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Problemas no Pensamento Pseudocientífico

O texto a seguir foi traduzido (com adaptações) do livro “Why people believe in weird things” do Michael Shermer.

Durante minhas postagens aqui no SRUSP, percebi o quão carente a população é em relação à visão daquilo que denominados de “racionalismo” e “ciencia”. O mais interessante é ver quão passional são os comentários contra aquilo que escrevemos. Uns atacam a pessoa que fez o artigo (tentando desqualificá-la), outras atacam somente aquele argumento que interessa a ela (ou o único que consegue debater), ignorando o resto. Outras vão mais além e tentam, de qualquer maneira, convencê-lo de que está errado, enviando mensagens sem qualquer evidencia e sem realizar qualquer pensamento crítico sobre aquilo que ela mesma escreveu. Às vezes é engraçado.

O brasileiro aparentemente acredita naquilo que mais lhe é conveniente e divulgado, ignorando um raciocínio lógico sobre as provas do caso. Uma discussão filosófica e de boatos se torna mais importante que provas cabais que anulam e eliminam certas filosofias e boatos infundados. Espero que o transcrito abaixo sirva para dar uma iluminada, e assim melhores discussões em nossos comentários.

Anedotas não fazem ciencia

Anedotas – histórias contadas para apoiar uma causa – não faz algo virar ciência. Sem evidências que possam apoiar uma causa a partir de outras fontes, ou provas físicas de algum tipo, dez anedotas não são melhores que uma, e centenas de anedotas não são melhores que dez. Anedotas são ditas por contadores de histórias falsas. O fazendeiro Camargo, de Ribeirão Preto, São Paulo, pode ser uma pessoa honesta, crente, um homem de família que não está sujeito a desilusões. Porém precisamos de evidências físicas da nave alienígena ou dos corpos alienígenas, não somente uma história sobre pousos e abduções às 3 da manhã no meio da plantação de cana-de-açúcar. Histórias sobre como o câncer da sua tia Maristela foi curado assistindo um tal bispo na televisão, tomando um homeopático ou por meio de uma cirurgia espiritual não fazem qualquer sentido. O câncer pode ter entrado em remissão por si próprio, o que acontece com alguns cânceres; ou ela pode ter tido um diagnóstico incompleto; ou, ou, ou… O que precisamos são experimentos controlados, não anedotas. Precisamos de 100 indivíduos com câncer, todos diagnosticados e classificados corretamente. Então precisaremos que 25 desses indivíduos assistam o tal bispo, 25 que assistam Zé do Caixão, 25 que assistam noticiários e 25 indivíduos que não assistam nada. Então precisaremos deduzir a taxa média de remissão para esse tipo de câncer, para então analisar os dados para as diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Se houver diferenças significativas, precisamos de confirmação a partir de outros cientistas que fizeram seus próprios experimentos separados do nosso antes que façamos uma conferência para anunciar a cura do câncer.

A linguagem científica não faz ciência

Acatar um sistema de crenças para colocá-lo do meio da ciência utilizando-se da linguagem científica e de jargões, como em “ciencia da criação”, “ciencia energética” ou “ciencia espírita”, não significa nada sem evidências, testes experimentais e corroborações. Como a ciência possui um grande poder místico em nossa sociedade, aqueles que desejam ganhar respeito, mas não possuem evidência, tentam criar um beco-sem-saída em volta das evidências que faltam, tentando fazê-las soar como algo “científico”. Um clássico exemplo sobre a homeopatia : “A diluição e a sucussão cria nano-estruturas polimórficas análogas a hidratos de clatrato, caixas cristalinas que se assemelham a gelo, onde uma pequena molécula gasosa da tintura original é aprisionada para formar o que agora se denomina Nanobolha” (1). Você pode repetir? Não tenho idéia do que isso significa, mas possui componentes de linguagem científica:  “nano-estruturas polimórficas análogas”, “hidratos de clatratos” e “nanobolha”. Essas frases não significam nada, pois não possuem definições precisas e operacionais. Como você mede a quantidade de moléculas gasosas dentro desses clatratos? Qual a meia-vida de um clatrato (com e sem a molécula gasosa)? Como o clatrato se dissocia para liberar o composto? Etc, etc, etc

Argumentos arrojados não tornam uma afirmação verdadeira

Algo é provavelmente pseudocientífico se afirmações extraordinárias são feitas sobre seu poder e sua veracidade, mas se procurarmos as evidencias de suporte, são tão escarças quanto os dentes em uma galinha. L. Ron Hubbard, por exemplo, inicia seu Dianetics: The Modern Science of Mental Health, com o argumento: “A criação da Dianética é um marco para a humanidade comparável à descoberta do fogo, e superior à invenção da roda e do arco” (em Gardner, 1952, p. 263). O guru da energia sexual Wilhelm Reich chamava sua teoria da Orgonomia de “uma revolução na biologia e na psicologia comparável à Revolução Copernicana” (em Gardner, 1952, p. 259). Eu tenho uma pequena pilha de papéis e cartas provindas de autores obscuros com tais menções sensacionalistas (e as denomino de arquivos da “Teorias do Tudo”). Os cientistas algumas vezes cometem esse erro também, como vimos às 13 horas do dia 23 de março de 1989, quando Stanley Pons e Martin Fleischmann conduziram uma conferência para anunciar ao mundo que conseguiram produzir a fusão nuclear a frio. O excelente trabalho de Gary Taubes sobre o debate da fusão a frio, apropriadamente denominado de Bad Science (Má Ciencia) (1993), examinou profundamente as implicações desse incidente. Talvez 50 anos de estudos sobre a física nuclear podem ser consideradas como erradas por meio de um único experimento, mas não são descartadas até que o experimento tenha sido replicado. A moral da história é que quanto mais extraordinária é a afirmação, mais extraordinariamente terá de ser testada a evidência.

