A falsificação de dados e o intelectualismo científico

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Tempos atrás tivemos uma discussão na lista do Laboratório de Inflamação e Dor (LID), aqui da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), relacionada à retratação de 172 artigos por um pesquisador japonês, o atualmente infame Yoshitaka Fujii. Felizmente os artigos retratados de Fujii não eram de grande impacto, e até as revistas em que publicou não tinham um fator de impacto muito alto, talvez isso tenha permitido o desenrolar de quase duas décadas de atos falhos. Mas fica no ar o porque desse “laissez faire, laissez passer” científico.

Aparentemente o forjamento e a cópia descarada de dados cada vez se alastra mais e mais no meio acadêmico. Podemos citar o exemplo de um pesquisador/professor brasileiro, aqui mesmo de dentro da USP de Ribeirão Preto, que, tendo culpa ou não, sendo conivente ou não com o ocorrido, foi destituído do cargo. Evento esse que deixou também em maus lençóis a reitora da USP na época.

Mas voltando ao Fujii, de acordo com o relatório de Carlisle, dos 249 artigos publicados por Fujii, em 212 deles foram encontrados dados inventados e fabricados, como acusações de forjamento da administração de drogas a pacientes e nomes de coautores que nunca tiveram ciência de estarem filiados ao trabalho. Seu caso ficou classicamente conhecido como o autor mais retratado da história, passando até mesmo o infame Joachim Boldt (curiosamente também um anestesiologista) com 90 artigos retratados (além daquele clássico e bombástico fiasco homeopático de Jacques Benveniste e seu eterno caso com John Maddox, editor da Revista Nature na década de 1980, o qual implodiu – cientificamente falando – suas pesquisas sobre “ultradiluições” (vulgo homeopatia), deixando Benveniste ter o privilégio de receber 2 prêmios IgNobel pela sua fantástica capacidade de obter resultados que nunca existiram, e mesmo assim insistir no erro).

Mas antes de condenar o Fujii à danação científica eterna, acho que há algumas perguntas a serem respondidas. Li o artigo do Carlisle sabatinando a produção do Fujii. Só que antes de atermos à crítica científica pura, se procurarmos mais aprofundadamente podemos perceber que desde 1993 já existia a fabricação de dados, porém somente a partir de 2000 começaram a surgir críticas. Como uma carta ao editor da revista Anesthesia & Analgesia, feita por Kranke e colaboradores em 2000, em que os autores criticam os dados de Fujii por serem “incríveis”, inclusive, ironicamente, citando isso no primeiro parágrafo do editorial

With increasing amazement, we noticed that the results reported by Fujii et al. are incredibly nice and we became skeptical when we realized that side effects were almost always identical in all groups.”

E numa nova revisão sistemática, Kranke e colaboradores (2001) criticaram (educadamente) na conclusão da revisão que “os resultados gerais e as características de dose-resposta podem ter sido alterados significativamente por um único centro de domínio” (que, nesse caso, era o centro de pesquisa do Fujii).  Outros apelos foram feitos, porém os trabalhos do Fujii ainda continuaram a serem aceitos e publicados por diversar revistas.

E somente em 2012 (isso é, 12 anos após a publicação do artigo do Kranke em 2000, e muito tempo depois de 1993) é que a revista Anesthesia & Analgesia publicou um editorial sobre uma possível fraude nos artigos de Fujii em todos esses anos. A partir daí, uma longa lista criticando os artigos do Fujii foram publicados, porém alguns com um atraso de mais de uma década pós-publicação (Archives of Otolaryngology — Head & Neck Surgery,), até chegarmos aos seus mais de 100 artigos retratados (até o momento, 172).

Mas ainda faltam perguntas a serem respondidas:

 1) O que realmente levou Fujii a falsificar dados?

2) Fujii teve ajuda de outros ou é o único culpado pelas falsificações?

3) Por que as revistas não analisaram corretamente as críticas dos artigos anteriores de Fujii (ex: Kranke e cols., 2000)?

4) O que se ganhou com isso?

Corrijo qualquer argumento falho de alguém que queira culpar o Fujii de charlatanismo ou até má-fé ou negligência profissional até que essas perguntas sejam respondidas. A culpa não é somente do Fujii, são dos editores e, em maior ou menor grau, nossa. Pois fomos nós que facilitamos para que os artigos do Fujii fossem passados adiante. E com certeza muitos outros artigos passam ou passaram pelos nossos olhos, e ou não sabemos ou não queremos enxergar erros. Essa é a nossa meaculpa. Ficamos presos ao nosso cientificismo de gráficos e asteriscos e deixamos de lado nossa parte teórica e crítica somente nas salas de aulas e cursos de graduação.

No mundo competitivo de hoje, com todas as pressões sobre o pesquisador (financiamento, chefes, relatórios, dados, publicações, renome, concursos), tudo é válido até que se prove o contrário (levando-se também em conta a Teoria da Falseabilidade de Karl Popper).

E cito, por final, uma frase que vi num dos editoriais da Revista Science sobre o assunto:

“If you get caught, you get sent to the back of the line.  But if you don’t cheat, you don’t get to the front of the line.”

Sobre Gabriel Bassi

Natural de São Paulo, Capital. Formado em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, faz mestrado em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Faz pesquisas nas áreas de neurologia, imunologia e comportamento animal. Tem interesses (extra-acadêmicos) em pesquisas sobre a evolução cultural, econômica e social de distintos aspectos da religião e da religiosidade nas sociedades.

Publicado em 10/01/2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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