Arquivo da categoria: homeopatia

Sim, podemos provar qualquer coisa com a Ciencia

 Traduzido (com adaptações) de: Ben Goldacre em Bad Science

Eis o caso onde o Fundo Nacional para a Ciencia pode não somente nos dar as respostas para a cobrança dos 84 mil dólares em impostos, mas  mesmo que nos derem uma resposta, não gostaríamos de ouvi-la

Senador William Proxmire (National Science Foundation, 1975, p. 73

Seletivamente admitimos uma nova evidencia… se ela confirmar nossas crenças prévias… Mas se encontramos evidencias que são contraditórias às nossas pré-concepções, tendemos a aumentar a resistencia.

—Gordon Allport (1954, p. 22)

O que as pessoas fazem quando são confrontadas com evidências científicas que desafiam seus pontos de vista preexistentes? Muitas vezes irão ignorá-las, intimidá-las, chantageá-las, processá-las por difamação ou simplesme as considerarem.

Um clássico artigo numa das últimas tentativas desse tipo foi de Lord, em 1979. Ele pegou dois grupos de pessoas, um favorecendo a pena de morte e outro contra. Então o autor apresentou a cada um uma evidencia científica que apoiava seu ponto de vista preexistente e outra evidencia científica que a desafiava. Por exemplo, as taxas de assassinato aumentavam, ou diminuiam, após a abolição da pena capital num determinado estado, ou havia a comparação entre estados vizinhos. E os resultados foram como os supostos. Cada grupo encontrou erros metodológicos extensos nas evidências das quais não concordavam, mas ignoraram os mesmos erros nos artigos que reforçavam seus pontos de vista preexistentes.

Algumas pessoas iam mais longe. Quando apresentadas a um dado que ia contra as suas ideias, decidiam que a ciencia em si é falha. Os políticos explicariam veementemente que o método científico simplesmente não pode ser utilizado para determinar as consequências da política de drogas. Os terapeutas alternativos explicarão que sua pílula funciona, entre todas as outras pílulas. Os espíritas irão argumentar que a ciencia não pode explicar eventos que não se encaixam no método científico e que não há como estudar qualitativamente uma mediunidade. E, finalmente, todos argumentam que não podemos saber se algo é verdadeiro ou se funciona utilizando testes.

Até onde essas visões vão e até quando generalizam as coisas? O professor Geoffrey Munro usou centenas de estudantes num estudo sobre “O julgamento da qualidade da informação científica”, publicado no Journal of Applied Social Psychology. Primeiramente foi analisado seus pontos de vista em relação à homossexualidade estar ou não associada a doenças mentais, e então foram divididos em dois grupos.

Ao primeiro grupo foi dado cinco estudos que confirmavam seus pontos de vista preexistentes: Aos estudantes que pensaram que a homossexualidade estava associada a doenças mentais, por exemplo, foi dado artigos mostrando que havia mais gays em tratamento psicológico que a população em geral. Ao segundo grupo foi dado pesquisas que contradiziam seus pontos de vista preexistentes. (Deve ficar claro que após o término do experimento todos os alunos foram informados que os artigos científicos eram falsos, dando-lhes a oportunidade de ler pesquisas reais sobre o tópico).

Então lhes foi perguntado sobre a pesquisa que leram. Além disso foi pedido que classificassem a seguinte frase:

“O foco dos estudos… é algo que não pode ser respondido utilizando-se os métodos científicos.”

Como podemos supor, as pessoas cujos pontos de vista foram desafiados estiveram mais propensos a dizer simplesmente que a ciencia não pode ser utilizada para mensurar se a homossexualidade está associada a problemas mentais.

Mas então os pesquisadores perguntaram mais algumas questões sobre se a ciencia pode ser utilizada para o entendimento de todos os tipos de coisas, todas não relacionadas aos estereótipos da homossexualidade:

“A ciencia pode ser utilizada para determinar os seguintes assuntos?”

  • A presença de clarividencia
  • A efetividade da punição física como técnica disciplinar em crianças
  • Os efeitos de assistir programas violentos sobre o comportamento violento
  • A precisão da astrologia em prever eventos pessoais
  • Os efeitos físicos e mentais dos medicamentos herbais.

Seus pontos de vista sobre cada assunto foram juntados para produzir um grande número de dados sobre o entendimento da ciencia como forma de resposta a essas questões. E os resultados foram arrepiantes. Pessoas cujos estereótipos preexistentes sobre a homossexualidade foram desafiadas pelas evidências científicas apresentadas estavam mais propensas a acreditar que a ciencia não tem nada a oferecer, para qualquer assunto, não somente sobre a homossexualidade.

Aparentemente quando a pessoa é apresentada a uma evidencia científica que não é bem-vinda, numa tentativa desesperada de manter alguma consistencia em seu ponto de vista, prefere concluir que a ciencia em geral é falha. É um achado interessante. Mas não tenho certeza se isso me faz feliz.

Aparentemente quando a pessoa é apresentada a uma evidencia científica que não é bem-vinda, numa tentativa desesperada de manter alguma consistencia em seu ponto de vista, prefere concluir que a ciencia em geral é falha.

