Arquivo da categoria: políticas baseadas em evidências

Altruísmo, ratos ateus e o silogismo religioso

Um estudo interessantíssimo saiu na revista Science, intitulado “Empatia e Comportamento Pró-Social em Ratos“, chamou bastante a minha atenção (e de outros meio de comunicação). Para alguém que trabalha com etologia, o título até chama a atenção, mas chama mais a atenção por ser um estudo sobre comportamento de mamíferos não primatas numa revista de alto impacto (o que, convenhamos, é relativamente raro hoje em dia).

Os autores elegantemente formularam um experimento relativamente simples, curto e incisivo (bem ao estilo da Lâmina de Ocam) sobre (em linhas gerais) a empatia entre ratos.

Até o momento pensamos que todo o tipo de comportamento (até em humanos) seria efetuado na expectativa de uma recompensa. E por mais que alguém fale: “Seres humanos são altruístas, muitas vezes fazemos o bem em troca de nada!“, o caminho é mais complicado. Por mais que nos esforcemos para fazer o bem ao próximo sem requerer qualquer recompensa para isso (como dinheiro ou status), temos de pensar antes que nós já criamos a nossa própria recompensa. E ela se chama dopamina, e é liberada em centros de prazer do encéfalo, especialmente o núcleo acumbente (uma estrutura clássica para o estudo de drogas de abuso e recompensas) (Wise, 2008).

E é essa a resposta final do tal “altruísmo”: nos sentimos bem em ajudar o próximo sem recompensa em troca, mas esse “sentir bem” já é a dopamina agindo no núcleo acumbente, logo, ninguém é altruísta. Tudo o que buscamos no final das contas é um pouco de dopamina no núcleo acumbente para que reforcemos um determinado comportamento (ex: altruísmo). Se soubéssemos isso antes da época de Jesus e Maomé, com certeza os textos religiosos de hoje teriam outra ênfase (falaciosa).

Mais além de Pavlov

E o artigo em questão vai mais profundamente nesse aspecto do “recompensa pelo prazer”.

Ratos foram alojados em pares 2 semanas antes do início dos testes. E então um dos animais foi contido dentro de um cilindro de acrílico transparente cuja porta poderia ser aberta facilmente somente pelo parceiro livre. E, sem novidades, o rato livre consegue libertar seu companheiro do cilindro. Porém, à medida que o teste se repete, o rato livre liberta o companheiro num período de tempo cada vez mais curto, evidenciando aprendizado. Até o momento poderíamos supor que há o efeito “dopamina” acima descrito, pois a presença do companheiro nas atividades sociais dos ratos (limpeza de pelos mutua, brincadeiras, etc), poderia ser um reforçador para que o rato livre libertasse seu companheiro.

Um rato “altruísta” aprende a abrir a porta do contentor

Porém os autores testaram o valor da recompensa em libertar o companheiro, isso é, quão importante é o valor físico e psicológico do companheiro. E os pesquisadores deram 2 opções ao rato livre: Cilindro fechado contendo 5 pedaços de chocolate (que são extremamente pataláveis aos ratos) e outro cilindro fechado com o companheiro (experimento chocolate-parceiro). Como controle, num outro experimento com outros ratos, um dos contentores estava vazio enquanto o outro tinha chocolate (experimento chocolate-vazio).

No experimento chocolate-parceiro não houve diferença no tempo de abertura da porta para os dois contentores, enquanto no experimento chocolate-vazio o rato abriu o contentor com chocolate num tempo muito menor que para o contentor vazio. Isso significa que libertar o companheiro preso tem um valor igual ao de comer algo extremamente recompensandor (chocolate). Aqui vale lembrar que dependendo da “intensidade” do sabor doce, o sabor doce em si pode ter um efeito recompensador tão grande quanto à da cocaína (Lenoir e cols., 2007). Logo, pode-se supor que a libertação do companheiro (o altruísmo) tem um efeito recompensador no final das contas, mesmo que seja em nível molecular.

Além disso, o mais intrigante é que após libertar o companheiro, 52% dos libertadores dividiram o chocolate com o companheiro nos primeiros dias de teste, com essa porcentagem passando para 61% nos dias 6 a 12.

