Espiritismo passando por ciência na revista Época

Em um estudo recente, uma técnica de imagem cerebral foi usada para investigar o cérebro de médiuns durante a psicografia. Os resultados (apenas preliminares) condizem com fatos já estabelecidos em outros estudos sobre expertise. Curiosamente, os autores sugerem que os resultados também ‘são consistentes com a noção de escrita (não consciente) automática e da alegação de que uma “fonte externa” estava planejando o conteúdo da escrita.’ Estariam os autores sugerindo que a fonte externa são espíritos?

Steve Novella fez uma análise (traduzida aqui) do estudo que é bem completa e com a qual estou de pleno acordo. Mas é em uma matéria da jornalista Denise Paraná na revista Época, com o título sugestivo ‘os avanços da ciência da alma’, que os autores afirmam definitivamente o que no estudo apenas sugerem, e vão além ao defender que a mente pode ser imaterial e independente do corpo.

A reportagem começa descrevendo o encontro da jornalista com os médiuns nos EUA, a biografia dos autores, os objetivos e motivação do estudo e outros detalhes de fundo. A interpretação ‘espírita’ do estudo, que no paper fica apenas subentendida, é agora exposta de maneira clara e promocional:

Surpreendentemente, durante a psicografia os cérebros ativaram menos as áreas relacionadas ao planejamento e à criatividade, embora tenham sido produzidos textos mais complexos do que aqueles escritos sem “interferência espiritual”. Para os cientistas, isso seria compatível com a hipótese que os médiuns defendem: a autoria das psicografias não seria deles, mas dos espíritos comunicantes.

Nenhuma tentativa de análise crítica é apresentada e essa interpretação é aceita sem discussão.

A reportagem segue por um detour propagandístico e acrítico pelo espiritismo. Como já é de praxe na mídia brasileira, a jornalista exalta e glorifica Chico Xavier:

Mineiro de família pobre, fala mansa e sorriso tímido, Chico Xavier recebeu apenas o ensino básico. Isso não o impediu de publicar mais de 400 livros, alguns em dez idiomas diferentes, cobrindo variados gêneros literários e amplas áreas do conhecimento. Ao final da vida, vendera cerca de 40 milhões de exemplares, cujos direitos autorais foram doados. Psicografou por sete décadas. Nenhum tipo de fraude foi comprovada.

Pelo menos uma fraude envolvendo Chico Xavier foi muito bem comprovada e documentada, a da médium Otília Diogo. Além desse detalhe, há também muitas razões para se duvidar das alegações de médiums como Chico Xavier. Se é verdade que um médium pode canalizar o espírito de um morto, por que nenhum médium jamais psicografou a prova de algum teorema matemático desconhecido? Por que sempre o material psicografado é vago ou alegadamente advém de autores de literatura cuja autenticação e avaliação são necessariamente subjetivas?

A seguir a jornalista cita vários nomes famosos dos séculos XIX e XX, alguns de cientistas, que aparentemente interessaram-se por mediunidade em algum momento de suas vidas:

“Se eu pudesse recomeçar minha vida, deixaria de lado tudo o que fiz, para estudar a paranormalidade.” Essa confissão de Sigmund Freud a seu biógrafo oficial, Ernest Jones, marca um dos capítulos pouco conhecidos da história do pensamento humano. […] Talvez menos gente saiba que Marie Curie, a primeira cientista a ganhar dois prêmios Nobel, e seu marido, Pierre Curie, também Nobel, dedicaram espaço em suas atribuladas agendas ao estudo de médiuns. […] Quem seria capaz de imaginar isso hoje?

Quase ninguém seria capaz de imaginar isso hoje exatamente pelo fato de que esses fenômenos foram investigados e descartados como fraude. Casos de mediunidade começaram a aparecer em 1848 após as irmãs Fox em New York terem alegado ser capazes de comunicarem-se com espíritos através de batidas em uma mesa. Trinta anos depois as irmãs admitiram ser tudo uma fraude: as batidas eram na verdade o som de estalos dos seus dedos dos pés embaixo da mesa. Nesse ínterim a novidade espalhou-se e alegações de mediunidade surgiram em muitos outros países. Várias personalidades foram persuadidas pelos feitos aparentemente extraordinários até que Harry Houdini (outro nome famoso mas que a jornalista esquece de citar) expôs a farsa pelo que realmente era: truques de magia de salão.

Ao contrário do que a reportagem dá a entender, não foram apenas alguns casos isolados de fraude que fizeram a ciência perder o interesse e sim a ausência, mesmo em meio a uma grande quantidade de alegações, de qualquer evidência de fenômenos mediúnicos reais.