Problemas no Pensamento Pseudocientífico

O texto a seguir foi traduzido (com adaptações) do livro “Why people believe in weird things” do Michael Shermer.

Durante minhas postagens aqui no SRUSP, percebi o quão carente a população é em relação à visão daquilo que denominados de “racionalismo” e “ciencia”. O mais interessante é ver quão passional são os comentários contra aquilo que escrevemos. Uns atacam a pessoa que fez o artigo (tentando desqualificá-la), outras atacam somente aquele argumento que interessa a ela (ou o único que consegue debater), ignorando o resto. Outras vão mais além e tentam, de qualquer maneira, convencê-lo de que está errado, enviando mensagens sem qualquer evidencia e sem realizar qualquer pensamento crítico sobre aquilo que ela mesma escreveu. Às vezes é engraçado.

O brasileiro aparentemente acredita naquilo que mais lhe é conveniente e divulgado, ignorando um raciocínio lógico sobre as provas do caso. Uma discussão filosófica e de boatos se torna mais importante que provas cabais que anulam e eliminam certas filosofias e boatos infundados. Espero que o transcrito abaixo sirva para dar uma iluminada, e assim melhores discussões em nossos comentários.

Anedotas não fazem ciencia

Anedotas – histórias contadas para apoiar uma causa – não faz algo virar ciência. Sem evidências que possam apoiar uma causa a partir de outras fontes, ou provas físicas de algum tipo, dez anedotas não são melhores que uma, e centenas de anedotas não são melhores que dez. Anedotas são ditas por contadores de histórias falsas. O fazendeiro Camargo, de Ribeirão Preto, São Paulo, pode ser uma pessoa honesta, crente, um homem de família que não está sujeito a desilusões. Porém precisamos de evidências físicas da nave alienígena ou dos corpos alienígenas, não somente uma história sobre pousos e abduções às 3 da manhã no meio da plantação de cana-de-açúcar. Histórias sobre como o câncer da sua tia Maristela foi curado assistindo um tal bispo na televisão, tomando um homeopático ou por meio de uma cirurgia espiritual não fazem qualquer sentido. O câncer pode ter entrado em remissão por si próprio, o que acontece com alguns cânceres; ou ela pode ter tido um diagnóstico incompleto; ou, ou, ou… O que precisamos são experimentos controlados, não anedotas. Precisamos de 100 indivíduos com câncer, todos diagnosticados e classificados corretamente. Então precisaremos que 25 desses indivíduos assistam o tal bispo, 25 que assistam Zé do Caixão, 25 que assistam noticiários e 25 indivíduos que não assistam nada. Então precisaremos deduzir a taxa média de remissão para esse tipo de câncer, para então analisar os dados para as diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Se houver diferenças significativas, precisamos de confirmação a partir de outros cientistas que fizeram seus próprios experimentos separados do nosso antes que façamos uma conferência para anunciar a cura do câncer.

A linguagem científica não faz ciência

Acatar um sistema de crenças para colocá-lo do meio da ciência utilizando-se da linguagem científica e de jargões, como em “ciencia da criação”, “ciencia energética” ou “ciencia espírita”, não significa nada sem evidências, testes experimentais e corroborações. Como a ciência possui um grande poder místico em nossa sociedade, aqueles que desejam ganhar respeito, mas não possuem evidência, tentam criar um beco-sem-saída em volta das evidências que faltam, tentando fazê-las soar como algo “científico”. Um clássico exemplo sobre a homeopatia : “A diluição e a sucussão cria nano-estruturas polimórficas análogas a hidratos de clatrato, caixas cristalinas que se assemelham a gelo, onde uma pequena molécula gasosa da tintura original é aprisionada para formar o que agora se denomina Nanobolha” (1). Você pode repetir? Não tenho idéia do que isso significa, mas possui componentes de linguagem científica:  “nano-estruturas polimórficas análogas”, “hidratos de clatratos” e “nanobolha”. Essas frases não significam nada, pois não possuem definições precisas e operacionais. Como você mede a quantidade de moléculas gasosas dentro desses clatratos? Qual a meia-vida de um clatrato (com e sem a molécula gasosa)? Como o clatrato se dissocia para liberar o composto? Etc, etc, etc

