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Nosso Macaco Oculto: Por que a corrupção é normal?

Adaptado de New Scientist

Se você pensa que é incorruptível, pense novamente. Entender como tantas pessoas de bem se desviam de seus princípios pode ajudar a dar uma faxina nos negócios e na política

Em 2004, Benjamin Olken visitou um projeto de construção de uma estrada na Indonesia rural. Havia somente a falta de um pequeno trecho – uma ponte sobre uma corredeira – mas o dinheiro tinha acabado devido à corrupção, e a construção foi abandonada.

“No momento que cheguei aqui você podia ver onde a estrada havia sido colocada, mas o mato tomou conta de tudo,” ele diz. “A estrada ficou inútil.”

Para Olken, um economista do Instituto de Tecnologia de Massachussets e antigo consultor do Banco Mundial, esse exemplo resume porque a corrupção é um escoadouro da sociedade, e porque combatê-la é uma grande recompensa. Porém planejar políticas anticorrupção efetivas demanda primeiramente o entendimento daquilo que faz as pessoas se tornarem corruptas. Somente agora as evidências começam a surgir. É uma leitura um tanto desagradável.

A maioria de nós pensa que é relativamente honesta, tendo a corrupção como algo que envolve somente os outros. Mas novas pesquisas mostram que qualquer pessoa pode se tornar corrupta num piscar de olhos. De fato, quando admitimos os meios evolutivos, aderir-se a altas escalas de moralidade pode ser visto como uma posição irracional. Se todos estão trapaceando, jogar as regras atuantes o deixará somente com um pequeno saque – em que o saque, o que quer que seja, traduz-se mais cedo ou mais tarde em sucesso reprodutivo. Então faz sentido seguir meios não honestos, pois ao mesmo tempo encoraja todos os outros a serem honestos.

“Penso que a hipocrisia é como um pano de fundo,” Diz Rob Kurzban, autor de Why Everyone (Else) is a Hypocrite? (Por que todos – os outros – são hipócritas?).

Se somos grande parte do tempo honestos, isso nos dá menos oportunidade de trapacear. Isso é certamente corroborado por pesquisas conduzidas por Samuel Bendahan e colaboradores do Instituto Federal Suíço de tecnologia em Lausanne. Eles desenvolveram um jogo no qual os jogadores precisam distribuir uma quantia de dinheiro entre si e a seus “empregados”. Há três opções: aumentar o salário de seus empregados ao seu custo pessoal, manter as taxas de distribuição ou reduzir o salário dos empregados e levar para casa um bolo de dinheiro – a opção “ladrão”.

Perguntados de antemão como se comportariam, quase 4% dos jogadores perdoariam o roubo. De fato, para aqueles pessoas que possuem o controle de somente um empregado retiveram-se em roubar por 10 rodadas sucessivas, o qual teve pequenas quantidades de dinheiro. Porém quando as pessoas possuíam três empregados, logo possuindo mais poder e mais ganhos a partir de trapaças, deixaram suas instâncias morais num período mais curto. Após as primeiras 5 rodadas, 20% recorreram ao furto. E se fosse oferecido aos chefes mais maneiras de ganhar às custas de seus empregados, por volta da décima rodada seus lucros aumentavam em 45%.

Após as primeiras 5 rodadas, 20% recorreram ao furto. E se fosse oferecido aos chefes mais maneiras de ganhar às custas de seus empregados, por volta da décima rodada seus lucros aumentavam em 45%.

A influência corrupta do poder também foi mostrada por Joris Lammers da Universidade de Tilburg, Holanda, e por Adam Galinsky da Northwerstern University de Chicago. Eles incentivaram indivíduos para que sentissem uma sensação maior ou menor de poder através da lembrança de incidentes passados que envolviam sentimentos. Então dividiram o grupo em dois, perguntando à metade para classificarem certas ações hipotéticas sobre moralidade, e ao outro grupo deixaram jogando jogos de dados num cubículo isolado, informando suas opiniões a um assistente de laboratório.

