Arquivo mensal: maio 2012

Religião: A ideia que começou centenas de civilizações

Primeira parte: Religião inata: nascidos para crer

Sem a religião ainda estaríamos vivendo na Idade da Pedra, diz Ara Norenzayan

Numa colina localizada a sudeste da Turquia fica o templo de adoração mais antigo que se conhece. Com suas pedras imensas, em formato de T e com desenhos de vários animais, Göbekli Tepe é um assunto que desafia há muito tempo as origens da civilização. Enquanto os arqueólogos dissecam pistas e debatem seus significados, a significância desse local de adoração confunde a todos.

Nenhuma evidência de agricultura doméstica foi encontrada no local, o que pode ser explicado pelo fato de sua datação ser de 11,500 anos atrás, fazendo do templo algo velho o suficiente para ser construído por caçadores-coletores. Porém a arquitetura monumental de Göbekli Tepe poderia ter requerido a presença de várias centenas, possivelmente milhares, de pessoas (Documenta Praehistorica, vol. 37, p. 239). O tempo pode também esconder pistas sobre as duas maiores dúvidas sobre a civilização humana: como as sociedades humanas partiram de grupos de caçadores pequenos e errantes pra sociedades sedentárias e amplas? E como a religião organizada se expandiu para colonizar grande parte das mentes?

O primeiro quebra-cabeça é algo relacionado à cooperação. Até por volta de 12,000 anos, todos os humanos viviam em bandos relativamente pequenos. Hoje virtualmente todas as pessoas vivem em grupos amplos e cooperativos composto principalmente por estranhos. Como isso aconteceu?

Para a biologia evolutiva, a cooperação é comumente explicada por uma de duas formas de altruísmo: cooperação entre parentes e reciprocidade – você coça as minhas costas e eu coço as suas. Mas a cooperação entre estranhos não é facilmente explicada por nenhuma das duas.

À medida que o tamanho do grupo aumenta, ambas formas de altruísmo são destruídas. Com a crescente chance de encontrar estranhos, as oportunidades de cooperação por parentesco declinam. A reciprocidade – sem salvaguardas adicionais tais como instituições para punir aproveitadores – também é rapidamente suprimida.

O segundo quebra-cabeça é como certas tradições religiosas se expalharam pelo mundo. Se você é descendente de cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas ou de agnósticos ou ateístas, é fruto de um movimento religioso de um sucesso extraordinário que começou como um experimento cultural.

“Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, diz a bíblia de acordo com Mateus. Isso também pode descrever a lei da evolução religiosa, a qual afirma que enquanto legiões de novas religiões são criadas, a maioria delas morrem, salvo umas poucas que sobrevivem e florescem.

Ao longo do tempo, todas os movimentos religiosos morrem. Numa análise sobre a estabilidade de 200 comunidades utópicas no século XIX, tanto religiosas como seculares, Richard Sois, da Universidade de Connecticut, encontrou um padrão curioso. A média de vida das comunidades religiosas estava em torno de 25 anos. Em 80 anos, 9 em 10 se desfizeram. As comunidades seculares, muitas das quais socialistas, foram bem piores: duraram uma media de 6,4 anos, e 9 em 10 desapareceram em menos de 20 anos (Cross-Cultural Research, vol. 34, p. 70).

Para a biologia evolutiva, a cooperação é comumente explicada por uma de duas formas de altruísmo: cooperação entre parentes e reciprocidade – você coça as minhas costas e eu coço as suas. Mas a cooperação entre estranhos não é facilmente explicada por nenhuma das duas.

Göbekli Tepe sugere uma solução elegante para ambos quebra-cabeças: cada resposta responde à outra. Para entender como, precisamos rever os debates acalourados sobre as origens evolutivas de religião.

Um ponto de vista crescente é que as crenças religiosas e os rituais surgiram como um produto evolutivo de funções cognitivas simples (Religião Inata: Nascidos para Crer). Uma vez iniciado, o próximo estágio é uma evolução cultural acelerada que leva eventualmente a amplas sociedades com “deuses grandes”.

