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O Atraso das Ciências Humanas no Brasil – Psicanálise

Sigmund Freud, founder of psychoanalysis, smok...

Image via Wikipedia

Dando continuidade ao post da semana passada, aqui vai a primeira parte da minha resposta.

Psicanálise

Particularmente popular entre psicólogos, a psicanálise também pode ser encontrada em várias outras ciências sociais tanto na versão original quanto nos sabores Jung, Melanie Klein, Lacan, Erich Fromm e muitos outros. Criada exclusivamente por Sigmund Freud, a psicanálise começou como uma teoria promissora que eventualmente explicaria os transtornos mentais com base em certos traumas experienciados durante a infância. Porém logo de cara Freud resolveu tomar o caminho pseudocientífico. Quando ficou evidente que muitos casos de histeria não eram precedidos de abusos sexuais na infância, ele decidiu que o importante não era a existência real do abuso e sim de fantasias de natureza sexual pelo paciente. Dessa forma, o que antes era passível de verificação (ou o paciente foi abusado ou não) agora tinha se tornado, nas palavras de Karl Popper, não-falsificável (o paciente pode ou não ter fantasiado mas não tem como ter certeza, a interpretação do psicanalista é o que conta). Baseado não em evidências experimentais mas simplesmente na observação de um punhado de pacientes, Freud postulou todo um universo psíquico habitado por entidades bizarras (ego, superego, id) e regido por supostos mecanismos de defesa (repressão, sublimação, negação, etc). Tanto Freud quanto seus seguidores passaram a explicar não só transtornos mentais mas também o desenvolvimento, pensamento e emoções normais. Tudo é definido de maneira convenientemente vaga e as conclusões sempre impossíveis de serem falsificadas. Tome por exemplo o complexo de Édipo, a teoria de que todo menino passa por uma fase onde ele fantasia poder matar o pai e pegar a mãe e que, de acordo com Freud, é um dos marcos mais importantes do desenvolvimento mental masculino. Quando pressionados por evidências, psicanalistas citam exemplos do comportamento de um ou outro menino nessa idade que, segundo eles, bastaria pra demonstrar a validade de tal complexo. Mas isso não passa de evidência anedota; é necessário um experimento investigando, por exemplo, se há diferenças significativas entre as freqüências de comportamentos agressivos direcionados ao pai e a mãe. Frente a tal proposta psicanalistas imediatamente sacudiriam a cabeça em reprovação: a criança pode reprimir seus desejos de assassinar o pai, o que impediria qualquer comportamento agressivo de se manifestar. Argumentos similares são empregados para desqualificar toda e qualquer tentativa de testar a psicanálise cientificamente. Cada conceito psicanalítico se apóia em outro conceito psicanalítico e assim por diante até chegar a um ou outro postulado cuja verdade não há como verificar — devem ser aceitos puramente pela fé no profeta Freud.

A psicanálise pode ter falhado como teoria científica da mente humana mas e quanto a psicanálise como terapia? Essa sim é passível de verificação e muitos experimentos já foram realizados. Até hoje não foram encontradas evidências sólidas de que ela é mais eficaz que outras terapias. De fato, existem evidências de que, com a possível exceção de intervenções cognitivo-comportamentais em fobias, todas as terapias faladas (talk therapies) produzem praticamente o mesmo efeito e que esse efeito se assemelha em muito ao efeito placebo.

Recentemente alguns neurocientistas vêm tentando dar origem a um movimento neopsicanalítico, dessa vez com a intenção de validar alguns conceitos freudianos através da neurociência. Ao meu ver, essa é uma promessa enganosa. Como vimos, conceitos freudianos foram definidos de maneira a ser não-falsificáveis. Contudo, é possível redefinir alguns deles para que se tornem falsificáveis. Por exemplo, repressão pode ser definida simplesmente como o processo pelo qual  o cérebro elimina memórias de conteúdo emocionalmente negativo, o que até encontra certa evidência em alguns estudos. No entanto esse novo conceito de repressão é apenas uma vaga lembrança do mecanismo de defesa freudiano pelo qual fantasias carregadas de conteúdo sexual são retiradas do consciente e aprisionadas no inconsciente onde permanecem até retornar ao consciente como sintomas neuróticos, atos falhos e sonhos. Portanto, se algo da psicanálise for validado cientificamente será em uma versão tão diferente da original quanto a teoria atômica atual difere do atomismo grego.

O sucesso da psicanálise nos cursos de humanas no Brasil esconde ainda uma grande ironia. Sociólogos, antropólogos e psicólogos frequentemente nos lembram, quase sempre com razão, o quanto nossa sociedade é preconceituosa e machista. No entanto, na medida em que os mesmos defendem as idéias pseudocientíficas de um austríaco que viveu 100 anos atrás, eles acabam dando seu próprio apoio aos vários machismos e preconceitos vitorianos contidos na psicanálise. Ou será que ‘inveja do pênis’ é realmente parte da condição feminina?