Heresia não é igual a coisa errada

Eles riram de Copérnico. Eles riram de Santos Dummont. Dar risada não significa que você está certo. Wilhelm Reich se comparou a Peer Gynt, o inconvencional gênio descompassado com a sociedade, o qual foi mal entendido e ridicularizado como herege até que provou estar certo: “O que quer que você tenha feito para mim ou fará para mim no futuro, se você me glorifica como um gênio ou me interna numa instituição psiquiátrica, se você me adora como seu salvador ou se me enforca como um espião, mais cedo ou mais tarde a necessidade irá forçá-lo a compreender que eu descobri as leis da convivência” (em Gardner, 1952, p. 259). Reimpresso na edição de janeiro/fevereiro de 1996 do the Journal of Historical Review, o cânone da negação do holocausto, há uma famosa citação do filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer, o qual é citado muitas vezes por aqueles que ainda tem dúvidas: “Toda verdade passa por três estágios. A primeira, é ridicularizada. Segunda, ela é violentamente evitada. Terceira, é aceita como auto-evidência.” Porém “toda verdade” não passa por esses estágios. Muitas idéias verdadeiras são aceitas sem ridicularizações ou oposições, violência ou qualquer outra coisa. A teoria de Einstein sobre a relatividade foi amplamente ignorada até 1919 quando evidências experimentais provaram estar certa. A citação de Schopenhauer é somente uma racionalização, um modo elegante daqueles que ridicularizam ou se opõem violentamente o suficiente para dizer: “Viu, eu estou certo.” Nem tanto.

A história está repleta de fábulas de cientistas solitários que trabalham na contramão de seus colegas, desafiando as doutrinas de seu próprio campo de estudo. O trabalho desses cientistas foi provado estar errado, porém não nos lembramos de seus nomes. Para cada Galileu que é apresentado aos instrumentos de tortura por defender uma verdade científica, há milhares (ou dezenas de milhares) desconhecidos cujas “verdades” nunca passaram pela revista de outros cientistas. Não se pode esperar que a comunidade científica teste cada afirmação fantástica que surja, especialmente quando muitas são logicamente inconsistentes. Isso envolve conhecer os cientistas de sua área, a troca informal de dados e idéias com colaboradores, e apresentar formalmente resultados em conferências, artigos, jornais de revisão científica, livros, etc.

Ônus da Prova

Quem quer provar o quê para quem? A pessoa que faz uma afirmação extraordinária possui o ônus de provar aos especialistas e à ampla comunidade que sua crença possui mais validade que qualquer outra crença que alguém já tenha aceito. Você tem de interceder para que sua opinião seja ouvida. Então terá de convocar especialistas de sua área para que a maioria se convença em apoiar sua afirmação sobre aquela afirmação que eles sempre apoiaram. Finalmente, quando você é a maioria, o valor das provas muda para quem é de fora da área e quer desafiá-lo com um afirmação incomum. Os evolucionistas possuíam o ônus da prova por 50 anos após Darwin, mas agora o ônus da prova está com os criacionistas. E são os criacionistas que devem mostrar por que a teoria da evolução está errada e por que o criacionismo está certo, não os evolucionistas que têm de defender a evolução. O ônus da prova está com os homeopatas, pois tem de provar que a homeopatia funciona (e o modo pelo qual funciona), o ônus não está nos cientistas para prová-la verdadeira. O mesmo se vale para o espiritismo. O racional para chegarmos a isso é que uma grande quantidade de evidências prova que a evolução é fato e a homeopatia (1,2) e o espiritismo são falsos. Em outras palavras, já temos evidências suficientes. Você deve convencer os outros da validade da sua evidência. E quando você está fora dessa área de pesquisa, é o preço que se paga, mesmo estando certo ou errado.

Rumores não são a Realidade

Rumores começam com “Li em algum lugar que…” ou “Ouvi de alguém que…”. Antes que o rumor se torne realidade e passe de pessoa para pessoa, os rumores devem ser verdadeiros, mas comumente não são. Porém são ditos para grandes feitos. Há a “história verdadeira” para o maníaco com um gancho prostético que escapou e persegue sua amada pela América. Há a lenda da “loira da estrada”, na qual um motorista dá carona a uma loira que pede carona na estrada, e que ou ela some do carro repentinamente ou provoca um acidente. Pessoas que moram na beira de estradas dizem que essa loira morreu num acidente automobilístico, que estava esperando o noivo que morreu, que foi atropelada por estar desiludida com seu amor, etc. Tais histórias se espalham rapidamente e nunca morrem.