No vídeo da esquerda, temos o contentor com um pedaço de algodão, no vídeo central um contentor vazio, e à direita o contentor com o parceiro preso. Repare na movimentação do rato livre em torno do contentor e do centro da arena para encontrar um meio de libertar o parceiro, o que não ocorre nos outros testes.

Isso significa um potencial “altruísmo” evolutivo em animais. Como a própria autora escreve na discussão

Nosso estudo mostra que os ratos se comportam pró-socialmente quando percebem um estresse de restrição psicológico não-doloroso que é experimentado por um coespecífico, agindo de modo a terminar esse estresse por meio de ações deliberativas. (…) Além disso, esse comportamento ocorreu na ausencia de treinamento ou recompensa social, e até mesmo quando em competição com um alimenta altamente palatável.

Comportamentos similares foram observados em símios, e a grande diferença aqui é que os ratos podem ser utilizado em larga escala em estudos em laboratório para investigar as estruturas que modulam a empatia e o altruísmo. E isso vai mais além de uma simples “dopamina no acumbente”.

Altruísmo tem manual de instruções?

E aqui vai um pensamento mais aprofundado sobre o assunto. Ratos em si são seres sociais, cooperativos e interativos, porém não possuem religião nem um Deus para o qual devem prestar contas. E isso vai contra argumento de teístas no qual a religião se desenvolveu como um meio cooperativo e altruístico entre as pessoas. Para os teístas, a religião seria uma adaptação evolutiva, pois cria ou potencializa a empatia e a pró-socialidade.

Porém esses mesmos teístas ignoram o fato que a empatia, a cooperação e o altruísmo são inatos na natureza. Esse tipo de comportamento é aparentemente muito mais antigo do que se imaginava, retomando períodos antes dos mamíferos e pássaros (1,2,3). Portanto, a religião não é a causa para o aparecimento desse tipo de comportamento em humanos.

E curiosamente esses experimentos podem rebater 2 afirmações comumente utilizadas por religiosos para apoiar que a religião é necessario para uma “harmonia social”

1) A religião faz com que as pessoas fiquem mais sociáveis e cooperativas entre si, proporcionando um melhor relacionamento social entre os indivíduos. Se a religião não tivesse esse propósito (seja direto ou indireto) na sociedade, não teríamos motivo para que as pessoas acreditassem nela.

Isso é uma falacia, pois uma “religião moral e ética” surgiu mais recentemente, ligando as crenças sobrenaturais a comportamentos “socialmente corretos”. Religiões mais antigas que as ditas “modernas” (cristianismo, islamismo, etc) surgiram provavelmente no período paleolítico, muitas vezes envolvendo o shamanismo e como meio de explicação de eventos “sobrenaturais” (ex: raios, nascimento do Sol, etc), mas não havia uma regra de condutas sociais a serem seguidas para se atingir o “paraíso” ou hipóteses para manter a sociedade estável, tanto porque naquela época não havia algo como uma “sociedade” ou o pensamento do “pós-morte” (Rossano). E mesmo assim, uma sociedade mais religiosa não significa uma sociedade mais estável, como postei anteriormente.

2) A religião traz maior coesão entre os grupos humanos, dando-lhes uma vantagem competitiva sobre outros grupos (não religiosos ou de outras religiões com regras de condutas sociais diferentes), formando grupos maiores que eliminariam grupos menores e menos organizados.

Isso pode ser verdade para as religiões atuais (cristianismo, islamismo, espiritismo, etc), porém não existe qualquer evidencia de uma aumento na quantidade de grupos de humanos devido a uma religião específica em tempos posteriores ao neolítico. O aumento no número de conglomerados humanos ocorreu a partir do momento em que os humanos deixaram de ser caçadores-coletores para serem domesticadores de animais e plantas. Com a formação de conglomerados humanos, também houve desenvolvimento e especialização das religiões em si, as quais provavelmente absorveram as condutas sociais locais em seus dogmas (Rossano, 2010).