A quantidade de pontos possíveis para o grupo é de 1 a 100, com as maiores pontuações trazendo maiores recompensas. Como o jogo de dados é algo aleatório, a média dos pontos deveria ficar por volta de 50, porém foi de 70 para o grupo induzido a se sentir mais poderoso. Indivíduos com maior sensação de poder tendiam a trapacear mais, diz Lammers e Galinsky, esses também condenaram mais duramente atos imorais que as pessoas com menor sensação de poder. Além disso, os mais poderosos eram hipócritas, julgando tais atos menos condenativos quando feitos por si mesmos que por outras pessoas ( Psychological Science, vol 21, p 737).

O historiador e político britânico Lord Acton estava certíssimo quando disse: “todo poder corrompe.” Porém o poder não fornece simplesmente mais oportunidades para trapaças escondidas – também influencia o modo pelo qual pensamos. Lammers acredita que isso nos trás algo como uma miopia moral. “Comparo-os com o efeito do álcool. O álcool estreita seu foco, levando a um comportamento no qual você se sente autoconfiante em demasia ou superassertivo.” Ele aponta que seus colaboradores em Tilburg, liderados por Maarten Boksen da Universidade Erasmus, em Roterdã, Holanda, monitoraram a atividade cerebral das pessoas enquanto se sentiam mais poderosas, encontrando a ativação de áreas associadas com a desinibição ( Social Cognitive and Affective Neuroscience, DOI: 10.1093/scan/nsp006).

Indivíduos com maior sensação de poder tendiam a trapacear mais (…) esses também condenaram mais duramente atos imorais que as pessoas com menor sensação de poder.

Poder não é a única coisa que nos dá tendências desonestas. A distância psicológica também aparenta facilitar atos corruptos. O economista comportamental Dan Ariely, do MIT, mostrou que as pessoas trapaceiam mais prontamente quando lhes são dadas fichas para serem trocadas por dinheiro que o próprio dinheiro (Journal of Marketing Research, vol 45, p 633).

Agir como intermediário é outro modo de distanciar o indivíduo. Danila Serra, da Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, a qual investigou o papel de intermediários na corrupção, diz que há muitas razões para isso. Uma é que o intermediário remove a incerteza fornecendo uma tarifa para um determinado tipo de serviço, tal como subornar um político, e fazendo isso ajuda também a fazer com que o ato se torne menos culposo. Além disso, mesmo se os intermediários são meros intermediários de armas, sua existência reduz o risco de punição causado por seus clientes, criando uma ilusão de responsabilidade dividida. Um bom exemplo é o recente escândalo das escutas telefônicas que ocorreram no Reino Unido, no quais alguns jornalistas do agora finado jornal News of the World pagava detetives particulares para ter acesso às mensagens do correio de voz de certas pessoas.

Os mais poderosos eram hipócritas, julgando tais atos menos condenativos quando feitos por si mesmos que por outras pessoas

De fato, onde houver uma cultura desse tipo, a corrupção parece ser contagiosa. A cada ano, a Transparência Internacional publica uma lista de países listados de acordo com seus níveis de corrupção (ver diagrama). Baseando-se em pesquisas de analistas e pessoas de negócios, esse Índice de Percepção da Corrupção (IPC) foi criticado por sua falta de objetividade, mas a pesquisa de Serra sugere que essa lista reflete de fato o comportamento das pessoas. Trabalhando com Abigail Barr, da Universidade de Oxford, ela e Serra conduziram uma série de experimentos com estudantes universitários de Oxford provindos de 34 países, cobrindo uma grande área do IPC. Cada pessoa tinha de decidir se subornava ou não um funcionário para um determinado serviço, tal como colocar seu nome no topo de uma lista do atendimento hospitalar. As duas mostraram que pessoas dos países com os piores IPCs tendiam a praticar o suborno (Journal of Public Economics, vol 94, p 862). Barr e Serra concluíram que nossa propensão a engajar em atos corruptos possui componentes fortemente culturais, refletindo as normas sociais do país no qual vivem.

