Religião: A ideia que começou centenas de civilizações

Primeira parte: Religião inata: nascidos para crer

Sem a religião ainda estaríamos vivendo na Idade da Pedra, diz Ara Norenzayan

Numa colina localizada a sudeste da Turquia fica o templo de adoração mais antigo que se conhece. Com suas pedras imensas, em formato de T e com desenhos de vários animais, Göbekli Tepe é um assunto que desafia há muito tempo as origens da civilização. Enquanto os arqueólogos dissecam pistas e debatem seus significados, a significância desse local de adoração confunde a todos.

Nenhuma evidência de agricultura doméstica foi encontrada no local, o que pode ser explicado pelo fato de sua datação ser de 11,500 anos atrás, fazendo do templo algo velho o suficiente para ser construído por caçadores-coletores. Porém a arquitetura monumental de Göbekli Tepe poderia ter requerido a presença de várias centenas, possivelmente milhares, de pessoas (Documenta Praehistorica, vol. 37, p. 239). O tempo pode também esconder pistas sobre as duas maiores dúvidas sobre a civilização humana: como as sociedades humanas partiram de grupos de caçadores pequenos e errantes pra sociedades sedentárias e amplas? E como a religião organizada se expandiu para colonizar grande parte das mentes?

O primeiro quebra-cabeça é algo relacionado à cooperação. Até por volta de 12,000 anos, todos os humanos viviam em bandos relativamente pequenos. Hoje virtualmente todas as pessoas vivem em grupos amplos e cooperativos composto principalmente por estranhos. Como isso aconteceu?

Para a biologia evolutiva, a cooperação é comumente explicada por uma de duas formas de altruísmo: cooperação entre parentes e reciprocidade – você coça as minhas costas e eu coço as suas. Mas a cooperação entre estranhos não é facilmente explicada por nenhuma das duas.

À medida que o tamanho do grupo aumenta, ambas formas de altruísmo são destruídas. Com a crescente chance de encontrar estranhos, as oportunidades de cooperação por parentesco declinam. A reciprocidade – sem salvaguardas adicionais tais como instituições para punir aproveitadores – também é rapidamente suprimida.

O segundo quebra-cabeça é como certas tradições religiosas se expalharam pelo mundo. Se você é descendente de cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas ou de agnósticos ou ateístas, é fruto de um movimento religioso de um sucesso extraordinário que começou como um experimento cultural.

“Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, diz a bíblia de acordo com Mateus. Isso também pode descrever a lei da evolução religiosa, a qual afirma que enquanto legiões de novas religiões são criadas, a maioria delas morrem, salvo umas poucas que sobrevivem e florescem.

Ao longo do tempo, todas os movimentos religiosos morrem. Numa análise sobre a estabilidade de 200 comunidades utópicas no século XIX, tanto religiosas como seculares, Richard Sois, da Universidade de Connecticut, encontrou um padrão curioso. A média de vida das comunidades religiosas estava em torno de 25 anos. Em 80 anos, 9 em 10 se desfizeram. As comunidades seculares, muitas das quais socialistas, foram bem piores: duraram uma media de 6,4 anos, e 9 em 10 desapareceram em menos de 20 anos (Cross-Cultural Research, vol. 34, p. 70).

Para a biologia evolutiva, a cooperação é comumente explicada por uma de duas formas de altruísmo: cooperação entre parentes e reciprocidade – você coça as minhas costas e eu coço as suas. Mas a cooperação entre estranhos não é facilmente explicada por nenhuma das duas.

Göbekli Tepe sugere uma solução elegante para ambos quebra-cabeças: cada resposta responde à outra. Para entender como, precisamos rever os debates acalourados sobre as origens evolutivas de religião.

Um ponto de vista crescente é que as crenças religiosas e os rituais surgiram como um produto evolutivo de funções cognitivas simples (Religião Inata: Nascidos para Crer). Uma vez iniciado, o próximo estágio é uma evolução cultural acelerada que leva eventualmente a amplas sociedades com “deuses grandes”.