Argumentos arrojados não tornam uma afirmação verdadeira

Algo é provavelmente pseudocientífico se afirmações extraordinárias são feitas sobre seu poder e sua veracidade, mas se procurarmos as evidencias de suporte, são tão escarças quanto os dentes em uma galinha. L. Ron Hubbard, por exemplo, inicia seu Dianetics: The Modern Science of Mental Health, com o argumento: “A criação da Dianética é um marco para a humanidade comparável à descoberta do fogo, e superior à invenção da roda e do arco” (em Gardner, 1952, p. 263). O guru da energia sexual Wilhelm Reich chamava sua teoria da Orgonomia de “uma revolução na biologia e na psicologia comparável à Revolução Copernicana” (em Gardner, 1952, p. 259). Eu tenho uma pequena pilha de papéis e cartas provindas de autores obscuros com tais menções sensacionalistas (e as denomino de arquivos da “Teorias do Tudo”). Os cientistas algumas vezes cometem esse erro também, como vimos às 13 horas do dia 23 de março de 1989, quando Stanley Pons e Martin Fleischmann conduziram uma conferência para anunciar ao mundo que conseguiram produzir a fusão nuclear a frio. O excelente trabalho de Gary Taubes sobre o debate da fusão a frio, apropriadamente denominado de Bad Science (Má Ciencia) (1993), examinou profundamente as implicações desse incidente. Talvez 50 anos de estudos sobre a física nuclear podem ser consideradas como erradas por meio de um único experimento, mas não são descartadas até que o experimento tenha sido replicado. A moral da história é que quanto mais extraordinária é a afirmação, mais extraordinariamente terá de ser testada a evidência.

Heresia não é igual a coisa errada

Eles riram de Copérnico. Eles riram de Santos Dummont. Dar risada não significa que você está certo. Wilhelm Reich se comparou a Peer Gynt, o inconvencional gênio descompassado com a sociedade, o qual foi mal entendido e ridicularizado como herege até que provou estar certo: “O que quer que você tenha feito para mim ou fará para mim no futuro, se você me glorifica como um gênio ou me interna numa instituição psiquiátrica, se você me adora como seu salvador ou se me enforca como um espião, mais cedo ou mais tarde a necessidade irá forçá-lo a compreender que eu descobri as leis da convivência” (em Gardner, 1952, p. 259). Reimpresso na edição de janeiro/fevereiro de 1996 do the Journal of Historical Review, o cânone da negação do holocausto, há uma famosa citação do filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer, o qual é citado muitas vezes por aqueles que ainda tem dúvidas: “Toda verdade passa por três estágios. A primeira, é ridicularizada. Segunda, ela é violentamente evitada. Terceira, é aceita como auto-evidência.” Porém “toda verdade” não passa por esses estágios. Muitas idéias verdadeiras são aceitas sem ridicularizações ou oposições, violência ou qualquer outra coisa. A teoria de Einstein sobre a relatividade foi amplamente ignorada até 1919 quando evidências experimentais provaram estar certa. A citação de Schopenhauer é somente uma racionalização, um modo elegante daqueles que ridicularizam ou se opõem violentamente o suficiente para dizer: “Viu, eu estou certo.” Nem tanto.

A história está repleta de fábulas de cientistas solitários que trabalham na contramão de seus colegas, desafiando as doutrinas de seu próprio campo de estudo. O trabalho desses cientistas foi provado estar errado, porém não nos lembramos de seus nomes. Para cada Galileu que é apresentado aos instrumentos de tortura por defender uma verdade científica, há milhares (ou dezenas de milhares) desconhecidos cujas “verdades” nunca passaram pela revista de outros cientistas. Não se pode esperar que a comunidade científica teste cada afirmação fantástica que surja, especialmente quando muitas são logicamente inconsistentes. Isso envolve conhecer os cientistas de sua área, a troca informal de dados e idéias com colaboradores, e apresentar formalmente resultados em conferências, artigos, jornais de revisão científica, livros, etc.

Ônus da Prova

Quem quer provar o quê para quem? A pessoa que faz uma afirmação extraordinária possui o ônus de provar aos especialistas e à ampla comunidade que sua crença possui mais validade que qualquer outra crença que alguém já tenha aceito. Você tem de interceder para que sua opinião seja ouvida. Então terá de convocar especialistas de sua área para que a maioria se convença em apoiar sua afirmação sobre aquela afirmação que eles sempre apoiaram. Finalmente, quando você é a maioria, o valor das provas muda para quem é de fora da área e quer desafiá-lo com um afirmação incomum. Os evolucionistas possuíam o ônus da prova por 50 anos após Darwin, mas agora o ônus da prova está com os criacionistas. E são os criacionistas que devem mostrar por que a teoria da evolução está errada e por que o criacionismo está certo, não os evolucionistas que têm de defender a evolução. O ônus da prova está com os homeopatas, pois tem de provar que a homeopatia funciona (e o modo pelo qual funciona), o ônus não está nos cientistas para prová-la verdadeira. O mesmo se vale para o espiritismo. O racional para chegarmos a isso é que uma grande quantidade de evidências prova que a evolução é fato e a homeopatia (1,2) e o espiritismo são falsos. Em outras palavras, já temos evidências suficientes. Você deve convencer os outros da validade da sua evidência. E quando você está fora dessa área de pesquisa, é o preço que se paga, mesmo estando certo ou errado.

Rumores não são a Realidade

Rumores começam com “Li em algum lugar que…” ou “Ouvi de alguém que…”. Antes que o rumor se torne realidade e passe de pessoa para pessoa, os rumores devem ser verdadeiros, mas comumente não são. Porém são ditos para grandes feitos. Há a “história verdadeira” para o maníaco com um gancho prostético que escapou e persegue sua amada pela América. Há a lenda da “loira da estrada”, na qual um motorista dá carona a uma loira que pede carona na estrada, e que ou ela some do carro repentinamente ou provoca um acidente. Pessoas que moram na beira de estradas dizem que essa loira morreu num acidente automobilístico, que estava esperando o noivo que morreu, que foi atropelada por estar desiludida com seu amor, etc. Tais histórias se espalham rapidamente e nunca morrem.