Não posso negar o papel fundamental da religião em unir pessoas no mundo atual. Aliás, não nego nem a sua força em sincronizar determinados comportamentos num grande grupo de pessoas. Para mim isso é fenomenal. Mas não podemos omitir que alguns comportamentos são inatos não somente nos seres humanos, mas em outros seres mais primitivos. E se o altruísmo e a empatia possuem raízes mais antigas que imaginávamos, sua manutenção ao longo da evolução nos diz que possui uma vantagem maior sobre aqueles que não as tem. E foi exatamente isso que os antigos escritores de livros religiosos devem ter percebido (mesmo que indiretamente). Afinal de contas, Maomé, o apóstolo Pedro e Moisés eram, querendo ou não, observadores perspicazes.

O que é a Lâmina de Ocam?

A Lâmina de Ocam é uma das ferramentas mais poderosas para eliminar hipóteses, sugestões, resultados ou conclusões supérfluas sobre um determinado assunto. Muitos pseudocientistas e crentes na paranormalidade açoitam a Lâmina por ser algo muito rígido, porém outros alegam que tem falhas, sendo, portanto, maleável demais. Nesse blog mesmo já tivemos comentários críticos em relação à Lâmina de Ocam (direta ou indiretamente), porém todas atacaram o indivíduo em si, não seu argumento (uma falácia denominada “distração”), levando a infundamentações que chegam à comicidade. O texto pode parecer um pouco longo, mas vai dar uma visão levemente aprofundada de sua utilização, e com certeza você entenderá como sua utilização pode facilitar a sua vida numa discussão. Portanto, aprenda a afiá-la… E se lembre: mente sempre aberta.


Do Errado ao Certo

Imagine que notamos algo muito estranho no céu. Move-se bizarramente em ângulos retos e não emite sons. Nunca vimos nada igual, com certeza é uma nave extraterrestre, certo?

Você acorda à noite, paralisado de medo, pois há algo muito estranho bem próximo de você. É aparentemente transparente e flutua serenamente na minha frente. Com certeza é um fantasma, certo?

Ou então a sua tia, muito doente, fica acamada por dias. Chega um homeopata e faz uma “receita” a ela. Em poucos dias ela se sente bem, senta na cama, come e em poucas semanas já anda pela casa. Com certeza é o efeito do homeopático ou, se não, é um milagre de Deus, não?

É bem posível que uma nave alienígena ou um fantasma ou Deus possam explicar esses eventos, respectivamente. Quem não iria gostar dessas afirmações? Dada a nossa obsessão cultural por esses fenômenos, não seria difícil imaginar imediatamente essas possibilidades excitantes. Porém os bons céticos sabem que as explicações não são necessariamente válidas só porque sua natureza atrativa e mais evidente nos vêm à mente mais facilmente. Mas há uma ferramenta no repertório cético que nos permite avaliar esses eventos de uma maneira propriamente científica e com uma perspectiva racional. A Lâmina de Ocam é uma regra poderosa que dá conta disso.

A Lâmina de Ocam não é um exemplo de uma tecnologia recém-lançada nas últimas décadas. É uma regra de bolso heurística utilizada como guia para as fases iniciais da criação e seleção de uma teoria. Também conhecida como “princípio da parsimônia” ou “da economia”, ela nos obriga a escolher hipóteses que fazem as afirmações mais simples. Deve-se ter em mente que não é uma lei ou um princípio científico, sendo útil na decisão de quais idéias devemos investigar primeiro, cortando conceitos e teorias que sejam supérfluas, as quais introduzem complicações desnecessárias ao estudo em si.

A Lâmina de Ocan (ou Ockham) é um princípio atribuído ao lógico franciscano do século XIV, frei William de Ockham (1285-1349), sendo um dos filófosos mais influentes de seu século. Seus ensinamentos estavam entre os primeiros a quebrar com as filosofias medievais que o precederam, incluindo aquelas do Realismo Aristotélico de São Tomás de Aquino. William era contra a prática, comum da época, de descrever a natureza se utilizando de abstrações que não eram testáveis ou que eram consideradas como fisicamente tão reais como qualquer outra coisa encontrada no mundo. Seu princípio afirmava que

1) “Entidades não devem se multiplicar desnecessariamente”

2) “A pluralidade não deve ser introduzida sem necessidade”.

Algumas vezes isso é citado em sua forma original no latim, dando ares de maior autenticidade:

  • “Pluralitas non est ponenda sine neccesitate”
  • “Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora”
  • “Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”

De fato, somente duas dessas versões aparecem em seus trabalhos (preservados), o terceiro foi escrito por um escolástico mais tardiamente. William utilizou-se desses princípios para justificar muitas conclusões, incluindo o argumento de que “a existência de Deus não pode ser deduzida somente através da razão.” Essa não o tornou muito popular ao Papa.


Interpretação Científica

Muitos cientistas têm adotado ou reinventado a Lâmina de Ocam, como Leibniz na sua “identificação das observáveis”, e Isaac Newton em “Não admitimos mais causas para os efeitos naturais além daquelas que são tanto verdadeiras como suficientes para explicar suas aparições.”

A frase mais útil desse princípio aos cientistas é:

Quando você possui duas teorias diferentes que possuem exatamente a mesma previsão, a mais simples é a melhor.

Porém, a Lâmina de Occam não pode ser uma lei exaltada ou um axioma propriamente científico. Existe sempre um número infinito de hipóteses possíveis para explicar um grupo de dados ou observações de um fenômeno. Utilizando-se um exemplo matemático, dois pontos num gráfico podem ser descritos por uma equação para uma linha reta, por equações de linhas de circuitos muito complicados ou por equações para cada tipo de linha entre esses dois extremos. Todas essas equações e seus resultados podem ser exatas para os dados disponíveis. A Lâmina de Ocam recomendaria a relação linear mais simples de linhas retas como o melhor candidato até que evidências adicionais fora dessas linhas exijam uma solução mais complexa.

Inevitavelmente há momentos em que as explicações mais simples para um grupo de observações podem ser falsas. Muitas vezes esse é o argumento utilizado contra a Lâmina de Ocam. Esse argumento falacioso ignora a natureza eurística inerente da Lâmina, a qual nunca afirma determinar a verdade ou a falsidade de uma hipótese. Trata-se de atacar a própria Lâmina em si, não seus argumentos práticos. A Lâmina somente identifica aquelas hipóteses que são logicamente consideradas e avaliadas em primeiro lugar, se não fosse esse caso, poderia ser considerada como lei, o que não é o caso.

Em Física utilizamos a Lâmina de Occam para remover qualquer conceito metafísico. O exemplo canônico está na teoria de Einstein sobre a relatividade especial quando comparada com a teoria de Lorentz, na qual uma régua diminui de tamanho e um relógio corre mais devagar quando em movimento dentro do éter (substância etérea que muitos acreditavam, na época pré-teoria da relatividade, ser o meio pelo qual a luz e o tempo se movimentavam). As equações de Einstein para transformar o espaço-tempo são as mesmas das equações de Lorentz para tranformar as réguas e os relógios, porém Einstein e Poincaré reconheceram que o éter não poderia ser detectado de acordo com as equações de Lorentz e Maxwell. Através da Lâmina de Occam essas equações foram eliminadas.
O princípio também foi utilizado para justificar a incerteza na mecânica quântica. Heinsenberg deduziu seu princípio da incerteza a partir da natureza quântica da luz e do efeito das medidas.

Stephen Hawking escreve em Uma Breve História do Tempo

Podíamos continuar a imaginar que existe um conjunto de leis que determina completamente os acontecimentos para algum ser sobrenatural, capaz de observar o estado presente do Universo sem perturbá-lo. Contudo, modelos do Universo como esse não são de grande interesse para nós, vulgares mortais. Parece melhor empregar o princípio da economia, conhecido por navalha de Ocam, e cortar todas as características da teoria que não podem ser observadas.”

Mas a incerteza e a não existência do éter não podem ser deduzidas a somente partir da Lâmina de Ocam. Ela pode separar duas teorias que fazem a mesma previsão, mas não comanda outras teorias que podem fazer uma previsão diferente. Evidências empíricas também são necessárias, e o próprio Ocam apontou em favor do empirismo, não contra ele.


