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Já faz algum tempo que as atividades da SRUSP se encerraram por falta de colaboradores. Muitos dos membros fundadores terminaram seus cursos na USP ou simplesmente seguiram outros interesses e, infelizmente, não foram sendo substituidos por novos. Com as atividades encerradas, os canais de comunicação da sociedade também perderam sua razão de existir. Sendo assim, a partir de hoje este blog deixa de ser atualizado. O seu conteúdo no entanto continuará disponível como está.

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Agradecemos também aos nossos leitores pelo suporte e crítica.

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Espiritismo passando por ciência na revista Época

Em um estudo recente, uma técnica de imagem cerebral foi usada para investigar o cérebro de médiuns durante a psicografia. Os resultados (apenas preliminares) condizem com fatos já estabelecidos em outros estudos sobre expertise. Curiosamente, os autores sugerem que os resultados também ‘são consistentes com a noção de escrita (não consciente) automática e da alegação de que uma “fonte externa” estava planejando o conteúdo da escrita.’ Estariam os autores sugerindo que a fonte externa são espíritos?

Steve Novella fez uma análise (traduzida aqui) do estudo que é bem completa e com a qual estou de pleno acordo. Mas é em uma matéria da jornalista Denise Paraná na revista Época, com o título sugestivo ‘os avanços da ciência da alma’, que os autores afirmam definitivamente o que no estudo apenas sugerem, e vão além ao defender que a mente pode ser imaterial e independente do corpo.

A reportagem começa descrevendo o encontro da jornalista com os médiuns nos EUA, a biografia dos autores, os objetivos e motivação do estudo e outros detalhes de fundo. A interpretação ‘espírita’ do estudo, que no paper fica apenas subentendida, é agora exposta de maneira clara e promocional:

Surpreendentemente, durante a psicografia os cérebros ativaram menos as áreas relacionadas ao planejamento e à criatividade, embora tenham sido produzidos textos mais complexos do que aqueles escritos sem “interferência espiritual”. Para os cientistas, isso seria compatível com a hipótese que os médiuns defendem: a autoria das psicografias não seria deles, mas dos espíritos comunicantes.

Nenhuma tentativa de análise crítica é apresentada e essa interpretação é aceita sem discussão.

A reportagem segue por um detour propagandístico e acrítico pelo espiritismo. Como já é de praxe na mídia brasileira, a jornalista exalta e glorifica Chico Xavier:

Mineiro de família pobre, fala mansa e sorriso tímido, Chico Xavier recebeu apenas o ensino básico. Isso não o impediu de publicar mais de 400 livros, alguns em dez idiomas diferentes, cobrindo variados gêneros literários e amplas áreas do conhecimento. Ao final da vida, vendera cerca de 40 milhões de exemplares, cujos direitos autorais foram doados. Psicografou por sete décadas. Nenhum tipo de fraude foi comprovada.

Pelo menos uma fraude envolvendo Chico Xavier foi muito bem comprovada e documentada, a da médium Otília Diogo. Além desse detalhe, há também muitas razões para se duvidar das alegações de médiums como Chico Xavier. Se é verdade que um médium pode canalizar o espírito de um morto, por que nenhum médium jamais psicografou a prova de algum teorema matemático desconhecido? Por que sempre o material psicografado é vago ou alegadamente advém de autores de literatura cuja autenticação e avaliação são necessariamente subjetivas?

A seguir a jornalista cita vários nomes famosos dos séculos XIX e XX, alguns de cientistas, que aparentemente interessaram-se por mediunidade em algum momento de suas vidas:

“Se eu pudesse recomeçar minha vida, deixaria de lado tudo o que fiz, para estudar a paranormalidade.” Essa confissão de Sigmund Freud a seu biógrafo oficial, Ernest Jones, marca um dos capítulos pouco conhecidos da história do pensamento humano. […] Talvez menos gente saiba que Marie Curie, a primeira cientista a ganhar dois prêmios Nobel, e seu marido, Pierre Curie, também Nobel, dedicaram espaço em suas atribuladas agendas ao estudo de médiuns. […] Quem seria capaz de imaginar isso hoje?