O historiador da ciência da Caltech, Dan Kevles uma vez contou uma história num jantar que eu suspeitava ser apócrifa. Dois estudantes não voltaram de um passeio de esqui em tempo de fazer seus exames finais, pois as atividades do dia anterior se estenderam pela madrugada. Eles disseram ao seu professor que o pneu do carro havia furado, então o professor os deu uma prova substitutiva no dia seguinte. Colocou os estudantes em salas separadas e fez somente duas questões: 1) “Valendo 5 pontos, qual a fórmula química da água?” 2) “Valendo 95 pontos, qual foi o pneu?”. Dois dos convidados do jantar relataram que já ouviram, embora vagamente, essa mesma história. No dia seguinte, repeti a história aos meus estudantes e, antes de chegar à conclusão, três deles falaram subitamente: “Qual pneu?”. Lendas urbanas e rumores persistentes são ubíquos. Eis alguns:

  • Uma mulher acidentalmente matou seu poodle secando-o no microondas
  • Paul McCartney morreu e foi substituído por um sósia
  • O pouso na Lua é falso e foi filmado num estúdio de Hollywood
  • Silvio Santos é careca

O inexplicável não é inexplicável

Muitas pessoas confiam exageradamente para pensar que se elas não podem explicar algo, logo é inexplicável e um mistério verdadeiro da paranormalidade. Um arqueólogo amador declara que como não consegue imaginar como as pirâmides do Egito foram construídas, devem ter sido construídas por alienígenas. Até mesmo aqueles que são (um pouco) mais racionais em, ao menos, pensar que se os especialistas não podem explicar algo, então é inexplicável. Feitos como dobrar colheres, andar no fogo, telepatia ou experiências de quase morte são muitas vezes considerados de natureza paranormal ou mística, pois a maioria das pessoas não pode explicá-los. Quando se expõe o problema a elas, a maioria responde: “Sim, é claro” ou “É óbvio, já que você viu.” Andar no fogo é uma delas. Pessoas especular infinitamente sobre os poderes sobrenaturais sobre a dor e as queimaduras. A explicação mais simples (seguindo-se a Lâmina de Ocam) é a que as partículas finas e macias de carvão na superfície das brasas retém muito pouco calor, e a condutividade do calor provindo desse carvão para o seu pé é muito pobre. Se você ficar longe das brasas, não se queimará (pense num bolo que acabou de sair de um forno em 200º C. O ar, o bolo e a forma estão todos em 200º C, mas somente a forma de metal poderá queimar a sua mão instantaneamente. O ar possui uma capacidade de conduzir calor muito baixa. A capacidade do bolo de conduzir calor é muito maior que a do ar, mas mesmo assim possui baixa condutividade, podemos tocá-lo brevemente sem nos queimar. A forma de metal possui uma capacidade de conter o calor semelhante ao do bolo, mas uma alta condutividade. Se você tocá-lo, mesmo que por pouco tempo, queimar-se-á seriamente. E é por isso que os mágicos não contam seus truques. A maioria de seus truques são, em princípio, relativamente simples (embora muitos sejam de execução extremamente difícil), e conhecer o segredo do truque remove a mágica do truque).

Há muitos mistérios não resolvidos no universo, porém não há problema em admitir: “Ainda não sabemos, mas algum dia, quem sabe, saberemos.” O problema se torna mais confortável quando temos certeza, mesmo que seja prematuro, ao invés de viver com mistérios não resolvidos e inexplicáveis.

Falhas são racionalizáveis

Na ciencia, o valor de achados negativos – falhas – não podem ser superenfatizados. Comumente não se procura a falha, e muitas vezes não se publica. Porém grande parte das vezes as falhas são o modo pelo qual chegamos mais perto da verdade. Cientistas honestos irão admitir prontamente seus erros, mas todos os cientistas são contidos pelo fato de que seus colaboradores irão criticar e ridicularizar o fato. Isso não ocorre com pseudocientistas (casos famosos do espiritismo, por exemplo). Eles ignoram ou racionalizam as falhas, especialmente quando expostos. Se forem pegos no ato falho – o que não ocorre frequentemente – dirão que seus poderes comumente funcionam, mas não sempre. Então quando pressionados a encenar na televisão ou no laboratório, muitas vezes recorrem a trapaças. Se simplesmente falham na encenação, logo possuem uma variedade de explicações criativas: muitos controles em um experimento causam resultados negativos; os poderes não funcionam na presença de céticos; os poderes não funcionam na presença de equipamentos elétricos; os poderes vão e vem; a energia do ambiente não permite, etc. Finalmente afirmam que se os céticos não podem explicar tudo, então deve haver algo paranormal; eles caem na falácia do “o inexplicável não é inexplicável.”

