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Como ler artigos científicos: parte 1

Eis algumas sugestões para ler um artigo científico cujo tema você não domina. Espero que o ajude a entender a falácia por trás de muitos tendenciosos… A parte 2 virá com mais exemplos que encontrei em alguns artigos de espiritismo, homeopatia, acupuntura, etc…

1. Olhada rápida

Olhe o artigo rapidamente. Somente título e figuras. Isso levará alguns minutos. Não tente entendê-lo ainda, mas só ter uma visão geral.

2. Vocabulário

Leia o artigo rapidamente, palavra por palavra, linha por linha. Destaque e sublinhe cada palavra e frase que você não tenha entendido. Não se preocupe se há muitas palavras destacadas: você ainda não quer entender o artigo

Agora você tem de responder às questões de vocabulário e os conceitos do artigo. Dependendo do tipo de questão, você pode:

A: Olhe palavras e frases simples.

  • Muitas vezes as questões são simplesmente de vocabulário – o que significa um lateral malleolus, ou um elevated plus maze. Um dicionário de Biologia (Alberts) ou Medicina (Rey) é um bom lugar para encontrar essas definições. Um livro de Fisiologia (Guyton) ou Anatomia (Dangelo e Fattini) pode ser outra boa fonte, pois dá explicações mais completas. Seu dicionário escolar (Aurélio, Houaiss, Michaelis, etc) não é uma boa fonte, pois as definições não são precisas o suficiente ou pode não refletir o modo pelo qual os cientistas utilizam uma palavra (ex: “eficiência” possui uma definição comum, mas sua definição na Física é muito mais restrita).

B:Tenha um conhecimento do contexto utilizado.

  • Muitas palavras utilizadas para descrever os procedimentos de um experimento podem ser entendidos a partir de seu contexto, e podem ser muito específicos ao artigo que se lê. Exemplos são “drug-free control group” num experimento com ratos ou “carotene extraction procedure” em experimentos bioquímicos. Você deverá ter cuidado quando ter a certeza que entendeu a palavra e seu conceito, pois pode não significar aquilo que você pensa.

C: Destaque a frase que pertença a um dos conceitos maiores do artigo.

  • Essa frase é mais que uma questão de vocabulário. Por exemplo, um artigo sobre dieta e câncer pode se referir a “risk reduction”, significando que você precisará entender seu contexto mais aprofundadamente.

3. Compreensão, seção por seção

Tente lidar com todas a palavras e frases, embora uns poucos termos técnicos em si da seção de Materiais e Métodos (Methods) ainda possa sobrar. Agora volte e leia o artigo inteiro, seção por seção, para compreensão.

Em Introdução,

  • Note como o contexto é exposto. O autor deve resumir e comentar pesquisas anteriores, e você deverá distinguir entre essas pesquisas anteriores e a pesquisa que será feita.

  • Qual a grande questão apresentada aqui?
  • Qual a hipótese que o artigo faz, e os modos pelos quais essa hipótese será testada?

Em Materiais e Métodos (Methods)

  • Tente criar uma imagem clara do que será feito em cada fase.

  • O que foi mensurado naquele momento?

  • É uma boa idéia sublinhar e/ou delinear os procedimentos e instrumentos.

  • Mantenha anotada suas questões: algumas delas podem ter uma caráter simplesmente técnico, mas outras podem apontar considerações mais fundamentais que serão utilizadas para as reflexões e críticas.

Em Resultados (Results)

  • Olhe cuidadosamente as figuras e tabelas, pois são o coração do artigo. Um cientista irá muitas vezes ler as figuras e tabelas antes de decidir se vale a pena ler o resto do artigo!

  • O que significa “entender” uma figura? Você entende uma figura quando você consegue redesenhá-lo e explicá-lo na língua do artigo.

Em Discussão (Discussion)

  • há o conteúdo das conclusões que o autor quis descrever a partir dos dados.
  • Em alguns artigos, a sessão Discussão possui muitas interpretações e é muito importante. De qualquer modo é aqui que o autor faz a reflexão de seu trabalho em si e de sua comparação com outros achados.

4. Reflexão e Crítica

  • Após você entender o artigo e conseguir resumi-lo, então podemos retornar às questões mais amplas e tirar suas próprias conclusões. É bem útil manter o foco de suas questões à medida que avançamos, retornando ao artigo para ver se elas foram respondidas.

  • Muitas vezes questões simples podem conter as sementes de pensamentos mais profundos sobre o trabalho – por exemplo, “Por que os autores utilizaram um questionário ao final do mês para obter dados da tensão pré-mentrual?” ou “Será que a quantidade de animais – ou indivíduos – utilizados foi o suficiente?”

  • Avalie a qualidade do artigo. Vale a pena confiar nos dados? Quanto dessa informação é valida para a ciência e para você, consumidor?

Nos vemos na parte 2

A negligência da comunidade científica e os abusos pseudo-científicos

Por Daniel Neves Micha

Caros colegas físicos do Brasil

Vimos presenciando na mídia de massa uma banalização dos assuntos relacionados à física e às ciências em geral. Comumente, vemos e ouvimos alguém falar da ligação da física (em especial a quântica) com a medicina (cura quântica), com as religiões, com a espiritualidade, etc. Recentemente, tivemos alguns exemplos frustrantes sendo explorados: o filme “Quem somos nós”, que relaciona (erroneamente) diversos conceitos do universo quântico com a física do nosso dia-a-dia; o livro “O segredo”, que, de acordo com a autora, “cada um contém uma força magnética dentro de si mais poderosa do que qualquer coisa neste mundo emitida por seus pensamentos” e, com isso, afirma que pode atrair coisas boas; as pulseiras “Power Balance”, que promete efeitos bioquânticos para gerar “aperfeiçoamento do equilíbrio, ampliação da força central, aumento do alcance dos movimentos e bem estar total” (retirado do panfleto do produto); dentre outros exemplos que poderia citar. Sei que, hoje, com todo o conhecimento que temos, não conseguimos, de fato, refutar todos os argumentos colocados, principalmente pela maioria se tratar de assuntos metafísicos (que, na verdade, não estamos tão interessados em tratar). Mas, sabemos o que não pode ser e podemos ajudar a desmistificar alguns desses absurdos.

Apenas a titulo de informação, uma medida recente tomada pela ANVISA foi proibir a comercialização de 9 nove medicamentos fitoterápicos. Nas bulas e caixas dos remédios deste tipo que ainda não foram comprovados experimentalmente vem um aviso: “PRODUTO EM ESTUDO PARA AVALIAÇÃO CIENTÍFICA DAS INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS E DA TOXIDADE. O USO DESTE PRODUTO ESTÁ BASEADO EM INDICAÇÕES TRADICIONAIS”.

A consequência dessas práticas é que o povo, em sua esmagadora maioria, leigo no assunto, compra as idéias (e os produtos gerados dessas) e solidifica esses conceitos na cabeça. Isso é inevitável, uma vez que o ser humano é curioso e ávido por explicações. Daí, quando alguém com formação e experiência comprovadas no assunto tenta dizer o contrário explicando os conceitos da forma correta, já é tarde, pois ninguém mais acredita (vivi e convivi com essas experiências). Nossa sociedade está alheia à natureza à sua volta e à toda a tecnologia que está em seus bolsos e lares.

No meu ponto de vista, a culpa desses desentendimentos não é da sociedade (leiga). A má fé de alguns grupos de empresários que se aproveitam da ignorância para “fazer” dinheiro (às vezes até inconscientemente) contribui para essa alienação, mas acredito que grande parte dessa responsabilidade é dos profissionais que de certa forma detêm esses conhecimentos, ou seja, NÓS.

De que forma será que podemos contribuir para transformar essa realidade? Publicando artigos em revistas de reduzido acesso? Mantendo as informações sobre nossas pesquisas nos grupos de trabalho dos quais fazemos parte? Endosso a importância dessas atividades no meio científico, mas, de alguma maneira, precisamos deixar isso “vazar” de nossos nichos, dar acesso a todos. Como? Procurando e se deixando encontrar nos meios de comunicação vigentes. Mandar cartas aos editores das colunas científicas dos jornais, entrar em contato com jornalistas para dar entrevistas (deu certo com nosso grupo), fazer palestras para qualquer audiência (de qualquer idade) em locais públicos ou de fácil acesso e divulgação, etc. Enfim, correr atrás de retornar para a sociedade tudo aquilo que adquirimos com nosso tempo de experiência é parte de nosso dever.

Vamos lá, façamos nossa parte!

Atenciosamente,

Daniel Neves Micha
Professor do curso de licenciatura em física do CEFET/RJ Campus Petrópolis
Doutorando em física pela UFRJ
Integrante do INCT de Nanodispositivos Semicondutores (DISSE)

http://www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg239.htm

Agradecimentos ao Flávio Augusto José (Flávio Buzina), membro da nossa lista de discussão, por nos ter enviado, em primeira mão, esse artigo.

Religião, desenvolvimento social, econômico e político

Talvez uma das grandes dúvidas e assuntos mal pesquisados (tanto por carência de recursos como por convencimento próprio) é se a religião é necessária para um desenvolvimento social e econômico de um país. Ficava me perguntando se a presença do estado laico se justifica para o bem da sociedade. Isso é: a sociedade laica é melhor ou pior para o desenvolvimento e bem-estar das pessoas que vivem nela? Ou neutra? Talvez a principal razão para o advento da separação entre igreja e estado fosse justamente o aumento das desigualdades, abuso de poder, incompetência administrativa e, principalmente, corrupção, como foi visto durante a Revolução Francesa. Porém, mesmo após a destituição (e decapitação) do Rei Luís XVI (e parte de seu clero), promulgado um estado francês laico e iniciada a República, houve fatos de grande terror e reveses. Em exemplo temos a fase da República Jacobina, a qual iniciou a fase do “Terror Jacobino” que resultou em perseguições, execuções, censura e permitiu a ascensão, em parte, de Napoleão Bonaparte ao poder (e o resto é história). Isso é somente um exemplo de um fato que ocorreu ainda no século XVIII. Mas e nos dias atuais do século XXI?

Figura 1. Porcentagem da população mundial em relação às suas respectivas crenças religiosas

Primeiramente, não vou comentar se escrituras sagradas levam a um determinado tipo de comportamento, se é ético ou não (isso será em outro post). Vou me abster somente à análise de estatísticas em relação às sociedades: se a sociedade é mais estável, não somente no campo social (violência, equilíbrio social, renda per-capita, etc), mas no econômico (estabilidade e desenvolvimento econômico) e político (democracias plenas, ditaduras, etc.).

A primeira pergunta é: quantas pessoas acreditam numa determinada religião? Temos em mente que no mundo há por volta de 6 bilhões de pessoas. E 78% são crentes de alguma religião (me permitam retirar o Budismo como religião, pois Buda não é um Deus, mas somente uma filosofia) (de acordo com a Adherents, uma espécie de IBGE sobre a religião no mundo). Então temos que por volta de 4,6 bilhões de pessoas acreditam em alguma religião (Figura 1).

Porém isso nos ressalta outra pergunta: onde se localizam essas pessoas? De acordo com o Gallup (outra espécie de IBGE dos EUA que também faz pesquisas pelo mundo), praticamente todos os países subdesenvolvidos (Américas Central e Sul, África e sudeste da Ásia) possuem altos índices da presença da religião no Estado (figura 2)

Figura 2. Importância da religião em diversos países. Quanto mais próximo do vermelho escuro, maior a presença da religião na sociedade. Quanto mais próximo do vermelho claro, menor a presença.

