Altruísmo, ratos ateus e o silogismo religioso

Um estudo interessantíssimo saiu na revista Science, intitulado “Empatia e Comportamento Pró-Social em Ratos“, chamou bastante a minha atenção (e de outros meio de comunicação). Para alguém que trabalha com etologia, o título até chama a atenção, mas chama mais a atenção por ser um estudo sobre comportamento de mamíferos não primatas numa revista de alto impacto (o que, convenhamos, é relativamente raro hoje em dia).

Os autores elegantemente formularam um experimento relativamente simples, curto e incisivo (bem ao estilo da Lâmina de Ocam) sobre (em linhas gerais) a empatia entre ratos.

Até o momento pensamos que todo o tipo de comportamento (até em humanos) seria efetuado na expectativa de uma recompensa. E por mais que alguém fale: “Seres humanos são altruístas, muitas vezes fazemos o bem em troca de nada!“, o caminho é mais complicado. Por mais que nos esforcemos para fazer o bem ao próximo sem requerer qualquer recompensa para isso (como dinheiro ou status), temos de pensar antes que nós já criamos a nossa própria recompensa. E ela se chama dopamina, e é liberada em centros de prazer do encéfalo, especialmente o núcleo acumbente (uma estrutura clássica para o estudo de drogas de abuso e recompensas) (Wise, 2008).

E é essa a resposta final do tal “altruísmo”: nos sentimos bem em ajudar o próximo sem recompensa em troca, mas esse “sentir bem” já é a dopamina agindo no núcleo acumbente, logo, ninguém é altruísta. Tudo o que buscamos no final das contas é um pouco de dopamina no núcleo acumbente para que reforcemos um determinado comportamento (ex: altruísmo). Se soubéssemos isso antes da época de Jesus e Maomé, com certeza os textos religiosos de hoje teriam outra ênfase (falaciosa).

Mais além de Pavlov

E o artigo em questão vai mais profundamente nesse aspecto do “recompensa pelo prazer”.

Ratos foram alojados em pares 2 semanas antes do início dos testes. E então um dos animais foi contido dentro de um cilindro de acrílico transparente cuja porta poderia ser aberta facilmente somente pelo parceiro livre. E, sem novidades, o rato livre consegue libertar seu companheiro do cilindro. Porém, à medida que o teste se repete, o rato livre liberta o companheiro num período de tempo cada vez mais curto, evidenciando aprendizado. Até o momento poderíamos supor que há o efeito “dopamina” acima descrito, pois a presença do companheiro nas atividades sociais dos ratos (limpeza de pelos mutua, brincadeiras, etc), poderia ser um reforçador para que o rato livre libertasse seu companheiro.

Um rato “altruísta” aprende a abrir a porta do contentor

Porém os autores testaram o valor da recompensa em libertar o companheiro, isso é, quão importante é o valor físico e psicológico do companheiro. E os pesquisadores deram 2 opções ao rato livre: Cilindro fechado contendo 5 pedaços de chocolate (que são extremamente pataláveis aos ratos) e outro cilindro fechado com o companheiro (experimento chocolate-parceiro). Como controle, num outro experimento com outros ratos, um dos contentores estava vazio enquanto o outro tinha chocolate (experimento chocolate-vazio).

No experimento chocolate-parceiro não houve diferença no tempo de abertura da porta para os dois contentores, enquanto no experimento chocolate-vazio o rato abriu o contentor com chocolate num tempo muito menor que para o contentor vazio. Isso significa que libertar o companheiro preso tem um valor igual ao de comer algo extremamente recompensandor (chocolate). Aqui vale lembrar que dependendo da “intensidade” do sabor doce, o sabor doce em si pode ter um efeito recompensador tão grande quanto à da cocaína (Lenoir e cols., 2007). Logo, pode-se supor que a libertação do companheiro (o altruísmo) tem um efeito recompensador no final das contas, mesmo que seja em nível molecular.

