Arquivo da categoria: evolução

Nosso Macaco Oculto: Por que a corrupção é normal?

Adaptado de New Scientist

Se você pensa que é incorruptível, pense novamente. Entender como tantas pessoas de bem se desviam de seus princípios pode ajudar a dar uma faxina nos negócios e na política

Em 2004, Benjamin Olken visitou um projeto de construção de uma estrada na Indonesia rural. Havia somente a falta de um pequeno trecho – uma ponte sobre uma corredeira – mas o dinheiro tinha acabado devido à corrupção, e a construção foi abandonada.

“No momento que cheguei aqui você podia ver onde a estrada havia sido colocada, mas o mato tomou conta de tudo,” ele diz. “A estrada ficou inútil.”

Para Olken, um economista do Instituto de Tecnologia de Massachussets e antigo consultor do Banco Mundial, esse exemplo resume porque a corrupção é um escoadouro da sociedade, e porque combatê-la é uma grande recompensa. Porém planejar políticas anticorrupção efetivas demanda primeiramente o entendimento daquilo que faz as pessoas se tornarem corruptas. Somente agora as evidências começam a surgir. É uma leitura um tanto desagradável.

A maioria de nós pensa que é relativamente honesta, tendo a corrupção como algo que envolve somente os outros. Mas novas pesquisas mostram que qualquer pessoa pode se tornar corrupta num piscar de olhos. De fato, quando admitimos os meios evolutivos, aderir-se a altas escalas de moralidade pode ser visto como uma posição irracional. Se todos estão trapaceando, jogar as regras atuantes o deixará somente com um pequeno saque – em que o saque, o que quer que seja, traduz-se mais cedo ou mais tarde em sucesso reprodutivo. Então faz sentido seguir meios não honestos, pois ao mesmo tempo encoraja todos os outros a serem honestos.

“Penso que a hipocrisia é como um pano de fundo,” Diz Rob Kurzban, autor de Why Everyone (Else) is a Hypocrite? (Por que todos – os outros – são hipócritas?).

Se somos grande parte do tempo honestos, isso nos dá menos oportunidade de trapacear. Isso é certamente corroborado por pesquisas conduzidas por Samuel Bendahan e colaboradores do Instituto Federal Suíço de tecnologia em Lausanne. Eles desenvolveram um jogo no qual os jogadores precisam distribuir uma quantia de dinheiro entre si e a seus “empregados”. Há três opções: aumentar o salário de seus empregados ao seu custo pessoal, manter as taxas de distribuição ou reduzir o salário dos empregados e levar para casa um bolo de dinheiro – a opção “ladrão”.

Perguntados de antemão como se comportariam, quase 4% dos jogadores perdoariam o roubo. De fato, para aqueles pessoas que possuem o controle de somente um empregado retiveram-se em roubar por 10 rodadas sucessivas, o qual teve pequenas quantidades de dinheiro. Porém quando as pessoas possuíam três empregados, logo possuindo mais poder e mais ganhos a partir de trapaças, deixaram suas instâncias morais num período mais curto. Após as primeiras 5 rodadas, 20% recorreram ao furto. E se fosse oferecido aos chefes mais maneiras de ganhar às custas de seus empregados, por volta da décima rodada seus lucros aumentavam em 45%.

Após as primeiras 5 rodadas, 20% recorreram ao furto. E se fosse oferecido aos chefes mais maneiras de ganhar às custas de seus empregados, por volta da décima rodada seus lucros aumentavam em 45%.

A influência corrupta do poder também foi mostrada por Joris Lammers da Universidade de Tilburg, Holanda, e por Adam Galinsky da Northwerstern University de Chicago. Eles incentivaram indivíduos para que sentissem uma sensação maior ou menor de poder através da lembrança de incidentes passados que envolviam sentimentos. Então dividiram o grupo em dois, perguntando à metade para classificarem certas ações hipotéticas sobre moralidade, e ao outro grupo deixaram jogando jogos de dados num cubículo isolado, informando suas opiniões a um assistente de laboratório.

A quantidade de pontos possíveis para o grupo é de 1 a 100, com as maiores pontuações trazendo maiores recompensas. Como o jogo de dados é algo aleatório, a média dos pontos deveria ficar por volta de 50, porém foi de 70 para o grupo induzido a se sentir mais poderoso. Indivíduos com maior sensação de poder tendiam a trapacear mais, diz Lammers e Galinsky, esses também condenaram mais duramente atos imorais que as pessoas com menor sensação de poder. Além disso, os mais poderosos eram hipócritas, julgando tais atos menos condenativos quando feitos por si mesmos que por outras pessoas ( Psychological Science, vol 21, p 737).

