Por que as mulheres têm orgasmos?

Décadas de pesquisa não conseguiram responder à questão do por que da existência do orgasmo feminino – e dois estudos antagônicos recentes sobre o assunto não mudaram em nada esse quadro. O mais interessante é que ambos se focam numa teoria que com certeza deixa muitas mulheres raivosas: que a habilidade de atingir o clímax é um mero subproduto do orgasmo masculino, o qual possui claros objetivos evolucionário (NT: sou veemente e inquestionavelmente contra essa teoria). Podemos não ter provas atualmente, mas é melhor tentarmos explorar suas potenciais explicações culturais.

A explicação mais óbvia para o grande “O” feminino é que motiva as mulheres a procurarem por mais sexo, resultando em maior prole (ou, em termos mais populares, maior “sucesso reprodutivo”). Outra teoria intuitiva é que serve para fixar sentimentos de amor e intimidade, tendo maior apoio paterno durante o investimento na criança. Então, não menos importante, a teoria do… bem… a teoria do “sugamento” – a teoria em que as contrações uterinas durante o orgasmo auxiliariam os espermatozóides a subirem pelo colo até o útero. Outra teoria é que aumentaria a fertilidade, pois uma redução de 30% no tamanho da vagina pelos músculos pubo-coccígeos durante o orgasmo poderia ajudar a estimular muito mais o pênis, assegurando uma ejaculação mais rápida e volumosa.

Pensemos agora na polêmica “explicação dos mamilos masculinos”, como é denominada, na qual mulheres possuem os tecidos e as vias nervosas necessárias para o orgasmo simplesmente porque dividem uma origem embriológica comum com os homens, cujos orgasmos servem para objetivos evolutivos claros. Em outras palavras, mulheres possuem orgasmos pela mesma razão que homens possuem mamilos. Face a isso, o subproduto dessa teoria aparenta ser mais focada nos homens e ser talvez até anti-feminista. Ela cai como uma luva na noção freudiana da inveja feminina do pênis: Homens possuem membros proeminentes e facilmente manipuláveis enquanto as mulheres estão presas com seu imitador nanico, o clitóris (NT: sou veemente e inquestionavelmente contra essa teoria).

Mas como Elisabeth Loyd, uma filósofa da biologia, discutiu em seu livro de 2005 “The Case of the Female Orgasm: Bias in the Science of Evolution”, “O problema real com essa visão é admiti-lo como se fosse de extrema importância. A sexualidade feminina, e em particular o orgasmo feminino, deve necessariamente possuir um fundo em comum durante a seleção natural em fêmeas. Mas não há qualquer motivo para pensar que somente os traços selecionados diretamente são ‘importantes.’” Ela aponta exemplos de traços importantes que não são selecionados diretamente: “habilidade musicais finas, habilidade de desenhar foguetes e até mesmo a habilidade de ler.”

Por outro lado também é possível que a visão de um subproduto pode apoiar as feministas contra a medicalização do prazer feminino. “Se o orgasmo feminino é visto como algo que não possui função evolucionária em particular, mas uma ‘amostra grátis evolutiva’, então muitos dos diagnósticos das ‘Disfunções do Orgasmo Feminino’ podem estar fora de questão, logo qualquer mulher em qualquer lado do espectro do desempenho do orgasmo poderia ser considerada como normal,” escreve Lloyd num artigo ainda não publicado. Ela argumenta que essa visão, a qual se refere à teoria do “bônus fantástico”, possui a vantagem de selecionar “todas as mulheres como igualmente ‘normais’ em suas respostas ao orgasmo a um intercurso heterossexual. Espera-se, então, nenhum grupo de respostas ‘adaptativas’ particulares ao intercurso, logo, nenhum tipo de privilégio.” Isso é, “mulheres que não têm qualquer tipo de orgasmo são tão normais quanto mulheres que possuem orgasmos durante intercursos.”

