Sociedades estudantis

Para que serve uma sociedade estudantil?

Extremamente populares nas universidades britânicas, norte-americanas e de outros países de língua inglesa, sociedades estudantis formam parte essencial da vida social universitária. Somente na universidade de Edimburgo (onde me formei) existem atualmente mais de 200 sociedades organizadas pelos próprios estudantes, reconhecidas e mantidas pela associação estudantil (ou diretório central como é chamado no Brasil) com o apoio da própria universidade. Sociedades são um lugar para se conhecer outros estudantes com interesses em comum, dedicar-se a um hobby, aumentar a rede de contatos ou simplesmente socializar. Elas também enriquecem em muito a vida cultural do campus; as atividades organizadas variam desde festas e churrascos beneficentes a exibição de filmes e concertos musicais, organização de palestras, protestos, campanhas, etc.

Existem ainda outros atrativos. Você aprende muita coisa importante para outras áreas da vida além da universitária. Por exemplo: como organizar ou liderar um grupo com responsabilidade e valores democráticos, como falar em público e perder a timidez, como manter um blog, argumentar, etc. Empregadores, por exemplo, gostam de ver participações em coisas desse tipo nos currículos de candidatos; mostra iniciativa e envolvimento.

Para que serve uma sociedade estudantil racionalista?

Se ciência e pensamento crítico são coisas que lhe atraem você muito provavelmente é um racionalista. A universidade é com certeza um bom lugar para se encontrar outros racionalistas; contudo nem sempre isso é fácil. Recém chegado a Ribeirão Preto como estudante de mestrado os únicos grupos que encontrei foram a aliança bíblica universitária (sem dúvida a sociedade estudantil mais organizada que já vi), o grupo de oração universitário e um grupo de espiritismo; não exatamente o paraíso de raciocínio crítico que esperava. Também quase não haviam eventos de interesse de céticos e descrentes como debates e exibições de documentários. Além disso, a crescente influência do movimento evangélico se fazia sentir tanto fora quanto dentro do campus, e não parecia haver nenhum contraponto ou alternativa no sentido de divulgar e celebrar a razão e a descrença.

Foi com isso em mente que resolvi criar uma lista de emails e espalhar cartazes pelo campus em busca de outros interessados. Logo em seguida estes começaram a aparecer e marcamos uma reunião para nos conhecermos. A Sociedade Racionalista USP havia sido criada. Instituímos o Café Racional, um encontro semanal informal onde os membros e interessados podem se conhecer pessoalmente, conversar e fazer amizades. Organizamos exibições de filmes e documentários, panfletaços e debates, além de criarmos uma forte presença virtual. Mas ainda há escopo para muito mais como atividades de recepção aos calouros, atividades beneficentes, festas, excursões e etc.

Como começar uma sociedade estudantil racionalista

Sem o apoio da universidade, começar uma sociedade estudantil requer um certo planejamento. Por outro lado, há mais espaço para criatividade e inovação, tornando a experiência ainda mais enriquecedora.

Existem opções estrangeiras muito boas, como a Aliança Estudantil Secularista e o CFI On Campus que oferecem assistência e materiais para ajudar a começar um grupo. Algumas AES já até começaram a aparecer em universidades brasileiras, como na UFMG, UFPA e UFPR. Organizações como essas tem anos de experiência e são com certeza o caminho mais rápido e menos complicado para formação de uma sociedade estudantil cética e racionalista.

Para quem prefere partir do zero, criar uma lista de emails e espalhar cartazes pelo campus é uma boa maneira de começar a atrair interessados. Elaborar logo em seguida uma constituição (como esta ou seguindo este modelo) também é essencial. Nada muito longo e complicado, bastam alguns princípios gerais e algumas regras simples  para deixar tudo o mais transparente e democrático possível e minimizar confusões e desentendimentos. Outro elemento principal é uma reunião regular do grupo, seja ao redor de um café depois do almoço ou de uma cerveja no bar da universidade. Por mais importante que sejam os grupos virtuais na internet, a presença física ainda é fundamental para se forjar relações humanas de qualidade. A estrutura final da sociedade deverá constituir-se de uma diretoria ou coordenação (democraticamente eleita) e de membros ou associados. É importante ter em mente que mesmo com a mais dedicada e agitada diretoria é comum que tanto membros quanto diretores surjam e desapareçam, e que a presença nas reuniões e participação varie bastante; afinal de contas, vida universitária tem muitas distrações.

A experiência é gratificante em muitos aspectos. Como membro você faz amizades com pessoas realmente interessantes, participa de eventos e aprimora sua capacidade crítica e de debate. Como diretor você tem todos os benefícios de um membro e mais; você também aprende a liderar e organizar um grupo e, para felicidade dos que curtem uma social, torna-se uma figura conhecida não só no campus como também fora (por exemplo quando um repórter de uma revista de qualidade duvidosa pede uma entrevista). E, de quebra, você ainda faz a sua parte em divulgar a ciência, a razão e o pensamento crítico.

Sobre André Luzardo

Holds a BSc in Mathematics from the University of Edinburgh. PhD researcher in Computer Science at City University London. Interested in computational models of Behaviour, Learning and Interval Timing. Skeptic activist. Follow me on Facebook @ndrluzardo. Matemático pela University of Edinburgh. Doutorando em ciências da computação na City University London. Pesquisador nas áreas de percepção temporal, aprendizado e modelagem computacional do comportamento. Ativista cético nas horas vagas. Siga-me no Facebook @ndrluzardo.

Publicado em 04/06/2012, em sociedades estudantis e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Comentários desativados em Sociedades estudantis.

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