O historiador e político britânico Lord Acton estava certíssimo quando disse: “todo poder corrompe.” Porém o poder não fornece simplesmente mais oportunidades para trapaças escondidas – também influencia o modo pelo qual pensamos. Lammers acredita que isso nos trás algo como uma miopia moral. “Comparo-os com o efeito do álcool. O álcool estreita seu foco, levando a um comportamento no qual você se sente autoconfiante em demasia ou superassertivo.” Ele aponta que seus colaboradores em Tilburg, liderados por Maarten Boksen da Universidade Erasmus, em Roterdã, Holanda, monitoraram a atividade cerebral das pessoas enquanto se sentiam mais poderosas, encontrando a ativação de áreas associadas com a desinibição ( Social Cognitive and Affective Neuroscience, DOI: 10.1093/scan/nsp006).

Indivíduos com maior sensação de poder tendiam a trapacear mais (…) esses também condenaram mais duramente atos imorais que as pessoas com menor sensação de poder.

Poder não é a única coisa que nos dá tendências desonestas. A distância psicológica também aparenta facilitar atos corruptos. O economista comportamental Dan Ariely, do MIT, mostrou que as pessoas trapaceiam mais prontamente quando lhes são dadas fichas para serem trocadas por dinheiro que o próprio dinheiro (Journal of Marketing Research, vol 45, p 633).

Agir como intermediário é outro modo de distanciar o indivíduo. Danila Serra, da Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, a qual investigou o papel de intermediários na corrupção, diz que há muitas razões para isso. Uma é que o intermediário remove a incerteza fornecendo uma tarifa para um determinado tipo de serviço, tal como subornar um político, e fazendo isso ajuda também a fazer com que o ato se torne menos culposo. Além disso, mesmo se os intermediários são meros intermediários de armas, sua existência reduz o risco de punição causado por seus clientes, criando uma ilusão de responsabilidade dividida. Um bom exemplo é o recente escândalo das escutas telefônicas que ocorreram no Reino Unido, no quais alguns jornalistas do agora finado jornal News of the World pagava detetives particulares para ter acesso às mensagens do correio de voz de certas pessoas.

Os mais poderosos eram hipócritas, julgando tais atos menos condenativos quando feitos por si mesmos que por outras pessoas

De fato, onde houver uma cultura desse tipo, a corrupção parece ser contagiosa. A cada ano, a Transparência Internacional publica uma lista de países listados de acordo com seus níveis de corrupção (ver diagrama). Baseando-se em pesquisas de analistas e pessoas de negócios, esse Índice de Percepção da Corrupção (IPC) foi criticado por sua falta de objetividade, mas a pesquisa de Serra sugere que essa lista reflete de fato o comportamento das pessoas. Trabalhando com Abigail Barr, da Universidade de Oxford, ela e Serra conduziram uma série de experimentos com estudantes universitários de Oxford provindos de 34 países, cobrindo uma grande área do IPC. Cada pessoa tinha de decidir se subornava ou não um funcionário para um determinado serviço, tal como colocar seu nome no topo de uma lista do atendimento hospitalar. As duas mostraram que pessoas dos países com os piores IPCs tendiam a praticar o suborno (Journal of Public Economics, vol 94, p 862). Barr e Serra concluíram que nossa propensão a engajar em atos corruptos possui componentes fortemente culturais, refletindo as normas sociais do país no qual vivem.

Dada a nossa tendência ao mal, militantes anticorrupção batem com a cabeça na parede. Mas as notícias provindas dos laboratório não são todas más. Uma luz de esperança se encontra na descoberta que indivíduos podem se tornar menos corruptos. Quando Barr e Serra repetiram seus experimentos encontraram que a tendencia da pessoa em subornar diminuía quanto maior o tempo gasto no Reino Unido. Elas também fizeram uma observação provocativa, sugerindo que alguns indivíduos podem ser menos suscetíveis a corromper as influencias culturais em primeiro lugar. Enquanto a “corruptibilidade” de estudantes universitários refletiu o IPC de seus países, o mesmo não ocorreu para os alunos já graduados – aqueles provindos de países onde a corrupção é maior tenderam a ser mais honestos que seus compatriotas que ainda não saíram da faculdade e que passaram a mesma quantidade de tempo no Reino Unido. Barr e Serra veem essas pessoas como não-conformadas que pode um dia lutar contra a corrupção quando voltarem para seus países. “Pensamos que eles são como agentes de mudanças,” diz Serra.