O jeito mais simples pode ser mais o mais complicado

Ernst Mach defendeu uma versão da Lâmina de Ocam na qual ele denominou de Princípio da Economia, afirmando que “Cientistas devem se utilizar dos meios mais simples para alcançar seus resultados e excluir tudo que não é percebido por seus sentidos.” Admitindo-se sua conclusão lógica, essa filosofia se torna positivista; a crença de que não há diferenças entre algo que existe (porém não é observável) e de algo que realmente não existe de qualquer maneira. Mach influenciou Einstein quando esse último afirmou que o espaço e o tempo não são absolutos, mas que também poderia aplicar o positivismo às moléculas. Mach e seus seguidores afirmavam que as moléculas estavam em estado metafísico, pois eram pequenas demais para serem detectadas diretamente (opa… isso lembra algo envolvido com ultradiluições). E esse foi o sucesso da teoria molecular em explicar as reações químicas e a termodinâmica. É irônico pensar que enquanto aplicamos o Princípio da Economia para eliminar o conceito de éter e seus agregados, Einstein publicou quase que simultaneamente um artigo sobre o movimento Browniano no qual confirmava a realidade das moléculas, entrando em choque com o uso do positivismo. A moral dessa história é que a Lâmina de Ocam não deve ser seguida cegamente. Como Einstein escreveu em suas Notas autobiográficas:

É um exemplo interessante sobre o fato que até mesmo escolásticos de espírito audacioso e fino instinto podem ser obstruídos quando interpretam os fatos através de filosofias pré-concebidas.

A Lâmina de Ocam é muitas vezes citada num tom muito mais forte que Ockham pretendia, gerando às vezes, falácias, como a seguir:

  • “Se você possui duas teorias em que ambas expliquem os fatos observados, então deve se utilizar da mais simples até que mais nenhuma evidência surja.”
  • “A explicação mais simples para alguns fenômenos é algo mais voltado para a precisão que para explicações complicadas.”
  • “Se você possui duas soluções idênticas para um problema escolha a mais simples.”
  • “A explicação que requer a menor quantidade de suposições é aparentemente a correta.”
  • “Mantenha as coisas simples!”

Note agora como os princípios se fortaleceram nessas formas, as quais deveriam ser melhor denominadas de Leis da Parsimônia, ou Regras da Simplicidade. Para começar utilizamos a Lâmina de Ocam para separar duas teorias que poderia prever os mesmos resultados para todos os experimentos. Agora tentaremos escolher entre teorias que fazem previsões diferentes. Não é isso que Ockham pretendia. Mas, então, não deveríamos testas essas previsões? Obviamente devemos, mas suponha que estamos num estágio inicial e não estamos ainda prontos para fazer os experimentos. Estamos procurando por pistas para desenvolver a teoria.

Esse princípio retoma aos tempos de Aristóteles, o qual escreveu que a “A natureza opera pelo modo mais curto possível.” Aristóteles foi muito longe em acreditar que o experimento e a observação eram desnecessários. O princípio da simplicidade trabalha como regra heurística, mas algumas pessoas o citam como se fosse um axioma da Física, a qual não o é. Pode funcionar muito bem na filosofia ou na física de partículas, mas pouco na cosmologia ou psicologia, onde as coisas comumente se tornam mais complicadas que o esperado. Talvez uma citação de Shakespeare poderia ser mais apropriada que a Lâmina de Ocam em si: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, que os sonhos de tua filosofia.”


1 + 1 = 2…

A simplicidade é subjetiva, e o universo nem sempre possui as mesmas idéias de simplicidade que temos. Teoristas de sucesso falam muitas vezes de simetria e beleza, assim como de simplicidade. Em 1939, Paul Dirac escreveu “O trabalho do pesquisador, em seu esforço em expressar as leis fundamentais da Natureza em formas matemáticas, deve se esforçar principalmente para a beleza matemática. Muitas vezes ocorre que os requerimentos da simplicidade e da beleza são os mesmos, mas quando se encontram, a última deve ser prevalente.”

