Carta de Hitchens à Convenção de Ateus Americanos

Christopher Hitchens estava programado para aparecer na Convenção de Ateus Americanos mas teve que cancelar devido a doença. Ele mandou esta carta no lugar.

Caros companheiros incrédulos,

Nada teria me impedido de juntar-me a vocês, exceto a perda da minha voz (ou pelo menos da minha voz falada) que por sua vez é devida a uma longa discussão que atualmente estou tendo com o espectro da morte. Ninguém ganha esta discussão, apesar de existirem alguns pontos sólidos a serem feitos enquanto a discussão continua. Eu tenho percebido, na medida que o inimigo se torna mais familiar, que todos os apelos para a salvação, redenção e libertação sobrenatural parecem ainda mais ocos e artificiais para mim do que eram antes. Espero ajudar a defender e transmitir as lições disso por muitos anos ainda, mas por agora eu considero a minha confiança melhor depositada em duas coisas: a habilidade e os princípios da ciência médica avançada, e a camaradagem de inúmeros amigos e familiares, todos imunes aos falsos consolos da religião. São essas forças entre outras que vão acelerar o dia em que a humanidade se emancipará das algemas mentais do servilismo e superstição. É a nossa solidariedade inata, e não um despotismo do céu, que é a fonte de nossa moral e nosso senso de decência.

Esse essencial senso de decência fica indignado a cada dia. Nosso inimigo  teocrático se encontra em plena vista. De caráter multiforme, ele se estende desde a ameaça ostensiva dos mullahs com armas nucleares até as campanhas insidiosas para que pseudociência estupidificante seja ensinada nas escolas americanas. Mas nos últimos anos, tem havido sinais animadores de uma resistência genuína e espontânea a esse absurdo sinistro: uma resistência que repudia o direito dos bullies e tiranos de fazer a afirmação absurda de que eles têm deus ao seu lado. Ter tido uma pequena parte nessa resistência foi a maior honra da minha vida: o padrão e o original de todas as ditaduras é a rendição da razão ao absolutismo e ao abandono da investigação crítica e objetiva. O nome barato para essa ilusão letal é religião, e temos de aprender novas maneiras de combatê-la na esfera pública, tal como aprendemos a nos livrar dela na vida privada.

Nossas armas são a mente irônica contra a literal: a mente aberta contra a crédula; a corajosa busca da verdade contra as forças temerosas e abjetas que  tentam definir limites para a investigação (e que estupidamente alegam que já temos toda a verdade que precisamos). Talvez acima de tudo, nós afirmamos a vida sobre os cultos de morte e sacrifícios humanos e temos medo, não da morte inevitável, mas sim de uma vida humana que seja limitada e distorcida pela necessidade patética de oferecer adulação gratuita, ou da crença sombria de que as leis da natureza respondem à lamentações e encantamentos.

Como herdeiros de uma revolução laica, ateus americanos têm a responsabilidade especial de defender e apoiar a Constituição que patrulha a fronteira entre a Igreja e o Estado. Isto, também, é uma honra e um privilégio. Acredite em mim quando digo que estou presente com vocês, mesmo que não corporeamente (e só metaforicamente em espírito…) Resolvam construir o muro de separação do Sr. Jefferson. E não mantenham a fé.

Sinceramente

Christopher Hitchens

Sobre André Luzardo

Holds a BSc in Mathematics from the University of Edinburgh. PhD researcher in Computer Science at City University London. Interested in computational models of Behaviour, Learning and Interval Timing. Skeptic activist. Follow me on Facebook @ndrluzardo. Matemático pela University of Edinburgh. Doutorando em ciências da computação na City University London. Pesquisador nas áreas de percepção temporal, aprendizado e modelagem computacional do comportamento. Ativista cético nas horas vagas. Siga-me no Facebook @ndrluzardo.

Publicado em 25/04/2011, em ateísmo, eventos e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Comentários desativados em Carta de Hitchens à Convenção de Ateus Americanos.

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