O historiador da ciência da Caltech, Dan Kevles uma vez contou uma história num jantar que eu suspeitava ser apócrifa. Dois estudantes não voltaram de um passeio de esqui em tempo de fazer seus exames finais, pois as atividades do dia anterior se estenderam pela madrugada. Eles disseram ao seu professor que o pneu do carro havia furado, então o professor os deu uma prova substitutiva no dia seguinte. Colocou os estudantes em salas separadas e fez somente duas questões: 1) “Valendo 5 pontos, qual a fórmula química da água?” 2) “Valendo 95 pontos, qual foi o pneu?”. Dois dos convidados do jantar relataram que já ouviram, embora vagamente, essa mesma história. No dia seguinte, repeti a história aos meus estudantes e, antes de chegar à conclusão, três deles falaram subitamente: “Qual pneu?”. Lendas urbanas e rumores persistentes são ubíquos. Eis alguns:

  • Uma mulher acidentalmente matou seu poodle secando-o no microondas
  • Paul McCartney morreu e foi substituído por um sósia
  • O pouso na Lua é falso e foi filmado num estúdio de Hollywood
  • Silvio Santos é careca

O inexplicável não é inexplicável

Muitas pessoas confiam exageradamente para pensar que se elas não podem explicar algo, logo é inexplicável e um mistério verdadeiro da paranormalidade. Um arqueólogo amador declara que como não consegue imaginar como as pirâmides do Egito foram construídas, devem ter sido construídas por alienígenas. Até mesmo aqueles que são (um pouco) mais racionais em, ao menos, pensar que se os especialistas não podem explicar algo, então é inexplicável. Feitos como dobrar colheres, andar no fogo, telepatia ou experiências de quase morte são muitas vezes considerados de natureza paranormal ou mística, pois a maioria das pessoas não pode explicá-los. Quando se expõe o problema a elas, a maioria responde: “Sim, é claro” ou “É óbvio, já que você viu.” Andar no fogo é uma delas. Pessoas especular infinitamente sobre os poderes sobrenaturais sobre a dor e as queimaduras. A explicação mais simples (seguindo-se a Lâmina de Ocam) é a que as partículas finas e macias de carvão na superfície das brasas retém muito pouco calor, e a condutividade do calor provindo desse carvão para o seu pé é muito pobre. Se você ficar longe das brasas, não se queimará (pense num bolo que acabou de sair de um forno em 200º C. O ar, o bolo e a forma estão todos em 200º C, mas somente a forma de metal poderá queimar a sua mão instantaneamente. O ar possui uma capacidade de conduzir calor muito baixa. A capacidade do bolo de conduzir calor é muito maior que a do ar, mas mesmo assim possui baixa condutividade, podemos tocá-lo brevemente sem nos queimar. A forma de metal possui uma capacidade de conter o calor semelhante ao do bolo, mas uma alta condutividade. Se você tocá-lo, mesmo que por pouco tempo, queimar-se-á seriamente. E é por isso que os mágicos não contam seus truques. A maioria de seus truques são, em princípio, relativamente simples (embora muitos sejam de execução extremamente difícil), e conhecer o segredo do truque remove a mágica do truque).

Há muitos mistérios não resolvidos no universo, porém não há problema em admitir: “Ainda não sabemos, mas algum dia, quem sabe, saberemos.” O problema se torna mais confortável quando temos certeza, mesmo que seja prematuro, ao invés de viver com mistérios não resolvidos e inexplicáveis.

Falhas são racionalizáveis

Na ciencia, o valor de achados negativos – falhas – não podem ser superenfatizados. Comumente não se procura a falha, e muitas vezes não se publica. Porém grande parte das vezes as falhas são o modo pelo qual chegamos mais perto da verdade. Cientistas honestos irão admitir prontamente seus erros, mas todos os cientistas são contidos pelo fato de que seus colaboradores irão criticar e ridicularizar o fato. Isso não ocorre com pseudocientistas (casos famosos do espiritismo, por exemplo). Eles ignoram ou racionalizam as falhas, especialmente quando expostos. Se forem pegos no ato falho – o que não ocorre frequentemente – dirão que seus poderes comumente funcionam, mas não sempre. Então quando pressionados a encenar na televisão ou no laboratório, muitas vezes recorrem a trapaças. Se simplesmente falham na encenação, logo possuem uma variedade de explicações criativas: muitos controles em um experimento causam resultados negativos; os poderes não funcionam na presença de céticos; os poderes não funcionam na presença de equipamentos elétricos; os poderes vão e vem; a energia do ambiente não permite, etc. Finalmente afirmam que se os céticos não podem explicar tudo, então deve haver algo paranormal; eles caem na falácia do “o inexplicável não é inexplicável.”

Racionalismo pós-fato

Também conhecido como “post hoc, ergo propter hoc,” literalmente “após isso, logo por causa disso” (ex: o galo canta porque o Sol se levanta. Então o Sol se levanta porque o galo canta). Em seu nível mais basal, é uma forma de superstição. O apostador usa seus sapatos da sorte pois ganhou uma aposta no passado utilizando-os. Mais subjacente, os estudos científicos podem ser presas de falácias. Um estudo de 1993 mostrou que crianças alimentadas no peito possuem QI maiores. Houve muita atenção em qual substância contida no leite materno poderia aumentar a inteligência. Mães que alimentavam seus filhos em mamadeiras se sentiram culpadas. Mas logo os pesquisadores começaram a imaginar se os bebês alimentados no peito foram tratados diferentemente. Talvez as mães que gastaram mais tempo cuidando de seus bebês e com maior vigilância materna era a causa entre as diferenças no QI. Como Hume nos disse, “o fato de que dois eventos dependem um do outro em sequencia não significa que estão conectados causalmente”. Correlação não significa causalidade.

