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Por que acreditamos em elétrons, e não em fadas?

Ninguém até hoje conseguiu observar diretamente elétrons ou fadas. Ambos são construtos teóricos, úteis para explicar observações que podem ser difíceis de serem explicados de outro modo. A “teoria das fadas” pode explicar mais coisas que a “teoria dos eletrons”. Então por que acreditamos em elétrons, mas não em fadas?

Isso é um assunto político? Fãs dos “elétrons” conseguiram maioria de voto no século XIX, então os fãs de “fadas” foram perseguidos e desacreditados no século XX, ou provamos realmente que as fadas não existem?

Não, para ambos. A real diferença é que para os elétrons acumulamos uma coleção de regras pequenas e específicas sobre como se comportam sob certas circunstâncias. Essas regras nos permitem fazer previsões muito específicas sobre o comportamento do elétron, e sobre o resultado dessas observações. Se essas predições não são verdadeiras sabemos que não ajustamos corretamente as circustâncias ou há algo errado com as regras. Mas por muitas décadas consertamos repetidamente os problemas encontrados nas regras, logo podemos fazer predicões realmente boas sobre os elétrons, especialmente em certas circunstâncias altamente complexas (ex: circuitos).

Fadas são muito mais arbitrárias. Uma fada sabe o que tem de ser feito. Não pudemos encontrar nenhuma regra útil para predizer como uma fada irá se comportar em determinadas circunstâncias, ou até mesmo nos informar quando uma fada estará envolvida numa observação em particular (ao menos não conheço nenhuma dessas regras. Por muitas, muitas décadas não foi possível, aos humanos, testar um conjunto razoável de regras de previsões de fadas, ou encontrar onde estão os erros dessas regras e substitui-los por um conjunto melhor de regras.

É possível que as fadas realmente existam. Mas a teoria dos elétrons possuem um sucesso infinitamente maior devido às suas previsões testáveis. Como não se pode fazer previsões testáveis sobre a teoria das fadas, não se obteve o mesmo processo de melhora e correção da teoria dos elétrons. Logo, temos lâmpadas e microprocessadores e a internet, tudo baseado nos elétrons, e nenhum processador baseado nas fadas.

O método científico é um processo incrível para melhorar e ajustar certos tipos de teorias: aquelas em que há previsões testáveis. Uma teoria que não se pode fazer previsões testáveis pode ainda ser verdadeira, mas não participa do método científico (há pessoas que acreditam que somente verdades são verdades científicas, mas isso é essencialmente uma fé religiosa individual).

A teoria da evolução é uma teoria científica, pois implica num amplo número de afirmações específicas testáveis. As regras específicas que levam às previsões testáveis têm sido testadas, modificadas e refindas por muitas décadas (quase do mesmo modo que a teoria dos elétrons). Versões mais simples das regras para a evolução têm sido testadas e refutadas desde muito tempo, e substituídas por outras regras melhores e mais específicas, assim como para os elétrons. Temos tanta confiança na teoria da evolução como se estivéssemos falando da teoria dos elétrons.

A teoria do design inteligente pode ser verdadeira. O mundo biológico é algo maravilhoso, com uma complexidade verdadeiramente incrível. A teoria da evolução admite certa aleatoriedade na geração de mutações. Se o Designer da teoria do design inteligente pode influenciar esses processos aleatórios, então talvez ambas teorias podem ser verdadeiras simultaneamente. Mas a teoria do design inteligente não possui previsões testáveis, assim como a teoria das fadas. O Designer faz aquilo que Ele faz por Ele decide fazer, não porque Ele está sujeito a regras (ver Matheus 4:5-7).

O método científico é o conjunto do enorme intelecto da raça humana. Todos os cidadãos devem entender o que ele pode ou não fazer, e todas as crianças devem aprender a gostar e admirá-lo. É importante para elas entender porque a teoria dos elétrons é uma teoria científica, enquanto a teoria das fadas não. Do mesmo modo, é claro, entre a teoria da evolução e do design inteligente.

No debate entre a evolução e o design inteligente acredito que nós, cientistas, estamos perdendo uma oportunidade importante para educar as pessoas sobre a diferença entre a “verdade”e a “verdade científica”. Há um papel claramente importante da sociedade para a fé em relação a verdades que não são cientificamente testáveis. Mas nós e nossas crianças precisamos entender e respeitar essa diferença.

Ateísmo é religião também!

Enquanto alguém de um lado dessa controvérsia vem de uma educação religiosa fundamentalista, há cientistas do outro lado que perseguem uma crença essencialmente religiosa de que “não há Designer.” A Lâmina de Occam é uma ferramenta útil para os conselhos práticos sobre a preferência por teorias mais simples, mas não contém nada mais empírico que o Credo dos Apóstolos.