O problema é identificar essas pessoas. E a marca registrada da “incorrupção” ainda permanece ambiguo. Tudo que Serra e Barr podem dizer é que seus alunos de graduação são um grupo seleto de pessoas que resolveram tirar seus PhDs em outro lugar, fazendo-os uma amostra incomum. Similarmente, Bendahan não encontrou nenhuma característica que proteja consistentemente as pessoas da influencia corruptiva do poder, mesmo que 300 estudantes já tenham passado por seus experimentos. Um indivíduo inicialmente honesto, por exemplo, não é imune. Nem aqueles que tem uma visão de mundo altruísta ou um forte desejo do reconhecimento da contribuição de outras pessoas estão imunes. A única pista vem da pesquisa de Ariely. Ela encontrou que quanto mais criativa a pessoa, maior a tendencia de trapacear (será que tem envolvimento com o QI?). “Ser muito desonesto é como ser desonesto enquanto diz a si mesmo uma história do por que fazer isso não tem problema,” ela diz, e as pessoas mais criativas poder fazer melhor que isso.

Um modo mais promissor de reduzir os níveis de corrupção pode ser o fortalecimento de dissuadores. Kurzban acredita que a única razão pela qual uma pessoa não considera trapacear algo válido é devido ao modo pelo qual as outras pessoas geram espectativas dela. A punição certamente funciona em experimentos de laboratório. Quando as pessoas jogam jogos cooperativos por uma recompensa possuem uma resistencia muito maior à trapaça se sabem que os outros jogadores podem punir um jogador por ganhar às custas do grupo. Na vida real, a punição inflingida por uma trapaça tende a sofrer desaprovação social, variando do ostracismo até o encarceiramento. Recentemente, por exemplo, cinco políticos britânicos foram presos por custear suas despesas indevidamente com o dinheiro do governo.

Há evidências de que a mobilização social pode reduzir a corrupção. Na Indonesia, Olken testou o impacto de várias medidas anticorrupção nas fraudes em projetos de estradas. O método mais efetivo foi aumentar o número de audições, embora quase nunca tenha ido muito longe. “Somente enviar uma carta dizendo a agencia de audição pública (o Ministério Publico ou o Tribunal de Contas da União, no Brasil) olhará o projeto reduz o desvio de gastos em quase 1/3”, ele diz. Medidas tomadas por movimentos populares são menos efetivas. Olken encontrou que mater reuniões de contabilidade nos quais os responsáveis explicam às pessoas locais como foi gasto seus impostos faz pouca diferença. Porém, experimentos em laboratório comandados por Serra sugerem que reclamações anônimas podem reduzir a corrupção desde que um número determinado dessas reclamações for atingido, iniciando investigações oficiais.

Finalmente, voltando ao ponto em que pessoas com maior poder são aquelas as quais nós devemos nos preocupar mais. Bendahan diz que o poder pode surgir com um maior balanceamento social. Pessoas que procuram poder devem esperar restrições daquele poder na forma de controle democrático, ele diz. Ariely concorda, porém adiciona que aqueles que se localizam no topo deve primeiro reconhecer sua corruptibilidade, o que muitas vezes falham em reconhecer – como ilustrado no famosa frase de Nixon “Não sou um desviado” (“I am not a crook”).

Aparentemente a primeira lição que devemos aprender do fértil campo da corrupção é que ninguém é imune.


Altruísmo, ratos ateus e o silogismo religioso

Um estudo interessantíssimo saiu na revista Science, intitulado “Empatia e Comportamento Pró-Social em Ratos“, chamou bastante a minha atenção (e de outros meio de comunicação). Para alguém que trabalha com etologia, o título até chama a atenção, mas chama mais a atenção por ser um estudo sobre comportamento de mamíferos não primatas numa revista de alto impacto (o que, convenhamos, é relativamente raro hoje em dia).

Os autores elegantemente formularam um experimento relativamente simples, curto e incisivo (bem ao estilo da Lâmina de Ocam) sobre (em linhas gerais) a empatia entre ratos.