Dada a nossa tendência ao mal, militantes anticorrupção batem com a cabeça na parede. Mas as notícias provindas dos laboratório não são todas más. Uma luz de esperança se encontra na descoberta que indivíduos podem se tornar menos corruptos. Quando Barr e Serra repetiram seus experimentos encontraram que a tendencia da pessoa em subornar diminuía quanto maior o tempo gasto no Reino Unido. Elas também fizeram uma observação provocativa, sugerindo que alguns indivíduos podem ser menos suscetíveis a corromper as influencias culturais em primeiro lugar. Enquanto a “corruptibilidade” de estudantes universitários refletiu o IPC de seus países, o mesmo não ocorreu para os alunos já graduados – aqueles provindos de países onde a corrupção é maior tenderam a ser mais honestos que seus compatriotas que ainda não saíram da faculdade e que passaram a mesma quantidade de tempo no Reino Unido. Barr e Serra veem essas pessoas como não-conformadas que pode um dia lutar contra a corrupção quando voltarem para seus países. “Pensamos que eles são como agentes de mudanças,” diz Serra.

O problema é identificar essas pessoas. E a marca registrada da “incorrupção” ainda permanece ambiguo. Tudo que Serra e Barr podem dizer é que seus alunos de graduação são um grupo seleto de pessoas que resolveram tirar seus PhDs em outro lugar, fazendo-os uma amostra incomum. Similarmente, Bendahan não encontrou nenhuma característica que proteja consistentemente as pessoas da influencia corruptiva do poder, mesmo que 300 estudantes já tenham passado por seus experimentos. Um indivíduo inicialmente honesto, por exemplo, não é imune. Nem aqueles que tem uma visão de mundo altruísta ou um forte desejo do reconhecimento da contribuição de outras pessoas estão imunes. A única pista vem da pesquisa de Ariely. Ela encontrou que quanto mais criativa a pessoa, maior a tendencia de trapacear (será que tem envolvimento com o QI?). “Ser muito desonesto é como ser desonesto enquanto diz a si mesmo uma história do por que fazer isso não tem problema,” ela diz, e as pessoas mais criativas poder fazer melhor que isso.

Um modo mais promissor de reduzir os níveis de corrupção pode ser o fortalecimento de dissuadores. Kurzban acredita que a única razão pela qual uma pessoa não considera trapacear algo válido é devido ao modo pelo qual as outras pessoas geram espectativas dela. A punição certamente funciona em experimentos de laboratório. Quando as pessoas jogam jogos cooperativos por uma recompensa possuem uma resistencia muito maior à trapaça se sabem que os outros jogadores podem punir um jogador por ganhar às custas do grupo. Na vida real, a punição inflingida por uma trapaça tende a sofrer desaprovação social, variando do ostracismo até o encarceiramento. Recentemente, por exemplo, cinco políticos britânicos foram presos por custear suas despesas indevidamente com o dinheiro do governo.

Há evidências de que a mobilização social pode reduzir a corrupção. Na Indonesia, Olken testou o impacto de várias medidas anticorrupção nas fraudes em projetos de estradas. O método mais efetivo foi aumentar o número de audições, embora quase nunca tenha ido muito longe. “Somente enviar uma carta dizendo a agencia de audição pública (o Ministério Publico ou o Tribunal de Contas da União, no Brasil) olhará o projeto reduz o desvio de gastos em quase 1/3”, ele diz. Medidas tomadas por movimentos populares são menos efetivas. Olken encontrou que mater reuniões de contabilidade nos quais os responsáveis explicam às pessoas locais como foi gasto seus impostos faz pouca diferença. Porém, experimentos em laboratório comandados por Serra sugerem que reclamações anônimas podem reduzir a corrupção desde que um número determinado dessas reclamações for atingido, iniciando investigações oficiais.

