Arquivo mensal: fevereiro 2012

Sim, podemos provar qualquer coisa com a Ciencia

 Traduzido (com adaptações) de: Ben Goldacre em Bad Science

Eis o caso onde o Fundo Nacional para a Ciencia pode não somente nos dar as respostas para a cobrança dos 84 mil dólares em impostos, mas  mesmo que nos derem uma resposta, não gostaríamos de ouvi-la

Senador William Proxmire (National Science Foundation, 1975, p. 73

Seletivamente admitimos uma nova evidencia… se ela confirmar nossas crenças prévias… Mas se encontramos evidencias que são contraditórias às nossas pré-concepções, tendemos a aumentar a resistencia.

—Gordon Allport (1954, p. 22)

O que as pessoas fazem quando são confrontadas com evidências científicas que desafiam seus pontos de vista preexistentes? Muitas vezes irão ignorá-las, intimidá-las, chantageá-las, processá-las por difamação ou simplesme as considerarem.

Um clássico artigo numa das últimas tentativas desse tipo foi de Lord, em 1979. Ele pegou dois grupos de pessoas, um favorecendo a pena de morte e outro contra. Então o autor apresentou a cada um uma evidencia científica que apoiava seu ponto de vista preexistente e outra evidencia científica que a desafiava. Por exemplo, as taxas de assassinato aumentavam, ou diminuiam, após a abolição da pena capital num determinado estado, ou havia a comparação entre estados vizinhos. E os resultados foram como os supostos. Cada grupo encontrou erros metodológicos extensos nas evidências das quais não concordavam, mas ignoraram os mesmos erros nos artigos que reforçavam seus pontos de vista preexistentes.

Algumas pessoas iam mais longe. Quando apresentadas a um dado que ia contra as suas ideias, decidiam que a ciencia em si é falha. Os políticos explicariam veementemente que o método científico simplesmente não pode ser utilizado para determinar as consequências da política de drogas. Os terapeutas alternativos explicarão que sua pílula funciona, entre todas as outras pílulas. Os espíritas irão argumentar que a ciencia não pode explicar eventos que não se encaixam no método científico e que não há como estudar qualitativamente uma mediunidade. E, finalmente, todos argumentam que não podemos saber se algo é verdadeiro ou se funciona utilizando testes.

Até onde essas visões vão e até quando generalizam as coisas? O professor Geoffrey Munro usou centenas de estudantes num estudo sobre “O julgamento da qualidade da informação científica”, publicado no Journal of Applied Social Psychology. Primeiramente foi analisado seus pontos de vista em relação à homossexualidade estar ou não associada a doenças mentais, e então foram divididos em dois grupos.

Ao primeiro grupo foi dado cinco estudos que confirmavam seus pontos de vista preexistentes: Aos estudantes que pensaram que a homossexualidade estava associada a doenças mentais, por exemplo, foi dado artigos mostrando que havia mais gays em tratamento psicológico que a população em geral. Ao segundo grupo foi dado pesquisas que contradiziam seus pontos de vista preexistentes. (Deve ficar claro que após o término do experimento todos os alunos foram informados que os artigos científicos eram falsos, dando-lhes a oportunidade de ler pesquisas reais sobre o tópico).

Então lhes foi perguntado sobre a pesquisa que leram. Além disso foi pedido que classificassem a seguinte frase:

“O foco dos estudos… é algo que não pode ser respondido utilizando-se os métodos científicos.”

Como podemos supor, as pessoas cujos pontos de vista foram desafiados estiveram mais propensos a dizer simplesmente que a ciencia não pode ser utilizada para mensurar se a homossexualidade está associada a problemas mentais.

Mas então os pesquisadores perguntaram mais algumas questões sobre se a ciencia pode ser utilizada para o entendimento de todos os tipos de coisas, todas não relacionadas aos estereótipos da homossexualidade:

“A ciencia pode ser utilizada para determinar os seguintes assuntos?”

  • A presença de clarividencia
  • A efetividade da punição física como técnica disciplinar em crianças
  • Os efeitos de assistir programas violentos sobre o comportamento violento
  • A precisão da astrologia em prever eventos pessoais
  • Os efeitos físicos e mentais dos medicamentos herbais.

Seus pontos de vista sobre cada assunto foram juntados para produzir um grande número de dados sobre o entendimento da ciencia como forma de resposta a essas questões. E os resultados foram arrepiantes. Pessoas cujos estereótipos preexistentes sobre a homossexualidade foram desafiadas pelas evidências científicas apresentadas estavam mais propensas a acreditar que a ciencia não tem nada a oferecer, para qualquer assunto, não somente sobre a homossexualidade.

Aparentemente quando a pessoa é apresentada a uma evidencia científica que não é bem-vinda, numa tentativa desesperada de manter alguma consistencia em seu ponto de vista, prefere concluir que a ciencia em geral é falha. É um achado interessante. Mas não tenho certeza se isso me faz feliz.

Aparentemente quando a pessoa é apresentada a uma evidencia científica que não é bem-vinda, numa tentativa desesperada de manter alguma consistencia em seu ponto de vista, prefere concluir que a ciencia em geral é falha.