A Lei da Parsimônia não é uma substituta da percepção, da lógica e do método científico. Nunca deve ser apoiada para defender uma conclusão. Somente a consistência lógica e as evidências empíricas são absolutas. Dirac teve grande sucesso em seu método, construindo equações dos campos relativísticos para o elétron, utilizando-se delas para também prever o pósitron. Mas não sugeriu que a Física devesse ser baseada somente na beleza da matemática. Ele apreciava grandemente a necessidade da verificação experimental.

Outro mau, irritante e distorcido uso da Lâmina de Ocam é muito utilizado pelos defensores da homeopatia para apoiar suas idéias pseudo-científicas sobre sua “teoria”. Muitos se apóiam (mesmo sem ter consciência) na Lâmina de Ocam no argumento de que “a diluição homeopátia mantém a energia vital do composto original” ou “que os mecanismos são tão simples que nenhum equipamento moderno pode captá-lo” ou mesmo a “homeopatia não possui efeitos colaterais”. O fato de um homeopático ter um efeito que se compara, no máximo, a um placebo já descarta todas essas afirmações. Se já temos o princípio empírico de que a homeopatia não tem qualquer efeito fisiológico (ou energético, nos chakras, espiritual, etc – entenda como quiser), não temos motivos para tentar explicar seus mecanismos, posologias ou tratados. É como tentar  (forçadamente) explicar o funcionamento da Teoria dos Humores de Platão ou justificar a “dieta do tipo sanguíneo” mesmo sabendo que não tem efeito algum (e espero que você também concorde) . É a Lâmina de Ocam reduzindo e focando o argumento à sua explicação mais simples e racional.

E a palavra final é de origem desconhecida, embora seja muitas vezes atribuída a Einstein:

“Faça as coisas do jeito mais simples possível, mas não do jeito mais ingênuo.”

O vigor dessa citação mascara o fato de que ninguém sabe se Einstein realmente o disse (essa versão vem da revista Reader`s Digest de 1977). Pode também ter sido um esboço das últimas páginas do seu livro “O Significado da Relatividade”, no qual escreve sua teoria do campo unificado: “Em minha opinião, a teoria aqui é logicamente a mais simples em todo o campo da relatividade. Mas não significa que a Natureza não possa obedecer uma teoria mais complexa. Teorias mais complexas foram frequentemente propostas (…). A meu ver, esses sistemas mais complicados, e suas combinações, devem ser considerados somente se existir razões físico-empíricas para tal.”


Lembre-se

Lâmina de Ocam: mantenha-a sempre afiada

A Lâmina de Occam é um princípio. Isso é, não nos diz qual explicação mais simples é a verdadeira (ou se há uma).

Porém tem de ser utilizadas nos campos metodológicos. Somos aconselhados a adotar teorias que são minimamente eficientes, na medida em que podem fazer o mesmo com menos. Note que não há nenhuma razão aparente para que façamos de uma maneira determinada (pré ou não): um caminho direto para um destino não é nem melhor nem pior que uma distração para sua escolha, a não ser que incluamos um critério específico desejado para chegar àquele destino pela rota mais direta.

Leia o resto deste post

A neurobiologia do amor materno

Uma tática comum utilizada por cristãos, espíritas e/ou “misticistas” é que se um comportamento complexo não pode ser mensurado, o método científico deve ser necessariamente falho no entendimento desse comportamento. Já tive várias conversas com pessoas sobre o estudo do comportamento, da localização de certos neurotransmissores (por exemplo: serotonina) que influenciam desde o estado de humor da pessoa (depressão) até na medida de personalidade (impaciência). É engraçado como algumas pessoas colocam explicações como o “espírito que reencarnou”, a “energia que não flui” ou “os problemas que você teve na sua fase oral” para o comportamento humano. Tenho certeza que nem Mendell essas pessoas se lembraram (ou não querem saber quem é ou o que fez), preferindo acreditar numa “maldição de família”.

Pois bem, e é nessas conversas que surge um argumento comumente utilizado de “se você acha que a biologia é uma boa explicação do comportamento, então prove que sua mãe o ama.”

Podemos, então, encaminhar esse desafio do amor materno, demonstrando uma explicação científica plausível através da medida de um hormônio tão importante quanto esse “amor materno”.