Coincidencia

No mundo paranormal, as coincidências são muitas vezes vistas como profundamente significativas. A “sincronicidade” é então invocada como se alguma força misteriosa estivesse nos bastidores. Mas essa sincronicidade é nada mais que um tipo de contingência – uma conjuntura de dois ou mais eventos sem qualquer planejamento aparente. Quando uma conexão é feita de modo aparentemente impossível, de acordo com nossa intuição e as leis de probabilidade, tendemos a pensar que algo misterioso trabalhou para isso.

Mas a maioria das pessoas possui um entendimento muito pobre sobre as leis da probabilidade. Um apostador venceu 6 vezes consecutivas, então pensa que ele é está numa “maré de sorte” ou “afasta o azar”. Duas pessoas numa sala com trinta pessoas descobrem que possuem a mesma idade, concluindo que algo misterioso trabalhou para isso. Você liga para seu amigo Roberto. O telefone toca e é o próprio Roberto. Você pensa, “Nossa, quais são as chances? Não pode ter sido mera coincidência. Talvez Roberto e eu estamos nos comunicando telepaticamente.” De fato, tais coincidências não são coincidências sob as regras da probabilidade. O apostador previu duas possíveis apostas, uma margem de erro! A probabilidade que duas pessoas numa sala contendo trinta terem a mesma idade é de 71%. E você já se esqueceu quantas vezes Roberto não atendeu o telefone, ou que alguém também tenha ligado para ele, ou que Roberto atendeu a ligação, mas você não estava querendo falar com ele, e por aí vai. Assim como o psicólogo B.F. Skinner provou em seu laboratório, a mente humana procura o relacionamento entre eventos, encontrando-os mesmo quando não estão presentes. As máquinas caça-níquel são baseadas nos princípios de Skinner de reforço intermitente. Um pessoa irracional, como um rato, somente precisará de uma recompensa ocasional (algumas moedas) para continuar a puxar a alavanca. A mente faz o resto.

Representatividade

Como Aristóteles disse, “A soma das coincidências se equivale à certeza.” Esquecemos a maioria das coincidências insignificantes, e nos lembramos do significado de outras. Nossa tendencia de relembrar acertos e ignorar erros é a panaceia de psíquicos, profetas, bispos, adivinhos e os que fazem o (seu) horóscopo, criando centenas de predições a cada 1º de janeiro. Essas pessoas primeiramente aumentam a probabilidade de acerto incluindo previsões mais generalizadas que acontecem todo o ano com qualquer indivíduo como “ [o ator de novela] irá ter problemas de saúde” ou “Vejo problemas para a presidente da república” ou “cuidado com a inveja dos outros” ou “Não faça nada que possa se arrepender”, etc (para maiores (e cômicos) exemplos, pegue um jornal, abra na parte de horóscopos – leia). Então, no próximo 1º de janeiro, publicam os acertos e ignoram os erros, esperando que ninguém se lembre de investigar o que foi dito anteriormente.

Precisamos sempre nos lembrar o grande contexto no qual um evento aparentemente ocorre, e devemos sempre analisar eventos incomuns para sua representatividade na sua classe fenomenológica. No caso do “Triângulo das Bermudas,” uma área do Oceano Atlântico onde navios e aviões “desaparecem misteriosamente”, há a afirmação de que algo estranho ou alienígenas estão por trás disso. Como há muitos corredores de navios e aviões que passam pelo Triângulo das Bermudas que nas áreas em volta, acidentes e (logo) desaparecimentos ocorrem com maior frequencia. Hoje se sabe que a taxa de acidentes é atualmente mais baixa no Triângulo das Bermudas que nas áreas em volta. Talvez essa área deva ser denominada de “Não-Triângulo das Bermudas” (ver Kusche, 1975, para uma explicação completa desse mistério). Similarmente, investigando-se casas assombradas, devemos primeiramente ter uma linha de base dos ruídos, rangidos e outros eventos antes de dizermos que algo é sobrenatural (e, logo, misterioso). Sussuros e batidas na parede podem ser o sistema de encanamento, estalos e rangidos à noite podem ser a contração de materias (madeira, metal) pela diminuição da temperatura durante a madrugada, sons de arranhaduras no porão podem ser de ratos.

Referencia

Kusche L. The Bermuda Triangle Mystery – Solved. New York: Warner, 1975.

Gardner M. Fads and Fallacies in the Name of Science. New York: Dover, 1952.

Shermer M. Why People Believe in Weird Things. New York: Hnery Holy & Co., 2002.

Espiritismo no Brasil e a Dissonância Cognitiva

Traduzido da Revista Skeptical Inquirer

Na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo se desenvolve e evolui numa nova religião.

Todos já vimos as antigas imagens vitorianas sobre fantasmas em lençóis brancos e em fotos desagradavelmente mal feitas de espíritos criados a partir de dupla exposição, principalmente resultado do movimento espiritualista no Reino Unido e nos Estados Unidos. O movimento atingiu seu auge no final do século XIX, sendo considerado um modismo dos dias atuais quase um século depois.

Porém, em alguns países, especialmente na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo ainda é muito significativo e continua evoluindo, fazendo-o um exemplo formidável do desenvolvimento de uma nova religião. Seus seguidores irão logo enfatizar a distinção entre a visão mais ampla do espiritualismo e do espiritismo, o qual foi fundado por um francês chamado Hypolite Rivail (1804-1869) sob o pseudônimo de “Allan Kardec.” Esse modismo, ou falácia, vem sendo promovido em nome da ciência.