Finalmente, voltando ao ponto em que pessoas com maior poder são aquelas as quais nós devemos nos preocupar mais. Bendahan diz que o poder pode surgir com um maior balanceamento social. Pessoas que procuram poder devem esperar restrições daquele poder na forma de controle democrático, ele diz. Ariely concorda, porém adiciona que aqueles que se localizam no topo deve primeiro reconhecer sua corruptibilidade, o que muitas vezes falham em reconhecer – como ilustrado no famosa frase de Nixon “Não sou um desviado” (“I am not a crook”).

Aparentemente a primeira lição que devemos aprender do fértil campo da corrupção é que ninguém é imune.


Espiritismo no Brasil e a Dissonância Cognitiva

Traduzido da Revista Skeptical Inquirer

Na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo se desenvolve e evolui numa nova religião.

Todos já vimos as antigas imagens vitorianas sobre fantasmas em lençóis brancos e em fotos desagradavelmente mal feitas de espíritos criados a partir de dupla exposição, principalmente resultado do movimento espiritualista no Reino Unido e nos Estados Unidos. O movimento atingiu seu auge no final do século XIX, sendo considerado um modismo dos dias atuais quase um século depois.

Porém, em alguns países, especialmente na Europa continental e particularmente no Brasil, um braço do espiritualismo denominado espiritismo ainda é muito significativo e continua evoluindo, fazendo-o um exemplo formidável do desenvolvimento de uma nova religião. Seus seguidores irão logo enfatizar a distinção entre a visão mais ampla do espiritualismo e do espiritismo, o qual foi fundado por um francês chamado Hypolite Rivail (1804-1869) sob o pseudônimo de “Allan Kardec.” Esse modismo, ou falácia, vem sendo promovido em nome da ciência.


Chico Xavier

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o qual conduz os censos oficiais, o Brasil possui o maior número de espiritistas no mundo: por volta de 2,3 milhões de seguidores, quase 1,3% da população total, e o terceiro maior grupo religioso, atrás somente dos católicos e evangélicos (1)

Todos esses três grupos são cristãos. Os espiritistas brasileiros dão especial ênfase para “O Evangelho Segundo o Espiritismo.” O líder mais importante desse movimento no Brasil, Francisco “Chico” Xavier (1910-2002), é nosso maior foco de interesse aqui, pois simboliza o espiritismo brasileiro.

Chico Xavier é considerado um médium. Porém sua maior forma de mediunidade é a “psicografia”, isso é, a escrita automática pela qual ele afirmava contactar pessoas mortas por meio de cartas “escritas” pelo morto, e também por meio de livros “escritos” por autores famosos já falecidos.

Vendendo esses livros “psicografados”, os quais Xavier escreveu por volta de 400, o movimento conseguiu florescer e promover trabalhos de caridade num loop auto-alimentado onde cada elo reforça o outro, tendo-se Xavier em seu topo. Obviamente não era nenhum Saxy Sadie, mas, mesmo em vida, Xavier vivia modestamente e nunca se casou, sendo adorado como um tipo de santo ascético. Não há evidências de que sua imagem divulgada por seus seguidores não fosse verdadeira. Quase uma década após sua morte, e no centenário de seu nascimento, sua vida foi dramatizada e divulgada em filme (2), é quase impensável questionar a pessoa pública de Xavier.

Mas uma análise crítica dos poderes paranormais de Chico Xavier rapidamente revela sua maior falha. Fiquei surpreso. Até o momento em que me aprofundei na pesquisa, sempre assumi que as afirmações de Xavier tinham algo de verdadeiro. Se não eram um fenômeno paranormal autêntico, pensei que ao menos se chegaria a algo insolucionado ou intrigante. Mas não foi o caso.