A matéria continua com alegações aparentemente proferidas por cientistas:

Muita coisa não cabe dentro do discurso que prevalece hoje na ciência. Pesquisadores da área acreditam que a telepatia do médium com o consciente ou o inconsciente daquele que deseja uma comunicação espiritual não explica psicografias nas quais se revelam informações desconhecidas das pessoas que o procuram.

A afirmação de que médiuns são capazes de comunicação telepática é surpreendente e portanto necessita de forte evidência, não basta apenas dizer que ‘pesquisadores da área acreditam’. Quem são esses pesquisadores e onde estão os estudos?

Num fenômeno em que comprovadamente não houvesse fraude ou sugestão inconsciente, sobrariam apenas duas hipóteses: ou haveria a capacidade do médium de captar informações em outro espaço e tempo; ou existiria mesmo a capacidade de comunicação entre o médium e o espírito de um morto.

Como poderíamos comprovar a ausência de fraude ou sugestão inconsciente? Mesmo que fosse possível descartar todo tipo de truque conhecido sempre há a possibilidade do médium utilizar um truque novo completamente desconhecido. Ausência de evidência (de fraude) não é evidência de ausência (de fraude). Informações psicografadas podem ser obtidas de muitas, talvez infinitas, maneiras não-paranormais. Portanto não é verdade que sobrariam apenas hipóteses paranormais; é muito mais provável que algo bem normal esteja por trás de uma alegação mediúnica.

O pesquisador Alexander Moreira-Almeida, coautor do estudo e diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora, é o principal responsável por colocar o Brasil em destaque nessa área no cenário internacional. […] Ele afirma que a alma, ou como prefere dizer, a personalidade ou a mente, está intimamente ligada ao cérebro, mas pode ser algo além dele. Para esse psiquiatra fluminense, pesquisas sobre experiências espirituais, como a mediunidade, são importantes para entendermos a mente e testarmos a hipótese materialista de que a personalidade seja um simples produto do cérebro. Moreira-Almeida lembra que Galileu e Darwin só puderam revolucionar a ciência porque passaram a analisar fenômenos que antes não eram considerados. “O materialismo é uma hipótese, não é ainda um fato cientificamente comprovado, como muitos acreditam”, diz Moreira- Almeida.

A equação mente = alma não é levada a sério pela esmagadora maioria de neurocientistas por dois motivos, um empírico e outro filosófico. O motivo empírico é que não há evidência alguma de que exista alma ou espírito; todos os casos investigados de mediunidade não passaram de fraude e tampouco existe qualquer evidência neurológica da existência dessas entidades. Ao contrário, toda evidência mostra que a mente é um produto do cérebro. Pacientes que perderam partes do cérebro devido a derrames ou outros acidentes perdem também as funções pelas quais aquela área era responsável (embora em certas ocasiões o cérebro possa recuperar parte das funções perdidas recrutando áreas adjacentes). Estimulação elétrica ou magnética do cérebro, assim como a administração de certos compostos químicos, causam experiências consideradas como mentais. Nada disso precisaria acontecer fosse a mente independente do cérebro. O motivo filósofico diz respeito aos problemas do próprio conceito de alma como algo imaterial mas com existência própria. Adversários do materialismo precisam explicar em que sentido algo imaterial pode existir e como algo imaterial pode influenciar algo material.

A matéria acaba com um levantamento da opinião popular:

Dados do World Values Survey revelam que a maioria da população mundial acredita na vida após a morte. Em todo o planeta, um número expressivo de pessoas declara ter se sentido em contato com mortos […] Para a maioria da população, a visão materialista parece deixar um vazio atrás de si.

A jornalista parece estar sugerindo que apliquemos uma falácia lógica conhecida como apelo à massa: se muitos acreditam em X então X deve ser verdade. Não, obrigado.

Conclusão

Através de um raciocínio acrítico e falacioso, a reportagem dá a entender que 1) as alegações do espiritismo são convincentes e 2) a ciência está finalmente dedicando-se a estudar fenômenos espíritas.

Como vimos, o estudo publicado na Plos One não teve como objetivo demonstrar que a psicografia é de fato um fenômeno paranormal e nem mostra evidências para isso. No entanto, não só a jornalista como alguns dos autores do estudo alegam o contrário e vão ainda além ao sustentar uma versão do dualismo alma x corpo já há muito descartada pela neurociência moderna.