Quase ninguém seria capaz de imaginar isso hoje exatamente pelo fato de que esses fenômenos foram investigados e descartados como fraude. Casos de mediunidade começaram a aparecer em 1848 após as irmãs Fox em New York terem alegado ser capazes de comunicarem-se com espíritos através de batidas em uma mesa. Trinta anos depois as irmãs admitiram ser tudo uma fraude: as batidas eram na verdade o som de estalos dos seus dedos dos pés embaixo da mesa. Nesse ínterim a novidade espalhou-se e alegações de mediunidade surgiram em muitos outros países. Várias personalidades foram persuadidas pelos feitos aparentemente extraordinários até que Harry Houdini (outro nome famoso mas que a jornalista esquece de citar) expôs a farsa pelo que realmente era: truques de magia de salão.

Ao contrário do que a reportagem dá a entender, não foram apenas alguns casos isolados de fraude que fizeram a ciência perder o interesse e sim a ausência, mesmo em meio a uma grande quantidade de alegações, de qualquer evidência de fenômenos mediúnicos reais.

A matéria continua com alegações aparentemente proferidas por cientistas:

Muita coisa não cabe dentro do discurso que prevalece hoje na ciência. Pesquisadores da área acreditam que a telepatia do médium com o consciente ou o inconsciente daquele que deseja uma comunicação espiritual não explica psicografias nas quais se revelam informações desconhecidas das pessoas que o procuram.

A afirmação de que médiuns são capazes de comunicação telepática é surpreendente e portanto necessita de forte evidência, não basta apenas dizer que ‘pesquisadores da área acreditam’. Quem são esses pesquisadores e onde estão os estudos?

Num fenômeno em que comprovadamente não houvesse fraude ou sugestão inconsciente, sobrariam apenas duas hipóteses: ou haveria a capacidade do médium de captar informações em outro espaço e tempo; ou existiria mesmo a capacidade de comunicação entre o médium e o espírito de um morto.

Como poderíamos comprovar a ausência de fraude ou sugestão inconsciente? Mesmo que fosse possível descartar todo tipo de truque conhecido sempre há a possibilidade do médium utilizar um truque novo completamente desconhecido. Ausência de evidência (de fraude) não é evidência de ausência (de fraude). Informações psicografadas podem ser obtidas de muitas, talvez infinitas, maneiras não-paranormais. Portanto não é verdade que sobrariam apenas hipóteses paranormais; é muito mais provável que algo bem normal esteja por trás de uma alegação mediúnica.

O pesquisador Alexander Moreira-Almeida, coautor do estudo e diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora, é o principal responsável por colocar o Brasil em destaque nessa área no cenário internacional. […] Ele afirma que a alma, ou como prefere dizer, a personalidade ou a mente, está intimamente ligada ao cérebro, mas pode ser algo além dele. Para esse psiquiatra fluminense, pesquisas sobre experiências espirituais, como a mediunidade, são importantes para entendermos a mente e testarmos a hipótese materialista de que a personalidade seja um simples produto do cérebro. Moreira-Almeida lembra que Galileu e Darwin só puderam revolucionar a ciência porque passaram a analisar fenômenos que antes não eram considerados. “O materialismo é uma hipótese, não é ainda um fato cientificamente comprovado, como muitos acreditam”, diz Moreira- Almeida.

A equação mente = alma não é levada a sério pela esmagadora maioria de neurocientistas por dois motivos, um empírico e outro filosófico. O motivo empírico é que não há evidência alguma de que exista alma ou espírito; todos os casos investigados de mediunidade não passaram de fraude e tampouco existe qualquer evidência neurológica da existência dessas entidades. Ao contrário, toda evidência mostra que a mente é um produto do cérebro. Pacientes que perderam partes do cérebro devido a derrames ou outros acidentes perdem também as funções pelas quais aquela área era responsável (embora em certas ocasiões o cérebro possa recuperar parte das funções perdidas recrutando áreas adjacentes). Estimulação elétrica ou magnética do cérebro, assim como a administração de certos compostos químicos, causam experiências consideradas como mentais. Nada disso precisaria acontecer fosse a mente independente do cérebro. O motivo filósofico diz respeito aos problemas do próprio conceito de alma como algo imaterial mas com existência própria. Adversários do materialismo precisam explicar em que sentido algo imaterial pode existir e como algo imaterial pode influenciar algo material.

A matéria acaba com um levantamento da opinião popular:

Dados do World Values Survey revelam que a maioria da população mundial acredita na vida após a morte. Em todo o planeta, um número expressivo de pessoas declara ter se sentido em contato com mortos […] Para a maioria da população, a visão materialista parece deixar um vazio atrás de si.

A jornalista parece estar sugerindo que apliquemos uma falácia lógica conhecida como apelo à massa: se muitos acreditam em X então X deve ser verdade. Não, obrigado.

Conclusão

Através de um raciocínio acrítico e falacioso, a reportagem dá a entender que 1) as alegações do espiritismo são convincentes e 2) a ciência está finalmente dedicando-se a estudar fenômenos espíritas.

Como vimos, o estudo publicado na Plos One não teve como objetivo demonstrar que a psicografia é de fato um fenômeno paranormal e nem mostra evidências para isso. No entanto, não só a jornalista como alguns dos autores do estudo alegam o contrário e vão ainda além ao sustentar uma versão do dualismo alma x corpo já há muito descartada pela neurociência moderna.

A matéria está mais para proselitismo espírita do que para jornalismo. Uma pena, pois todos nós perdemos quando a mídia confunde religião com ciência.

Estudando os cérebros de médiuns

Tradução do post ‘Studying the Brains of Mediuns‘ de Steve Novella do blog Neurologica.

O que está acontecendo quando um médium afirma estar canalizando ou falando com espíritos? Os crentes afirmam que eles estão, na verdade, entrando em contato com entidades não-físicas, e que suas palavras e ações canalizadas vêm de um lugar que não o seu cérebro. A interpretação cética é que a mediunidade, de qualquer tipo, nada mais é do que uma atuação. A verdade está no cérebro do médium, e uma vez que não podemos ler a mente parece que sempre haverá espaço para interpretação.

Isso pode estar mudando, no entanto, à medida que desenvolvemos a tecnologia para enxergar diretamente a atividade cerebral. Eletroencefalograma (EEG), ressonância magnética funcional (fMRI), tomografia por emissão de pósitrons (PET), e tomografia computadorizada de emissão de fóton único (SPECT) são todos métodos de se visualizar a função cerebral. Um estudo recente utilizou a última técnica, SPECT, para visualizar o cérebro de médiuns durante a execução de psicografia – escrita automática que dizem ter uma fonte externa, de espíritos.

O estudo envolveu apenas 10 indivíduos, cinco novatos e cinco experientes psicógrafos (entre 15-47 anos de experiência). Pediu-se a cada sujeito que gerasse escrita normal, e depois gerasse escrita “automática” enquanto supostamente em um estado de transe. Os pesquisadores descobriram duas coisas – que a escrita dos experientes (mas não novatos) psicógrafos era mais complexa no estado de transe que no estado de controle, e os experientes (mas não novatos) psicógrafos apresentaram redução da atividade em determinadas partes do cérebro relacionadas com alta cognição ao escrever no estado de transe. Especificamente:

Os psicógrafos experientes apresentaram menores níveis de atividade no culmen esquerdo, hipocampo esquerdo, giro occipital inferior esquerdo, anterior esquerdo ou cingulado, giro temporal superior direito e giro precentral direito durante a psicografia em relação á sua escrita normal (não-transe).

Para deixar claro, ambos os grupos mostraram atividade nas áreas do cérebro que estão envolvidas na escrita (aquelas listadas acima). A quantidade de ativação foi apenas menor nos psicógrafos experientes, em comparação com a escrita basal (não em transe) e psicógrafos menos experientes.

Os autores reconhecem algumas das limitações de seu estudo:

Uma limitação do estudo surge no pequeno tamanho da amostra, o que impede a análise detalhada que uma amostra maior poderia suportar. Utilizamos apenas um limiar para clusters como uma correção para a significância já que a correção para comparações múltiplas seria mais conservadora para este estudo exploratório. No entanto, em um estudo maior, poderia-se executar uma análise mais robusta para corrigir comparações múltiplas, bem como a correção de pequeno volume.

Eles corretamente caracterizam o estudo como “exploratório” – o que significa que não podemos tomar os resultados como confiáveis ou definitivos. É um estudo muito pequeno, projetado para procurar por quaisquer padrões interessantes, mas não capaz de distinguir entre padrões reais e ilusórios ou coincidências estatísticas. Eles não corrigiram para comparações múltiplas, o que significa que qualquer padrão ao acaso poderia ter emergido. Além disso, o escaneamento SPECT (qualquer tipo de escaneamento funcional do cérebro, na verdade) apresenta muito ruído nos dados que ele gera, tornando necessários múltiplos sujeitos e múltiplos ensaios para filtrar um sinal real do ruído.

Portanto, qualquer interpretação deste estudo deve ser preliminar e provisória. Os próprios autores reconhecem que o estudo precisa ser replicado com maior número de indivíduos.