“Odorização”

Um amigo íntimo, Vitor Moura Visoni (3), procurou encontrar um dos maiores e mais íntimos afiliados de Xavier, Waldo Vieira, para verificar se Xavier promovia eventos fraudulentos. Vieira deveria saber disso, pois estava com Xavier.

“Trabalhadores do Centro Espírita faziam fila para conseguir detalhes de falecidos ou se utilizavam de histórias contadas pelos parentes nas cartas onde pediam por um encontro. As mensagens de Chico tinham essa informação”, Vieira revelou. Isso poderia explicar as cartas “psicografadas” com detalhes que “somente os mortos sabiam”. Mais que uma simples “leitura fria”, era justamente um falsificação legítima. Havia outras falsificações, de acordo com Vieira.

“Vi que [Chico Xavier] estava conduzindo algumas sessões espíritas nas quais eu não era participante … onde algumas pessoas às vezes relatavam sobre os perfumes de Scheila [o espírito] … [Então] um dia … ele foi colocar algo no correio, … fui até seu quarto, o qual estava com a porta aberta, pretendendo fechá-la. Quando cheguei lá, vi um saco cheio de frascos… Ele usou os perfumes… e eram de rosas … [Perguntei— o sobre isso] então Chico começou a chorar na minha frente.”

O uso de odores supostamente de origem sobrenatural é um truque espiritualístico comum. Tanto que o líder espiritista e mais destacado “médium” do Brasil o utilizou, de acordo com um de seus afiliados mais íntimos, é algo bastante revelador.

Mas nada ganha do caso de Otília Diogo.


Irmã Josefa

Olhe essa foto. É parte de um show de comédias? Pode ser engraçada, mas intencionalmente não é. A foto foi tirada em 1964, e o homem sorridente de óculos de sol é o próprio Chico Xavier. A pessoa coberta pelo lençol branco é a médium Otília Diogo, ou como os espiritistas acreditam, a “materialização” do espírito de Josefa em ectoplasma. Graças à mediunidade de Otília Diogo, é claro.

Outras fotos claramente mostram a médium atrás do véu, e, de fato, o véu possui uma parte retangular semi-transparente para permitir que Otília pudesse enxergar. A suposta materialização ectoplásmica pode ser tocada e também segurar uma bíblia. Isso é realmente muito material. E até mesmo os crentes noticiaram como a médium, Otília, possuía uma similaridade marcante com a face do espírito (abaixo).

E assim acreditaram. E ainda acreditam nisso. Xavier estava lá e enfaticamente afirmou que a materialização era real e autêntica. Mas o caso logo se tornou uma grande confusão.

As fotos foram tiradas pela revista Cruzeiro, a qual possuía a principal prioridade de vender mais revistas. Primeiro promover e então expor a fraude serviu como uma luva. Após publicar primeiramente um artigo no qual questionavam se as “materializações de Uberaba” eram reais e abertas a interpretações, procederam então para expor a fraude que ajudaram a promover.


Pegos no ato!

E então expuseram. Com fotos claras fica óbvio que a “materialização” é simplesmente a médium Otília em lençóis. Os crentes até mesmo afirmavam que o espírito atravessava barras de aço sólido, mas as fotos mostram que era somente alguns lençóis que eram jogados para o outro lado, enquanto a médium, muito sólida (e viva), estava por trás das barras.

A Cruzeiro não poderia ter tido melhor furo de reportagem quando em 1970, Otília Diogo foi finalmente pega no ato do crime. Ela queria fazer plástica para remover suas rugas, e como pagamento pela cirurgia, se ofereceu para conduzir uma reunião espírita de materialização na casa do médico, um crente no espiritismo. Mas o médico não era tão ingênuo assim, e ficou com suspeitas sobre uma maleta que sempre estava com Otília. Quando ele e sua família tentaram abri-la enquanto Otília dormia, encontraram todo o “ectoplasma”, isso é, todas as vestimentas e véus materiais que utilizava para interpretar diferentes espíritos.