Algumas variações culturais precoces da religião presumivelmente promoveram comportamento prossociais, tais como cooperação, fidelidade e autossacrifício, enquanto encorajava a demonstração da devoção religiosa, tais como jejuns, tabus alimentícios, rituais extravagantes e outros comportamentos que transmitem a veracidade da fé sincera do crente (Evolution and Human Behavior, vol. 30, p. 244), sinalizando a intenção de cooperar (Evolutionary Anthropology, vol. 12, p. 264). A religião então fez com que estranhos anônimos se agrupassem em comunidades ligadas por assuntos sagrados sob uma jurisdição sobrenatural comum.

Em troca, tais grupos se tornariam maiores e mais cooperativos, tendo consequentemente mais sucesso na competição por recursos e habitats. À medida que o grupo cresce e se espalha, leva a religião consigo, promovendo lentamente a solidariedade social de um modo crescente que suaviza as limitações do tamanho do grupo impostos pelo parentesco e reciprocidade.

A partir daqui há um pequeno passo para a concessão moral dos Grandes Deuses do grande mundo das religiões. Pessoas que tem contato com a fé abraâmica (as que tem como referência o patriarca Abraão – tais como judaísmo, cristianismo e islamismo) estão tão acostumadas em ver uma ligação entre a religião e a moralidade que é difícil para elas imaginar que a religião não começou desse modo moralista. Já os deuses dos pequenos grupos de caçadores-coletores, tais como o Hadza do leste da África e do San do Kalahari, não se preocupam com a moralidade humana. Nessas sociedades transparentes onde as interações face-a-face são normas, é difícil de escapar do julgo social. O altruísmo pelo parentesco e a reciprocidade são suficientes para manter os vínculos sociais.

Algumas variações culturais precoces da religião presumivelmente promoveram comportamento prossociais (…) e outros comportamentos que transmitem a veracidade da fé sincera do crente, sinalizando a intenção de cooperar. A religião então fez com que estranhos anônimos se agrupassem em comunidades ligadas por assuntos sagrados sob uma jurisdição sobrenatural comum.

Porém, à medida que o grupo aumenta em tamanho, a anonimidade invade os relacionamentos e a cooperação é quebrada. Estudos mostram que os sentimentos de anonimidade – até mesmo as ilusórias, tais como usar óculos escuros – estão relacionados ao egoísmo e à trapaça (Evolution and Human Behavior, vol. 26, p. 245). Como diz o ditado, “pessoas observadas são pessoas boas”.

Segue-se então que as pessoas se tornam boas quando pensam que um deus as está observado, e também todas as outras pessoas em volta. Estudos antropológicos apóiam essa ideia. Movendo-se de sociedades humanas de pequena escala para maiores e mais complexas, Grandes Deuses – observadores poderosos, oniscientes e intervencionistas – tornam-se incrivelmente comuns, e a moralidade e a religião se tornam incrivelmente interligadas (Evolution and Human Behavior, vol. 24, p. 126).

Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, e Harvey Whitehouse, da Universidade de Oxford, encontraram mudanças similares nas formas de execução de um ritual: à medida que as sociedades ficam cada vez maiores e mais complexas, os rituais se tornam mais rotineiros, transmitindo e reforçando doutrinas (Evolution and Human Behavior, vol. 32, p. 50). De modo similar, as noções de punição sobrenatural, céu e inferno, são comuns nas religiões modernas, mas são relativamente incomuns nas culturas de caçadores-coletores.

Muitas linhas de evidências experimentais apontam numa mesma direção. Em um estudo, crianças eram instruídas a olhar dentro de uma caixa, e então eram deixadas sozinhas na sala. Aquelas que eram ditas que um agente sobrenatural denominada Princesa Alice as estava observando, e que acreditavam na sua existência, tinham menor propensão de espiar o conteúdo da caixa (Journal of Experimental Child Psychology, vol. 109, p. 311).

Em um estudo, crianças eram instruídas a olhar dentro de uma caixa, e então eram deixadas sozinhas na sala. Aquelas que eram ditas que um agente sobrenatural (…) as estava observando, e que acreditavam na sua existência, tinham menor propensão de espiar o conteúdo da caixa

Jogos econômicos tem sido utilizados para investigar o comportamento prosocial. O jogo do ditador, por exemplo, envolve dois jogadores anônimos numa transação um-a-um. Ao jogador 1 é dado algum dinheiro e deve decidir quando dar ao jogador 2. O jogador 2 recebe o dinheiro (ou nenhum) e o jogo termina. Experimentos feitos por Joseph Henrich da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, Canadá, encontraram que, dentre 15 sociedades diversas pelo mundo, crentes do deus abraâmico davam mais dinheiro que aqueles que acreditavam em deidades locais que não eram oniscientes ou tinham alguma regra moral (Science, vol. 327, p. 1480).

Eu e meu colaborador Azim Shariff estimulamos religiosamente a presença de Deus nas pessoas que jogariam o jogo do ditador, submetendo-as a palavras como divino, Deus e espírito. Outros participantes jogaram o jogo sem qualquer estímulo religioso. A maioria das pessoas do grupo não exposto embolsou o dinheiro, enquanto as pessoas expostas ao estímulo religioso eram muito mais generosas (Psychological Science, vol. 18, p. 803). Eu e meu colaborador Will Gervais encontramos que os lembretes religiosos aumentam o sentimento do crente de que está em observação constante (Journal of Experimental Social Psychology, vol. 48, p. 298).

As pessoas descobriram novos meios de serem boas umas às outras sem um Deus onisciente e onipresente.

A religião, com sua crença de deuses onipresentes e rituais e práticas extravagantes, tem sido como uma cola social para grande parte da história humana. Mas recentemente algumas sociedades tiveram sucesso na manutenção da cooperação por meio de instituições seculares tais como cortes, polícia e mecanismos de reforço. Em algumas partes do mundo, especialmente na Escandinávia, essas instituições proporcionaram o declínio da religião por meio da sua excisão das funções de manutenção da sociedade. Essas sociedades composta de maioria ateísta – algumas das quais mais cooperativas, pacíficas e prósperas do mundo – derrubaram a religião e se mantiveram prósperas.

Lembretes subliminares de uma autoridade moral secular, tais como palavras como cível, júri e polícia, possuem os mesmos efeitos de promoção da lealdade e da justiça como os lembretes de Deus no jogo do ditador. As pessoas descobriram novos meios de serem boas umas às outras sem um Deus onisciente e onipresente.

Lembretes subliminares de uma autoridade moral secular, tais como palavras como cível, júri e polícia, possuem os mesmos efeitos de promoção da lealdade e da justiça como os lembretes de Deus no jogo do ditador.

Ara Norenzayan é professor associado de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, Canadá.

Fonte: New Scientist Magazine

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 30/05/2012, em crenças, Religião. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Excelente texto! Mas, deixando uma pequena paródia a primeira frase do texto: sem a ciência, ainda estaríamos vivendo na Idade das Trevas.

  2. Em 1963, quando eu estudava bioquímica em Cambridge fui convidado, juntamente com alguns dos meus colegas de turma, para uma série de encontros privados com Francis Crick e Sydney Brenner no King´s Collage. Eles tinham acabado de desvelar o código genético. Ambos eram ardentes materialistas. Eles explicaram que haviam dois principais problemas por resolver em biologia: desenvolvimento e consciência. Eles não tinham sido solucionados porque as pessoas que trabalhavam sobre eles não eram biologistas moleculares – nem muito brilhantes. Crick e Brenner iriam descobrir as respostas em 10 ou talvez em 20 anos. Brenner ficaria com o desenvolvimento e Crick com a consciência. Eles convidaram-nos para nos juntarmos a eles.

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