Racionalismo pós-fato

Também conhecido como “post hoc, ergo propter hoc,” literalmente “após isso, logo por causa disso” (ex: o galo canta porque o Sol se levanta. Então o Sol se levanta porque o galo canta). Em seu nível mais basal, é uma forma de superstição. O apostador usa seus sapatos da sorte pois ganhou uma aposta no passado utilizando-os. Mais subjacente, os estudos científicos podem ser presas de falácias. Um estudo de 1993 mostrou que crianças alimentadas no peito possuem QI maiores. Houve muita atenção em qual substância contida no leite materno poderia aumentar a inteligência. Mães que alimentavam seus filhos em mamadeiras se sentiram culpadas. Mas logo os pesquisadores começaram a imaginar se os bebês alimentados no peito foram tratados diferentemente. Talvez as mães que gastaram mais tempo cuidando de seus bebês e com maior vigilância materna era a causa entre as diferenças no QI. Como Hume nos disse, “o fato de que dois eventos dependem um do outro em sequencia não significa que estão conectados causalmente”. Correlação não significa causalidade.

Coincidencia

No mundo paranormal, as coincidências são muitas vezes vistas como profundamente significativas. A “sincronicidade” é então invocada como se alguma força misteriosa estivesse nos bastidores. Mas essa sincronicidade é nada mais que um tipo de contingência – uma conjuntura de dois ou mais eventos sem qualquer planejamento aparente. Quando uma conexão é feita de modo aparentemente impossível, de acordo com nossa intuição e as leis de probabilidade, tendemos a pensar que algo misterioso trabalhou para isso.

Mas a maioria das pessoas possui um entendimento muito pobre sobre as leis da probabilidade. Um apostador venceu 6 vezes consecutivas, então pensa que ele é está numa “maré de sorte” ou “afasta o azar”. Duas pessoas numa sala com trinta pessoas descobrem que possuem a mesma idade, concluindo que algo misterioso trabalhou para isso. Você liga para seu amigo Roberto. O telefone toca e é o próprio Roberto. Você pensa, “Nossa, quais são as chances? Não pode ter sido mera coincidência. Talvez Roberto e eu estamos nos comunicando telepaticamente.” De fato, tais coincidências não são coincidências sob as regras da probabilidade. O apostador previu duas possíveis apostas, uma margem de erro! A probabilidade que duas pessoas numa sala contendo trinta terem a mesma idade é de 71%. E você já se esqueceu quantas vezes Roberto não atendeu o telefone, ou que alguém também tenha ligado para ele, ou que Roberto atendeu a ligação, mas você não estava querendo falar com ele, e por aí vai. Assim como o psicólogo B.F. Skinner provou em seu laboratório, a mente humana procura o relacionamento entre eventos, encontrando-os mesmo quando não estão presentes. As máquinas caça-níquel são baseadas nos princípios de Skinner de reforço intermitente. Um pessoa irracional, como um rato, somente precisará de uma recompensa ocasional (algumas moedas) para continuar a puxar a alavanca. A mente faz o resto.

Representatividade

Como Aristóteles disse, “A soma das coincidências se equivale à certeza.” Esquecemos a maioria das coincidências insignificantes, e nos lembramos do significado de outras. Nossa tendencia de relembrar acertos e ignorar erros é a panaceia de psíquicos, profetas, bispos, adivinhos e os que fazem o (seu) horóscopo, criando centenas de predições a cada 1º de janeiro. Essas pessoas primeiramente aumentam a probabilidade de acerto incluindo previsões mais generalizadas que acontecem todo o ano com qualquer indivíduo como “ [o ator de novela] irá ter problemas de saúde” ou “Vejo problemas para a presidente da república” ou “cuidado com a inveja dos outros” ou “Não faça nada que possa se arrepender”, etc (para maiores (e cômicos) exemplos, pegue um jornal, abra na parte de horóscopos – leia). Então, no próximo 1º de janeiro, publicam os acertos e ignoram os erros, esperando que ninguém se lembre de investigar o que foi dito anteriormente.

Precisamos sempre nos lembrar o grande contexto no qual um evento aparentemente ocorre, e devemos sempre analisar eventos incomuns para sua representatividade na sua classe fenomenológica. No caso do “Triângulo das Bermudas,” uma área do Oceano Atlântico onde navios e aviões “desaparecem misteriosamente”, há a afirmação de que algo estranho ou alienígenas estão por trás disso. Como há muitos corredores de navios e aviões que passam pelo Triângulo das Bermudas que nas áreas em volta, acidentes e (logo) desaparecimentos ocorrem com maior frequencia. Hoje se sabe que a taxa de acidentes é atualmente mais baixa no Triângulo das Bermudas que nas áreas em volta. Talvez essa área deva ser denominada de “Não-Triângulo das Bermudas” (ver Kusche, 1975, para uma explicação completa desse mistério). Similarmente, investigando-se casas assombradas, devemos primeiramente ter uma linha de base dos ruídos, rangidos e outros eventos antes de dizermos que algo é sobrenatural (e, logo, misterioso). Sussuros e batidas na parede podem ser o sistema de encanamento, estalos e rangidos à noite podem ser a contração de materias (madeira, metal) pela diminuição da temperatura durante a madrugada, sons de arranhaduras no porão podem ser de ratos.

