente sem reduzir o sujeito a comportamentos e estímulos? Descartados métodos científicos para discutir a subjetividade, que outros métodos nos levariam a um pensamento racional em relação à experiência pessoal? Só nos resta o silêncio?

  17. @André Resende: o método científico é que vai nos ensinar como devemos tratar o paciente. É possível bolar experimentos que testem quais são os fatores mais importantes no tratamento. A simpatia do terapeuta é importante? Vamos testar. O afeto do terapeuta é importante? Vamos testar. Essas não são questões simples de se testar, claro, principalmente por serem difíceis de quantificar, mas precisamos tentar. Sem quantificação e experimentação ficamos apenas no achismo.

  18. esses comentarios ridiculos, um cara que nao sabe de nada, vai estudar, ele tem inveja de freud que milhares de pessoas que o seguem, e outras tantas que conseguiram melhorar suas vidas a apartir da psicanalise, todas teorias fazerm bem, o que faz mal sao esses idiotoas que falam besteiras sem conhecerem nada, voce é doutor em alguma coisa? graduou onde? seu mestrado pertence a qual area? no seu doutorado nao lhe ensinaram a respeitar as areas de conhecimento?

  19. Quando Vinícius citou o seguinte comentário: “Ainda não existe nenhuma medida neurológica que valide qualquer uma das categorias do DSM-IV, e estudos em genética já mostraram que essas categorias não são ‘naturais’ ou seja não descrevem as categorias que realmente existem.”
    Acho que há um equivoco aí,pois o que não existe são medidas quantitativas, uma vez que seria dificil quantificar sintomas psiquicos tais como hipotimia, hipobulia, anedonia etc. O que existe e valida tal categorização são fenomenos psiquicos observáveis em pacientes em determinados estados de sofrimento mental e que permite-nos agrupá-los num determinado diagnóstico e tratá-los, aí sim, com eficácia e eficiência mensuráveis estaticamente, como pode-se observar em metaanálises muito bem realizadas e reproduzíveis.

  20. “Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, o apaixonamento pela mãe e ciúmes pelo pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância”(FREUD, ESB, V. I, pp. 358-59).
    Qual o valor de uma metodologia assim? Bom, por assim dizer, é o indutivismo mais primário (“um único pensamento”…).

  21. É realmente lamentável que algumas pessoas, que sequer estudaram psicanálise, saiam falando merdas como esse artigo fez. Na verdade, a neuroimagem já comprovou que a psicanálise pode mudar nossos cérebros, resumindo: ela funciona (Doidge, 2012). Só nos resta saber o que esse tal de André vai falar depois dessa. Ou será que está baseado em fé??? Muito provável

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