Se, no entanto, tomarmos os resultados como estão, o que eles poderiam significar? Note-se que os autores não estão tentando mostrar que psicografia é um fenômeno paranormal ou “extra-neurológico”. Eles estão usando psicografia como um exemplo de um estado dissociativo. Eles concluem apenas que é pouco provável que os psicógrafos experientes estejam fingindo ou atuando, o que provavelmente estaria associado com uma atividade nas regiões do cérebro listadas proporcional à complexidade da escrita.

Concordo que isto é razoável, até certo ponto. Eu acho que eles estão cometendo a falácia lógica da falsa dicotomia. É possível que alguns ou todos os psicógrafos experientes têm conhecimento sobre o que estão fazendo (eles sabem que estão fingindo), mas desenvolveram a sua técnica a tal ponto que eles estão em grande parte realizando-a subconscientemente. Também é possível que eles estejam interpretando os seus próprios estados dissociativos como espirituais. Este estudo não fornece nenhuma evidência, na minha opinião, para separar essas duas possibilidades.

Há uma interpretação puramente neurológica dos resultados que são consistentes com estudos anteriores (e de novo, eu não acho que os autores estão tentando disputar isto). Perícia em determinadas tarefas tem sido associada com níveis baixos de ativação nas áreas do cérebro correlacionadas. A interpretação padrão disto é que, com treinamento e prática, o cérebro torna-se mais eficiente na execução de tarefas. Alguns dos componentes da tarefa tornam-se arraigados em regiões subconscientes do cérebro, de modo que menos esforço consciente é necessário para realizá-las.

Nos esportes, por exemplo, profissionais experientes muitas vezes falam da necessidade de “se deixar levar” e permitir que o seu corpo faça o que sabe fazer. Qualquer um que tenha se tornado mesmo moderadamente competente em uma atividade física complexa (como esportes, ou tocar um instrumento musical) terá tido essa experiência. Depois de um tempo a técnica adequada torna-se automática, e você não tem que pensar em cada detalhe – você simplesmente faz. Você ainda está conscientemente no controle, apenas requer muito menos poder do cérebro e você pode realizar a tarefa muito mais rapidamente e sem problemas.

A interpretação mais parcimoniosa do presente estudo, portanto, é que a psicografia é simplesmente uma habilidade treinada que especialistas executam com maior eficiência neurológica do que os novatos – como qualquer outra habilidade treinada. O aumento da complexidade na escrita também não é surpreendente. Depois de décadas de realização de escrita automática eu esperaria que especialistas tivessem um vasto repertório de frases e idéias que eles podem empregar, sem a necessidade de nova criatividade. Eles não têm que reinventar a roda para cada leitura. Dessa forma, eles são como qualquer leitor a frio. [Nota do tradutor: para uma definição de leitura fria ver este link.]

Eu acho que é possível que médiuns de qualquer tipo se tornem tão bons no que fazem, que para eles isso pareça automático. Eles podem, portanto, vir a acreditar no seu próprio marketing: que o desempenho pareça automático não porque eles têm feito isso há anos, mas porque a fonte da informação advém verdadeiramente de fora. Ela de fato veio de um lugar diferente de sua mente consciente – veio de seu subconsciente, e não há necessidade de especular sobre uma fonte não-física. Isso seria análogo a um suposto vidente que é intuitivo e pode fazer observações e tirar conclusões sobre as pessoas que são provavelmente verdadeiras, e eles interpretam sua própria intuição como se fosse uma habilidade paranormal.

Eu também acho que a diferença entre psicógrafos novatos e especialistas é muito reveladora. Se psicografia fosse verdadeiramente uma questão de entrar em um estado de transe em que outra entidade assumisse e produzisse a escrita, por que haveria qualquer atividade de áreas do cérebro envolvidas em tal escrita, e por que a diferença entre novatos e especialistas? Ou o psicógrafo é a fonte da escrita ou alguma outra entidade é. Eu esperaria, portanto, um resultado binário com médiums “falsos” e verdadeiros mostrando padrões completamente distintos de atividade cerebral. Também não haveria uma relação direta com experiência, já que haveriam experientes e novatos apenas entre psicógrafos falsos mas não entre psicógrafos genuínos.

O padrão dos resultados, no entanto, é completamente consistente com a conclusão de que a psicografia é uma atuação ou performance do psicógrafo, uma habilidade que se desenvolve ao longo do tempo como qualquer outra habilidade.

Traduzido do original por André Luzardo.