Referencia

Kusche L. The Bermuda Triangle Mystery – Solved. New York: Warner, 1975.

Gardner M. Fads and Fallacies in the Name of Science. New York: Dover, 1952.

Shermer M. Why People Believe in Weird Things. New York: Hnery Holy & Co., 2002.

O que é a Lâmina de Ocam?

A Lâmina de Ocam é uma das ferramentas mais poderosas para eliminar hipóteses, sugestões, resultados ou conclusões supérfluas sobre um determinado assunto. Muitos pseudocientistas e crentes na paranormalidade açoitam a Lâmina por ser algo muito rígido, porém outros alegam que tem falhas, sendo, portanto, maleável demais. Nesse blog mesmo já tivemos comentários críticos em relação à Lâmina de Ocam (direta ou indiretamente), porém todas atacaram o indivíduo em si, não seu argumento (uma falácia denominada “distração”), levando a infundamentações que chegam à comicidade. O texto pode parecer um pouco longo, mas vai dar uma visão levemente aprofundada de sua utilização, e com certeza você entenderá como sua utilização pode facilitar a sua vida numa discussão. Portanto, aprenda a afiá-la… E se lembre: mente sempre aberta.


Do Errado ao Certo

Imagine que notamos algo muito estranho no céu. Move-se bizarramente em ângulos retos e não emite sons. Nunca vimos nada igual, com certeza é uma nave extraterrestre, certo?

Você acorda à noite, paralisado de medo, pois há algo muito estranho bem próximo de você. É aparentemente transparente e flutua serenamente na minha frente. Com certeza é um fantasma, certo?

Ou então a sua tia, muito doente, fica acamada por dias. Chega um homeopata e faz uma “receita” a ela. Em poucos dias ela se sente bem, senta na cama, come e em poucas semanas já anda pela casa. Com certeza é o efeito do homeopático ou, se não, é um milagre de Deus, não?

É bem posível que uma nave alienígena ou um fantasma ou Deus possam explicar esses eventos, respectivamente. Quem não iria gostar dessas afirmações? Dada a nossa obsessão cultural por esses fenômenos, não seria difícil imaginar imediatamente essas possibilidades excitantes. Porém os bons céticos sabem que as explicações não são necessariamente válidas só porque sua natureza atrativa e mais evidente nos vêm à mente mais facilmente. Mas há uma ferramenta no repertório cético que nos permite avaliar esses eventos de uma maneira propriamente científica e com uma perspectiva racional. A Lâmina de Ocam é uma regra poderosa que dá conta disso.

A Lâmina de Ocam não é um exemplo de uma tecnologia recém-lançada nas últimas décadas. É uma regra de bolso heurística utilizada como guia para as fases iniciais da criação e seleção de uma teoria. Também conhecida como “princípio da parsimônia” ou “da economia”, ela nos obriga a escolher hipóteses que fazem as afirmações mais simples. Deve-se ter em mente que não é uma lei ou um princípio científico, sendo útil na decisão de quais idéias devemos investigar primeiro, cortando conceitos e teorias que sejam supérfluas, as quais introduzem complicações desnecessárias ao estudo em si.

A Lâmina de Ocan (ou Ockham) é um princípio atribuído ao lógico franciscano do século XIV, frei William de Ockham (1285-1349), sendo um dos filófosos mais influentes de seu século. Seus ensinamentos estavam entre os primeiros a quebrar com as filosofias medievais que o precederam, incluindo aquelas do Realismo Aristotélico de São Tomás de Aquino. William era contra a prática, comum da época, de descrever a natureza se utilizando de abstrações que não eram testáveis ou que eram consideradas como fisicamente tão reais como qualquer outra coisa encontrada no mundo. Seu princípio afirmava que

1) “Entidades não devem se multiplicar desnecessariamente”

2) “A pluralidade não deve ser introduzida sem necessidade”.

Algumas vezes isso é citado em sua forma original no latim, dando ares de maior autenticidade:

  • “Pluralitas non est ponenda sine neccesitate”
  • “Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora”
  • “Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”

De fato, somente duas dessas versões aparecem em seus trabalhos (preservados), o terceiro foi escrito por um escolástico mais tardiamente. William utilizou-se desses princípios para justificar muitas conclusões, incluindo o argumento de que “a existência de Deus não pode ser deduzida somente através da razão.” Essa não o tornou muito popular ao Papa.


Interpretação Científica

Muitos cientistas têm adotado ou reinventado a Lâmina de Ocam, como Leibniz na sua “identificação das observáveis”, e Isaac Newton em “Não admitimos mais causas para os efeitos naturais além daquelas que são tanto verdadeiras como suficientes para explicar suas aparições.”

A frase mais útil desse princípio aos cientistas é:

Quando você possui duas teorias diferentes que possuem exatamente a mesma previsão, a mais simples é a melhor.