Isso é uma bomba para as maquinações das indústrias farmacêuticas sobre um potencial “viagra feminino.’’ Tocando nesse assunto, Leonore Tiefer criou a New View Campaign para “desafiar as mensagens distorcidas e generalistas sobre a sexualidade que a indústria farmacêutica se baseia.” Ela me escreveu num e-mail  que o orgasmo é uma “coisa boa,” porém “não dura muito, e não é uma coisa fácil de se obter, então penso ser algo superestimado.” Tiefer, uma professora de psiquiatria na Universidade de Nova Iorque, citou o jornalista Malcolm Muggeridge: “O orgasmo substituiu a cruz como o foco do saudosismo e do preenchimento humano.” Nessa linha, diz ele, “resume a mim a importância simbólica do orgasmo na vida contemporânea.” Assim como para as incertezas que rondam isso, ela diz: “é misterioso, penso, pois seu valor simbólico é tão alto (pois ‘prova’ ao parceiro e para si mesma que alguém está satisfeita, é sexy, uma fêmea completa), e já a essência material é complicada.”

Carol Queen, uma sexóloga lendária em Good Vibrations, não está convencida que o clímax feminino é uma criatura inerentemente enigmática. “A idéia de que o orgasmo feminino é misterioso é meramente cultural, e tem-se desenvolvido em culturas que rejeitam ativamente dar à sua juventude boas informações sobre a maquinaria sexual, especialmente sobre a estimulação e o prazer, sendo formadas de subculturas e comunidades que encorajam ativamente o medo ao sexo, a vergonha, questões sobre a imagem corporal, confusão sobre o que o sexo realmente ‘significa’, e outras respostas que distanciam as pessoas da possibilidade e do prazer sexual,” diz ela. “A idéia de que as mulheres têm dificuldades para atingir o prazer, ou que os cientistas não podem imaginar o por que da importância do prazer é somente a ponta do iceberg.

Por último, é claro, as consequências culturais e as análises femininas da teoria do subproduto não dizem nada para melhorar seus méritos científicos. Como Lloyd diz, “não sou uma crente da imposição de normas sociais a partir de achados biológicos, sejam adaptativos ou não.” A importância cultural do orgasmo feminino não deve ser determinada por suas origens evolutivas. Tão menos nossas vidas sexuais devam ser desconectadas da procriação. E não nos esqueçamos uma coisa que os anticoncepcionais nos ensinaram: separar prazer da reprodução pode ser tremendamente estimulante – e divertido.

Tracy Clark-Flory é escritora da Revista Salon.

Adaptações de: http://www.salon.com/life/sex/?story=/mwt/feature/2011/09/10/orgasm

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Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 19/09/2011, em evolução, feminismo. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Rafael Science

    Ótima matéria

  2. Perguntar pra homem sobre orgasmo feminino, ou pra mulher que nunca teve um, é um desatino. Orgasmo é o clímax da energia vital, é o ponto máximo da carga bioelétrica, é a catarse, a bomba atômica, a saída do corpo. O prazer, o intercurso sexual ou a masturbação, são só maneiras mais fáceis de se chegar a ele. Há outras… A medicina não entende de orgasmos, da mesma forma que não entende de energia. Antigamente ele era concebido na medicina como transtorno mental. Pelo menos agora, admitem a possibilidade do prazer. Se você for mulher e tiver dificuldade pra ter um orgasmo, procure um terapeuta corporal que trabalhe com a energia Kundalini. Caso contrário é perda de tempo.
    Ah, eu li acima em algum lugar uma referência comparando o tamanho do pênis com o clitóris, como se o tamanho do clitóris fosse comparável com o tamanho do prazer que ele proporciona. Pois saibam que o corpo do clitóris é interno, um grupo complexo de feixes nervosos que se ramificam desde a genitália até a boca do útero. O que as pessoas acham que é o clitóris é apenas a glande do clitóris. Enquanto os homens pensam que são mais viris com um enorme artefato de cópula, as mulheres só tem um disjuntor à mostra, cujo chip está por dentro. E que isso não lhes cause perturbação, mas até em termos de ejaculação, nós mulheres, damos literalmente um banho nos homens.
    Falo isso não com intenção de superiorizar as mulheres mas sim com o desejo de alerta. Há muita informação caótica por aí, e principalmente, muita gente perdida, precisando de ajuda e tentando se conformar que a vida seja mesmo assim, uma coisa mais ou menos.
    Pergunte a quem sabe.

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