Algumas variações culturais precoces da religião presumivelmente promoveram comportamento prossociais, tais como cooperação, fidelidade e autossacrifício, enquanto encorajava a demonstração da devoção religiosa, tais como jejuns, tabus alimentícios, rituais extravagantes e outros comportamentos que transmitem a veracidade da fé sincera do crente (Evolution and Human Behavior, vol. 30, p. 244), sinalizando a intenção de cooperar (Evolutionary Anthropology, vol. 12, p. 264). A religião então fez com que estranhos anônimos se agrupassem em comunidades ligadas por assuntos sagrados sob uma jurisdição sobrenatural comum.

Em troca, tais grupos se tornariam maiores e mais cooperativos, tendo consequentemente mais sucesso na competição por recursos e habitats. À medida que o grupo cresce e se espalha, leva a religião consigo, promovendo lentamente a solidariedade social de um modo crescente que suaviza as limitações do tamanho do grupo impostos pelo parentesco e reciprocidade.

A partir daqui há um pequeno passo para a concessão moral dos Grandes Deuses do grande mundo das religiões. Pessoas que tem contato com a fé abraâmica (as que tem como referência o patriarca Abraão – tais como judaísmo, cristianismo e islamismo) estão tão acostumadas em ver uma ligação entre a religião e a moralidade que é difícil para elas imaginar que a religião não começou desse modo moralista. Já os deuses dos pequenos grupos de caçadores-coletores, tais como o Hadza do leste da África e do San do Kalahari, não se preocupam com a moralidade humana. Nessas sociedades transparentes onde as interações face-a-face são normas, é difícil de escapar do julgo social. O altruísmo pelo parentesco e a reciprocidade são suficientes para manter os vínculos sociais.

Algumas variações culturais precoces da religião presumivelmente promoveram comportamento prossociais (…) e outros comportamentos que transmitem a veracidade da fé sincera do crente, sinalizando a intenção de cooperar. A religião então fez com que estranhos anônimos se agrupassem em comunidades ligadas por assuntos sagrados sob uma jurisdição sobrenatural comum.

Porém, à medida que o grupo aumenta em tamanho, a anonimidade invade os relacionamentos e a cooperação é quebrada. Estudos mostram que os sentimentos de anonimidade – até mesmo as ilusórias, tais como usar óculos escuros – estão relacionados ao egoísmo e à trapaça (Evolution and Human Behavior, vol. 26, p. 245). Como diz o ditado, “pessoas observadas são pessoas boas”.

Segue-se então que as pessoas se tornam boas quando pensam que um deus as está observado, e também todas as outras pessoas em volta. Estudos antropológicos apóiam essa ideia. Movendo-se de sociedades humanas de pequena escala para maiores e mais complexas, Grandes Deuses – observadores poderosos, oniscientes e intervencionistas – tornam-se incrivelmente comuns, e a moralidade e a religião se tornam incrivelmente interligadas (Evolution and Human Behavior, vol. 24, p. 126).

Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, e Harvey Whitehouse, da Universidade de Oxford, encontraram mudanças similares nas formas de execução de um ritual: à medida que as sociedades ficam cada vez maiores e mais complexas, os rituais se tornam mais rotineiros, transmitindo e reforçando doutrinas (Evolution and Human Behavior, vol. 32, p. 50). De modo similar, as noções de punição sobrenatural, céu e inferno, são comuns nas religiões modernas, mas são relativamente incomuns nas culturas de caçadores-coletores.

Muitas linhas de evidências experimentais apontam numa mesma direção. Em um estudo, crianças eram instruídas a olhar dentro de uma caixa, e então eram deixadas sozinhas na sala. Aquelas que eram ditas que um agente sobrenatural denominada Princesa Alice as estava observando, e que acreditavam na sua existência, tinham menor propensão de espiar o conteúdo da caixa (Journal of Experimental Child Psychology, vol. 109, p. 311).

Em um estudo, crianças eram instruídas a olhar dentro de uma caixa, e então eram deixadas sozinhas na sala. Aquelas que eram ditas que um agente sobrenatural (…) as estava observando, e que acreditavam na sua existência, tinham menor propensão de espiar o conteúdo da caixa

Jogos econômicos tem sido utilizados para investigar o comportamento prosocial. O jogo do ditador, por exemplo, envolve dois jogadores anônimos numa transação um-a-um. Ao jogador 1 é dado algum dinheiro e deve decidir quando dar ao jogador 2. O jogador 2 recebe o dinheiro (ou nenhum) e o jogo termina. Experimentos feitos por Joseph Henrich da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, Canadá, encontraram que, dentre 15 sociedades diversas pelo mundo, crentes do deus abraâmico davam mais dinheiro que aqueles que acreditavam em deidades locais que não eram oniscientes ou tinham alguma regra moral (Science, vol. 327, p. 1480).

Eu e meu colaborador Azim Shariff estimulamos religiosamente a presença de Deus nas pessoas que jogariam o jogo do ditador, submetendo-as a palavras como divino, Deus e espírito. Outros participantes jogaram o jogo sem qualquer estímulo religioso. A maioria das pessoas do grupo não exposto embolsou o dinheiro, enquanto as pessoas expostas ao estímulo religioso eram muito mais generosas (Psychological Science, vol. 18, p. 803). Eu e meu colaborador Will Gervais encontramos que os lembretes religiosos aumentam o sentimento do crente de que está em observação constante (Journal of Experimental Social Psychology, vol. 48, p. 298).

As pessoas descobriram novos meios de serem boas umas às outras sem um Deus onisciente e onipresente.

A religião, com sua crença de deuses onipresentes e rituais e práticas extravagantes, tem sido como uma cola social para grande parte da história humana. Mas recentemente algumas sociedades tiveram sucesso na manutenção da cooperação por meio de instituições seculares tais como cortes, polícia e mecanismos de reforço. Em algumas partes do mundo, especialmente na Escandinávia, essas instituições proporcionaram o declínio da religião por meio da sua excisão das funções de manutenção da sociedade. Essas sociedades composta de maioria ateísta – algumas das quais mais cooperativas, pacíficas e prósperas do mundo – derrubaram a religião e se mantiveram prósperas.

Lembretes subliminares de uma autoridade moral secular, tais como palavras como cível, júri e polícia, possuem os mesmos efeitos de promoção da lealdade e da justiça como os lembretes de Deus no jogo do ditador. As pessoas descobriram novos meios de serem boas umas às outras sem um Deus onisciente e onipresente.

Lembretes subliminares de uma autoridade moral secular, tais como palavras como cível, júri e polícia, possuem os mesmos efeitos de promoção da lealdade e da justiça como os lembretes de Deus no jogo do ditador.

Ara Norenzayan é professor associado de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, Canadá.

Fonte: New Scientist Magazine

Religião inata: Nascidos para crer

Nossas mentes solucionam problemas fundamentais, mas deixa uma falha que espera ser preenchida por um Deus, diz Justin L Barret.

Por volta dos 5 anos, Wolfgang Amadeus Mozart já conseguia tocar cravo, começando a compor suas próprias músicas. Mozart foi um “músico nato”; possuia grandes talentos naturais, necessitando somente de uma exposição mínima à música para se tornar fluente.

Poucos de nós temos essa sorte. A música comumente tem de ser explicada a nós por meio do ensino, repetição e prática. Já em outras areas, como a linguagem ou o caminhar, todas as pessoas já possuem isso naturalmente; temos todos o “dom de falar” e o “dom de caminhar”.

E onde se encaixa a religião? É mais parecida à música ou à linguagem?