Porém, a Lâmina de Occam não pode ser uma lei exaltada ou um axioma propriamente científico. Existe sempre um número infinito de hipóteses possíveis para explicar um grupo de dados ou observações de um fenômeno. Utilizando-se um exemplo matemático, dois pontos num gráfico podem ser descritos por uma equação para uma linha reta, por equações de linhas de circuitos muito complicados ou por equações para cada tipo de linha entre esses dois extremos. Todas essas equações e seus resultados podem ser exatas para os dados disponíveis. A Lâmina de Ocam recomendaria a relação linear mais simples de linhas retas como o melhor candidato até que evidências adicionais fora dessas linhas exijam uma solução mais complexa.

Inevitavelmente há momentos em que as explicações mais simples para um grupo de observações podem ser falsas. Muitas vezes esse é o argumento utilizado contra a Lâmina de Ocam. Esse argumento falacioso ignora a natureza eurística inerente da Lâmina, a qual nunca afirma determinar a verdade ou a falsidade de uma hipótese. Trata-se de atacar a própria Lâmina em si, não seus argumentos práticos. A Lâmina somente identifica aquelas hipóteses que são logicamente consideradas e avaliadas em primeiro lugar, se não fosse esse caso, poderia ser considerada como lei, o que não é o caso.

Em Física utilizamos a Lâmina de Occam para remover qualquer conceito metafísico. O exemplo canônico está na teoria de Einstein sobre a relatividade especial quando comparada com a teoria de Lorentz, na qual uma régua diminui de tamanho e um relógio corre mais devagar quando em movimento dentro do éter (substância etérea que muitos acreditavam, na época pré-teoria da relatividade, ser o meio pelo qual a luz e o tempo se movimentavam). As equações de Einstein para transformar o espaço-tempo são as mesmas das equações de Lorentz para tranformar as réguas e os relógios, porém Einstein e Poincaré reconheceram que o éter não poderia ser detectado de acordo com as equações de Lorentz e Maxwell. Através da Lâmina de Occam essas equações foram eliminadas.
O princípio também foi utilizado para justificar a incerteza na mecânica quântica. Heinsenberg deduziu seu princípio da incerteza a partir da natureza quântica da luz e do efeito das medidas.

Stephen Hawking escreve em Uma Breve História do Tempo

Podíamos continuar a imaginar que existe um conjunto de leis que determina completamente os acontecimentos para algum ser sobrenatural, capaz de observar o estado presente do Universo sem perturbá-lo. Contudo, modelos do Universo como esse não são de grande interesse para nós, vulgares mortais. Parece melhor empregar o princípio da economia, conhecido por navalha de Ocam, e cortar todas as características da teoria que não podem ser observadas.”

Mas a incerteza e a não existência do éter não podem ser deduzidas a somente partir da Lâmina de Ocam. Ela pode separar duas teorias que fazem a mesma previsão, mas não comanda outras teorias que podem fazer uma previsão diferente. Evidências empíricas também são necessárias, e o próprio Ocam apontou em favor do empirismo, não contra ele.


O jeito mais simples pode ser mais o mais complicado

Ernst Mach defendeu uma versão da Lâmina de Ocam na qual ele denominou de Princípio da Economia, afirmando que “Cientistas devem se utilizar dos meios mais simples para alcançar seus resultados e excluir tudo que não é percebido por seus sentidos.” Admitindo-se sua conclusão lógica, essa filosofia se torna positivista; a crença de que não há diferenças entre algo que existe (porém não é observável) e de algo que realmente não existe de qualquer maneira. Mach influenciou Einstein quando esse último afirmou que o espaço e o tempo não são absolutos, mas que também poderia aplicar o positivismo às moléculas. Mach e seus seguidores afirmavam que as moléculas estavam em estado metafísico, pois eram pequenas demais para serem detectadas diretamente (opa… isso lembra algo envolvido com ultradiluições). E esse foi o sucesso da teoria molecular em explicar as reações químicas e a termodinâmica. É irônico pensar que enquanto aplicamos o Princípio da Economia para eliminar o conceito de éter e seus agregados, Einstein publicou quase que simultaneamente um artigo sobre o movimento Browniano no qual confirmava a realidade das moléculas, entrando em choque com o uso do positivismo. A moral dessa história é que a Lâmina de Ocam não deve ser seguida cegamente. Como Einstein escreveu em suas Notas autobiográficas:

É um exemplo interessante sobre o fato que até mesmo escolásticos de espírito audacioso e fino instinto podem ser obstruídos quando interpretam os fatos através de filosofias pré-concebidas.

A Lâmina de Ocam é muitas vezes citada num tom muito mais forte que Ockham pretendia, gerando às vezes, falácias, como a seguir:

  • “Se você possui duas teorias em que ambas expliquem os fatos observados, então deve se utilizar da mais simples até que mais nenhuma evidência surja.”
  • “A explicação mais simples para alguns fenômenos é algo mais voltado para a precisão que para explicações complicadas.”
  • “Se você possui duas soluções idênticas para um problema escolha a mais simples.”
  • “A explicação que requer a menor quantidade de suposições é aparentemente a correta.”
  • “Mantenha as coisas simples!”