A matéria está mais para proselitismo espírita do que para jornalismo. Uma pena, pois todos nós perdemos quando a mídia confunde religião com ciência.

Sobre André Luzardo

Holds a BSc in Mathematics from the University of Edinburgh. PhD researcher in Computer Science at City University London. Interested in computational models of Behaviour, Learning and Interval Timing. Skeptic activist. Follow me on Facebook @ndrluzardo. Matemático pela University of Edinburgh. Doutorando em ciências da computação na City University London. Pesquisador nas áreas de percepção temporal, aprendizado e modelagem computacional do comportamento. Ativista cético nas horas vagas. Siga-me no Facebook @ndrluzardo.

Publicado em 04/12/2012, em espiritismo, Religião e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 19 Comentários.

  1. Quando a mídia não especializada põe a mão, deturpa tudo de uma maneira cmo só ela sabe fazer.

  2. E o pior é que nesse caso os próprios autores do estudo concordam e incentivam a deturpação.

  3. Esse é o problema de alguns insights e de todas as crendices. O autor tem um sutil desejo de que algo sobrenatural governe nossa “débil” natureza. Encontra alguns resultados que não consegue explicar exatamente. E assume que aquilo que queria que fosse real É real. A história está repleta disso. Cientistas irresponsáveis com suas declarações.

  4. A revista época é um lixo

  5. Quem escreveu esse texto não conhece o espiritismo (e provávelmente outras religiões reencarnacionista) e foi igual ao escritor da revista EPOCA, muito tendencioso e propagandista. Mensagens psicografadas estão longe de serem vagas (não falam q catástrofes vão acontecer ou que a a pessoa passa por problemas. Isso chama-se exoterismo e não espiritismo). outra, não é de praxe exaltar o espiritismo na mídia não, meu bem, a mídia ja tentou desmascarar vários médiuns, inclusive uns que faziam cirurgia espiritual (e nesse ponto tem charlatões q dizem q o q fazem, com pequenos cortes, é espiritismo, aquele espiritismo de Allan Kardec). Documentários no Fantástico, na REcord (claro) e em outros lugares. Vamos fazer assim: espiritismo fica longe do sensacionalismo de revistas populares e se afasta da ciência e o autor desse texto pára de falar o q não sabe ou estuda muito bem o espiritismo e outras religiões que acreditam na comunicabilidade dos espíritos

  6. jose ricardo ferreira

    A revista Época pertence ao grupo da Globo, empresa notadamente promotora do “Espiritismo” há muito tempo ,e isso se verifica em suas produções(novelas,séries,reportagens,-tendo inclusive financiado um filme sobre o tal de Xico Xavier) de forma explícita ou de forma induzida,muitas vezes tentando tratar o assunto como “ciência”, levando milhões de incautos a crer nessa falácia.A matéria da revista beira o ridículo.

  7. O texto de André Luzardo demonstra profunda ignorância sobre as melhores pesquisas em torno da mediunidade. Comentando algumas passagens:

    01 – “todos os casos investigados de mediunidade não passaram de fraude”

    A médium Leonora Piper foi extensivamente investigada durante décadas e nunca nenhuma evidência de fraude foi descoberta, tendo ela passado excepcionalmente bem por diversos testes. Sugiro que baixe e leia o artigo disponível sobre ela nesse link: http://obraspsicografadas.org/2011/a-sra-piper-1899-1900/

    Seria interessante também ler a refutação ao artigo do cético Martin Gardner sobre o caso Piper: http://obraspsicografadas.org/2012/como-martin-gardner-enganou-os-cticos-uma-lio-ao-confiar-em-um-mgico-2010/

    Vários ourtros médiuns estudados também jamais foram pegos em fraude, como a sra. Chenoweth, Gladys Osborne Leonard, Hafsteinn Bjornsson, Robert Rollans…

    02 – “Pacientes que perderam partes do cérebro devido a derrames ou outros acidentes perdem também as funções pelas quais aquela área era responsável (embora em certas ocasiões o cérebro possa recuperar parte das funções perdidas recrutando áreas adjacentes). ”

    Um meio simples de ilustrar a falácia do argumento neurocientífico de que o cérebro = mente é fazendo uma analogia de como um rádio funciona. Digamos que você nada sabe sobre física. Escuta um talk show num rádio e fica curioso sobre de onde as vozes vêm. Você pega o rádio e logo avisa que há uma correlação um-para-um entre as vozes e as correntes elétricas nos circuitos do rádio. Você logicamente conclui que as vozes obviamente são causadas pelo próprio rádio. Caso estrague parte do rádio para provar seu ponto, então as vozes tornar-se-ão degradadas ou desaparecerão todas. Caso encerrado.