Se você acha que a biologia é uma boa explicação do comportamento, então prove que sua mãe o ama.

Rosenblat (1967) mostrou que ratas virgens expostas a filhotes recém-nascidos são indiferentes ou aversivas a eles, ignorando-os ou atacando-os quando lhes são apresentados. Porém esse comportamento diminui gradualmente à medida que a exposição dos filhotes se torna repetitiva. Uma primeira sugestão da explicação desse tipo de comportamento surgiu com Pedersen & Prange (1979), os quais injetaram ocitocina (OT) nos ventrículos cerebrais em ratas virgens, produzindo comportamentos maternos após 2 horas da injeção. Apoiando ainda mais esse estudo, van Leengoed e colaboradores (1987) e Fahrbach e colaboradores (1985) mostraram que o bloqueio de receptores para a OT ou a inativação da própria OT bloqueia o início do comportamento materno em ratas que acabaram de dar à luz.

Apesar de estudos de nocaute do gene (isso é, remoção do gene em ratos transgênicos) da OT serem controversos, estudos mais recentes mostraram que a remoção do gene que produz a OT diminui os níveis de cuidado de filhotes (como amamentação e limpeza) , ocorrendo o mesmo se houver nocaute do receptor de OT. Além disso, há relatos de comportamentos infanticidas por ratas mães na ausência do gene da OT. E o comportamento materno pode ser restaurado em ratas nocautes para a OT através da infusão subcutânea da própria OT.

Em outras palavras, para todos os mamíferos existem evidências de que altos níveis de OT se traduz em sentimento de ligação sentimental com a cria. Estudos anteriores sobre a OT têm mostrado que o hormônio também está envolvido na ligação afetiva de casais e no comportamento cooperativo. Por exemplo, arganazes do campo (Microtus ochrogaster, um roedor arborícola) possuem ninhos comunais. Algumas fêmeas adultas exercem o comportamento materno em filhotes que não são seus, desenvolvendo um comportamento denominado de aloparental. Grande parte dos arganazes do campo jovens (<20 dias de idade) mostram altos níveis de comportamento aloparental quando expostos a filhotes. Porém, quando chegam à puberdade, quase 50% das fêmeas irá espontaneamente cuidar de filhotes apresentados a elas, enquanto as 50% restantes irá ou ignorar ou atacar esses filhotes (Bales & Carter, 2003; Lonstein & DeVrie, 1999), sendo que esse comportamento aparentemente não está envolvido com alterações de hormônios sexuais (gonadais). Logo, há evidências que a OT possa ter uma função importante, ao menos nessa espécie. Fêmeas adultas de arganazes do campo, as quais tendem a cuidar de filhotes alheios da especie, possuem maior densidade de receptores para a OT (OTR) em determinadas áreas encefálicas que arganzes que ignoram ou atacam os filhotes (arganazes da montanha) (figura 1). Consequentemente, a administração de antagonistas de OTRs nessas áreas bloqueia a expressão do comportamento materno em fêmeas adultas (fig. 1C). Conclui-se, portanto, que diferenças na densidade de OTR em áreas encefálicas (aqui no caso o núcleo acumbente) pode contribuir diretamente para as diferenças individuais do comportamento materno e de interação com o parceiro sexual.

Porém alguém deve pensar: “Mas roedores em geral possuem comportamento materno promíscuo, logo, irão cuidar de qualquer filhote que se encontre no ninho”. Então, alguns experimentos foram feitos com ovelhas, já que essas conseguem discriminar entre seu cordeiro e o cordeiro de outra mãe. Logo, ovelhas possuem mecanismos seletivos para a produção de ligações afetivas específicas entre mãe e filho.

Ovelhas não são promíscuas

A ligação afetiva entre a ovelha e o cordeiro se dá provavelmente através de memória olfatória. Uma vez que o odor é aprendido, a mãe rejeita outros cordeiros para a amamentação. A estimulação vaginocervical da ovelha é um potente liberador de OT, tão forte que é capaz de promover a adoção de um cordeiro estranho em ovelhas que sofreram esse tipo de estimulação. Corroborando esses dados, a administração intracerebroventricular de OT pode induzir comportamento materno completo (em menos de 1 minuto) em ovelhas não grávidas.