Chico Xavier

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual conduz os censos oficiais, o Brasil possui o maior número de espiritistas no mundo: por volta de 2,3 milhões de seguidores, quase 1,3% da população total, e o terceiro maior grupo religioso, atrás somente dos católicos e evangélicos (1)

Todos esses três grupos são cristãos. Os espiritistas brasileiros dão especial ênfase para “O Evangelho Segundo o Espiritismo.” O líder mais importante desse movimento no Brasil, Francisco “Chico” Xavier (1910-2002), é nosso maior foco de interesse aqui, pois simboliza o espiritismo brasileiro.

Chico Xavier é considerado um médium. Porém sua maior forma de mediunidade é a “psicografia”, isso é, a escrita automática pela qual ele afirmava contactar pessoas mortas por meio de cartas “escritas” pelo morto, e também por meio de livros “escritos” por autores famosos já falecidos.

Vendendo esses livros “psicografados”, os quais Xavier escreveu por volta de 400, o movimento conseguiu florescer e promover trabalhos de caridade num loop auto-alimentado onde cada elo reforça o outro, tendo-se Xavier em seu topo. Obviamente não era nenhum Saxy Sadie, mas, mesmo em vida, Xavier vivia modestamente e nunca se casou, sendo adorado como um tipo de santo ascético. Não há evidências de que sua imagem divulgada por seus seguidores não fosse verdadeira. Quase uma década após sua morte, e no centenário de seu nascimento, sua vida foi dramatizada e divulgada em filme (2), é quase impensável questionar a pessoa pública de Xavier.

Mas uma análise crítica dos poderes paranormais de Chico Xavier rapidamente revela sua maior falha. Fiquei surpreso. Até o momento em que me aprofundei na pesquisa, sempre assumi que as afirmações de Xavier tinham algo de verdadeiro. Se não eram um fenômeno paranormal autêntico, pensei que ao menos se chegaria a algo insolucionado ou intrigante. Mas não foi o caso.


“Odorização”

Um amigo íntimo, Vitor Moura Visoni (3), procurou encontrar um dos maiores e mais íntimos afiliados de Xavier, Waldo Vieira, para verificar se Xavier promovia eventos fraudulentos. Vieira deveria saber disso, pois estava com Xavier.

“Trabalhadores do Centro Espírita faziam fila para conseguir detalhes de falecidos ou se utilizavam de histórias contadas pelos parentes nas cartas onde pediam por um encontro. As mensagens de Chico tinham essa informação”, Vieira revelou. Isso poderia explicar as cartas “psicografadas” com detalhes que “somente os mortos sabiam”. Mais que uma simples “leitura fria”, era justamente um falsificação legítima. Havia outras falsificações, de acordo com Vieira.

“Vi que [Chico Xavier] estava conduzindo algumas sessões espíritas nas quais eu não era participante … onde algumas pessoas às vezes relatavam sobre os perfumes de Scheila [o espírito] … [Então] um dia … ele foi colocar algo no correio, … fui até seu quarto, o qual estava com a porta aberta, pretendendo fechá-la. Quando cheguei lá, vi um saco cheio de frascos… Ele usou os perfumes… e eram de rosas … [Perguntei— o sobre isso] então Chico começou a chorar na minha frente.”

O uso de odores supostamente de origem sobrenatural é um truque espiritualístico comum. Tanto que o líder espiritista e mais destacado “médium” do Brasil o utilizou, de acordo com um de seus afiliados mais íntimos, é algo bastante revelador.

Mas nada ganha do caso de Otília Diogo.


Irmã Josefa

Olhe essa foto. É parte de um show de comédias? Pode ser engraçada, mas intencionalmente não é. A foto foi tirada em 1964, e o homem sorridente de óculos de sol é o próprio Chico Xavier. A pessoa coberta pelo lençol branco é a médium Otília Diogo, ou como os espiritistas acreditam, a “materialização” do espírito de Josefa em ectoplasma. Graças à mediunidade de Otília Diogo, é claro.

Outras fotos claramente mostram a médium atrás do véu, e, de fato, o véu possui uma parte retangular semi-transparente para permitir que Otília pudesse enxergar. A suposta materialização ectoplásmica pode ser tocada e também segurar uma bíblia. Isso é realmente muito material. E até mesmo os crentes noticiaram como a médium, Otília, possuía uma similaridade marcante com a face do espírito (abaixo).

E assim acreditaram. E ainda acreditam nisso. Xavier estava lá e enfaticamente afirmou que a materialização era real e autêntica. Mas o caso logo se tornou uma grande confusão.

As fotos foram tiradas pela revista Cruzeiro, a qual possuía a principal prioridade de vender mais revistas. Primeiro promover e então expor a fraude serviu como uma luva. Após publicar primeiramente um artigo no qual questionavam se as “materializações de Uberaba” eram reais e abertas a interpretações, procederam então para expor a fraude que ajudaram a promover.


Pegos no ato!

E então expuseram. Com fotos claras fica óbvio que a “materialização” é simplesmente a médium Otília em lençóis. Os crentes até mesmo afirmavam que o espírito atravessava barras de aço sólido, mas as fotos mostram que era somente alguns lençóis que eram jogados para o outro lado, enquanto a médium, muito sólida (e viva), estava por trás das barras.