Um defensor do Design Inteligente forneceu as seguintes frases provindas de biólogos especialistas em evolução:

  • “O homem é resultado de processos naturais e sem propósito, cujos processos não o levam em consideração” (George Gaylor Simpson, The Meaning of Evolution);
  • “Se a humanidade evoluiu pela seleção natural de Darwin, a aleatoriedade genética e a necessidade ambiental, não Deus, criam as espécies” (Edwar O. Wilson, On Human Nature);
  • “Através do pareamente sem orientação, das variações cegas e sem objetivo, dos processos indiferentes de seleção natural, Darwin fez das explicações teológicas e espirituais da vida processos supérfluos (Douglas Futuyma, Evolutionary Biology).

Essas não são conclusões científicas. Essas são afirmações de crenças pessoais sinceras feitas pelos autores, os quais duvidam fortemente que suas crenças sejam consistentes com suas experiências como cientistas. Mas são necessariamente locuções de fé, e estão àparte no texto.

Por outro lado, os cientistas em geral são muito cuidadosos em evitar criar afirmações religosas (incluindo-se ateísta) no contexto científico. Os livros de Simpson e Wilson são amostras de opiniões, não livros-textos, logo, a expressão da fé pessoal são apropriadas. O livro de Futuyma é uma referência em sua área, mas a citação acima não aparece na edição corrente (terceira edição).

Há um amplo consenso que os livros-texto de biologia evolutiva argumentem contra o cristianismo ou contra a própria religião em geral. Porém há refutações claras.

Ensinando uma melhor ciência

Em nossa sociedade pluralística algumas pessoas acreditam em Deus ou na ausência de qualquer Deus (ambas posições baseadas na fé), enquanto algumas pessoas não sabem e não se importam. Em nossa sociedade pluralística é importante ensinar a ciência sem impôr nossas próprias crenças religiosas, incluindo a crença na ausência de Deus.

A educação científica é sobre o ensino do método científico e do pouco do conhecimento que a raça humana tem adquirido através da aplicação do método científico. Seria útil numa aula de ciências ensinar a distinção entre teorias que são científicas devido às suas previsões testáveis, e outras teorias que podem ser verdade, mas não são científicas porque não são. A comparação das fadas com os elétrons, ou a comparação da evolução com o design inteligente, deve ser uma boa oportunidade para ensinar uma melhor ciência.

 

Fonte: http://www.eecs.umich.edu/~kuipers/opinions/electrons-vs-fairies.htm

Por que as mulheres têm orgasmos?

Décadas de pesquisa não conseguiram responder à questão do por que da existência do orgasmo feminino – e dois estudos antagônicos recentes sobre o assunto não mudaram em nada esse quadro. O mais interessante é que ambos se focam numa teoria que com certeza deixa muitas mulheres raivosas: que a habilidade de atingir o clímax é um mero subproduto do orgasmo masculino, o qual possui claros objetivos evolucionário (NT: sou veemente e inquestionavelmente contra essa teoria). Podemos não ter provas atualmente, mas é melhor tentarmos explorar suas potenciais explicações culturais.

A explicação mais óbvia para o grande “O” feminino é que motiva as mulheres a procurarem por mais sexo, resultando em maior prole (ou, em termos mais populares, maior “sucesso reprodutivo”). Outra teoria intuitiva é que serve para fixar sentimentos de amor e intimidade, tendo maior apoio paterno durante o investimento na criança. Então, não menos importante, a teoria do… bem… a teoria do “sugamento” – a teoria em que as contrações uterinas durante o orgasmo auxiliariam os espermatozóides a subirem pelo colo até o útero. Outra teoria é que aumentaria a fertilidade, pois uma redução de 30% no tamanho da vagina pelos músculos pubo-coccígeos durante o orgasmo poderia ajudar a estimular muito mais o pênis, assegurando uma ejaculação mais rápida e volumosa.

Pensemos agora na polêmica “explicação dos mamilos masculinos”, como é denominada, na qual mulheres possuem os tecidos e as vias nervosas necessárias para o orgasmo simplesmente porque dividem uma origem embriológica comum com os homens, cujos orgasmos servem para objetivos evolutivos claros. Em outras palavras, mulheres possuem orgasmos pela mesma razão que homens possuem mamilos. Face a isso, o subproduto dessa teoria aparenta ser mais focada nos homens e ser talvez até anti-feminista. Ela cai como uma luva na noção freudiana da inveja feminina do pênis: Homens possuem membros proeminentes e facilmente manipuláveis enquanto as mulheres estão presas com seu imitador nanico, o clitóris (NT: sou veemente e inquestionavelmente contra essa teoria).

Mas como Elisabeth Loyd, uma filósofa da biologia, discutiu em seu livro de 2005 “The Case of the Female Orgasm: Bias in the Science of Evolution”, “O problema real com essa visão é admiti-lo como se fosse de extrema importância. A sexualidade feminina, e em particular o orgasmo feminino, deve necessariamente possuir um fundo em comum durante a seleção natural em fêmeas. Mas não há qualquer motivo para pensar que somente os traços selecionados diretamente são ‘importantes.’” Ela aponta exemplos de traços importantes que não são selecionados diretamente: “habilidade musicais finas, habilidade de desenhar foguetes e até mesmo a habilidade de ler.”

Por outro lado também é possível que a visão de um subproduto pode apoiar as feministas contra a medicalização do prazer feminino. “Se o orgasmo feminino é visto como algo que não possui função evolucionária em particular, mas uma ‘amostra grátis evolutiva’, então muitos dos diagnósticos das ‘Disfunções do Orgasmo Feminino’ podem estar fora de questão, logo qualquer mulher em qualquer lado do espectro do desempenho do orgasmo poderia ser considerada como normal,” escreve Lloyd num artigo ainda não publicado. Ela argumenta que essa visão, a qual se refere à teoria do “bônus fantástico”, possui a vantagem de selecionar “todas as mulheres como igualmente ‘normais’ em suas respostas ao orgasmo a um intercurso heterossexual. Espera-se, então, nenhum grupo de respostas ‘adaptativas’ particulares ao intercurso, logo, nenhum tipo de privilégio.” Isso é, “mulheres que não têm qualquer tipo de orgasmo são tão normais quanto mulheres que possuem orgasmos durante intercursos.”

Isso é uma bomba para as maquinações das indústrias farmacêuticas sobre um potencial “viagra feminino.’’ Tocando nesse assunto, Leonore Tiefer criou a New View Campaign para “desafiar as mensagens distorcidas e generalistas sobre a sexualidade que a indústria farmacêutica se baseia.” Ela me escreveu num e-mail  que o orgasmo é uma “coisa boa,” porém “não dura muito, e não é uma coisa fácil de se obter, então penso ser algo superestimado.” Tiefer, uma professora de psiquiatria na Universidade de Nova Iorque, citou o jornalista Malcolm Muggeridge: “O orgasmo substituiu a cruz como o foco do saudosismo e do preenchimento humano.” Nessa linha, diz ele, “resume a mim a importância simbólica do orgasmo na vida contemporânea.” Assim como para as incertezas que rondam isso, ela diz: “é misterioso, penso, pois seu valor simbólico é tão alto (pois ‘prova’ ao parceiro e para si mesma que alguém está satisfeita, é sexy, uma fêmea completa), e já a essência material é complicada.”

Carol Queen, uma sexóloga lendária em Good Vibrations, não está convencida que o clímax feminino é uma criatura inerentemente enigmática. “A idéia de que o orgasmo feminino é misterioso é meramente cultural, e tem-se desenvolvido em culturas que rejeitam ativamente dar à sua juventude boas informações sobre a maquinaria sexual, especialmente sobre a estimulação e o prazer, sendo formadas de subculturas e comunidades que encorajam ativamente o medo ao sexo, a vergonha, questões sobre a imagem corporal, confusão sobre o que o sexo realmente ‘significa’, e outras respostas que distanciam as pessoas da possibilidade e do prazer sexual,” diz ela. “A idéia de que as mulheres têm dificuldades para atingir o prazer, ou que os cientistas não podem imaginar o por que da importância do prazer é somente a ponta do iceberg.

Por último, é claro, as consequências culturais e as análises femininas da teoria do subproduto não dizem nada para melhorar seus méritos científicos. Como Lloyd diz, “não sou uma crente da imposição de normas sociais a partir de achados biológicos, sejam adaptativos ou não.” A importância cultural do orgasmo feminino não deve ser determinada por suas origens evolutivas. Tão menos nossas vidas sexuais devam ser desconectadas da procriação. E não nos esqueçamos uma coisa que os anticoncepcionais nos ensinaram: separar prazer da reprodução pode ser tremendamente estimulante – e divertido.

Tracy Clark-Flory é escritora da Revista Salon.

Adaptações de: http://www.salon.com/life/sex/?story=/mwt/feature/2011/09/10/orgasm

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