    O cérebro como um gerador da mente é a explicação predominante nas neurociências, mas o cérebro como um receptor da mente fornece resultados idênticos. Se alguém ignora os dados de psi então o modelo de gerador parece suficiente. Mas se alguém aceita os dados de psi, o modelo de receptor começa a parecer mais atraente.

    Recomendo um novo livro, Irreducible Mind: Toward a Psychology for the 21st Century [Mente Irredutível: Em direção a uma Psicologia para o Século 21], para uma revisão acadêmica compreensiva da evidência (mais do que apenas psi) sugerindo que o cérebro como receptor é um melhor modelo da mente do que cérebro como gerador. O primeiro modelo tem conseqüências profundas para revisar nosso entendimento científico de quem e o que nós somos, que é uma das razões da corrente neurocientífica principal tende a ignorar a evidência contrabalançante.

  8. Caro Vitor, um artigo de 1899 publicado na revista Proceedings of the Society of Psychical Research não inspira muita credibilidade, não? Se fosse assim tão confiável, por que não vemos menção desse e de outros resultados a favor do sobrenatural na Nature Neuroscience, Science, etc? Como eu disse antes: ausência de evidência de fraude não quer dizer evidência de ausência de fraude. O que é mais provável: que médiuns tenham poderes paranormais que contradizem diversas leis da física ou que uma moça em 1899 tenha encontrado uma maneira de enganar alguns investigadores crédulos como William James?

    Caso você tenha evidências concretas de mediunidade hoje em dia (alguém, de preferência de uma tribo indígena sem eduação formal, que psicografe a prova perdida do teorema de Fermat ou o conteúdo completo – equações e provas – do trabalho atual que presumivelmente Einstein, Dirac ou Newton estejam dedicando-se no além) me avise; eu teria todo prazer em publicar esse paper na Nature.

    Quanto a sua analogia do rádio e do cérebro ser uma espécie de antena captando alguma ‘energia’ cósmica e transformando-a em consciência, há claramente muitos erros de raciocínio crítico e científico. Primeiro essa ‘teoria’ confunde muito mais do que explica; ela transfere o problema de explicar a consciência para o problema (muito maior) de explicar a origem e natureza dessa suposta energia cósmica da qual não temos o menor vestígio. Segundo, se essa energia cósmica fosse composta por matéria deveria haver pelo menos alguma maneira de bloqueá-la, como em uma gaiola de Faraday por exemplo, causando supostamente a morte (ou cessação da consciência) do pobre indivíduo. Existe algum caso destes na literatura? Se essa energia não fosse material, daí seria necessário explicar como algo imaterial conseguiria exercer qualquer tipo de influência sob algo material, um problema meio grande.

    Acho que há uma razão de casos de mediunidade ser mais comuns 100 anos atrás. Assim como as câmeras digitais de alta resolução presentes na maioria dos celulares de hoje diminuíram em muito os casos de UFOs ou OVNIs, o aumento da educação média e os trabalhos de desenganação de mágicos e céticos como Houdini e Randi estão aos poucos acabando com a mediunidade. Já era hora!

  9. Caro André,
    comentando:

    01 – “um artigo de 1899 publicado na revista Proceedings of the Society of Psychical Research não inspira muita credibilidade, não?”

    Por que não, se à época vários membros da Royal Society faziam parte da SPR? Até hoje você encontra prêmios Nobeis com publicações na área, como Brian Josephson, Nobel de Física em 1973.

    02 – “Se fosse assim tão confiável, por que não vemos menção desse e de outros resultados a favor do sobrenatural na Nature Neuroscience, Science, etc?”

    E quem disse que não vemos? Piper foi inclusive citada na Science por Wlliam James. Você pode baixar o arquivo aqui:

    http://www.4shared.com/file/35363089/2729b07d/Address_President_Science3p881.html

    Em 1911 ela foi mencionada na Enciclopédia Britânica como exemplo de médium legítima:

    “The genuineness of trance mediumship can no longer be called in question. […]. The best observed case is that of Mrs Piper of Boston. […] There is no evidence for regarding Mrs Piper as anything but absolutely honest.”