A Cruzeiro não poderia ter tido melhor furo de reportagem quando em 1970, Otília Diogo foi finalmente pega no ato do crime. Ela queria fazer plástica para remover suas rugas, e como pagamento pela cirurgia, se ofereceu para conduzir uma reunião espírita de materialização na casa do médico, um crente no espiritismo. Mas o médico não era tão ingênuo assim, e ficou com suspeitas sobre uma maleta que sempre estava com Otília. Quando ele e sua família tentaram abri-la enquanto Otília dormia, encontraram todo o “ectoplasma”, isso é, todas as vestimentas e véus materiais que utilizava para interpretar diferentes espíritos.

Suas ferramentas incluíam até perfumes para “reforçar a presença do espírito.” Assim como Xavier, de acordo com Vieira.

Finalmente exposta a fraude, o que Otília poderia dizer? “Perdi minha mediunidade em 1965, mas pensei que poderia manter a encenação das materializações. Não queria que alguém percebesse.”

E as pessoas acreditaram nisso. Grande parte dos espiritistas do Brasil, quando informados sobre o envolvimento de Chico Xavier no caso de Otília Diogo, acreditou piamente que embora ela fosse definitivamente uma farsante, somente começou a difamar pouco tempo após Xavier ter autenticado e testemunhado os fenômenos. Esse é um exemplo clássico de dissonância cognitiva.

Mesmo que as fotos tiradas durante aquelas reuniões espíritas de 1964 claramente mostrarem uma pessoa utilizando véus, obviamente uma evidência falsa, muitos ainda acreditam que o ectoplasma funciona de maneiras misteriosas – incluindo se parecer exatamente como um véu comum. Nós, os céticos, ainda argumentamos com os crentes que defendem veementemente esse caso com argumentos elaborados – sendo que todos foram refutados – mas a primeira e óbvia impressão das fotos tiradas é um tanto certeira. São exemplos simples e ridículos de falsificações.


Pessoas espertas acreditam em coisas estranhas

Waldo Vieira também era testemunha dessas reuniões espíritas, revelando que desde o início já tinha suspeitas sobre Otília. Mas também afirma que Otília era uma psíquica autêntica, assim como Xavier. Embora fosse uma falsária às vezes, ela também tinha poderes paranormais extraordinários. A dissonância cognitiva é completa.

Mesmo se alguém aceitar que esses médiuns eram falsários, o crente irá se auto-convencer que parte do fenômeno falsificado é autêntica. Parafraseando uma questão filosófica antiga e peculiar, se um falsário não for pego em seu ato fraudulento no meio da floresta, ele cometeu a fraude? Para os crentes, a resposta é clara. Os argumentos mais elaborados e impensáveis são apresentados como argumento para aquelas fraudes ridículas que podem ter sido consideradas como autênticas.

Voltando no tempo novamente podemos encontrar exemplos de falsários. E a história de Otília Diogo, tão famosa no espiritismo brasileiro, é quase idêntica à história das materializações de Florence Cook feitas por Katie King, as quais ocorreram quase um século antes no auge do espiritualismo vitoriano. Os crentes irão argumentar que ela somente começou a fraudar provas após ser examinada por William Crookes. Bill Meier, o suíço que diz ter contatos com alienígenas pode ter falsificado algumas fotos, mas deve ter começado a fazer isso após ter tido alguns contatos autênticos com alienígenas provindos das Plêiades.

Certamente há muitas outras histórias sobre Chico Xavier, pois não entramos em detalhes na sua principal afirmação paranormal dos 400 livros “psicografados”. Essa é outra oportunidade de desmascará-lo.

Porém, como foi uma personalidade tão famosa por seus preceitos morais e mensagens espirituais publicadas em centenas de livros, terminaremos com um pequeno fragmento particularmente interessante: “A verdade que machuca é pior que a mentira que conforta… Aqueles que conseguem compreendê-la irão entender.”

Tá dááá!! Por hoje é só, amiguinho!

Referencias

[1] O número total de ateístas e cidadãos não religiosos no Brasil é provavelmente comparável ou até maior que o número de espíritas, porém o IBGE se recusa a quantificar o número de ateístas no censo.

[2] Muitos brasileiros das classes sociais mais altas, incluindo a elite do entretenimento, são espíritas. Considerando-se mais requintados que o catolicismo tradicional.

[3] o trabalho de Visoni está disponível gratuitamente em português em http://obraspsicografadas.haan.com/

Mais informação

Download da Revista Cruzeiro de 1964, aqui

Maiores informações, aqui

Entrevista na Superinteressante sobre Alexander Moreira e o NUPES

A pseudociência espírita. Buuuuuuu...

Pouco menos de um ano atrás concedi uma entrevista por email para Pablo Nogueira, repórter da revista Superinteressante, a respeito do post que escrevi sobre Alexander Moreira Almeida e o NUPES. A reportagem foi publicada na edição deste mês (outubro 2011). Ainda não tive a oportunidade de ler mas dada a natureza da publicação (a Superinteressante é famosa pelo sensacionalismo, distorção e incompreensão científica) não tenho boas expectativas. A chamada na capa só reforça minhas suspeitas:

Ciência espírita

Eles são cientistas. E eles acreditam em espíritos e reencarnação. Agora, estão usando o laboratório para tentar provar que isso existe.