Até o momento pensamos que todo o tipo de comportamento (até em humanos) seria efetuado na expectativa de uma recompensa. E por mais que alguém fale: “Seres humanos são altruístas, muitas vezes fazemos o bem em troca de nada!“, o caminho é mais complicado. Por mais que nos esforcemos para fazer o bem ao próximo sem requerer qualquer recompensa para isso (como dinheiro ou status), temos de pensar antes que nós já criamos a nossa própria recompensa. E ela se chama dopamina, e é liberada em centros de prazer do encéfalo, especialmente o núcleo acumbente (uma estrutura clássica para o estudo de drogas de abuso e recompensas) (Wise, 2008).

E é essa a resposta final do tal “altruísmo”: nos sentimos bem em ajudar o próximo sem recompensa em troca, mas esse “sentir bem” já é a dopamina agindo no núcleo acumbente, logo, ninguém é altruísta. Tudo o que buscamos no final das contas é um pouco de dopamina no núcleo acumbente para que reforcemos um determinado comportamento (ex: altruísmo). Se soubéssemos isso antes da época de Jesus e Maomé, com certeza os textos religiosos de hoje teriam outra ênfase (falaciosa).

Mais além de Pavlov

E o artigo em questão vai mais profundamente nesse aspecto do “recompensa pelo prazer”.

Ratos foram alojados em pares 2 semanas antes do início dos testes. E então um dos animais foi contido dentro de um cilindro de acrílico transparente cuja porta poderia ser aberta facilmente somente pelo parceiro livre. E, sem novidades, o rato livre consegue libertar seu companheiro do cilindro. Porém, à medida que o teste se repete, o rato livre liberta o companheiro num período de tempo cada vez mais curto, evidenciando aprendizado. Até o momento poderíamos supor que há o efeito “dopamina” acima descrito, pois a presença do companheiro nas atividades sociais dos ratos (limpeza de pelos mutua, brincadeiras, etc), poderia ser um reforçador para que o rato livre libertasse seu companheiro.

Um rato “altruísta” aprende a abrir a porta do contentor

Porém os autores testaram o valor da recompensa em libertar o companheiro, isso é, quão importante é o valor físico e psicológico do companheiro. E os pesquisadores deram 2 opções ao rato livre: Cilindro fechado contendo 5 pedaços de chocolate (que são extremamente pataláveis aos ratos) e outro cilindro fechado com o companheiro (experimento chocolate-parceiro). Como controle, num outro experimento com outros ratos, um dos contentores estava vazio enquanto o outro tinha chocolate (experimento chocolate-vazio).

No experimento chocolate-parceiro não houve diferença no tempo de abertura da porta para os dois contentores, enquanto no experimento chocolate-vazio o rato abriu o contentor com chocolate num tempo muito menor que para o contentor vazio. Isso significa que libertar o companheiro preso tem um valor igual ao de comer algo extremamente recompensandor (chocolate). Aqui vale lembrar que dependendo da “intensidade” do sabor doce, o sabor doce em si pode ter um efeito recompensador tão grande quanto à da cocaína (Lenoir e cols., 2007). Logo, pode-se supor que a libertação do companheiro (o altruísmo) tem um efeito recompensador no final das contas, mesmo que seja em nível molecular.

Além disso, o mais intrigante é que após libertar o companheiro, 52% dos libertadores dividiram o chocolate com o companheiro nos primeiros dias de teste, com essa porcentagem passando para 61% nos dias 6 a 12.

No vídeo da esquerda, temos o contentor com um pedaço de algodão, no vídeo central um contentor vazio, e à direita o contentor com o parceiro preso. Repare na movimentação do rato livre em torno do contentor e do centro da arena para encontrar um meio de libertar o parceiro, o que não ocorre nos outros testes.

Isso significa um potencial “altruísmo” evolutivo em animais. Como a própria autora escreve na discussão

Nosso estudo mostra que os ratos se comportam pró-socialmente quando percebem um estresse de restrição psicológico não-doloroso que é experimentado por um coespecífico, agindo de modo a terminar esse estresse por meio de ações deliberativas. (…) Além disso, esse comportamento ocorreu na ausencia de treinamento ou recompensa social, e até mesmo quando em competição com um alimenta altamente palatável.

Comportamentos similares foram observados em símios, e a grande diferença aqui é que os ratos podem ser utilizado em larga escala em estudos em laboratório para investigar as estruturas que modulam a empatia e o altruísmo. E isso vai mais além de uma simples “dopamina no acumbente”.

