Sim, podemos provar qualquer coisa com a Ciencia

 Traduzido (com adaptações) de: Ben Goldacre em Bad Science

Eis o caso onde o Fundo Nacional para a Ciencia pode não somente nos dar as respostas para a cobrança dos 84 mil dólares em impostos, mas  mesmo que nos derem uma resposta, não gostaríamos de ouvi-la

Senador William Proxmire (National Science Foundation, 1975, p. 73

Seletivamente admitimos uma nova evidencia… se ela confirmar nossas crenças prévias… Mas se encontramos evidencias que são contraditórias às nossas pré-concepções, tendemos a aumentar a resistencia.

—Gordon Allport (1954, p. 22)

O que as pessoas fazem quando são confrontadas com evidências científicas que desafiam seus pontos de vista preexistentes? Muitas vezes irão ignorá-las, intimidá-las, chantageá-las, processá-las por difamação ou simplesme as considerarem.

Um clássico artigo numa das últimas tentativas desse tipo foi de Lord, em 1979. Ele pegou dois grupos de pessoas, um favorecendo a pena de morte e outro contra. Então o autor apresentou a cada um uma evidencia científica que apoiava seu ponto de vista preexistente e outra evidencia científica que a desafiava. Por exemplo, as taxas de assassinato aumentavam, ou diminuiam, após a abolição da pena capital num determinado estado, ou havia a comparação entre estados vizinhos. E os resultados foram como os supostos. Cada grupo encontrou erros metodológicos extensos nas evidências das quais não concordavam, mas ignoraram os mesmos erros nos artigos que reforçavam seus pontos de vista preexistentes.

Algumas pessoas iam mais longe. Quando apresentadas a um dado que ia contra as suas ideias, decidiam que a ciencia em si é falha. Os políticos explicariam veementemente que o método científico simplesmente não pode ser utilizado para determinar as consequências da política de drogas. Os terapeutas alternativos explicarão que sua pílula funciona, entre todas as outras pílulas. Os espíritas irão argumentar que a ciencia não pode explicar eventos que não se encaixam no método científico e que não há como estudar qualitativamente uma mediunidade. E, finalmente, todos argumentam que não podemos saber se algo é verdadeiro ou se funciona utilizando testes.

Até onde essas visões vão e até quando generalizam as coisas? O professor Geoffrey Munro usou centenas de estudantes num estudo sobre “O julgamento da qualidade da informação científica”, publicado no Journal of Applied Social Psychology. Primeiramente foi analisado seus pontos de vista em relação à homossexualidade estar ou não associada a doenças mentais, e então foram divididos em dois grupos.

Ao primeiro grupo foi dado cinco estudos que confirmavam seus pontos de vista preexistentes: Aos estudantes que pensaram que a homossexualidade estava associada a doenças mentais, por exemplo, foi dado artigos mostrando que havia mais gays em tratamento psicológico que a população em geral. Ao segundo grupo foi dado pesquisas que contradiziam seus pontos de vista preexistentes. (Deve ficar claro que após o término do experimento todos os alunos foram informados que os artigos científicos eram falsos, dando-lhes a oportunidade de ler pesquisas reais sobre o tópico).

Então lhes foi perguntado sobre a pesquisa que leram. Além disso foi pedido que classificassem a seguinte frase:

“O foco dos estudos… é algo que não pode ser respondido utilizando-se os métodos científicos.”

Como podemos supor, as pessoas cujos pontos de vista foram desafiados estiveram mais propensos a dizer simplesmente que a ciencia não pode ser utilizada para mensurar se a homossexualidade está associada a problemas mentais.

Mas então os pesquisadores perguntaram mais algumas questões sobre se a ciencia pode ser utilizada para o entendimento de todos os tipos de coisas, todas não relacionadas aos estereótipos da homossexualidade:

“A ciencia pode ser utilizada para determinar os seguintes assuntos?”

  • A presença de clarividencia
  • A efetividade da punição física como técnica disciplinar em crianças
  • Os efeitos de assistir programas violentos sobre o comportamento violento
  • A precisão da astrologia em prever eventos pessoais
  • Os efeitos físicos e mentais dos medicamentos herbais.

Seus pontos de vista sobre cada assunto foram juntados para produzir um grande número de dados sobre o entendimento da ciencia como forma de resposta a essas questões. E os resultados foram arrepiantes. Pessoas cujos estereótipos preexistentes sobre a homossexualidade foram desafiadas pelas evidências científicas apresentadas estavam mais propensas a acreditar que a ciencia não tem nada a oferecer, para qualquer assunto, não somente sobre a homossexualidade.

Aparentemente quando a pessoa é apresentada a uma evidencia científica que não é bem-vinda, numa tentativa desesperada de manter alguma consistencia em seu ponto de vista, prefere concluir que a ciencia em geral é falha. É um achado interessante. Mas não tenho certeza se isso me faz feliz.

Aparentemente quando a pessoa é apresentada a uma evidencia científica que não é bem-vinda, numa tentativa desesperada de manter alguma consistencia em seu ponto de vista, prefere concluir que a ciencia em geral é falha.

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 18/02/2012, em crenças, Efeito placebo, espiritismo, Experimentos, homeopatia, racionalismo. Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Infelizmente a ciência de hoje se mostra cada vez mais prepotente quanto as suas teorias. Esse mesmo conceito que foi colocado por você no post se aplica a comunidade cientifica atual . Observam um fenômeno espirita por exemplo que desafiam suas teorias preconcebidas sobre eventos vindos de um centro espirita como por exemplo a escrita direta , nao possuem recursos o suficiente para explicar o fenômeno e na tentativa desesperada de manter alguma consistência em seu ponto de vista, ao invés de realmente estudar o fenômeno a fundo , preferem diZer que se tratam de fraudes ou crendices sem nenhum fundamento .

  2. Gabriel Bassi

    Caro Artur. Gostaria que você me informasse qualquer evento espírita retratado integralmente e que tenha passado por um crivo crítico (não precisa ser científico). Gostaria de estudos (críticos ou científicos) relacionados à “escrita direta” ou outro qualquer fenômeno espírita para realmente ir contra as minhas ideias também expostas aqui.

    Se as provas são fraudulentas e apresentamos evidências para tal, cabe ao réu se defender dessas acusações. Nesse caso, foram os espíritas que se utilizaram de “tentativas desesperadas” para manter a consistencia da verdade em muitos casos já retratados neste blog.

    Ficaria contente se você pudesse me enviar qualquer evidencia, prova ou crítica favorecendo os espíritas. Até o julgo final, não há provas de que o espiritismo realmente existe.

  3. Sr. Gabriel. Tenho 56 anos, minha formação é física e não sigo a nenhuma religião. Como passa-tempo, estudo neurociência e biologia molecular, pois o que mais gosto é ciência. E é por isso que não me contive em deixar meu comentário, apesar de não gostar de me envolver nesses assuntos. Tento entender por que uma pessoa ligada a área científica tem esse tipo de pensamento, essa visão de mundo. O título da sua matéria é tendencioso, falacioso. Sabemos que não é verdade (eu pelo menos sei), que não podemos provar qualquer coisa com a ciência. Esse tipo de afirmação só tende a deturpar o verdadeiro significado da ciência. Por exemplo, o Sr. Artur em seu comentário, disse que a ciência se mostra cada vez mais prepotente, isso porque, no entendimento das pessoas, a ciência e o cientista tem o mesmo significado. A ciência é nobre e o cientista, por mais “gênio” que possa ser, é simplesmente um ser humano. A história têm exemplos de sobra de grandes erros de grandes gênios da ciência. Em relação a sua resposta ao Sr. Artur, se existem ou não espíritos, você deveria deixar claro que isso é uma opinião pessoal, pois sabemos que a ciência não tem como provar tal questão. Se você acha que tem, por favor me mostre em qual teoria científica você está se baseando e não se preocupe que eu tenho condições de compreender, seja ela física, química ou biológica. Aliás, existem trabalhos russos nesta área muito bem documentados, feitos por prêmios Nobel de física e química.

  4. Gabriel Bassi

    Caro Sidney
    Obrigado pelo comentário.

    “Sabemos que não é verdade (eu pelo menos sei), que não podemos provar qualquer coisa com a ciência.”
    Aparentemente não. Podemos realmente provar qualquer coisa com a ciência. E não precisamos passar pela estatística e por gráficos hachurados. Simplesmente podemos utilizar o pensamento crítico para gerar uma hipótese que pode ser validada ou não ainda em sua construção (o que já e uma ferramenta científica).
    Por exemplo. Podemos gerar a hipótese de que o espiritismo existe. Porém, antes de antever os dados científicos, muitas perguntas não podem ser respondidas porque simplesmente o assunto principal (espiritismo) não existe. Um exemplo de pergunta que poderemos fazer em relação ao espiritismo é “se há psicografia de pessoas mortas, por que médiuns brasileiros não conseguem psicografar cartas em japonês ou em quechua?”, ou “por que os médiuns não conseguem fazer uma prescrição médica ou uma fórmula matemática complexa?” Não se pode responder porque simplesmente o espiritismo não existe.

    Em resumo: a ciência prova a não existencia do espiritismo utilizando-se do pensamento crítico (que não é respondido pelos seus defensores), o qual faz parte da ciência como um todo.

    Mas voltando ao experimento científico. Aqui mesmo no blog já relatamos como podemos explicar cientificamente, por exemplo, as experiências de quase morte, tão defendidas como provas da existencia do espiritismo

    Quanto aos trabalhos de pesquisadores russos por você citado, por favor, envie-os para mim. Gostaria de dar uma olhada

  5. Gabriel, gostei do seu site. Voltando ao assunto da homeopatia… se eu tomo um remédio homeopático e ele tem feitos terapêuticos sobre mim, isso não seria um indício de que algo ocorreu?

  6. Gabriel Bassi

    Olá, desculpe a demora.

    O indício terapêutico é puramente um efeito placebo. O que vem é a enganação de se vender um “medicamento” quando na verdade é inócuo (no máximo exercendo um efeito placebo).

    A homeopatia vai “tratar” de transtornos que podem ser tratados sem a presença de um medicamento ativo. Exemplos clássicos são dores de cabeça e ansiedade. E esses podem ser tratados com uma variedade de outras terapias comprovadamente eficazes (cientificamente falando), tais como fazer uma atividade prazerosa, mudanças alimentares, mudança do foco do estímulo e administração de placebos.

    O homeopático pode ter um efeito placebo, porém somente em patologias que são comprovadamente afetadas pelo palcebo. Você nunca verá um homeopático “curar” ou “tratar” patologias mais sérias e que necessitem obrigatoriamente de medicamentos ativos, tais como cânceres, síndromes depressivas e doenças auto-imunes.

    Em resumo, o efeito do homeopático (se houver) será placebo. O problema é como se dá sua veiculação, enganando as pessoas que pensam ser o homeopático algo eficientemente comprovado, quando, na verdade, é um água inócua disfarçada (com efeitos placebos no máximo de sua eficacia). É a enganação do povo pela má fé

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