Abaixo está a entrevista na íntegra. Deixo ao leitor julgar se o que foi publicado condiz ou não com o que eu escrevi. Quando tiver lido a matéria publico a minha opinião.

Qual é a sua formação e o que você está fazendo no canadá?

Comecei estudando psicologia na PUC-RS e foi aí que tive meu primeiro contato direto com pseudociência e com a enrolação pós-moderna e o pensamento anticientífico que assombram as coitadas das ciências humanas no Brasil. Talvez você possa dizer que algo assim já era de se esperar de uma “universidade católica,” mas essa é uma conclusão que não vem tão fácil à um adolescente de 17 anos! A psicologia científica era praticamente ignorada ou mal-compreendida e a ênfase era em psicoterapia, que por si só é a área mais questionável da psicologia. Como eu tinha uma dificuldade muito grande em compreender coisas como a “intersubjetividade do eu,” a “posição esquizo-paranóide” etc, resolvi, pro alívio dos professores, que deveria procurar um curso mais adequado às minhas capacidades. Me mudei pra Grã-Bretanha onde fui aceito na University of Edinburgh e me formei em matemática. Atualmente estou fazendo mestrado em psicobiologia na USP-RP. Minha linha de pesquisa é em neurociência computacional. Vim fazer parte do mestrado aqui no Canadá, no laboratório de Aprendizado por Reforço e Inteligência Artificial da University of Alberta, através de um programa chamado Emerging Leaders in the Americas.

O que é a sociedade racionalista usp? Como você se envolveu com ela?

A Sociedade Racionalista USP é um grupo formado por estudantes céticos, ateus e agnósticos que organiza eventos e atividades com o objetivo de divulgar a ciência e o pensamento crítico no campus e fora dele. Ela segue o modelo das sociedades estudantis muito comuns nas universidades da Grã-Bretanha e da América do Norte mas que, até onde eu saiba, infelizmente são quase inexistentes no Brasil. Tive a ideia de começar uma depois de ver que as únicas organizações estudantis do gênero na USP eram grupos de oração!

Como você tomou conhecimento do trabalho do Alexander Moreira?

Recebi um email sobre uma palestra do Alexander promovida pelo programa de pós-graduação em saúde na comunidade da USP-RP. O título era “a contribuição das pesquisas sobre experiências espirituais para o aprimoramento do diagnóstico psiquiátrico e da relação mente-cérebro” e isso fez soar todos os meus alarmes anti-pseudociência. Experiências espirituais? Aprimoramento da relação mente-cérebro? Fui procurar mais informações no website do NUPES e minhas suspeitas se confirmaram.

Por que resolveu escrever um post sobre o trabalho dele?

Eu acho que desbancar estudos pseudocientíficos além de ser um exercício divertido de lógica e metodologia científica é também uma ótima oportunidade para divulgar essas ferramentas mentais para o público em geral. Um programa de TV sobre as diferenças entre os testes de hipóteses estatísticos paramétricos e não-paramétricos certamente teria uma audiência muito limitada mas quando essas coisas são mencionadas no meio de uma crítica à homeopatia ou espiritismo as pessoas tendem a prestar mais atenção. Eu também acho que pseudociência não deveria ser promovida ou financiada por instituições públicas como hospitais e universidades.

No texto do blog você tece, brevemente críticas a dois artigos de Alexander. Peço a você que, nesta pergunta apresente suas críticas a cada artigo, com o máximo de fundamentação possível.

A primeira publicação que citei, “o diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos mentais de conteúdo religioso”, que parece ser um tema popular do Alexander, se propõe a estabelecer critérios para distinguir um transtorno mental de ditas “experiências espirituais.” Para isso, os autores dispensam com experimentos e laboriosas análises estatísticas e oferecem, ao invés, uma lista de nove critérios extraídos, sem nenhuma quantificação aparente, de uma literatura que eles julgaram adequada. Ora, tenho certeza de que qualquer pessoa procurando na literatura que ela quiser vai achar comprovação pro que ela quiser. Essa é mais uma falácia comum entre os pseudocientistas; se chama “viés ou tendência para a confirmação” e consiste em notar apenas aquilo que confirma sua crença e ignorar o que a contradiz. E de fato a maioria das 59 referências desse estudo são sobre espiritualidade, transcendência, parapsicologia, experiências de quase-morte e coisas do gênero. Os tais nove critérios variam entre o óbvio — “ausência de sofrimento psicológico” — o contraditório — “existe uma atitude crítica sobre a realidade,” é difícil entender como que uma pessoa que acha que está sendo possuída pelo demônio consegue ter uma atitude crítica sobre a realidade — e o completamente vago — “a experiência é controlada” e “gera crescimento pessoal.”

A segunda, “recognition and treatment of psychotic symptoms: spiritists compared to mental health professionals in Puerto Rico and Brazil,” chega a conclusão notável de que as técnicas dos médiuns e curandeiros espíritas são tão ou mais eficazes no tratamento da esquizofrenia que as da psiquiatria baseada em evidências. Certamente ele usou um design experimental duplo ou pelo menos único-cego, atribuiu os tratamentos espíritas e científicos aleatoriamente entre os sujeitos, acompanhou o desenvolvimento clínico deles por um bom tempo após as intervenções e avaliou estatisticamente os resultados, certo? Nada disso! Novamente eles escolheram os médiuns que gostaram mais, entrevistaram alguns “pacientes” desses médiuns, e compararam os resultados (sabe-se lá como pois eles não explicam) com estudos de casos “parecidos” discutidos em conferências sobre espiritismo! Ou seja, o tal estudo foi desenhado pra chegar à conclusão que chegou.

