Edzard Ernst: placebos e superficialidades

Por que terapias sem qualquer evidência de provas são tão populares, pergunta o médico Edzard Ernst, que passou 18 anos pesquisando as terapias alternativas – e ele pensa que a homeopatia funciona.

Algumas terapias complementares e alternativas trazem mais malefícios que benefícios.

Você tem sido descrito como um caçador de impostores pelo seu trabalho em testar as medicinas alternativas. É uma descrição correta do que você faz?

Não gosto do título caçador de impostores de qualquer maneira. Eu acho isso errado. Vejo-me como um cientista. Minha desculpa é conduzir pesquisas rigorosas na eficiência, segurança e custo das medicinas complementares e alternativas (MCA). Esse não é o papel dos caçadores de impostores. Os resultados muitas vezes são negativos, mas não sempre. Descobrimos 20 tratamentos alternativos que funcionam melhor que o placebo. Também temos encontrado que algumas MCA trazem mais malefícios que benefícios.

A opinião pública em relação às MCA alterou-se nesses 18 anos de pesquisa?

No Reino Unido a aceitação das MCA não se alterou muito, mas nos EUA ela dobrou na última década. Na Alemanha por volta de 75% da população utiliza MCA pelo menos uma vez ao ano. Muitas vezes me perguntam por que os alemães, que aparentemente são tão racionais, utilizam-se de terapias sem evidências científicas. Eu não sei a resposta.

O que atrai as pessoas para a medicina alternativa?

Penso que para muitas pessoas é uma coisa que está na moda, um sinal de riqueza fazer todos esses tratamentos inúteis. Como o slogan da L’Oréal, as pessoas pensam: “Tenho reflexoterapia ou irritação do cólon porque eu mereço.” Então eis a imagem da MCA como algo “natural”, e pensa-se que tudo que é natural é seguro, sem qualquer efeito colateral. No outro extremo do espectro, as pessoas que estão morrendo podem estar desesperadas na procura de uma cura. Você ficaria surpreso pelas mentiras que são vendidas a essas pessoas. Não hesito em denominar isso de lado criminal da medicina alternativa.

Quais tendências você vê?

A medicina integrativa é uma personagem que me aborrece intensamente. As pessoas estão sendo convencidas que é a melhor de dois mundos – convencional e alternativa – mas quando você olha além dessa superficialidade, descobre ser uma camuflagem para que métodos de enganação sejam incorporados sem consentimento no uso convencional.

Você acha que a medicina convencional pode aprender algo dos praticantes de medicina complementar?

É claro. O entendimento, o tempo e a empatia – o que nós denominamos de “a arte da medicina” – estão sendo negligenciados pela medicina convencional. Se delegarmos isso aos praticantes da medicina complementar, então estaremos minando a base central da medicina.

Você mudou sua opinião sobre a eficácia da homeopatia. Por quê?

Honestamente acho que fui influenciado completamente pelas evidências. Trabalhei num hospital homeopático, e estava aberto à idéia de que existem leis da natureza que não entendemos. Ainda penso que a homeopatia funciona, a questão é: por quê? Depois de anos de pesquisa, acho que a resposta agora está clara. Funciona devido uma consulta longa e simpática (entre paciente e terapêuta). É um poderoso efeito placebo.

Algo mudaria sua opinião novamente?

Se a homeopatia – através da descoberta de novas leis da natureza – um dia se tornar possível e as evidências clínicas demonstrarem que minhas conclusões atuais estão erradas, então terei de mudar de opinião novamente. Penso ser isso um sinal de inteligência mudar de opinião quando as evidências mudam.

Perfil

Edvard Ernst se aposentou de seu posto como professor de medicina complementar da Universidade de Exeter. Ele começou sua carreira de médico numa hospital homeopático em Munique, Alemanha.

NT: E um dos maiores pesquisadores sobre medicina alternativa no mundo. Possui um livro intitulado “Trick or Treatment” onde aborda o que é real, o que é fictício e o que realmente funciona nas medicinas alternativa

Fonte: http://www.newscientist.com/article/mg21128260.300-alternative-medicine-investigator-placebos-and-platitudes.html

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 09/09/2011, em crenças, Efeito placebo, homeopatia. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. DANIEL RODRIGUES DOS SANTOS

    COMO É BOM EM POCOS MINUTOS ENRIQUECER O CONHECIMENTO COM ESSA ENTREVISTA. ALGUÉM QUE DEDICOU SUA VIDA A UM DETERMINADO ASSUNTO NOS DA ESSA BELA OPORTUNIDADE.

%d blogueiros gostam disto: