A neurobiologia do amor materno

Uma tática comum utilizada por cristãos, espíritas e/ou “misticistas” é que se um comportamento complexo não pode ser mensurado, o método científico deve ser necessariamente falho no entendimento desse comportamento. Já tive várias conversas com pessoas sobre o estudo do comportamento, da localização de certos neurotransmissores (por exemplo: serotonina) que influenciam desde o estado de humor da pessoa (depressão) até na medida de personalidade (impaciência). É engraçado como algumas pessoas colocam explicações como o “espírito que reencarnou”, a “energia que não flui” ou “os problemas que você teve na sua fase oral” para o comportamento humano. Tenho certeza que nem Mendell essas pessoas se lembraram (ou não querem saber quem é ou o que fez), preferindo acreditar numa “maldição de família”.

Pois bem, e é nessas conversas que surge um argumento comumente utilizado de “se você acha que a biologia é uma boa explicação do comportamento, então prove que sua mãe o ama.”

Podemos, então, encaminhar esse desafio do amor materno, demonstrando uma explicação científica plausível através da medida de um hormônio tão importante quanto esse “amor materno”.

Se você acha que a biologia é uma boa explicação do comportamento, então prove que sua mãe o ama.

Rosenblat (1967) mostrou que ratas virgens expostas a filhotes recém-nascidos são indiferentes ou aversivas a eles, ignorando-os ou atacando-os quando lhes são apresentados. Porém esse comportamento diminui gradualmente à medida que a exposição dos filhotes se torna repetitiva. Uma primeira sugestão da explicação desse tipo de comportamento surgiu com Pedersen & Prange (1979), os quais injetaram ocitocina (OT) nos ventrículos cerebrais em ratas virgens, produzindo comportamentos maternos após 2 horas da injeção. Apoiando ainda mais esse estudo, van Leengoed e colaboradores (1987) e Fahrbach e colaboradores (1985) mostraram que o bloqueio de receptores para a OT ou a inativação da própria OT bloqueia o início do comportamento materno em ratas que acabaram de dar à luz.

Apesar de estudos de nocaute do gene (isso é, remoção do gene em ratos transgênicos) da OT serem controversos, estudos mais recentes mostraram que a remoção do gene que produz a OT diminui os níveis de cuidado de filhotes (como amamentação e limpeza) , ocorrendo o mesmo se houver nocaute do receptor de OT. Além disso, há relatos de comportamentos infanticidas por ratas mães na ausência do gene da OT. E o comportamento materno pode ser restaurado em ratas nocautes para a OT através da infusão subcutânea da própria OT.

Em outras palavras, para todos os mamíferos existem evidências de que altos níveis de OT se traduz em sentimento de ligação sentimental com a cria. Estudos anteriores sobre a OT têm mostrado que o hormônio também está envolvido na ligação afetiva de casais e no comportamento cooperativo. Por exemplo, arganazes do campo (Microtus ochrogaster, um roedor arborícola) possuem ninhos comunais. Algumas fêmeas adultas exercem o comportamento materno em filhotes que não são seus, desenvolvendo um comportamento denominado de aloparental. Grande parte dos arganazes do campo jovens (<20 dias de idade) mostram altos níveis de comportamento aloparental quando expostos a filhotes. Porém, quando chegam à puberdade, quase 50% das fêmeas irá espontaneamente cuidar de filhotes apresentados a elas, enquanto as 50% restantes irá ou ignorar ou atacar esses filhotes (Bales & Carter, 2003; Lonstein & DeVrie, 1999), sendo que esse comportamento aparentemente não está envolvido com alterações de hormônios sexuais (gonadais). Logo, há evidências que a OT possa ter uma função importante, ao menos nessa espécie. Fêmeas adultas de arganazes do campo, as quais tendem a cuidar de filhotes alheios da especie, possuem maior densidade de receptores para a OT (OTR) em determinadas áreas encefálicas que arganzes que ignoram ou atacam os filhotes (arganazes da montanha) (figura 1). Consequentemente, a administração de antagonistas de OTRs nessas áreas bloqueia a expressão do comportamento materno em fêmeas adultas (fig. 1C). Conclui-se, portanto, que diferenças na densidade de OTR em áreas encefálicas (aqui no caso o núcleo acumbente) pode contribuir diretamente para as diferenças individuais do comportamento materno e de interação com o parceiro sexual.

Porém alguém deve pensar: “Mas roedores em geral possuem comportamento materno promíscuo, logo, irão cuidar de qualquer filhote que se encontre no ninho”. Então, alguns experimentos foram feitos com ovelhas, já que essas conseguem discriminar entre seu cordeiro e o cordeiro de outra mãe. Logo, ovelhas possuem mecanismos seletivos para a produção de ligações afetivas específicas entre mãe e filho.

Ovelhas não são promíscuas

A ligação afetiva entre a ovelha e o cordeiro se dá provavelmente através de memória olfatória. Uma vez que o odor é aprendido, a mãe rejeita outros cordeiros para a amamentação. A estimulação vaginocervical da ovelha é um potente liberador de OT, tão forte que é capaz de promover a adoção de um cordeiro estranho em ovelhas que sofreram esse tipo de estimulação. Corroborando esses dados, a administração intracerebroventricular de OT pode induzir comportamento materno completo (em menos de 1 minuto) em ovelhas não grávidas.

Supõe-se que a OT facilita a formação de memórias olfatórias através da modulação de neurotransmissores. Após dada a luz, há um fortalecimento das sinapses responsáveis pela captação do odor do cordeiro, tornando várias dessas células responsíveis ao seu odor (Kendrik e cols., 1997; Levy e cols., 1995; Kendrick & Keverne, 1992). Como conseqüência desse aprendizado olfatório, ovelhas aceitam seu próprio cordeiro.

Em humanos

Publicado no jornal Psicological Science, Ruth Feldman e colaboradores, do Centro de Pesquisas do Encéfalo de Gonda, Universidade de Bar-Ilan, Israel, encontraram evidências de que os níveis neuroendócrinos da OT é um potente fator de predição da ligação afetiva entre mãe e filho. Através de simples análises da OT sangüínea de 62 mulheres grávidas (de todos os níveis educacionais e sociais), os pesquisadores encontraram que os níveis de OT diferem substancialmente entre as mulheres (mas seus níveis são altos durante a gravidez). Através da observação da interação da mãe com seus filhos por meio de vídeo-câmera (o que incluia a análise da quantidade de interações faciais, quantidade de toques afetivos, balanço do bebê e quantas vezes falavam com a criança), os pesquisadores mostraram que o nível de OT era o fator mais preditivo da interação mãe-filho.

Os autores relataram no estudo:

“(…) os níveis de ocitocina durante o início da gravidez e o período pós-parto estão relacionados a um grupo bem definido de comportamento maternos afetivos, incluindo observação [do bebê], vocalizações, [relato de] sentimentos positivos e toques afetivos; pensamentos relacionados à ligação [afetiva]; e a verificações constantes da criança. Ao longo da gravidez e do período pós-parto, a ocitocina pode ter um papel na emergência de comportamentos e representações mentais típicas de ligações afetivas na mãe humana.”

Por que alguns indivíduos possuem altos níveis de OT e outros não já é outra pergunta. Pesquisas (1,2) mostram que filhas que cresceram em ambiente seguro, confortável e com altos índices de investimento maternal demonstram o mesmo comportamento maternalista com sua prole. Parece que um ambiente seguro e confortável (com apoio econômico e social provindos da mãe) aumenta os níveis de OT materna, podendo, então, aumentar a intensidade da afetividade mãe-filho.

Mãe somali e e seu filho

Porém, é importante lembrar que não há um comportamento materno “ideal” em todos os ambientes. Mães humanas respondem ao seu redor do mesmo modo que outras espécies fazem. Se você é uma rata que vive num ambiente desértico ou uma mulher numa favela, num ambiente é particularmente aversivo, será mais adaptativo às mães demonstrar menos afeto materno e, então, criar um filho que será preparado para uma vida difícil. Porém mesmo que esses resultados estejam altamente correlacionados, há um pouco mais além da química. Não podemos subestimar a influência das decisões pessoais ou as culturais no comportamento materno.

Por exemplo, macacas rhesus que cresceram em contato com humanos possuem níveis mais baixos de OT que aquelas criadas com suas próprias mães. E mulheres que experimentaram abusos infantis ou foram negligenciadas durante a infância possuem níveis significativamente mais baixos de OT.

Conclusão

Claro que deixamos alguns pontos em aberto, mas fica aqui a percepção de que o comportamento materno é algo tão natural quanto a ocitocina no seu núcleo acumbente. Aliás, esse tipo de comportamento é algo detectável, observável, mensurável e molecularmente quantificável. Do mesmo modo que a serotonina hoje é considerada uma das principais causas de depressão, poderemos utilizar futuramente a própria ocitocina para evitar casos típicos como a rejeição do bebê por mulheres com depressão pós-parto. Fica o recado para (sempre) termos a mente aberta, seja corrigindo ou não os erros de português desse artigo.

Aliás, posso ser acusado de fatalismo ao extremo. Mas a figura abaixo serve de explicação para muitos dos problemas da humanidade (inclusive sua burrice intrínseca)

Tecnicamente nossos próprios deuses

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 11/11/2011, em crenças, drogas, evolução, políticas baseadas em evidências. Adicione o link aos favoritos. Comentários desativados em A neurobiologia do amor materno.

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