Altruísmo tem manual de instruções?

E aqui vai um pensamento mais aprofundado sobre o assunto. Ratos em si são seres sociais, cooperativos e interativos, porém não possuem religião nem um Deus para o qual devem prestar contas. E isso vai contra argumento de teístas no qual a religião se desenvolveu como um meio cooperativo e altruístico entre as pessoas. Para os teístas, a religião seria uma adaptação evolutiva, pois cria ou potencializa a empatia e a pró-socialidade.

Porém esses mesmos teístas ignoram o fato que a empatia, a cooperação e o altruísmo são inatos na natureza. Esse tipo de comportamento é aparentemente muito mais antigo do que se imaginava, retomando períodos antes dos mamíferos e pássaros (1,2,3). Portanto, a religião não é a causa para o aparecimento desse tipo de comportamento em humanos.

E curiosamente esses experimentos podem rebater 2 afirmações comumente utilizadas por religiosos para apoiar que a religião é necessario para uma “harmonia social”

1) A religião faz com que as pessoas fiquem mais sociáveis e cooperativas entre si, proporcionando um melhor relacionamento social entre os indivíduos. Se a religião não tivesse esse propósito (seja direto ou indireto) na sociedade, não teríamos motivo para que as pessoas acreditassem nela.

Isso é uma falacia, pois uma “religião moral e ética” surgiu mais recentemente, ligando as crenças sobrenaturais a comportamentos “socialmente corretos”. Religiões mais antigas que as ditas “modernas” (cristianismo, islamismo, etc) surgiram provavelmente no período paleolítico, muitas vezes envolvendo o shamanismo e como meio de explicação de eventos “sobrenaturais” (ex: raios, nascimento do Sol, etc), mas não havia uma regra de condutas sociais a serem seguidas para se atingir o “paraíso” ou hipóteses para manter a sociedade estável, tanto porque naquela época não havia algo como uma “sociedade” ou o pensamento do “pós-morte” (Rossano). E mesmo assim, uma sociedade mais religiosa não significa uma sociedade mais estável, como postei anteriormente.

2) A religião traz maior coesão entre os grupos humanos, dando-lhes uma vantagem competitiva sobre outros grupos (não religiosos ou de outras religiões com regras de condutas sociais diferentes), formando grupos maiores que eliminariam grupos menores e menos organizados.

Isso pode ser verdade para as religiões atuais (cristianismo, islamismo, espiritismo, etc), porém não existe qualquer evidencia de uma aumento na quantidade de grupos de humanos devido a uma religião específica em tempos posteriores ao neolítico. O aumento no número de conglomerados humanos ocorreu a partir do momento em que os humanos deixaram de ser caçadores-coletores para serem domesticadores de animais e plantas. Com a formação de conglomerados humanos, também houve desenvolvimento e especialização das religiões em si, as quais provavelmente absorveram as condutas sociais locais em seus dogmas (Rossano, 2010).

Não posso negar o papel fundamental da religião em unir pessoas no mundo atual. Aliás, não nego nem a sua força em sincronizar determinados comportamentos num grande grupo de pessoas. Para mim isso é fenomenal. Mas não podemos omitir que alguns comportamentos são inatos não somente nos seres humanos, mas em outros seres mais primitivos. E se o altruísmo e a empatia possuem raízes mais antigas que imaginávamos, sua manutenção ao longo da evolução nos diz que possui uma vantagem maior sobre aqueles que não as tem. E foi exatamente isso que os antigos escritores de livros religiosos devem ter percebido (mesmo que indiretamente). Afinal de contas, Maomé, o apóstolo Pedro e Moisés eram, querendo ou não, observadores perspicazes.

A neurobiologia do amor materno

Uma tática comum utilizada por cristãos, espíritas e/ou “misticistas” é que se um comportamento complexo não pode ser mensurado, o método científico deve ser necessariamente falho no entendimento desse comportamento. Já tive várias conversas com pessoas sobre o estudo do comportamento, da localização de certos neurotransmissores (por exemplo: serotonina) que influenciam desde o estado de humor da pessoa (depressão) até na medida de personalidade (impaciência). É engraçado como algumas pessoas colocam explicações como o “espírito que reencarnou”, a “energia que não flui” ou “os problemas que você teve na sua fase oral” para o comportamento humano. Tenho certeza que nem Mendell essas pessoas se lembraram (ou não querem saber quem é ou o que fez), preferindo acreditar numa “maldição de família”.