Supõe-se que a OT facilita a formação de memórias olfatórias através da modulação de neurotransmissores. Após dada a luz, há um fortalecimento das sinapses responsáveis pela captação do odor do cordeiro, tornando várias dessas células responsíveis ao seu odor (Kendrik e cols., 1997; Levy e cols., 1995; Kendrick & Keverne, 1992). Como conseqüência desse aprendizado olfatório, ovelhas aceitam seu próprio cordeiro.

Em humanos

Publicado no jornal Psicological Science, Ruth Feldman e colaboradores, do Centro de Pesquisas do Encéfalo de Gonda, Universidade de Bar-Ilan, Israel, encontraram evidências de que os níveis neuroendócrinos da OT é um potente fator de predição da ligação afetiva entre mãe e filho. Através de simples análises da OT sangüínea de 62 mulheres grávidas (de todos os níveis educacionais e sociais), os pesquisadores encontraram que os níveis de OT diferem substancialmente entre as mulheres (mas seus níveis são altos durante a gravidez). Através da observação da interação da mãe com seus filhos por meio de vídeo-câmera (o que incluia a análise da quantidade de interações faciais, quantidade de toques afetivos, balanço do bebê e quantas vezes falavam com a criança), os pesquisadores mostraram que o nível de OT era o fator mais preditivo da interação mãe-filho.

Os autores relataram no estudo:

“(…) os níveis de ocitocina durante o início da gravidez e o período pós-parto estão relacionados a um grupo bem definido de comportamento maternos afetivos, incluindo observação [do bebê], vocalizações, [relato de] sentimentos positivos e toques afetivos; pensamentos relacionados à ligação [afetiva]; e a verificações constantes da criança. Ao longo da gravidez e do período pós-parto, a ocitocina pode ter um papel na emergência de comportamentos e representações mentais típicas de ligações afetivas na mãe humana.”

Por que alguns indivíduos possuem altos níveis de OT e outros não já é outra pergunta. Pesquisas (1,2) mostram que filhas que cresceram em ambiente seguro, confortável e com altos índices de investimento maternal demonstram o mesmo comportamento maternalista com sua prole. Parece que um ambiente seguro e confortável (com apoio econômico e social provindos da mãe) aumenta os níveis de OT materna, podendo, então, aumentar a intensidade da afetividade mãe-filho.

Mãe somali e e seu filho

Porém, é importante lembrar que não há um comportamento materno “ideal” em todos os ambientes. Mães humanas respondem ao seu redor do mesmo modo que outras espécies fazem. Se você é uma rata que vive num ambiente desértico ou uma mulher numa favela, num ambiente é particularmente aversivo, será mais adaptativo às mães demonstrar menos afeto materno e, então, criar um filho que será preparado para uma vida difícil. Porém mesmo que esses resultados estejam altamente correlacionados, há um pouco mais além da química. Não podemos subestimar a influência das decisões pessoais ou as culturais no comportamento materno.

Por exemplo, macacas rhesus que cresceram em contato com humanos possuem níveis mais baixos de OT que aquelas criadas com suas próprias mães. E mulheres que experimentaram abusos infantis ou foram negligenciadas durante a infância possuem níveis significativamente mais baixos de OT.

Conclusão

Claro que deixamos alguns pontos em aberto, mas fica aqui a percepção de que o comportamento materno é algo tão natural quanto a ocitocina no seu núcleo acumbente. Aliás, esse tipo de comportamento é algo detectável, observável, mensurável e molecularmente quantificável. Do mesmo modo que a serotonina hoje é considerada uma das principais causas de depressão, poderemos utilizar futuramente a própria ocitocina para evitar casos típicos como a rejeição do bebê por mulheres com depressão pós-parto. Fica o recado para (sempre) termos a mente aberta, seja corrigindo ou não os erros de português desse artigo.

Aliás, posso ser acusado de fatalismo ao extremo. Mas a figura abaixo serve de explicação para muitos dos problemas da humanidade (inclusive sua burrice intrínseca)

Tecnicamente nossos próprios deuses