    Fonte: http://www.1911encyclopedia.org/Medium

    03 – “O que é mais provável: que médiuns tenham poderes paranormais que contradizem diversas leis da física ou que uma moça em 1899 tenha encontrado uma maneira de enganar alguns investigadores crédulos como William James?”

    a) Desconheço leis da Física que sejam violadas pela mediunidade mental – como era o caso de Piper. Já a mediunidade de efeitos físicos é outra história…

    b) James não era crédulo. No segundo artigo que lhe indiquei, o que refuta o cético Martin Gardner, conta-se que William James era inteligente para expor outros médiuns fraudulentos antes de Piper.

    04 – “Caso você tenha evidências concretas de mediunidade hoje em dia […] me avise”

    Avisando então:

    a) http://obraspsicografadas.org/2011/uma-investigao-de-mdiuns-que-alegam-receber-informaes-sobre-pessoas-falecidas-2011/

    b) http://obraspsicografadas.org/2012/um-experimento-de-clarividncia-de-resposta-livre-com-uma-psquica-talentosa-2011/

    05 – Primeiro essa ‘teoria’ confunde muito mais do que explica; ela transfere o problema de explicar a consciência para o problema (muito maior) de explicar a origem e natureza dessa suposta energia cósmica da qual não temos o menor vestígio.

    Não me parece um problema maior do que o atualmente enfrentado pela Física no tocante à energia e à matéria escura.

    06 – Segundo, se essa energia cósmica fosse composta por matéria deveria haver pelo menos alguma maneira de bloqueá-la, como em uma gaiola de Faraday por exemplo, causando supostamente a morte (ou cessação da consciência) do pobre indivíduo.

    Explique-me como você bloquearia a passagem de neutrinos dextrogiros. Segundo o artigo disponível em http://obraspsicografadas.org/2012/fsica-moderna-e-mundos-sutis-no-mutuamente-exclusivos-2000/, não me parece que uma gaiola de Faraday – ou qualquer outra engenhoca humana, pelo menos até a presente data – daria conta disso.

    07 – “como algo imaterial conseguiria exercer qualquer tipo de influência sob algo material, um problema meio grande.”

    Não tão grande se entendermos imaterialidade como característica dos sistemas com massa de repouso nula. Nesse caso a todo momento estamos vendo interações do imaterial com o material. O caso luz/olhos seria um exemplo. Então, é possível que a comunicação espírito/cérebro seja análoga à interação luz/olhos. E isso quem me disse foi um físico chamado José Edmar Arantes Ribeiro…

  10. Vitor, se as alegações de mediunidade da Piper tivessem sido confirmadas veríamos HOJE diversos artigos na Nature ou Science e pesquisadores (talvez a grande maioria) dedicados a estudar esse fenômeno. Mas não vemos. Ao contrário, mediunidade e parapsicologia deixaram de ser levadas a sério muitos anos atrás por causa das fraudes, e a falta de teorias explicativas desses supostos fenômenos que também se encaixem no conjunto existente de teorias científicas modernas reforça a conclusão de fraude ou falha metodológica nos poucos casos que faltam explicar.

    Claro, se você quer provar que parapsicologia e mediunidade existem você irá sempre encontrar publicações que confirmem sua teoria, um processo chamado viés da confirmação. Os papers que você indica no comentário acima são casos isolados, não reproduzidos, e que novamente envolvem efeitos vagos e subjetivos como de médiuns psicografando sobre pessoas mortas ou descrevendo fotos em envelopes selados. Onde estão os médiuns psicografando provas matemáticas corretas perdidas de teoremas matemáticos?

    Você conhece estatística bayesiana? Quando se leva em conta a alta probabilidade de erro em estudos de parapsicologia, a chamada probabilidade prévia, os efeitos estatísticamente significativos tendem a desaparecer.

    Quanto a neutrinos, estes não são imateriais (possuem massa porém muito pequena) e interagem de maneira fraca porém detectável com outras partículas. A interação luz/olhos se dá por meio de fótons, partículas sem massa mas com energia mais que suficiente para interagir com as proteínas opsin presentes na membrana de células da retina. Tanto neutrinos quanto fótons possuem massa ou energia e são portanto bem materiais, não servindo como analogia de espíritos.