Mas outra pergunta surge: mesmo em países violentos de grande presença religiosa há melhor estabilidade social? Isso é, justifica-se um país de alto índice de religião utilizar-se da violência e repressão como arma para uma melhor estabilidade social, como igualdade entre classes?

A resposta é não.

Novamente, de acordo com o Gallup, um alto índice de religião está baseado em uma menor renda per-capita (figura 4) e piores índices de bem-estar social e estabilidade econômica (figuras 5 e 6).

Figura 4. Importância da religião no cotidiano da vida dos entrevistados em relação às suas rendas per-capitas

Figura 5. Relação entre bem-estar e Estados falidos entre diversos países

Figura 6. Relação entre estabilidade econômica e ausência de violência em relação ao bem-estar proporcionado em diferentes países

Então podemos ligar a presença da religião da sociedade como indicador de pobreza mundial?

E a resposta é sim (tabela 1). Quanto mais pobre o país, mais importante a religião na vida do indivíduo. Quanto mais desenvolvido o país, menos importante é a religião para sua vida. Para uma lista completa da presençaa religião por país, clique aqui

Tabela 1. Importância da religião na vida cotidiana de pessoas pesquisadas nos países mais subdesenvolvidos (esquerda) em relação aos mais desenvolvidos (direita)

Porém, observamos que existem exceções (como os EUA: altos índices de desenvolvimento social e altos índices da religião, ou a Rússia: baixos índices de religião e baixo índice de democracia). Se há algumas contradições, devemos então nos submeter a um rigor mais científico para provar a verdade. Em um artigo de 2005, Gregory Paul, da Universidade de Baltimore, mostrou que quanto mais secular a sociedade menor o índice de disfunção social. Ele levou em conta diversos parâmetros, desde a taxa de suicídios até a porcentagem de contaminação por gonorréia em jovens. Apesar do estudo ser baseado exclusivamente em países desenvolvidos (exceto Portugal), nos dá uma noção do que seria para os países subdesenvolvidos (Figuras 7) baseando-se nos gráficos aqui demonstrados (coloquei somente alguns gráficos mais importantes desse artigo, o restante poderá ser encontrado no artigo em si).

Legendas: A = Austrália; C = Canadá; D = Dinamarca; E = Grã Bretanha; F = França; G = Alemanha; H = Holanda; I = Irlanda; J = Japão; L = Suíça; N = Noruega; P = Portugal; R = Áustria; S = Espanha; T = Itália; U = Estados Unidos da América; W = Suécia; Z = Nova Zelândia.

Expectativa de vida como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Taxa de suicídio entre 15-24 por 100.000 pessoas como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Taxa de homicídios por 100.000 pessoas como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Taxa de mortalidade abaixo dos 5 anos de idade por 100.000 nascimentos como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Relação entre nascimentos e gravidez em jovens de 15-17 anos como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Relação entre a ocorrência de gonorréia em jovens de 15-19 anos por 100.000 pessoas como função de taxas percentuais entre crentes praticantes e não praticantes e ateístas

Em conclusão: a religião é necessária para o desenvolvimento social, econômico e político?

A resposta é não. A religião pode ter sido necessária para a união de pessoas (e sociedades) de mesma crença, formando nações e perpetuando suas idéias ao longo de tempos pré-democracia. Porém, à medida que se avança rumo à uma sociedade mais democratizada e secular, com maiores índices educacionais, econômicos e sociais, a religião passa a ser supérflua. Isso é, a sociedade pode se desenvolver plenamente sem a presença da religião (em contrário àqueles países de alta presença), logo, de um Deus. Podemos ser mal agradecidos ou não à religião (ou à Deus), porém, aparentemente serviu apenas como meio de integração social, mas não como instituição ética e moral para a melhoria (e manutenção) de uma sociedade voltada ao bem-estar de seu povo. Aqui, pelos dados, se vê que o bem-estar social (e do indivíduo) é melhor proporcionado quanto menor a presença da religião.