Pois bem, e é nessas conversas que surge um argumento comumente utilizado de “se você acha que a biologia é uma boa explicação do comportamento, então prove que sua mãe o ama.”

Podemos, então, encaminhar esse desafio do amor materno, demonstrando uma explicação científica plausível através da medida de um hormônio tão importante quanto esse “amor materno”.

Se você acha que a biologia é uma boa explicação do comportamento, então prove que sua mãe o ama.

Rosenblat (1967) mostrou que ratas virgens expostas a filhotes recém-nascidos são indiferentes ou aversivas a eles, ignorando-os ou atacando-os quando lhes são apresentados. Porém esse comportamento diminui gradualmente à medida que a exposição dos filhotes se torna repetitiva. Uma primeira sugestão da explicação desse tipo de comportamento surgiu com Pedersen & Prange (1979), os quais injetaram ocitocina (OT) nos ventrículos cerebrais em ratas virgens, produzindo comportamentos maternos após 2 horas da injeção. Apoiando ainda mais esse estudo, van Leengoed e colaboradores (1987) e Fahrbach e colaboradores (1985) mostraram que o bloqueio de receptores para a OT ou a inativação da própria OT bloqueia o início do comportamento materno em ratas que acabaram de dar à luz.

Apesar de estudos de nocaute do gene (isso é, remoção do gene em ratos transgênicos) da OT serem controversos, estudos mais recentes mostraram que a remoção do gene que produz a OT diminui os níveis de cuidado de filhotes (como amamentação e limpeza) , ocorrendo o mesmo se houver nocaute do receptor de OT. Além disso, há relatos de comportamentos infanticidas por ratas mães na ausência do gene da OT. E o comportamento materno pode ser restaurado em ratas nocautes para a OT através da infusão subcutânea da própria OT.

Em outras palavras, para todos os mamíferos existem evidências de que altos níveis de OT se traduz em sentimento de ligação sentimental com a cria. Estudos anteriores sobre a OT têm mostrado que o hormônio também está envolvido na ligação afetiva de casais e no comportamento cooperativo. Por exemplo, arganazes do campo (Microtus ochrogaster, um roedor arborícola) possuem ninhos comunais. Algumas fêmeas adultas exercem o comportamento materno em filhotes que não são seus, desenvolvendo um comportamento denominado de aloparental. Grande parte dos arganazes do campo jovens (<20 dias de idade) mostram altos níveis de comportamento aloparental quando expostos a filhotes. Porém, quando chegam à puberdade, quase 50% das fêmeas irá espontaneamente cuidar de filhotes apresentados a elas, enquanto as 50% restantes irá ou ignorar ou atacar esses filhotes (Bales & Carter, 2003; Lonstein & DeVrie, 1999), sendo que esse comportamento aparentemente não está envolvido com alterações de hormônios sexuais (gonadais). Logo, há evidências que a OT possa ter uma função importante, ao menos nessa espécie. Fêmeas adultas de arganazes do campo, as quais tendem a cuidar de filhotes alheios da especie, possuem maior densidade de receptores para a OT (OTR) em determinadas áreas encefálicas que arganzes que ignoram ou atacam os filhotes (arganazes da montanha) (figura 1). Consequentemente, a administração de antagonistas de OTRs nessas áreas bloqueia a expressão do comportamento materno em fêmeas adultas (fig. 1C). Conclui-se, portanto, que diferenças na densidade de OTR em áreas encefálicas (aqui no caso o núcleo acumbente) pode contribuir diretamente para as diferenças individuais do comportamento materno e de interação com o parceiro sexual.

Porém alguém deve pensar: “Mas roedores em geral possuem comportamento materno promíscuo, logo, irão cuidar de qualquer filhote que se encontre no ninho”. Então, alguns experimentos foram feitos com ovelhas, já que essas conseguem discriminar entre seu cordeiro e o cordeiro de outra mãe. Logo, ovelhas possuem mecanismos seletivos para a produção de ligações afetivas específicas entre mãe e filho.