Além disso, o mais intrigante é que após libertar o companheiro, 52% dos libertadores dividiram o chocolate com o companheiro nos primeiros dias de teste, com essa porcentagem passando para 61% nos dias 6 a 12.

No vídeo da esquerda, temos o contentor com um pedaço de algodão, no vídeo central um contentor vazio, e à direita o contentor com o parceiro preso. Repare na movimentação do rato livre em torno do contentor e do centro da arena para encontrar um meio de libertar o parceiro, o que não ocorre nos outros testes.

Isso significa um potencial “altruísmo” evolutivo em animais. Como a própria autora escreve na discussão

Nosso estudo mostra que os ratos se comportam pró-socialmente quando percebem um estresse de restrição psicológico não-doloroso que é experimentado por um coespecífico, agindo de modo a terminar esse estresse por meio de ações deliberativas. (…) Além disso, esse comportamento ocorreu na ausencia de treinamento ou recompensa social, e até mesmo quando em competição com um alimenta altamente palatável.

Comportamentos similares foram observados em símios, e a grande diferença aqui é que os ratos podem ser utilizado em larga escala em estudos em laboratório para investigar as estruturas que modulam a empatia e o altruísmo. E isso vai mais além de uma simples “dopamina no acumbente”.

Altruísmo tem manual de instruções?

E aqui vai um pensamento mais aprofundado sobre o assunto. Ratos em si são seres sociais, cooperativos e interativos, porém não possuem religião nem um Deus para o qual devem prestar contas. E isso vai contra argumento de teístas no qual a religião se desenvolveu como um meio cooperativo e altruístico entre as pessoas. Para os teístas, a religião seria uma adaptação evolutiva, pois cria ou potencializa a empatia e a pró-socialidade.

Porém esses mesmos teístas ignoram o fato que a empatia, a cooperação e o altruísmo são inatos na natureza. Esse tipo de comportamento é aparentemente muito mais antigo do que se imaginava, retomando períodos antes dos mamíferos e pássaros (1,2,3). Portanto, a religião não é a causa para o aparecimento desse tipo de comportamento em humanos.

E curiosamente esses experimentos podem rebater 2 afirmações comumente utilizadas por religiosos para apoiar que a religião é necessario para uma “harmonia social”

1) A religião faz com que as pessoas fiquem mais sociáveis e cooperativas entre si, proporcionando um melhor relacionamento social entre os indivíduos. Se a religião não tivesse esse propósito (seja direto ou indireto) na sociedade, não teríamos motivo para que as pessoas acreditassem nela.

Isso é uma falacia, pois uma “religião moral e ética” surgiu mais recentemente, ligando as crenças sobrenaturais a comportamentos “socialmente corretos”. Religiões mais antigas que as ditas “modernas” (cristianismo, islamismo, etc) surgiram provavelmente no período paleolítico, muitas vezes envolvendo o shamanismo e como meio de explicação de eventos “sobrenaturais” (ex: raios, nascimento do Sol, etc), mas não havia uma regra de condutas sociais a serem seguidas para se atingir o “paraíso” ou hipóteses para manter a sociedade estável, tanto porque naquela época não havia algo como uma “sociedade” ou o pensamento do “pós-morte” (Rossano). E mesmo assim, uma sociedade mais religiosa não significa uma sociedade mais estável, como postei anteriormente.

2) A religião traz maior coesão entre os grupos humanos, dando-lhes uma vantagem competitiva sobre outros grupos (não religiosos ou de outras religiões com regras de condutas sociais diferentes), formando grupos maiores que eliminariam grupos menores e menos organizados.

Isso pode ser verdade para as religiões atuais (cristianismo, islamismo, espiritismo, etc), porém não existe qualquer evidencia de uma aumento na quantidade de grupos de humanos devido a uma religião específica em tempos posteriores ao neolítico. O aumento no número de conglomerados humanos ocorreu a partir do momento em que os humanos deixaram de ser caçadores-coletores para serem domesticadores de animais e plantas. Com a formação de conglomerados humanos, também houve desenvolvimento e especialização das religiões em si, as quais provavelmente absorveram as condutas sociais locais em seus dogmas (Rossano, 2010).

Não posso negar o papel fundamental da religião em unir pessoas no mundo atual. Aliás, não nego nem a sua força em sincronizar determinados comportamentos num grande grupo de pessoas. Para mim isso é fenomenal. Mas não podemos omitir que alguns comportamentos são inatos não somente nos seres humanos, mas em outros seres mais primitivos. E se o altruísmo e a empatia possuem raízes mais antigas que imaginávamos, sua manutenção ao longo da evolução nos diz que possui uma vantagem maior sobre aqueles que não as tem. E foi exatamente isso que os antigos escritores de livros religiosos devem ter percebido (mesmo que indiretamente). Afinal de contas, Maomé, o apóstolo Pedro e Moisés eram, querendo ou não, observadores perspicazes.

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 14/12/2011, em crenças, evolução, políticas baseadas em evidências, racionalismo, Religião. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Parabéns Gabriel, dos posts escritos por você acho que esse foi o melhor. Mas não ficou muito claro como o experimento com o chocolate descarta o puro efeito dopamina… se você tiver um entendimento melhor nessa parte poderia explicar um pouco mais….
    Agora só a título de provocação: “como poderíamos afirmar que os ratos não tem religião?”. Calma, não estou sugerindo que eles tenham, apenas que é difícil afirmar qualquer coisa sobre as crenças de uma criatura com a qual ainda nem conseguimos “conversar”.
    Abraço.

  2. Gabriel Bassi

    Valew o comentário, Biruta

    O efeito “chocolate” não descarta o efeito da dopamina, mas mostra que o “altruísmo” em si é recompensador. Isso é, o “fazer o bem ao próximo sem nada em troca” é uma falacia, pois há recompensa no altruísmo no final das contas. E essa recompensa pode ser comparada, aqui para os ratos, a pedaçoas de chocolate (que podem ter efeito tão recompensador quanto à cocaína dependendo da intesidade do sabor doce).

    O interessante no estudo é que metade dos animais dividiram o chocolate com o parceiro, então deve ter alguma estrutura ou neurotransmissor ativos que modulam especificamente esse comportamento de “divisão de bens” sobreposta ao “efeito dopamina”. Logo, até animais mais primitivos já “repartiam o pão” entre si.

    O animal até pode ter aquilo que chamamos de “religião”. Mas é algo que podemos jogar mais para as probabilidades, pois envolve a probabilidade de uma determinada ação evitar ou aproximar um evento. Enfim… é assunto prá outro post, pois vai dar literalmente um post a resposta. Mas obrigado pelas perguntas!

  3. Agora esclareceu melhor…

    Quanto a questão da possibilidade dos animais terem religião, se você conseguir material para um post acho que ficaria bem interessante e polêmico, mas se não tiver não precisa se preocupar em responder…. foi só um pouco de filosofia vazia para provocar um pouco… hehehe

  4. Eh obvio que o ser humano nao eh altruisa absoluto! Isso eh um mito… Seria impossivel sermos altruistas se nao tivessemos algum tipo de recompensa, seja do ponto de vista cultural (moral) ou biologico. Tanto faz. O estudo nao responde a principal pergunta: o que antecede o que ou ate que ponto ambos nao se confundem. Nao poderiamos afirmar que a religiao seria uma das manifestacoes biologicas que exteriorizam a necessidade de cooperacao e interacao do homem? P.S: Sou ateu.

  5. Felipe Martins

    Muito bom!
    André, acredito que possamos afirmar sim. O altruismo é latente à vida, e a religião seria uma forma de justifica-la, ‘aumentando a recompensa’ pois além da dopamina teriamos a ‘salvação’.
    obs. Também sou ateu

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