Suas ferramentas incluíam até perfumes para “reforçar a presença do espírito.” Assim como Xavier, de acordo com Vieira.

Finalmente exposta a fraude, o que Otília poderia dizer? “Perdi minha mediunidade em 1965, mas pensei que poderia manter a encenação das materializações. Não queria que alguém percebesse.”

E as pessoas acreditaram nisso. Grande parte dos espiritistas do Brasil, quando informados sobre o envolvimento de Chico Xavier no caso de Otília Diogo, acreditou piamente que embora ela fosse definitivamente uma farsante, somente começou a difamar pouco tempo após Xavier ter autenticado e testemunhado os fenômenos. Esse é um exemplo clássico de dissonância cognitiva.

Mesmo que as fotos tiradas durante aquelas reuniões espíritas de 1964 claramente mostrarem uma pessoa utilizando véus, obviamente uma evidência falsa, muitos ainda acreditam que o ectoplasma funciona de maneiras misteriosas – incluindo se parecer exatamente como um véu comum. Nós, os céticos, ainda argumentamos com os crentes que defendem veementemente esse caso com argumentos elaborados – sendo que todos foram refutados – mas a primeira e óbvia impressão das fotos tiradas é um tanto certeira. São exemplos simples e ridículos de falsificações.


Pessoas espertas acreditam em coisas estranhas

Waldo Vieira também era testemunha dessas reuniões espíritas, revelando que desde o início já tinha suspeitas sobre Otília. Mas também afirma que Otília era uma psíquica autêntica, assim como Xavier. Embora fosse uma falsária às vezes, ela também tinha poderes paranormais extraordinários. A dissonância cognitiva é completa.

Mesmo se alguém aceitar que esses médiuns eram falsários, o crente irá se auto-convencer que parte do fenômeno falsificado é autêntica. Parafraseando uma questão filosófica antiga e peculiar, se um falsário não for pego em seu ato fraudulento no meio da floresta, ele cometeu a fraude? Para os crentes, a resposta é clara. Os argumentos mais elaborados e impensáveis são apresentados como argumento para aquelas fraudes ridículas que podem ter sido consideradas como autênticas.

Voltando no tempo novamente podemos encontrar exemplos de falsários. E a história de Otília Diogo, tão famosa no espiritismo brasileiro, é quase idêntica à história das materializações de Florence Cook feitas por Katie King, as quais ocorreram quase um século antes no auge do espiritualismo vitoriano. Os crentes irão argumentar que ela somente começou a fraudar provas após ser examinada por William Crookes. Bill Meier, o suíço que diz ter contatos com alienígenas pode ter falsificado algumas fotos, mas deve ter começado a fazer isso após ter tido alguns contatos autênticos com alienígenas provindos das Plêiades.

Certamente há muitas outras histórias sobre Chico Xavier, pois não entramos em detalhes na sua principal afirmação paranormal dos 400 livros “psicografados”. Essa é outra oportunidade de desmascará-lo.

Porém, como foi uma personalidade tão famosa por seus preceitos morais e mensagens espirituais publicadas em centenas de livros, terminaremos com um pequeno fragmento particularmente interessante: “A verdade que machuca é pior que a mentira que conforta… Aqueles que conseguem compreendê-la irão entender.”

Tá dááá!! Por hoje é só, amiguinho!

Referencias

[1] O número total de ateístas e cidadãos não religiosos no Brasil é provavelmente comparável ou até maior que o número de espíritas, porém o IBGE se recusa a quantificar o número de ateístas no censo.

[2] Muitos brasileiros das classes sociais mais altas, incluindo a elite do entretenimento, são espíritas. Considerando-se mais requintados que o catolicismo tradicional.

[3] o trabalho de Visoni está disponível gratuitamente em português em http://obraspsicografadas.haan.com/

Mais informação

Download da Revista Cruzeiro de 1964, aqui

Maiores informações, aqui

Análise Crítica: Por que ateus possuem maior QI?

Antes, leiam um post anterior sobre a crítica ao teste de QI: Testes de QI medem a motivação, não somente a inteligência

Ateus possuem maiores pontuações em testes de QI que pessoas religiosas, de acordo com pesquisas. Mas isso significa que as pessoas aceitam crenças religiosas porque são burras? Não necessariamente.

Ateus provavelmente são mais inteligentes que pessoas religiosas porque se beneficiam de muitas condições sociais que estão correlacionadas com a perda da crença religiosa. Quando alguém observa esse fenômeno numa comparação entre países não é difícil entender as possíveis razões do por que países com maiores níveis de QI possuem mais ateus, e que estados dos EUA com maiores pontuações também possuem um maior nível de não crentes.

Países altamente religiosos:

  • São mais pobres
  • São menos urbanizados
  • Possuem baixos níveis educacionais
  • Possuem menor exposição à mídia eletrônica, a qual altera a pontuação
  • Experimentam grande carga de doenças infecciosas que prejudicam a função cerebral
  • Possuem mais nascimentos com bebês abaixo do peso
  • Possuem piores níveis nutricionais em crianças
  • Há menor esforço em controlar os poluentes ambientais, os quais reduzem a pontuação

Dado que cada um desses fatores são causas reconhecidas de baixas pontuações no QI, há um pequeno enigma sobre o por que dos países religiosos possuírem menores pontuações. É claro, os mesmos fenômenos são relevantes em comparações dentro de um mesmo país, embora dentro das diferenças regionais internas esses fatores são geralmente menores. Até mesmo os indivíduos mais saudáveis de um determinado país têm uma qualidade de vida melhor que os mais pobres, desenvolvendo maiores pontuações no QI e maior ceticismo religioso.

Pesquisas recentes concluíram que parte do motivo das pessoas nos estados menos religiosos dos EUA possuírem maiores QIs é devido à melhor educação. De acordo com os autores: “A educação aumenta o pensamento racional, fornece às pessoas mecanismos racionais, não místicos, para o entendimento do mundo. Em resumo, a educação fornece às pessoas a oportunidade de seguir uma alternativa racional ao dogma religioso.”

Esse argumento é razoável, mas gravemente incompleto. Existem muito mais ateus na Europa que nos EUA, e isso não se deve à maior esperteza dos europeus ou à sua melhor educação.

Para uma explicação mais inflamada, duvido que a religião cause estupidez, pois algumas das pessoas mais brilhantes da história, tais como Isaac Newton, eram muito religiosas, assim como muitos de seus contemporâneos.

Se a inteligência provoca uma rejeição da religião é algo mais complexo. É plausível que pessoas mais inteligentes possam ter algum problema em aceitar algumas das improváveis crenças impostas pela sua igreja. Ainda mais, a ciência moderna oferece explicações para os fenômenos que eram previamente explicado única e exclusivamente em termos religiosos, e pessoas mais inteligentes podem preferir a versão científica.

Em resumo, discutir a correlação entre QI e religiosidade sem levar em conta os fatores relevantes subjacentes é um jogo de dados. Isso lembra os longos e cansativos debates sobre a correlação entre as pontuações no QI e a cor da pele, o que levou muitas pessoas à euforia, mas que se provou cientificamente falho.

A questão realmente interessante escondida em tudo isso é por que o ateísmo aparece unicamente nessas condições contemporâneas nos países desenvolvidos. Joguei esssa questão anteriormente que correu toda a internet. O fundamento disso é que a religião ajuda as pessoas a enfrentarem o terror da incerteza em suas vidas. Nos estados modernos, as pessoas são mais satisfeitas, logo há um menor mercado para a religião. A consequência inevitável de tudo isso é que a religião irá declinar à medida que a prosperidade humana avançar.

Nigel Barber é Psicobiólogo

Fonte: http://www.huffingtonpost.com/nigel-barber/why-atheists-have-higher-_b_853414.html