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O Atraso das Ciências Humanas no Brasil – Pós-Modernismo

Parte final de uma série de três.

Pós-Modernismo

Alan Sokal é sem dúvida um dos meus grandes ídolos. Um físico, em 1996 ele submeteu para publicação na revista de estudos sociais e culturais ‘Social Text’ um artigo intitulado ‘Transgredindo as Fronteiras: Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa da Gravitação Quântica’. Nele, Sokal faz todo tipo de afirmação absurda em uma prosa vaga e repleta de citações sem sentido mas autênticas sobre matemática e física proferidas por filósofos e cientistas sociais pós-modernos. As especulações psicanalíticas de Lacan são ‘confirmadas’ por descobertas recentes da física-matemática; a crítica feminista de Irigaray ‘impulsionou’ descobertas importantes nas teorias das supercordas e da gravitação quântica. Os erros de matemática e física são crassos e as analogias e metáforas descaradamente forçadas. Surpreendentemente, o artigo foi aceito para publicação. Para o embaraço dos editores, Sokal revelou logo depois que tudo não passara de uma paródia.

No excelente livro ‘Imposturas Intelectuais’, que deveria ser leitura obrigatória para todo estudante de primeiro ano de ciências humanas no Brasil, Sokal e Bricmont tecem a mais profunda e completa crítica que conheço ao pós-modernismo. Não cabe aqui repetir essa crítica; compre o livro e leia!

O que acho interessante comentar é que essa mediocridade intelectual que é o pós-modernismo não teve um impacto tão grande nos USA ou no UK mas infelizmente caiu como uma luva nos departamentos de humanas no Brasil. Assim como acontece com a psicanálise, é praticamente impossível cursar sociais e humanas no país e não se deparar com Deleuze, Guattari, Baudrillard, Derrida, Latour ou com jargões e máximas pós-modernas como ‘problematização’, ‘a realidade é uma construção social’ e ‘toda verdade é relativa’.

Qual o motivo das humanas no Brasil terem sucumbido tão facilmente a esse mal? Para mim a resposta está no incrível despreparo das mesmas em raciocínio formal e matemática.

Fora do Brasil, no Canadá, USA e UK, estou acostumado a encontrar filósofos, psicólogos e lingüistas perfeitamente versados em álgebra linear, cálculo e equações diferenciais, vocabulário básico de qualquer ciência. No entanto aqui no Brasil a simples menção de uma equação entre cientistas sociais já causa temor e espanto. Quando muito, esses departamentos oferecem cursos básicos de estatística. Básicos demais, esses cursos geralmente duram um semestre apenas e consistem na simples memorização das condições nas quais usar um ou outro teste de hipóteses estatístico.

Acho que esse despreparo matemático também ajuda a explicar porque é muito comum encontrar teorias ultrapassadas circulando fantasmagoricamente  pelas humanas. Departamentos de educação ainda contam com Piaget e Vygotsky para descrever o desenvolvimento do pensamento e aprendizagem; antropólogos, psicólogos e sociólogos ainda esperam encontrar em Foucault explicações profundas sobre doenças mentais, sexualidade e relações humanas. No melhor dos casos, esses e outros pensadores tiveram seu valor em sua época, quase que exclusivamente na condição de filósofos e teóricos pré-científicos, mas suas teorias desde então falharam em obter comprovação experimental ou foram simplesmente ultrapassadas. Teorias modernas sobre o comportamento, com forte componente biológico, ênfase em modelos matemáticos e computacionais e análises estatísticas sofisticadas, são talvez demasiado complicadas para quem não tem o mínimo de treino em matemática.

Conclusão

Psicanálise, pós-modernismo e teorias pré-científicas ultrapassadas predominam nos departamentos de humanas e sociais brasileiros e são, na minha opinião, sintomas de um problema mais sério: o total despreparo das últimas em raciocínio formal e matemático. Esse despreparo constitui o real entrave para o desenvolvimento destas ciências. Se você está lendo isso e é estudante de humanas, ainda há tempo de fazer algo a respeito: matricule-se em disciplinas do primeiro ano dos cursos de matemática e física de sua universidade.

A distinção feita entre ciências humanas, sociais e exatas além de arbitrária é enganosa, levando muita gente a pensar que são ciências diferentes com métodos diferentes. A ciência, ao contrário, é uma só e sua linguagem é a matemática.