Conclusão

Como teoria da mente humana a psicanálise não passa de pseudociência. Como psicoterapia não é possível afirmar que ela seja mais eficaz que as outras psicoterapias existentes e há evidências que seus efeitos não passam de placebo. O que as ciências humanas precisam é de uma base experimental sólida e de um raciocínio baseado em evidências, e não de teorias pseudocientíficas ou de gurus com pretensões proféticas.

Em breve: outra razão pro atraso das ciências humanas no Brasil. Enquanto isso, gostaria de ouvir comentários dos estudantes e professores de humanas. Como é a situação onde você estuda/leciona? Que tipo de problemas encontra? Quais são os mal-entendidos mais comuns?

Update 28/01/2011: Esqueci de incluir uma referência ao novo livro do Michel Onfray onde ele critica Freud e a psicanálise. Infelizmente minha ignorância da língua francesa me impede de lê-lo. Mas já li e recomendo o clássico da desmistificação freudiana ‘The decline and fall of the Freudian empire‘ do Hans Eysenck.

Update 26/04/2011: O psiquiatra e pesquisador de Harvard J. Allan Hobson acaba de publicar um livro autobiográfico sobre suas pesquisas sobre os sonhos. Para aqueles que esperam deferência à psicanálise Hobson tem isso a dizer:

A teoria psicanalítica é popular porque é fácil de entender, mas eu considero ela errada. Eu não acho que sonhos são causados pela expressão de desejos infantis reprimidos. Não há nada científico na psicanálise, não há nada científico em Sigmund Freud. Ele não fez nenhum experimento, ele não fez nenhuma observação direta, ele nunca usou controles. O cara não estava nem aí.

Centro Espírita Disfarçado de Grupo de Pesquisa na Universidade Federal de Juiz de Fora

Update 15/10/2012: Dois anos depois e este post continua a atrair comentários. Sempre penso em escrever outro post com uma réplica detalhada dos pontos principais que surgiram nos comentários mas vida de estudante de PhD não é fácil. Nesses dois anos descobri que existe todo um movimento ou comunidade ao qual o NUPES faz parte dedicado a demonstrar de maneira supostamente cientifica a existência de vida após a morte/alma/espírito. Filosoficamente, os participantes desse movimento fundamentam-se em uma ou outra versão da corrente praticamente extinta chamada dualismo de substância, o qual prega a existência de duas substâncias fundamentais: uma material e outra não-material. Seus proponentes buscam evidências da imortalidade da consciência em eventos anômalos como os relatos de pessoas que passaram por experiências de quase-morte. E não é por acaso: a área da consciência é de longe a mais mal definida e subdesenvolvida das divisões da neurociência, ou seja, campo fértil para todo tipo de especulação sem sentido.

Sobre o dualismo deixo esse vídeo em duas partes do QualiaSoup que faz um excelente trabalho de divulgação filosófico-científica. Sobre a comunidade interessada em vida após a morte indico essas duas análises críticas de um artigo recente da Newsweek: uma por Sam Harris e outra por Steven Novella. Essa crítica do livro de Eben Alexander, Proof of Heaven: A Neurosurgeon’s Journey into the Afterlife, também por Sam Harris é altamente recomendada.

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Nesta segunda-feira, 25 de outubro, o Programa de Pós-Graduação em Saúde na Comunidade da USP-RP promove a seguinte palestra:

“A contribuição das pesquisas sobre experiências espirituais para o aprimoramento do diagnóstico psiquiátrico e da relação mente-cérebro”

PALESTRANTE: Prof. Dr. Alexander Moreira de Almeida

– Professor Adjunto de Psiquiatria e Semiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF

– Diretor do NUPES – Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da UFJF

Uma das táticas mais comuns de charlatões e pseudocientistas é encobrir seus devaneios com jargões pseudocientíficos na tentativa de ganhar credibilidade e até financiamento público. No caso do NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) na Universidade Federal de Juiz de Fora nem foi preciso um esforço muito grande. Bastou usar a palavra “espiritualidade” ao invés de espiritismo e voilá, não se trata mais de um centro espírita financiado pelo contribuinte mas sim de um grupo de pesquisa que

tem como missão desenvolver pesquisas interdisciplinares de excelência sobre as relações entre espiritualidade e saúde.

Apesar do jogo de palavras, está claro que este não se trata de um grupo de pesquisa de verdade que estuda a religião como um fenômeno natural, um objetivo que seria perfeitamente válido. A lista de publicações entrega o jogo. A maioria publicada na Revista de Psiquiatria Clínica da USP, consistem simplesmente de levantamentos de bibliografia espírita e de análises qualitativas completamente enviesadas.

Tome por exemplo o resumo abaixo de uma das publicações do palestrante e coordenador do NUPES, Dr. Alexander Moreira de Almeida (que também faz parte do conselho deliberativo do hospital espírita joão evangelista) intitulada O diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos mentais de conteúdo religioso

CONTEXTO: Experiências espirituais podem ser confundidas com sintomas psicóticos e dissociativos, constituindo-se muitas vezes em um desafio para o diagnóstico diferencial.
OBJETIVO: Identificar critérios que permitam a elaboração de um diagnóstico diferencial entre experiências espirituais e transtornos psicóticos e dissociativos.
MÉTODOS:Foi feita uma ampla revisão na literatura sobre o tema, na qual foram examinados 135 artigos identificados em pesquisa no PubMed.
RESULTADOS:Foram identificados nove critérios de maior concordância entre os pesquisadores que poderiam indicar uma adequada diferenciação entre experiências espirituais e transtornos psicóticos e dissociativos. São eles, em relação à experiência vivida: ausência de sofrimento psicológico, ausência de prejuízos sociais e ocupacionais, duração curta da experiência, atitude crítica (ter dúvidas sobre a realidade objetiva da vivência), compatibilidade com o grupo cultural ou religioso do paciente, ausência de comorbidades, controle sobre a experiência, crescimento pessoal ao longo do tempo e uma atitude de ajuda aos outros. A presença dessas condições sugere uma experiência espiritual não patológica, mas, por outro lado, há carência de estudos bem controlados testando esses critérios.
CONCLUSÕES:Esses critérios propostos na literatura, embora alcançando um consenso expressivo entre diferentes pesquisadores, ainda precisam ser testados empiricamente e direções metodológicas para as futuras pesquisas sobre esse tema são sugeridas.
Palavras-chave: Alucinação, dissociação, possessão, transe.

Sem apresentar qualquer prova de que as ditas experiências espirituais realmente existem, o artigo consiste de citação após citação de uma literatura ultrapassada e/ou pseudocientífica de onde os autores extraem nove critérios que (não ria, eles estão falando sério) servem para diferenciar se uma pessoa está psicótica ou simplesmente possuída.

Em uma outra publicação, os autores vão ainda mais além e afirmam, novamente sem nenhuma base científica, que médiums e curandeiros espíritas em Puerto Rico e Brasil

often achieve positive results with persons manifesting psychotic symptoms or diagnosed with schizophrenia in that symptoms become less frequent and/or social adjustment improves. (em português: frequentemente obtem resultados positivos em pessoas manifestando sintomas psicóticos ou diagnosticados com esquizofrenia em que os sintomas se tornam menos frequentes e/ou o ajustamento social melhora.)

Em pesquisas verdadeiramente científicas tal conclusão só é tirada após um ou mais estudos onde os pacientes são cuidadosamente selecionados por apresentarem sintomas específicos e onde qualquer outra variável que possa influenciar os resultados (idade, sexo, renda, etc) é controlada. Os pacientes são então divididos (sem saber) em grupos, um experimental, onde a intervenção clínica que se deseja estudar é administrada, e um ou mais grupos controle, onde outras intervenções (ou mesmo apenas uma entrevista ou outra atividade que não seja uma intervenção clínica) são administradas. Os pacientes são então avaliados (geralmente por outros médicos que não sabem à qual grupo cada paciente pertence) seguindo critérios específicos e quantificáveis como por exemplo duração e frequência de surtos, etc, e os resultados são analisados estatisticamente para verificar se há diferenças significativas entre os tratamentos.

Nada disso foi feito no trabalho acima. Os autores basearam suas conclusões simplesmente em entrevistas com os médiuns e seus pacientes. O único “controle” feito foi comparar casos semelhantes tratados por medicina convencional que foram discutidos em conferências de medicina espírita. Em resumo, a conclusão do artigo é simplesmente inválida.

O NUPES parece ser a reencarnação de um outro grupo aparentemente extinto chamado Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo e que também foi coordenado por Alexander Moreira de Almeida (citado e apropriadamente desbancado aqui por José Colucci Jr.). Pelo menos um outro grupo similar existe na faculdade de medicina da UFMG.

Religião camuflada de pseudociência não é apenas um alvo fácil de piada. Na medida em que consegue passar por ciência e ganhar a credibilidade de uma universidade as consequências podem ser bem sérias. Pacientes com transtornos psicológicos podem estar sendo incorretamente diagnosticados, com consequências graves tanto para si mesmos quanto para seus amigos e familiares. Mesmo sintomas leves podem custar ao paciente seu emprego e causar grande sofrimento familiar se não forem corretamente identificados e tratados. Outro risco, ainda mais grave, é do terapeuta espírita desencorajar o paciente a seguir recomendações médicas verdadeiras.

As atividades do NUPES e de seus similares não são científicas e portanto os mesmos não podem ser considerados grupos de pesquisa e não deveriam ser parte de universidades de verdade e muito menos receber financiamento público. Suas táticas estão claras: disfarçar suas crenças religiosas com uma linguagem pseudocientífica e assim ganhar credibilidade e usufruir do dinheiro do contribuinte.