  11. Caro André,

    a Parapsicologia é aceita como ciência legítima desde 1969 pela AAAS, a maior associação científica do mundo e mesma editora da revista Science. A falta de maior pesquisa em torno do tema não se deve tanto às fraudes – que existem em qualquer campo científico – e sim porque após a primeira guerra mundial, J. B. Watson, o fundador do behaviorismo, persuadiu muitas pessoas de que a introspecção e o estudo dos estados mentais são não-científicos e os interessados nas operações da mente humana devem limitar-se a observar empiricamente o comportamento. A noção dualista de que a mente ou alma é algo essencialmente separado do corpo foi apontada como uma concepção religiosa ou metafísica e quase totalmente desconsiderada pelos cientistas, desconfiados das ideias associadas à religião ou à metafísica. O corpo humano passou a ser considerado uma máquina, seu cérebro visto como um tipo sofisticado de instrumento de calcular; pensamento e percepção foram considerados atos físicos e entidades desincorporadas seriam ipso facto incapazes de tais atos. A autoconsciência foi definida simplesmente como o subproduto de um instrumento de cálculo que alcançou certo nível de complexidade; assim, ter uma mente depende de se ter um cérebro e não há qualquer lugar para a alma. Além disso, Nature e Science publicam uma fração minúscula da produção de ciência da corrente principal, e a competição para entrar nesses jornais é intensa. Baseado num jogo simples de números, quando se tem 1 milhão de cientistas na corrente principal, e talvez uns 50 na marginal, a probabilidade que esses jornais publiquem um artigo relacionado ao paranormal é excessivamente pequena. Só por aí se vê que experiências relativas ao paranormal não são suficientes para serem publicadas ao competir contra centenas de milhares de outros estudos. Além disso, quando a Nature publicou um artigo sobre o paranormal na década de 1970, veio com uma desculpa editorial nunca vista, e recebeu muitas cartas mais do que suficiente de cientistas que se sentiram ultrajados que fez com que os grandes jornais jamais quisessem fazê-lo outra vez.

    Quanto a “médiuns psicografando provas matemáticas corretas perdidas” provavelmente não existem. Há evidências substanciais de que a informação psi é percebida como vislumbres impressionistas no lado direito do cérebro, como sentimentos, formas e cores, ao invés de palavras ou números no lado esquerdo do cérebro.

    Não conheço estatística bayesiana, mas quanto à “alta probabilidade de erro em estudos parapsicológicos”, as diretrizes metodológicas de diversos estudos foram discutidas entre céticos e crentes, tendo eles chegado a um acordo para evitar erros metodológicos, como os testes ganzfeld, e os resultados significativos se mantiveram após décadas de replicações. Os próprios céticos replicaram tais resultados.

    Quanto aos neutrinos, apenas alguns tipos são detectáveis.

    “Os neutrinos, como possuem uma massa muito pequena, possuem uma união gravitacional que é demais pequena para medir, e, portanto, eles possuem apenas (de forma eficaz) união com a força fraca. Assim o único meio em que nós podemos detectar os neutrinos é via a força fraca. Mas a força fraca é assim chamada porque é débil. Aliás, é tão extremamente débil que mais de 200 bilhões de neutrinos atravessaram a unha do seu polegar durante o tempo que você levou para ler esta sentença, mas você não sentiu nada. A força fraca (o único meio pelo qual o seu sistema nervoso poderia ter detectado a presença dos neutrinos) é tão leve que nenhum desses neutrinos reagiu com um único átomo da sua unha. Aliás, a única forma de os neutrinos serem realmente detectados nas experiências é usando volumes enormes de matéria por longos períodos de tempo. Nas experiências típicas, um mero punhado de interações reais é detectado após muitos meses. Esta quase imperceptibilidade das fraquíssimas interações dos neutrinos os transforma quase que em fantasmas. Eles atravessam a matéria praticamente sem a nossa consciência de sua presença. Mais notavelmente, outra propriedade da força fraca pode tornar certos neutrinos ainda mais tênues. Ocorre que a força fraca é restrita à física de partículas designada como tendo “quilaridade para a esquerda”. O spin pode ser pensado tanto no sentido horário (dextrogiro) ou anti-horário (levógiro). Assim apenas neutrinos levógiros interagem com a força fraca. Os dextrogiros são imunes e, portanto, transparentes, aos seus efeitos. Então apenas um neutrino levógiro pode reagir via força fraca com outra partícula tal como um quark, elétron, ou outro neutrino.Como nós não podemos detectar os neutrinos dextrogiros pela força fraca, não há essencialmente nenhum meio de saber se estas partículas sequer existem. Ainda assim, há trilhões incontáveis delas passando a cada minuto por cada um de nós e por cada detector conhecido. Se os neutrinos levógiros são quase como fantasmas, os neutrinos dextrogiros o são completamente.”

