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O Atraso das Ciências Humanas no Brasil

O estudante de graduação em ciências humanas no Brasil percebe logo de cara que está em uma situação muito diferente de seus colegas nas exatas. As aulas são ministradas de maneira nada convencional — através de filmes, debates e dinâmicas, muitas dinâmicas. Os métodos de avaliação variam desde provas e trabalhos em grupo à participação em debates sobre a biografia do Cazuza. Os critérios de avaliação são  subjetivos e produzem notas quase sempre espetaculares. Caso o estudante decida continuar e fazer pós-graduação nas humanas ele muito provavelmente vai se deparar com grupos de pesquisa com descrições enigmáticas como essa:

projeto de pesquisa-intervenção do processo de produção de subjetividade nas instituições escolares que ocorrem através de seus agenciamentos (maquínicos e coletivos de enunciação). Para isso, são investigados os códigos que ali se produzem e as territorialidades nas quais se constituem, identificados e descritos os acoplamentos dos conjuntos de relações materiais (agenciamento maquínico ou conteúdo) e dos regimes de signos correspondentes (agenciamento coletivo de enunciação ou expressão). Na investigação dos agenciamentos, códigos e territorialidades são utilizados os dispositivos de pesquisa da Etnografia Educacional, tais como: observação participante, entrevistas de profundidade (individual e de grupo focal) e análise documental. A estes dispositivos se acrescenta o role-playing , resgatado em seu sentido de produção de Realidade Suplementar , proveniente do Sociodrama Educacional. Compondo com o pólo de desterritorialização , que caracteriza todo agenciamento , busca-se ainda, a nível de intervenção, promover dispositivos grupais alternativos que possibilitem a aparição do novo (da descodificação e desterritorização , das linhas de fuga ), na forma, por exemplo, do Devir-Mestre e do Devir-Criança , além do desenvolvimento de ambientes lúdicos de aprendizagem que decorrem deste último. Neste sentido, a produção de Realidade Suplementar desempenha papel fundamental, tanto quanto o dispositivo grupal sociodramático (que também serve de referência para as reconstituições da entrevista de grupo focal supracitada). Desta forma, se busca produzir uma colagem de três referenciais teóricos: a Esquizoanálise, de Deleuze e Guattari; o Sociodrama, de Moreno; e a Etnografia Educacional.

Não são só os cursos de humanas que diferem radicalmente dos de exatas mas a qualidade da produção científica também. A tabela abaixo mostra o índice h brasileiro comparado com o americano e britânico.

área porcentagem do índice h americano porcentagem do índice h britânico
ciências sociais 15.59% 28.16%
psicologia 14.80% 26.62%
matemática 25.94% 47.33%
física e astronomia 26.52% 45.80%
química 22.88% 39.73%
ciências biológicas e da agricultura 25.83% 36.75%

O índice h da psicologia no Brasil é apenas 14.8% do valor do índice h da psicologia americana e o das ciências sociais brasileiras 15.6% o do americano. Já a matemática brasileira tem 25.9% do índice da matemática americana e a física e astronomia brasileiras 26.5%, quase o dobro das suas colegas nas humanas. E isso apesar do fato da matemática contar com apenas 46 programas de pós-graduação no Brasil enquanto que a psicologia tem 64. Já as ciências sociais tem mais de 421 programas de pós e pelo menos 7340 docentes (os valores são aproximados já que a CAPES não usa a mesma categoria que o SJR; eu incluí apenas os cursos mais óbvios como antropologia, educação, sociologia, arqueologia, etc, e portanto os valores reais com certeza são maiores) enquanto que a física e astronomia só possuem 56 programas e 1340 docentes.

Qual a razão pro atraso das ciências humanas brasileiras? Nos próximos posts eu ofereço a minha resposta.