Esses são dois exemplos do que passa por “ciência” nesses círculos de pesquisas em espiritualidade. A impressão que fica é que esses pseudoestudos são simplesmente uma cobertura pra eles conseguirem empurrar uma agenda espírita no universo médico e acadêmico. O que me surpreende é como que a FAPEMG e a UFJF não perceberam isso e estão gastando os escassos recursos públicos destinados a ciência financiando esse tipo de coisa.

Contei uma dezena de pessoas se manifestando no blog sobre este post. Como você avalia o debate?

Alguns membros do NUPES se manifestaram mas não consegui achar respostas às críticas do post; uns se referiram a outros supostos estudos por pesquisadores estrangeiros, como se pseudociência fosse um privilégio brasileiro; outros preferiram o ataque pessoal ou citar a bíblia. A Letícia Alminhana, psicóloga pela PUC-RS, mestre em teologia e atual doutoranda do NUPES, deu a entender que eles estudam somente o lado humano das crenças no sobrenatural, o que sem dúvida é uma grande idéia (Daniel Dennet escreveu um ótimo livro sobre como fazer isso – “quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural”) se for feito cientificamente. O problema todo é que os estudos do NUPES não passam no crivo de nenhum cientista que se preze, apesar deles insistirem no contrário. É importante lembrar disso: pseudociência só tem a aparência superficial de ciência!

Uma das críticas apresentadas neste debate é a de que você estaria tecendo críticas baseando-se apenas num conhecimento superficial tanto do trabalho de Alexander quanto do desta área de investigação (um exemplo que me ocorre é que você cita o programa da Usp como extinto, quando ele está ativo). E realmente sei que a pesquisa dele é bem mais vasta. Você não está sendo precipitado em chamáar o grupo dele de “centro espírita” disfarçado de “grupo de pesquisa”?

Essa é uma tática de “desvio de atenção” comum na religião: cada vez que alguém critica um ponto particular geralmente os crentes tentam desviar a atenção ressaltando outras partes dessa religião que pouco ou nada tem a ver com a primeira e que o crítico (ainda) não mencionou. O fato desse outro grupo do Alexander possivelmente ainda existir, contrário ao que eu disse, não tem nada que ver com as críticas dos trabalhos que eu comentei e sim com eles conseguirem se esconder bem do google!

E sem dúvida existem outros trabalhos do Alexander ou desse mesmo tipo, de fato existem milhares. É possível que algum deles contenha algo válido cientificamente, mas é difícil ter tal esperança uma vez que a credibilidade do pesquisador ou da área é destruída por absurdos comumente encontrados. No caso particular do Alexander existem vários absurdos que fazem com que ele perca credibilidade: as críticas que eu citei no meu post e as do Paulo Bandarra e do José Colucci Jr no Observatório da Imprensa; o enorme conflito de interesses no fato dele ter vários vínculos (entre eles ser parte do conselho deliberativo) de um hospital espírita (hospitais espíritas especializam-se exclusivamente em charlatanismo e nenhum cientista sério ia querer ter qualquer vínculo com eles); a incrível credulidade e o desconhecimento (ou conveniente omissão) que ele mostra ao sugerir que existem evidências convincentes de mediunidade, reencarnação e experiências fora do corpo (não há nenhuma, de fato James Randi oferece, desde 1964, um milhão de dólares pra quem conseguir mostrar evidências do paranormal ou sobrenatural mas até hoje ninguém conseguiu nem passar do teste preliminar); suas supostas “fontes científicas” são na verdade um apanhado da literatura pseudocientifica (não falta Freud, Jung e, claro, a grande figura inspiradora do seu trabalho e o pai do espiritismo Allan Kardec).

A revista de psiquiatria da Usp é talvez a mais importante publicação do gênero na América Latina. Se o artigo foi publicado lá, é porque foi considerado como sendo expressão de boa pesquisa pelos pareceristas da revista, que, supõe-se, não tem fé religiosa. O fato de Alexander estar publicando seus trabalho em revistas indexadas de boa qualidade não é por si só um indício da qualidade da pesquisa dele? E de que ele não está abordando o tema sob nenhum prisma religioso?

O fato da revista de psiquiatria clínica da USP decidir publicar a maioria dos estudos do Alexander não é surpresa nenhuma; o orientador do doutorado dele, colega de coordenação desse outro grupo NEPER de espiritualidade na USP e coautor de pelo menos uma dezena de suas publicações, Francisco Lotufo Neto, faz parte da comissão editorial. Pior ainda, o próprio Alexander alega no seu currículo ser parte do corpo editorial desde 2005 (embora seu nome não apareça no site da revista, o que é meio estranho).

Isso só mostra que mesmo a suposta mais importante publicação do gênero na América Latina ainda tem muito o que aprender com as suas semelhantes na Europa e América do Norte. No entanto, mesmo as melhores publicações deixam passar estudos de qualidade duvidosa as vezes e cabe a comunidade científica (e isso inclui os blogs de ciência) expor essas falhas e aos autores desses estudos, se eles forem realmente honestos e interessados na busca da verdade, se retratar. Aliás é esse processo de crítica cética que garante que a ciência esteja em constante aperfeiçoamento, e que a distingue da religião por exemplo.