    Incluir fótons dentro do que chamamos de matéria soa-me estranho. A Física não chama a luz ou os fótons de matéria pois a luz não ocupa espaço nem possui massa. Além disso, os fótons são bósons e a matéria ordinária é considerada pela Física como sendo formada de férmions. Segundo o Modelo Padrão e, portanto, de acordo com o conhecimento da Física atual, a matéria ordinária é tudo que é formado de férmions elementares, isto é, de quarks e léptons que possuem spin de valor semi-inteiro. Como os elétrons são léptons e os prótons e neutrons são formados por quarks, todos os átomos conhecidos que formam a matéria que conhecemos são formados de quarks e léptons, e portanto, de férmions. Já os fótons e outros bósons que a Física de Partículas descobriu o Modelo Padrão simplesmente não os chama de matéria, mas apenas de bósons. São, de fato, partículas reais, que fazem parte da natureza física que conhecemos, mas não são considerados matéria ordinária.

  12. Vitor, resumindo em poucas palavras o seu (longo) comentário: existe uma conspiração entre os cientistas para desacreditar fenômenos parapsicologicos que vão contra sua maneira (ultrapassada) de entender o mundo.

    Você é livre pra acreditar na teoria da conspiração que quiser. Mas enquanto as únicas evidências que você puder fornecer de paranormalidade são os papers que você mandou e ‘sentimentos, formas e cores’ no lado direito do cérebro, é difícil ver como alguém com o mínimo de ceticismo pode levar isso a sério.

  13. André Luzardo, eu não mencionei qualquer teoria conspiratória, e sim ressaltei a força de um paradigma dominante. Seria ingênuo de sua parte ignorar que fatores sociais e psicológicos influenciam a atividade científica. E posso apresentar vários outros papers. Michael Persinger, o mesmo cientista citado por Carl Sagan em “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, validou a paranormalidade de dois psíquicos, Ingo Swann e Sean Harribance.

    a) The Neuropsychiatry of Paranormal Experiences. Journal of Neuropsychiatry & Clinical Neurosciences 13:515-524, November 2001 Michael A. Persinger , disponível em http://neuro.psychiatryonline.org/article.aspx?articleid=101550

    b) Persinger MA, Roll WG, Tiller SG, Koren SA, Cook CM. Remote viewing with the artist Ingo Swann: neuropsychological profile, electroencephalographic correlates, magnetic resonance imaging (MRI), and possible mechanisms. Percept Mot Skills. 2002 Jun; 94(3 Pt 1):927-49.

    c) Persinger M., The Harribance effect as pervasive out‐of‐body experience NeuroQuantology. December 2010, Vol 8, Issue 4, pages 444‐465

    O próprio Carl Sagan disse no mesmo livro:

    “No momento em que escrevo, acho que três alegações no campo da percepção extra-sensorial (ESP) merecem estudo sério: (1) que os seres humanos conseguem (mal) influir nos geradores de números aleatórios em computadores usando apenas o pensamento; (2) que as pessoas sob privação sensorial branda conseguem receber pensamentos ou imagens que foram nelas “projetados”; e (3) que as crianças pequenas às vezes relatam detalhes de uma vida anterior que se revelam precisos ao serem verificados, e que não poderiam ser conhecidos exceto pela reencarnação. Não apresento essas afirmações por achar provável que sejam válidas (não acho), mas como exemplos de afirmações que poderiam ser verdade. Elas têm, pelo menos, um fundamento experimental, embora ainda dúbio. Claro, eu posso estar errado.”

    E quanto à reencarnação, veja estes papers recentes:

    a) Three New Cases of the Reincarnation Type in Sri Lanka with Written Records Made before Verification (1988) Journal of Nervous and Mental Disease 176:741. Ian Stevenson e Godwin Samararatne, disponível em http://obraspsicografadas.org/2012/trs-novos-casos-do-tipo-reencarnao-no-sri-lanka-com-registros-escritos-feitos-antes-das-verificaes-1988/

    b) Replication studies of cases suggestive of reincarnation by three independent investigators Journal of American Society for Psychical Research 88, 207-219 (1994)
    Antonia Mills, Erlendur Haraldsson, e Jurgen Keil, disponível em http://obraspsicografadas.org/2012/replicao-de-estudos-de-casos-sugestivos-de-reencarnao-por-trs-investigadores-independentes-1994/

    c) Does the Socio-Psychological Hypothesis Explain Cases of the Reincarnation Type? (Agosto de 1998) Journal of Nervous & Mental Disease. 186(8):504-506, Schouten SA, Stevenson I.

    d) Children Who Claim to Remember Previous Lives: Cases with Written Records Made before the Previous Personality Was Identified (Spring 2005) Journal of Scientific Exploration, Vol. 19, Nº 1, Article 4 H. H. Jurgen Keil e Jim B. Tucker

    e) Children’s Reports of Past-Life Memories: A Review. Explore: The Journal of Science and Healing July 2008 (Vol. 4, Issue 4, Pages 244-248)

    Com tantos artigos, é difícil ver como alguém com o mínimo de honestidade intelectual pode não levar a evidência a sério.