Note agora como os princípios se fortaleceram nessas formas, as quais deveriam ser melhor denominadas de Leis da Parsimônia, ou Regras da Simplicidade. Para começar utilizamos a Lâmina de Ocam para separar duas teorias que poderia prever os mesmos resultados para todos os experimentos. Agora tentaremos escolher entre teorias que fazem previsões diferentes. Não é isso que Ockham pretendia. Mas, então, não deveríamos testas essas previsões? Obviamente devemos, mas suponha que estamos num estágio inicial e não estamos ainda prontos para fazer os experimentos. Estamos procurando por pistas para desenvolver a teoria.

Esse princípio retoma aos tempos de Aristóteles, o qual escreveu que a “A natureza opera pelo modo mais curto possível.” Aristóteles foi muito longe em acreditar que o experimento e a observação eram desnecessários. O princípio da simplicidade trabalha como regra heurística, mas algumas pessoas o citam como se fosse um axioma da Física, a qual não o é. Pode funcionar muito bem na filosofia ou na física de partículas, mas pouco na cosmologia ou psicologia, onde as coisas comumente se tornam mais complicadas que o esperado. Talvez uma citação de Shakespeare poderia ser mais apropriada que a Lâmina de Ocam em si: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, que os sonhos de tua filosofia.”


1 + 1 = 2…

A simplicidade é subjetiva, e o universo nem sempre possui as mesmas idéias de simplicidade que temos. Teoristas de sucesso falam muitas vezes de simetria e beleza, assim como de simplicidade. Em 1939, Paul Dirac escreveu “O trabalho do pesquisador, em seu esforço em expressar as leis fundamentais da Natureza em formas matemáticas, deve se esforçar principalmente para a beleza matemática. Muitas vezes ocorre que os requerimentos da simplicidade e da beleza são os mesmos, mas quando se encontram, a última deve ser prevalente.”

A Lei da Parsimônia não é uma substituta da percepção, da lógica e do método científico. Nunca deve ser apoiada para defender uma conclusão. Somente a consistência lógica e as evidências empíricas são absolutas. Dirac teve grande sucesso em seu método, construindo equações dos campos relativísticos para o elétron, utilizando-se delas para também prever o pósitron. Mas não sugeriu que a Física devesse ser baseada somente na beleza da matemática. Ele apreciava grandemente a necessidade da verificação experimental.

Outro mau, irritante e distorcido uso da Lâmina de Ocam é muito utilizado pelos defensores da homeopatia para apoiar suas idéias pseudo-científicas sobre sua “teoria”. Muitos se apóiam (mesmo sem ter consciência) na Lâmina de Ocam no argumento de que “a diluição homeopátia mantém a energia vital do composto original” ou “que os mecanismos são tão simples que nenhum equipamento moderno pode captá-lo” ou mesmo a “homeopatia não possui efeitos colaterais”. O fato de um homeopático ter um efeito que se compara, no máximo, a um placebo já descarta todas essas afirmações. Se já temos o princípio empírico de que a homeopatia não tem qualquer efeito fisiológico (ou energético, nos chakras, espiritual, etc – entenda como quiser), não temos motivos para tentar explicar seus mecanismos, posologias ou tratados. É como tentar  (forçadamente) explicar o funcionamento da Teoria dos Humores de Platão ou justificar a “dieta do tipo sanguíneo” mesmo sabendo que não tem efeito algum (e espero que você também concorde) . É a Lâmina de Ocam reduzindo e focando o argumento à sua explicação mais simples e racional.

E a palavra final é de origem desconhecida, embora seja muitas vezes atribuída a Einstein:

“Faça as coisas do jeito mais simples possível, mas não do jeito mais ingênuo.”

O vigor dessa citação mascara o fato de que ninguém sabe se Einstein realmente o disse (essa versão vem da revista Reader`s Digest de 1977). Pode também ter sido um esboço das últimas páginas do seu livro “O Significado da Relatividade”, no qual escreve sua teoria do campo unificado: “Em minha opinião, a teoria aqui é logicamente a mais simples em todo o campo da relatividade. Mas não significa que a Natureza não possa obedecer uma teoria mais complexa. Teorias mais complexas foram frequentemente propostas (…). A meu ver, esses sistemas mais complicados, e suas combinações, devem ser considerados somente se existir razões físico-empíricas para tal.”


Lembre-se

Lâmina de Ocam: mantenha-a sempre afiada

A Lâmina de Occam é um princípio. Isso é, não nos diz qual explicação mais simples é a verdadeira (ou se há uma).

Porém tem de ser utilizadas nos campos metodológicos. Somos aconselhados a adotar teorias que são minimamente eficientes, na medida em que podem fazer o mesmo com menos. Note que não há nenhuma razão aparente para que façamos de uma maneira determinada (pré ou não): um caminho direto para um destino não é nem melhor nem pior que uma distração para sua escolha, a não ser que incluamos um critério específico desejado para chegar àquele destino pela rota mais direta.

Leia o resto deste post