Ovelhas não são promíscuas

A ligação afetiva entre a ovelha e o cordeiro se dá provavelmente através de memória olfatória. Uma vez que o odor é aprendido, a mãe rejeita outros cordeiros para a amamentação. A estimulação vaginocervical da ovelha é um potente liberador de OT, tão forte que é capaz de promover a adoção de um cordeiro estranho em ovelhas que sofreram esse tipo de estimulação. Corroborando esses dados, a administração intracerebroventricular de OT pode induzir comportamento materno completo (em menos de 1 minuto) em ovelhas não grávidas.

Supõe-se que a OT facilita a formação de memórias olfatórias através da modulação de neurotransmissores. Após dada a luz, há um fortalecimento das sinapses responsáveis pela captação do odor do cordeiro, tornando várias dessas células responsíveis ao seu odor (Kendrik e cols., 1997; Levy e cols., 1995; Kendrick & Keverne, 1992). Como conseqüência desse aprendizado olfatório, ovelhas aceitam seu próprio cordeiro.

Em humanos

Publicado no jornal Psicological Science, Ruth Feldman e colaboradores, do Centro de Pesquisas do Encéfalo de Gonda, Universidade de Bar-Ilan, Israel, encontraram evidências de que os níveis neuroendócrinos da OT é um potente fator de predição da ligação afetiva entre mãe e filho. Através de simples análises da OT sangüínea de 62 mulheres grávidas (de todos os níveis educacionais e sociais), os pesquisadores encontraram que os níveis de OT diferem substancialmente entre as mulheres (mas seus níveis são altos durante a gravidez). Através da observação da interação da mãe com seus filhos por meio de vídeo-câmera (o que incluia a análise da quantidade de interações faciais, quantidade de toques afetivos, balanço do bebê e quantas vezes falavam com a criança), os pesquisadores mostraram que o nível de OT era o fator mais preditivo da interação mãe-filho.

Os autores relataram no estudo:

“(…) os níveis de ocitocina durante o início da gravidez e o período pós-parto estão relacionados a um grupo bem definido de comportamento maternos afetivos, incluindo observação [do bebê], vocalizações, [relato de] sentimentos positivos e toques afetivos; pensamentos relacionados à ligação [afetiva]; e a verificações constantes da criança. Ao longo da gravidez e do período pós-parto, a ocitocina pode ter um papel na emergência de comportamentos e representações mentais típicas de ligações afetivas na mãe humana.”

Por que alguns indivíduos possuem altos níveis de OT e outros não já é outra pergunta. Pesquisas (1,2) mostram que filhas que cresceram em ambiente seguro, confortável e com altos índices de investimento maternal demonstram o mesmo comportamento maternalista com sua prole. Parece que um ambiente seguro e confortável (com apoio econômico e social provindos da mãe) aumenta os níveis de OT materna, podendo, então, aumentar a intensidade da afetividade mãe-filho.

Mãe somali e e seu filho

Porém, é importante lembrar que não há um comportamento materno “ideal” em todos os ambientes. Mães humanas respondem ao seu redor do mesmo modo que outras espécies fazem. Se você é uma rata que vive num ambiente desértico ou uma mulher numa favela, num ambiente é particularmente aversivo, será mais adaptativo às mães demonstrar menos afeto materno e, então, criar um filho que será preparado para uma vida difícil. Porém mesmo que esses resultados estejam altamente correlacionados, há um pouco mais além da química. Não podemos subestimar a influência das decisões pessoais ou as culturais no comportamento materno.

Por exemplo, macacas rhesus que cresceram em contato com humanos possuem níveis mais baixos de OT que aquelas criadas com suas próprias mães. E mulheres que experimentaram abusos infantis ou foram negligenciadas durante a infância possuem níveis significativamente mais baixos de OT.

Conclusão

Claro que deixamos alguns pontos em aberto, mas fica aqui a percepção de que o comportamento materno é algo tão natural quanto a ocitocina no seu núcleo acumbente. Aliás, esse tipo de comportamento é algo detectável, observável, mensurável e molecularmente quantificável. Do mesmo modo que a serotonina hoje é considerada uma das principais causas de depressão, poderemos utilizar futuramente a própria ocitocina para evitar casos típicos como a rejeição do bebê por mulheres com depressão pós-parto. Fica o recado para (sempre) termos a mente aberta, seja corrigindo ou não os erros de português desse artigo.

Aliás, posso ser acusado de fatalismo ao extremo. Mas a figura abaixo serve de explicação para muitos dos problemas da humanidade (inclusive sua burrice intrínseca)

Tecnicamente nossos próprios deuses