  14. discussao legal!..

  15. Acredito que certos cientistas fazem o que tanto julgam nos espíritas: querem tanto provar a inexistencia da comunicação espiritual que acabam por interpetar seus resultados de maneira parcial, tendendo ao materialismo.
    Antes de se opor, deveriam estudar o que o espiritismo propõe em sua doutrina, e parar de julgar toda uma tríade filosófica, científica e religiosa a partir de comentários, na grande maioria das vezes desprovidos de fundamentos doutrinários.
    Óbvio que existem fraudes, como em tudo o que é gerido por homens. Sou cientista e sei que até na própria pesquisa ciêntífica são revelados escândalos de fraudes envolvendo grandes laboratórios no mundo inteiro. Mas os avanços científicos não podem ser desqualificados pela existência de fraudes, do contrário estaríamos na idade da pedra.
    Se o objetivo desta categoria é contrapor às publicações na área do conhecimento espírita, sugiro que o próximo post seja escrito em cima do que é proposto pelas obras de codificação e/ou documentações de pesquisas espíritas sérias. Se o espiritismo fosse brincadeira não encontraria adeptos dentro das mais diversas áreas de conhecimento, Tampouco seria estudado por cientistas (mesmo que poucos).

  16. Procurem estudos de Sir William Crookes, Ernesto Bozzano, Epes Sargent, todos do início do século passado, sem ligação com a Doutrina Espírita.
    Cientistas espíritas são Camille Flammarion, Léon Dennis e Gabriel Dellane.
    Não dá pra aceitar o que a mídia diz. O jornalismo sempre foi deturpado e sempre houveram pessoas totalmente despreparadas para retratar tais fenômenos. Da mesma forma que deve-se analisar uma informação espiritualista com ceticismo, devemos analisar as informações materialistas com ceticismo. Não basta apenas dizer que as informações passadas pelo Espiritismo ou qualquer outra doutrina espiritualista são falsas. Mais do que isso, é necessário COMPROVAR que são falsas.
    Admitir, simplesmente, a falsidade, não basta. Como disse Carl Sagan (citado acima), um exemplar cientista moderno, devemos tomar tais fatos “como exemplos de afirmações que poderiam ser verdade. Elas têm, pelo menos, um fundamento experimental, embora ainda dúbio. Claro, eu posso estar errado.” Todos podemos estar errados, principalmente após o próprio Sagan, um dos maiores estudiosos da nossa história, afirmar isso. E digo, ainda: caro autor, a ciência não está finalmente se dedicando a estudar os fenômenos espíritas. A ciência, como sempre, está se dedicando a estudar tudo aquilo que passa a ser parte dos questionamentos feitos ao redor do mundo. Não seja presunçoso ao ponto de dizer que a ciência, como um todo, está se deturpando a estudar apenas um tipo de fenômeno. Isso deprecia o trabalho de todos os demais cientistas (a esmagadora maioria) que se dedica a estudar outros campos do conhecimento. Seja, como um cientista, uma pessoa de mente aberta a novas realidades. Use, como qualquer pessoa racional e que segue um pensamento lógico e corretamente cético, os ensinos do prof Sagan: as informações podem ou não ser verdadeiras. Basta que nós as estudemos para saber qual ponto é real e qual não é.
    Bons estudos a você, amigo =)

  17. Quem ñ quer “puxar a sardinha para o próprio lado” ? Qdo querem derturpar a crença alheia só pesquisam bibliografia conveniente. Pesquisem a fundo os experimentos q comprovam as teorias espíritas. Analisar uma reportagem feita por uma revista ñ científica, tendenciosa e que tem como intuito apenas “vender”, qualquer um faz!

  18. Às vezes não há argumento lógico ou cintífico suficiente que vença a vontade ou necessidade de acreditar. Excelente texto, professor André. Obrigado.

  19. Adriano, como vc diz que o texto é excelente após a enxurrada de críticas mostradas aqui nos comentários? A descrença pode ser tão cega e fanática quanto a crença…

%d blogueiros gostam disto: