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Fogo que arde sem se ver: uma reflexão sobre o incêndio na floresta da USP de Ribeirão Preto

Ontem a tarde uma fumaça escura pairava sobre o campus da USP de Ribeirão Preto. Todo aquele carbono, que irritava os olhos e as vias aéreas dos estudantes, professores, funcionários e curiosos, era, até aquela manhã, parte integrante de uma floresta de mais de 700.000 m² de extensão. O estrago foi devastador em todas as dimensões imagináveis. Pra começar, a área atingida passou de 430.000 m². Como se não bastasse, nessa área estava contido o único banco genético de mata mesófila semidecidual do Brasil.

Um banco genético é exatamente o que o nome sugere: um local onde se deposita o material genético dos organismos. Quanto maior a variabilidade genética, melhor. Existem duas razões principais pelas quais o material genético dos indivíduos de uma espécie pode ser depositado num banco genético: (1) porque a espécie é (ou tem potencial para ser) interessante economicamente para o ser humano ou (2) porque a espécie precisa ser conservada. No primeiro caso, é comum os bancos genéticos estarem associados à instituições de pesquisa em melhoramento genético, que utilizam o material lá depositado para conduzir seus experimentos. Já no segundo caso, o panorama é bem diferente.

Como sabemos a variabilidade genética de uma população é um fator fundamental para a sua sobrevivência em longo prazo. Quanto maior a variabilidade genética, maior a chance de que alguma dessas variantes seja resistente às mudanças ambientes que inevitavelmente acontecem quando pensamos numa escala geológica de tempo. E quando áreas de matas nativas são derrubadas para a construção de cidades ou para fins agro-pecuários, a variabilidade genética das populações vegetais e animais diminui junto com o tamanho da floresta.

Sendo assim, quando pensamos em reflorestar uma área nativa degradada, não adianta só aumentarmos o número de indivíduos das espécies de plantas, por que se todos os indivíduos tiverem a mesma matriz genética (isto é, se todos forem descendentes de um grupo muito pequeno), a menor variação ambiental poderá devastar a área novamente. O ideal é plantar sementes de árvores com matrizes genéticas diferentes, para que a variabilidade genética total da população da área reflorestada seja alta (pool gênico diversificado). Isso significa que não adianta pegar as sementes geradas pelas poucas árvores que restaram na área degradada e sair plantando que nem louco, pois isso resultará numa melhoria apenas “aparente” da situação daquele ambiente.

Dessa forma, a existência de bons bancos genéticos é absolutamente fundamental quando pensamos em reflorestamentos. A área florestal que estava em chamas ontem armazenava 45 espécies e tinha uma diversidade de 4000 progênies coletados em mais de 400 localidades diferentes. Quase duas décadas de investimento e pesquisa ali, pegando fogo. Como já foi dito, esse era o único banco genético de plantas de mata mesófila semidecidual no Brasil. Além de funcionar como banco genético, muita pesquisa acadêmica também era realizada nessa área, que também abrigava projetos de ensino e de extensão universitária.

Por cima disso tudo, há um fator agravante sério. Enquanto helicópteros voavam pra lá e pra cá carregando água pra tentar apagar o incêndio, causando alvoroço dentro da USP, fora dos muros da universidade parecia que nada estava acontecendo. Repórteres e jornalistas pareciam ter algo mais importante pra cobrir do que a perda de um valioso banco genético. Quando informado sobre o assunto, o principal jornal regional limitou-se a escrever que “Pacientes que aguardavam atendimento foram retirados às pressas do campus; pelo menos 30 hectares de floresta queimaram”.

Depois de uma noite de intensa movimentação sobre o assunto nas redes sociais, feita principalmente pelos alunos da Biologia, uma manhã com resquícios de fumaça. Ao invés de helicópteros, aves carniceiras sobrevoavam o local em busca de uma refeição fácil. O descaso da mídia fez com que os docentes entrassem em contato com as agências de notícias, quase que implorando para que fosse feita uma reportagem decente sobre o ocorrido. Com esse esforço, as notícias mais recentes (como as do iG, UOL e O Globo) citam o banco genético, mas não explicam para o leitor leigo a importância desses lugares.

O que acontece? Por que o câncer do Gianecchini é considerado uma tragédia enorme em todos os noticiários, mas a perda real de uma área florestal que funcionava como banco genético custa pra virar notícia? É possível que as pessoas de fato se interessem mais por celebridades do que por ciência ou meio ambiente, mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta simples. No entanto, talvez fosse interessante pensar sobre isso porque, pelo que parece, tem um incêndio muito mais sério se alastrando por aí, e ele está queimando a curiosidade e a inquietude das pessoas, deixando apenas galhos secos de alienação e indiferença.

Campanha Desafio 10:23

Nos dias 5 e 6 de fevereiro, manifestantes no mundo inteiro irão encenar “overdoses” homeopáticas no que com certeza será o maior evento organizado pelo movimento cético até hoje.

A demonstração está sendo organizada como parte da campanha 10:23, um protesto global contra a homeopatia que teve início no Reino Unido. Eventos semelhantes acontecerão em dezenas de países ao redor do planeta, com manifestações anunciadas na Inglaterra, Alemanha, Hungria, Austrália e Canadá.

Michael Marshall, coordenador da campanha internacional, explica:

“Nossa intenção é mostrar que existe uma conscientização crescente em todo o mundo do quanto já foi desperdiçado em homeopatia, tanto em tempo quanto em dinheiro. Nos duzentos anos em que esses tratamentos existem, nunca houve uma só evidência de que eles funcionem. E sendo nada além de água e açúcar, é de fato impossível que eles funcionem para qualquer uma das coisas alegadas pelos homeopatas. Dezenas de bilhões de dólares são gastos todos os anos ao redor do mundo nesses remédios ineficazes e, quando se explica do que realmente se tratam e como são feitos, a maioria das pessoas se choca e não acredita que esses tratamentos inúteis continuam a ser vendidos para o público incauto”.

A campanha 10:23 foi lançada há um ano no Reino Unido, onde quase 400 participantes tomaram uma “overdose” em eventos semelhantes ao redor do país após uma das maiores cadeias de farmácias britânicas admitir que vendia as tais pílulas “porque os consumidores compram e não porque elas funcionam”. A campanha foi batizada em homenagem ao número de Avogadro, uma constante científica que pode ser usada para demonstrar que preparações homeopáticas podem não conter absolutamente qualquer resquício de ingrediente ativo.

Apesar de não existir nenhuma evidência em seu favor, dos seus princípios serem baseados em magia e superstição e dos medicamentos não conterem nada além de água ou açúcar, a homeopatia é uma especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina no Brasil. Medicamentos homeopáticos são vendidos prometendo diminuir as chances de contrair dengue e de melhorar os sintomas dessa doença. Casos de sarampo já foram observados em crianças de famílias adeptas à homeopatia que deixaram de imunizar seus filhos com a vacina adequada.

A Sociedade Racionalista USP está planejando organizar uma “overdose” homeopática pública no dia 5 de fevereiro em Ribeirão Preto, em parceria com as que irão ocorrer nas cidades brasileiras de São Paulo, Porto Alegre e Natal. Os detalhes serão divulgados aqui. Participantes devem levar um frasco inteiro do medicamento homeopático que preferir, desde que seja verdadeiramente homeopático, ou seja, uma solução de 3CH por exemplo (consulte a bula).

Update 04/02/2011: Infelizmente a sociedade racionalista usp não conseguiu voluntários para organizar o evento em Ribeirão Preto. Se você deseja participar do protesto mas não está próximo de uma das cidades nas quais demonstrações públicas serão realizadas pode gravar uma “overdose” privada e enviá-la ao YouTube com a tag “ten23”. Homeopatia, é feita de nada!

Update 05/02/2011: Confira a minha voz feminina e minha cara de mané no vídeo da minha “overdose” homeopática privada:

Consulta Pública Sobre Programas Religiosos

Meios de comunicação de qualidade são um ingrediente essencial para a manutenção da democracia e para o desenvolvimento cultural e social de um país. Umas das maneiras de se atingir esses objetivos é através de uma rede pública independente de comunicação que por ser livre de interesses financeiros e partidários pode oferecer uma programação educacional e não-tendenciosa. Em 2007 o governo brasileiro deu um importante passo nessa direção ao criar a Empresa Brasil de Comunicação. Tal medida coloca o Brasil em linha com o que acontece em países de forte tradição jornalística como a Grã-Bretanha, lugar da respeitável BBC (British Broadcasting Corporation).
No entanto, conseguir atingir o alto padrão britânico é algo que irá demandar bastante dos nossos políticos e da sociedade. Exatamente por isso participar da consulta pública abaixo é de fundamental importância:

O Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação ( EBC ) abriu nesta sexta-feira (06/08/2010) consulta pública para recolher contribuições sobre a política de produção e distribuição de conteúdos de cunho religioso pelos veículos da EBC.

Atualmente, a TV Brasil exibe o programa “Reencontro”, produzido por  igreja de orientação evangélica, aos sábados; e os programas “A Santa  Missa” e “Palavras de Vida”, de orientação católica, aos domingos. Já a Rádio Nacional de Brasília transmite aos domingos  celebração de missa de orientação católica. Tais programas são originários das emissoras que foram absorvidas pela EBC após a sua criação e a aprovação da Lei nº 11.652/2008, que regulamenta o Sistema Público de Comunicação.

A consulta foi motivada por reclamação de telespectadores enviada à Ouvidoria da empresa, tendo resultado em um parecer da Câmara de Educação, Cultura, Ciência e Meio Ambiente do Conselho Curador, que indicou a substituição dos atuais programas por um programa sobre o fenômeno da religiosidade no Brasil, “de um ponto de vista plural, assegurada a participação a todas as confissões religiosas”.

A consulta ficará aberta até o dia 04/10/2010. Participe manifestando-se a favor do parecer e contra a veiculação de programas religiosos nos canais de comunicação públicos. A separação igreja-estado agradece!