Pesquisas da area da psicologia do desenvolvimento, da antropologia cognitiva e particularmente das ciencias cognitivas da religião me fizeram pensar que a religião é tão natural como nossa linguagem. A grande maioria dos humanos são “crentes natos”, naturalmente inclinados a achar os assuntos religiosos e suas explicações atrativas e de aquisição fácil, tornando-se hábeis na sua utilização. Tal atração pela religião é um produto evolutivo de nossa bagagem cognitiva básica. E enquanto nossa cognição não nos dá respostas sobre as verdades do mundo, por outro lado os assuntos religiosos nos ajudam a ver a religião de um modo muito interessante.

Tão logo os bebês nascem, começam a tentam entender o mundo à sua volta. À medida que o fazem, suas mentes mostram tendências regulares. O recém-nascido mostra certas preferências para o que quer prestar atenção e tenta entender o que as pessoas estão pensando no momento.

Um dos comportamentos mais importantes é o reconhecimento da diferença entre objetos físicos simples e os “agentes” – coisas que podem influenciar o entendimento do meio. Bebês sabem que bolas e livros devem ser tocados para se moverem, mas agentes tais como pessoas e animais podem se mover sozinhos.

Devido à nossa natureza altamente social, prestamos uma ateção especial aos agentes. Somos fortemente atraídos para a explicação de certos eventos por meio da ação de agentes – eventos particularmente que não são prontamente explicados em termos de uma causalidade simples.

Por instância, Phillippe Rochat e colaboradores, da Universidade Emory em Atlanta, Geórgia, conduziram uma série de experimentos mostrando que já no primeiro ano de vida, uma criança consegue diferenciar entre os movimentos de objetos simples dos de agentes, mesmo se o objeto e os agentes em questão são somente discos coloridos feitos por animação gráfica computadorizada. Por volta dos 9 meses de idade, bebês já são sensível não somente ao relacionamento causal entre dois discos que se perseguem na tela do computador, mas podem indicar quem estava perseguindo e quem estava fugindo. Os bebês primeiro assistiam a um disco vermelho perseguindo um azul (ou vice-versa) até que se habituassem ao estímulo – isso é, ficassem entediados. Então o cientista revertia a perseguição. Os bebês notaram as diferenças e voltaram a assistir novamente a perseguição (Perception, vol33, p. 355).

Muitos desses experimentos usaram discos animados que não se assemelhavam a humanos ou animais. Bebês não precisam da presença de uma pessoa, ou mesmo de um animal, para raciocinar e agir – um ponto importante é se aplicarão seu raciocínio em relação aos agentes para deuses invisíveis.

Bebês aparentemente são sensíveis a outras duas características importantes dos agentes, permitindo um melhor entendimento do mundo, mas também permitindo um maior recepção a deuses. Primeiro, agentes agem para completar objetivos. E segundo, não precisam ser visíveis. Para que o agente tenha influência nos grupos socias, como evitar os predadores e capturar presas, precisamos pensar em agentes que não podemos ver.

                “quando vamos à origem das coisas naturais, as crianças são muito receptivas às explicações que envolvem um padrão ou ou propósito”

A facilidade com que os humanos empregam o raciocínio baseado em agentes não termina na infância. Num experimento que fiz com Amanda Johnson, da Faculdade Cavin em Grand Rapids, Michigan, perguntamos a estudantes universitários para narrarem suas ações enquanto empurravam bolas para um buraco de uma mesa. Um pulso eletromagnético era enviado constantemente através da mesa para a bola que estava em movimento, perturbando as expectativas físicas intuitivas. Quase dois terços dos estudantes referiram a bola “perturbada” como um agente, não como objetos físicos comuns, fazendo comentários do tipo, “Aquela não quis permanecer no lugar”, “Oh, veja. Aquelas duas se beijaram”, e “Elas não estão cooperando” (Journal of Cognition and Culture, vol. 3, p. 208).

Essa propensão natural de buscar agentes e de raciocinar de modo contraintuitivo sobre os agentes do mundo é parte de nossa inclinação para acreditar em deuses. Uma vez pareado com outras tendências cognitivas, tais como a busca de um propósito, faz com que a criança fique altamente receptiva à religião.

Para que serve um tigre?

Deborah Kelemen da Universidade de Boston mostrou que desde a infância temos uma forte atração às explicações baseadas em propósitos para objetos naturais – de macacos a pessoas, de icebergues a árvores. Crianças de quatro e cinco anos são mais suscetíveis a pensar que um tigre é “feito para comer, andar e ser visto no zoológico” que “comer, andar e ser visto no zoológico não é feito para ele” (Journal of Cognition and Development, vol. 6, p. 3).

Essa propensão natural de buscar agentes e de raciocinar de modo contraintuitivo sobre os agentes do mundo é parte de nossa inclinação para acreditar em deuses. Uma vez pareado com outras tendências cognitivas, tais como a busca de um propósito, faz com que a criança fique altamente receptiva à religião.

Similarmente, quando se especula sobre a origem das coisas naturais, as crianças são muito receptivas a explicações que invocam um padrão ou um propósito. É mais prazeroso para a criança acreditar que animais e plantas foram criadas para um propósito que acreditar que surgiram por razão nenhuma. Margaret Evans, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, mostrou que crianças abaixo dos 10 anos tendem a abraçar as explicações criacionistas às evolutivas sobre a origem das coisas – até mesmo crianças cujos pais e professores aceitam a evolução (Cognitive Psychology, vol. 42, p. 217). Kelemen também fez experimentos com adultos, sugerindo que não crescemos com essa atração, mas que ela é suprimida por meio da educação formal (Cognition, vol. 111, p. 138).

Isso mostra que aparentemente dividimos uma intuição que depende de um agente para classificar e modelar o que vemos no mundo. Um experimento recente feito por George Newman, da Universidade de Yale, corrobora essa visão. Bebês entre 12 a 13 meses de idade assistiam a duas animações cujo trajeto final era protegido por uma barreira, mas que era retirada ao final do evento, permitindo aos bebês ver os fatos (figura 1): 1) uma bola correndo que batia em blocos empilhados, desordenando-os; 2) uma bola correndo que, quando batia em blocos já desordenados, tornavam-se empilhados. Adultos veriam algo estranho no segundo cenário: bolas não ordenavam os blocos. Bebês também viram algo estranho, pois permaneceram mais tempo observando a segunda animação. Isso sugere que os bebês estranham um bola criando ordem que uma bola criando desordem.

Figura1. Trajeto da bola 9seta amarela) até que atinja os blocos. A consequencia final entre a bola e os blocos é bloqueada por uma barreira que é retirada ao final do evento, permitindo analisar a consequencia.

Ainda mais interessante foi um segundo experimento. Um objeto arredondado e com um rosto (agente) moveu-se propositalmente para trás da barreira e aparentemente ordenava ou desordenava os blocos. Nesse caso, os bebês não mostraram qualquer surpresa aparente (PNAS, vol. 107, p/ 17140).

A explicação mais plausível é que os bebês possuem uma intuição tão aguçada quanto os adultos: pessoas, animais, deuses ou outros agentes podem criar ordem ou desordem, mas “não-agentes”, tais como tempestades ou bolas que rolam, somente criam desordem.

É claro que os deuses não somente criaram ou ordenaram o mundo natural, eles tipicamente possuem superpoderes: superconhecimento, superpercepção e imortalidade. Será que essas características dos deuses, as quais diferem e superam as habilidades das pessoas, são difíceis de serem adotadas pelas crianças?

Margaret Evans mostrou que crianças abaixo dos 10 anos tendem a abraçar as explicações criacionistas às evolutivas sobre a origem das coisas – até mesmo crianças cujos pais e professores aceitam a evolução. Kelemen também fez experimentos com adultos, sugerindo que não crescemos com essa atração, mas que ela é suprimida por meio da educação formal

Numa série de estudos de outros pesquisadores, as crianças aparentam prever que todos os agentes possuem um superconhecimento, superpercepção e imortalidade até que aprendam outra coisa.

Por exemplo, num estudo realizado no México, liderado por Nicola Knight da Universidade de Oxford, crianças da etnia Maya entre 4 e 7 anos foram apresentadas a uma cabaça conhecida por guardar tortilhas. Com a abertura da cabaça coberta, o experimentador perguntou às crianças o que havia dentro. Após a resposta “tortilhas”, lhes eram mostradas – para sua surpresa – que ali dentro continha uma cueca. O experimentador então cobriu a abertura novamente e perguntou se algum agente poderia saber o que havia dentro da cabaça. Os agentes incluíam o deus católico, conhecido como Diós, o deus Maya do Sol, espíritos das florestas, um “bicho-papão” chamado Chiichii ou um humano. Na cultura Maya, Diós é onipotente e onipresente, o deus do Sol sabe de todas as coisas que acontece sob o Sol, o espírito da floresta é limitado às florestas e o Chiichii é somente um aborrecimento.

As crianças mais jovens responderam que todos os agentes poderiam saber o que estava dentro da cabaça. Por volta dos 7 anos, a maioria das crianças pensavam que Diós poderia saber que a cabaça continha cuecas. Porém somente os humanos pensavam que ali havia tortilhas. Elas também podiam diferenciar o grau de conhecimento de outros agentes sobrenaturais (Journal of Cognition and Culture, vol. 8, p. 235). Coisas semelhantes também foram encontradas em crianças albanesas, israelenses, britânicas e estadounidenses.

Posso estar errado, mas minha interpretação disso é que as crianças acham mais fácil presumir que outras pessoas sabem, sentem ou relembram as coisas que imaginar precisamente quem conhece, sente ou se lembra daquilo.

Essa afirmação está relacionada ao desenvolvimento de uma faculdade denominada de “teoria da mente”, a qual se relaciona ao nosso entendimento sobre o pensamento, percepção, desejos e sentimentos das outras pessoas. A teoria da mente é importante para o bem-estar social, mas leva tempo para se desenvolver. Algumas crianças entre 3 e 4 anos simplesmente admitem que outras pessoas possuem um conhecimento do mundo completo e preciso.

Um padrão similar é visto com crianças que passaram a entender a inevitabilidade da morte. Estudos feitos por Emily Burdett, da Universidade de Oxford, sugere que o padrão das crianças é admitir todas as outras pessoas como imortais.

O achado nos quais as crianças mayas pensam que todos os deuses devem saber o que estava dentro da cabaça é importante por outra razão: a doutrinação não pode ser levada em conta. Não importa o que se diga, as crianças não precisam ser doutrinadas para acreditarem em deus. Elas naturalmente gravitam em torno dessa ideia.

Minha alegria é que essas características sobre o desenvolvimento da mente – uma explicação para a atração por explicações baseadas em agentes, uma tendência para explicar o mundo natural em termos de padrões e propósitos, e uma afirmação de que outros possuem superpoderes – faz com que as crianças naturalmente sejam receptivas à ideia de que realmente existe um ou mais deuses que ajudam a moldar o mundo em volta delas.

Posso estar errado, mas minha interpretação disso é que as crianças acham mais fácil presumir que outras pessoas sabem, sentem ou relembram as coisas que imaginar precisamente quem conhece, sente ou se lembra daquilo.

É importante notar que esse conceito da religião se esquiva das crenças teológicas. Crianças não acreditam inatamente não no cristianismo, no islamismo ou qualquer outra teologia, mas naquilo que chamo de “religião natural”. Elas possuem uma forte tendência natural para a religião, mas essas tendências não as impedem de seguir para qualquer outra crença religiosa.

Ao invés disso, o modo pelo qual nossas mentes resolvem problemas gera um espaço conceitual que molda o nosso deus, um espaço que espera ser preenchido pelos detalhes da cultura na qual nascemos.

Justin L. Barrett é diretor do Thrive Center for Human Development no Seminário Teológico de Fuller, em Pasadena, Califórnia. Seu último livro é Born Believers: The science of children`s religious belief .

Fonte: New Scientist